Literatura

Clarice Lispector: Um Kafka tropical

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“Escrevo sem a esperança de que nada do que escrevo pode transformar nada em absoluto”. (Clarice Lispector)

Por Jairo Máximo

Madri – Espanha – (Blog do Pícaro) – Penetrar no enigmático mundo literário da bela e misteriosa escritora brasileira de ascendência hebrea Clarice Lispector é encontrar um espelho pulcro onde somos refletidos sem retoques.

“Sou uma convidada da literatura”, dizia ela.

Clarice Lispector é a mais importante escritora do Brasil, e uma das mais originais do século 20. É comparada com o irlandês James Joyce, com a inglesa Virginia Woolf e com o austro-húngaro Franz Kafka. Tem um estilo original e inconfundível. Sua obra é altamente viciadora. Simplesmente escreve o que vê, sente e pensa.

Para o mexicano Juan Rulfo, Lispector produziu a literatura mais vigorosa da América Latina. “Enfrentou os demônios interiores como quem lança um último sopro”.

“Pretendo ─como já disse─ escrever de uma maneira cada vez mais simples”, desejava Clarice Lispector.

Seus romances e contos foram traduzidos em mais de 30 idiomas, incluindo o hebraico, o tcheco, o croata, o búlgaro, o finlandês, o turco e o coreano.

Curiosamente, diversas datas e vivências sobre sua atribulada vida pessoal ou estão incorporadas na sua obra literária ou são contraditórias. “Sou tão misteriosa que nem eu mesma me entendo. Porém, não escondo nenhum mistério”, confessava.

No romance Água Viva escreve: “Muito não posso te contar. Não quero ser autobiográfica. Quero ser bio”. E no conto Onde estivestes de noite revela: “Digo o que tenho que dizer sem literatura”.

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PORMENOR DE UMA ESTRELA

Clarice Lispector nasceu no dia 10 de dezembro de 1920 na pequena cidade de Tchetchelnik, na Ucrânia, por coincidência, enquanto seus pais, judeus russos, encontravam-se de caminho à emigração fugindo do pogrom ─movimento organizado visando o extermínio de certas coletividades em especial dos judeus─ que assolava as cidades russas.

Seu nome de batismo era Haia Pinkhasovna Lispector, mas adotou Clarice Lispector e se naturalizou brasileira.

Recém-nascida atravessou o oceano Atlântico com sua família que desembarcou no Recife, nordeste do Brasil, onde estabeleceram residência. No início dos anos 30 mudou-se para o Rio de Janeiro, que naquela época era a capital do Brasil. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, na cidade maravilhosa, vítima de um câncer de ovário.

“Eu sai do Recife, mas o Recife não saiu de mim”, constatava. “Abandonar o Brasil é um assunto muito sério. Eu pertenço ao Brasil”, afirmava.

Em 1943, quando estudava direito na faculdade, Clarice casou com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos e se separou em 1959. De alma viajante, entre 1944 e 1960, residiu em Milão, Nápoles, Berna, Paris, Londres e Washington.

Em 1944 publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que imediatamente foi elogiado pela crítica especializada, iniciando assim uma fértil carreira literária que não parou de crescer até seu falecimento. Em 1978 foi publicada postumamente a inquietante obra Um Sopro de Vida.

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Desde 1941, até seu último sopro de vida, Clarice Lispector colaborou com a imprensa brasileira. Em 1984 foi lançado no Brasil o livro A Descoberta do Mundo, uma coletânea de 468 crônicas publicadas aos sábados no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973.

“SEM ESTILO”

Difícil de ser classificada, Clarice definia seu estilo como um “sem estilo”. Pertenceu à terceira fase do modernismo brasileiro, a “geração de 45” que se preocupava com o apuro formal e foge a temas considerados banais.

“É que de repente o figurativo me fascinou: plasmo a ação humana e tremo”, explicava.

Conviveu com seus demônios que tentava derrotar quando escrevia textos afiados.

Em 1954 foi publicada na França a primeira tradução do primeiro romance de sua autoria, Perto do Coração Selvagem, com desenho de capa de Henri Matisse. Nos anos 70 as traduções ao inglês e ao francês de seus livros multiplicaram-se. Em seguida, nos anos 80, a editora Schoffing & Co. comprou os direitos autorais ao alemão e a editora Siruela ao espanhol. Em 1997, a Casa da América de Madri, programou um atrativo seminário dedicado à autora, que contou com a participação de Nádia Gotlib, biógrafa da escritora, que em 1995 publicou Clarice: Una Vida que se Conta, e que continua sendo a obra de referência sobre a escritora. Em 2008, Nádia Gotlib também publicou Clarice Fotobiografia, com 800 imagens de Clarice Lispector. O aclamado romance A Hora da Estrela (1977) publicado pouco antes de seu falecimento, virou um emotivo filme, Resultado de imagen de capa do livro Clarice Fotobiografiadirigido em 1985 pela cineasta Suzana Amaral. A Hora da Estrela narra a trágica historia de Macabéa, uma alagoana ingênua que migra para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor.

Atualmente por toda a geografia brasileira existem ruas e bibliotecas que se chamam Clarice Lispector, em homenagem a mais aclamada e traduzida escritora brasileira em décadas. Inclusive em São Paulo, a capital econômica brasileira, está o Centro de Referência Clarice Lispector, que acolhe e orienta as mulheres vítimas da violência machista.

ALMA LITERÁRIA

Em 2011, durante uma entrevista que realizei em Madri com o poeta, novelista e acadêmico brasileiro Lêdo Ivo, na mítica Residência de Estudantes, o espírito da escritora estava presente.

Quando perguntei ao poeta se era um homem feliz, ele respondeu: “Quando eu era jovem era amigo da escritora Clarice Lispector. Uma vez ela me mandou uma cartinha, quando eu ainda era jovem, que dizia assim: “Seja muito feliz. E faça versos”. Nunca pensei em ser muito feliz. Continuei fazendo versos. Talvez, como decorrência de fazer versos, eu sou feliz”.

Aproveitando o momento, informei ao poeta Lêdo Ivo (1924-2012) que sou testemunha de que nas bibliotecas públicas de Madri os livros de Clarice são cobiçados. Feliz, ele completou: “Nos Estados Unidos e no Reino Unido Clarice Lispector está se tornando um fenômeno como Franz Kafka (1883-1924). Um Kafka tropical. Luminoso. Quiçá vá ser a grande contribuição da literatura universal. Uma figura solitária, sofrida e misteriosa. Um mito. Admirável. Tenho saudades dela”.

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Coincidindo com os quarenta anos do falecimento de Clarice Lispector, a editora espanhola Siruela acaba de lançar a biografia Por qué este mundo, do norte-americano Benjamin Moser. Este livro foi publicado no Brasil em 1996 com o título Clarice,.

“Meu afã é que se aproximem a essa pessoa enigmática, distante, que é ao mesmo tempo, misteriosamente, um espelho de nós mesmos. Nesta biografia o leitor descobrirá um grande imprevisto: que a verdadeira sucessora de Kafka era uma colunista de moda nas praias do Rio de Janeiro” declarou Moser recentemente à imprensa espanhola.

FRAGMENTOS ESCOLHIDOS ADREDE

Entre os 26 livros ─romances, ensaios, crônicas, relatos de viagem─ que a escritora deixou como legado, eis dois fragmentos de dois deles que escolhi intencionalmente:

Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres (1969) relata a história de amor entre a professora de escola primária Lorelei (Lóri) e Ulisses, professor de Filosofia. Lorelei é uma personagem de uma lenda alemã que seduz e feitiça os pescadores. O relato começa com uma vírgula, como se fosse a continuação de um texto já começado; e termina com dois pontos; indicando que a historia continua, independente de que apareça no livro.

Resultado de imagen de capa de livros de Clarice LispectorUlisses falou:
—Bem tranquila, Lóri, vá bem tranquila. Mas cuidado. É melhor não falar, não me dizer. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.
—Por que é que você olha tão demoradamente cada pessoa?
Ela corou:
—Não sabia que você estava me observando. Não é por nada que olho: é que eu gosto de ver as pessoas sendo.
Então estranhou-se a si própria e isso parecia levá-la a uma vertigem. É que ela própria, por estranhar-se, estava sendo. Mesmo arriscando que Ulisses não percebesse, disse-lhe bem baixo:
—Estou sendo…
—Como? perguntou ele àquele sussurro de voz de Lóri.
—Nada, não importa.
—Importa sim. Quer fazer o favor de repetir?
Ela se tornou mais humilde, porque já perdera o estranho e encantado momento em que estivera sendo:
—Eu disse para você — Ulisses, estou sendo. Ele examinou-a e por um momento estranhou-a, aquele rosto familiar de mulher. Ele se estranhou, e entendeu Lóri: ele estava sendo. Ficaram calados como se os dois pela primeira vez se tivessem encontrado. Estavam sendo.
—Eu também, disse baixo Ulisses.
Ambos sabiam que esse era um grande passo dado na aprendizagem. E não havia perigo de gastar este sentimento com medo de perdê-lo, porque ser era infinito, de um infinito de ondas do mar. Eu estou sendo, dizia a árvore do jardim…”.

Água Viva (1973), catalogada como romance, também pode ser uma carta, uResultado de imagen de capa de livros de Clarice Lispectorm diário… Talvez tudo junto. “Um denso e fluído poema em prosa”, foi definido pela crítica especializada brasileira.

“Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou uma pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar e vejo as espessas espumas mais branca e que durante a noite as águas avançaram inquietas. Vejo isto pela marca que as ondas deixam na areia. Olho as amendoeiras da rua onde moro. Antes de dormir tomo conta do mundo e vejo se o céu da noite está estrelado e azul-marinho porque em certas noites em vez de negro o céu da noite está estrelado e azul-marinho intenso, cor que já pintei em vitral. Gosto de intensidades. Tomo conta do menino que tem nove anos de idade e que está vestido de trapos emagérrimo. Terá tuberculose, se é que já não a tem. No Jardim Botânico, então, fico exaurida. Tenho que tomar conta com o olhar de milhares de plantas e árvores e sobretudo da vitória-régia. Ela está lá. E eu a olho.

“Você há de me perguntar por que tomo conta do mundo. É que nasci incumbida”.•

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Literatura

Clarice Lispector: Un Kafka tropical

1523“Escribo sin la esperanza de que nada de lo que escribo pueda cambiar nada en absoluto”, Clarice Lispector.

Por Jairo Máximo

Madrid – España ─ (Blog do Pícaro) – Adentrarse en el enigmático mundo literario de la hermosa y misteriosa escritora brasileña de origen hebreo Clarice Lispector es encontrarse con un espejo reluciente donde nos reflejamos sin retoques.

“Soy una invitada de la literatura”, decía la autora.

Clarice Lispector es la más importante escritora de Brasil, y una de las más originales del siglo XX. Se la ha comparado con el irlandés James Joyce, con la británica Virginia Woolf y con el austrohúngaro Franz Kafka. Tiene un estilo original e inconfundible. Su obra es altamente adictiva. Simplemente escribe lo que ve, siente y piensa.

Para el mexicano Juan Rulfo, Lispector ha producido la literatura más vigorosa de América Latina. “Enfrentó los demonios interiores como quien lanza un último aliento”.

“Pretendo –como ya lo anuncié─ escribir de manera más y más sencilla”, deseaba Clarice Lispector.

Sus novelas y cuentos han sido traducidos a más de 30 idiomas. Curiosamente, diversas fechas y hechos sobre su vida personal o están incorporados en sus creaciones literarias o son contradictorios. Descíframe o devórate…

“Soy tan misteriosa que ni yo misma me entiendo…No obstante, no escondo ningún misterio”, confesaba.

“Mucho no puedo contarte. No voy a ser autobiográfica. Quiero ser “bio”, se sinceraba en la novela Agua Viva. “Digo lo que tengo que decir sin literatura”, revela en el relato Donde estuviste de noche.

PORMENOR DE UNA ESTRELLA

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Clarice Lispector nació el 10 de diciembre de 1920, en el pequeño pueblo de Tchetchelnik, Ucrania, de casualidad, mientras sus padres, judíos rusos, se hallaban de camino a la emigración huyendo de los pogromos ─saqueo y matanza de gente indefensa, especialmente judíos, llevados a cabo por una multitud─ que asolaba las provincias rusas.

Su nombre de pila era Haia Pinkhasovna Lispector, pero ella adoptó el de Clarice Lispector. En 1943 le concedieron la nacionalidad brasileña.

Con poco más de dos años de vida cruzó el océano Atlántico con su familia que se instaló en Recife, capital del Estado de Pernambuco, noroeste de Brasil. Al cumplir catorce años se trasladó a Río de Janeiro, por entonces capital de Brasil. Falleció el 9 de diciembre de 1977, en Río de Janeiro, víctima de un cáncer de ovarios.

“Yo marché de Recife, pero Recife no se ha marchado de mí”, aseguraba. “Para mi dejar Brasil es un asunto muy serio. Yo pertenezco a Brasil”, afirmaba.

En 1943, mientras cursaba sus estudios de derecho, se casó con el diplomático Maury Gurgel Valente, con quien tuvo dos hijos y se separó en 1959. De alma viajera, entre 1944 y 1960, vivió en Milán, Nápoles, Berna, Paris, Londres y Washington.Cerca-del-corazon-salvaje_Clarice-Lispector

En 1944 publicó su primer libro, Perto do Coração Selvagem  (Cerca del corazón salvaje), que al instante fue avalado profusamente por la crítica especializada, dando inicio así a una prolífica carrera literaria que desde entonces no paró de agrandarse. En 1978, fue publicada póstumamente la inquietante obra Un soplo de vida.

Desde 1941, hasta su último soplo de vida, Clarice Lispector mantuvo una constante colaboración con la prensa brasileña. En 1984 se publicó en Brasil Revelación de un Mundo, una recopilación de 468 crónicas publicadas en el diario Jornal do Brasil, donde Clarice escribió todos los sábados, entre 1967 y 1973.

CON “NO ESTILO”

De difícil clasificación, ella misma definía su estilo como un “no estilo”. Pertenece a la tercera fase del modernismo, el de la generación del 45 brasileña. “Es que de repente el figurativo me ha fascinado: plasmo la acción humana y tiemblo”, explicaba.

Convivió con sus demonios que trataba de derrotar cuando escribía textos afilados.51gR+fvPccL._SX341_BO1,204,203,200_

 Imagen relacionadaEn 1954 se publicó en Francia la traducción de su primera novela, Cerca del corazón salvaje, con portada de Henri Matisse. En los años setenta los títulos de su autoría traducidos al francés y al inglés se multiplicaron. Posteriormente, en los años ochenta, la editorial Schӧffling & Co. compró los derechos en alemán y Siruela hizo lo propio en español. En 1997, la Casa de América de Madrid programó un atractivo ciclo de conferencias dedicado a la autora, que contó con la participación de la brasileña Nádia Gotlib, biógrafa de la escritora, que en 1995 publicó Clarice: Una vida que se cuenta, que todavía continua siendo la obra de referencia sobre la escritora. En 2008, Gotlib también publicó Clarice Fotobiografia, con 800 imágenes de Clarice Lispector. Su celebrada novela La hora de la estrella (1977) fue publicada poco antes de su  fallecimiento y, en 1985, la cineasta brasileña Suzana Amaral hizo una primorosa adaptación cinematográfica de la misma.

Actualmente, 0738329041526_p0_v2_s550x406por toda la geografía brasileña hay calles y bibliotecas que llevan el nombre de la escritora brasileña más traducida y aclamada en décadas. Incluso en São Paulo, la capital económica de Brasil, está ubicado el Centro de Referencia Clarice Lispector, que acoge y orienta a mujeres víctimas de la violencia de género.

ALMA LITERARIA

En 2011, durante una entrevista que hice en Madrid con el poeta, novelista, ensayista, periodista  y académico brasileño Lêdo Ivo, en la mítica Residencia de Estudiantes, el espíritu de la escritora estaba presente.

Cuando pregunté al poeta si él era un hombre feliz, él me contestó: “Cuando yo era joven era amigo de Clarice Lispector. Una vez ella me ha enviado una cartita, cuando yo aún era joven, que decía así: Sea muy feliz. Y haga versos. Nunca he pensado en ser muy feliz. Continué haciendo versos. Quizá, como consecuencia de hacer versos, yo soy feliz”.

En seguida, informé a Lêdo lvo (1924-2012) de que era testigo de que en las bibliotecas públicas de Madrid los libros de Lispector son codiciados. Feliz, el poeta añadió: “En Estados Unidos y en el Reino Unido Clarice Lispector está convirtiéndose en un fenómeno como Franz Kafka (1883-1924). Un Kafka tropical. Luminoso. Quizá va ser la gran contribución de la literatura brasileña del siglo XX a la literatura universal. Una figura solitaria, sufrida y misteriosa. Un mito. Admirable. Tengo saudades de ella”.

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Coincidiendo con los cuarenta años del fallecimiento de Clarice Lispector, la editorial española Siruela acaba de publicar la biografía Por qué este mundo, del estadounidense Benjamin Moser. Este libro se publicó con el título Clarice, en Brasil en 1996.

“Mi afán es que  se aproximen a esa persona enigmática, lejana, que es al mismo tiempo, misteriosamente, un espejo de nosotros mismos. En esta biografía el lector descubrirá algo completamente imprevisto: que la verdadera sucesora de Kafka era una columnista de moda en las playas de Río de Janeiro”, declaró recientemente Moser a la prensa española.

FRAGMENTOS ADREDE  

Entre las 26 obras -novelas, ensayos, crónicas, relatos de viajes, cuentos infantiles- que la autora dejó como legado, he aquí fragmentos de dos novelas escogidas adrede.

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Aprendizaje o El libro de los placeres (1969), narra la historia de amor entre la profesora de primaria Lorelei (Lori) y Ulises, profesor de Filosofía. Lorelei es un personaje de una leyenda alemana que seduce y hechiza los pescadores. La narrativa empieza con una coma, como si fuera la continuación de algo ya iniciado; y termina con dos puntos; indicando que la historia continúa, independiente de que aparezca en el libro.

“Ulises habló:
-Bien tranquila, Lori, vete bien tranquila. Pero cuidado. Es mejor no hablar, no decirme nada. Hay un gran silencio dentro de mí. Y ese silencio ha sido la fuente de mis palabras. Y del silencio ha venido lo que es más precioso que todo: el propio silencio. ¿Por qué miras tan detenidamente a cada persona?
Ella se ruborizó:
-No sabía que me estabas observando. No miro por nada: me gusta ver a las personas siendo.
Entonces se extrañó a sí misma y eso parecía producirle vértigo. Es que ella misma, al extrañarse, estaba siendo. Aun arriesgándose a que Ulises no lo entendiera, le dijo bien bajo:
-Estoy siendo…
-¿Cómo? –preguntó él ante aquel susurro de voz de Lori.
-Nada, no importa.
-Importa, sí. ¿Quieres hacer el favor de repetir?
Ella se volvió más humilde, porque ya había perdido el extraño y encantado momento en que había estaba siendo:
-Te dije, Ulises, que estoy siendo.
Él la examinó y por un momento no la reconoció, aquel rostro familiar de mujer. Se desconoció, y entendió a Lori: él estaba siendo.
Se quedaron callados como si los dos se hubieran encontrado por primera vez. Estaban siendo.
-Yo también- dijo por lo bajo Ulises.
Ambos sabían que ése era un gran paso hacia el aprendizaje. Y no había peligro de gastar este sentimiento con miedo a perderlo, porque ser era infinito, tan infinito como las olas del mar. Estoy siendo, decía el árbol del jardín…”.

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Agua Viva (1973), catalogada como novela, también puede ser una carta, un diario. Tal vez todo junto. Fue definido por la crítica como “un denso y fluido poema en prosa”.

“Estoy cansada. Mi cansancio viene de que soy una persona extremamente ocupada, me ocupo del mundo. Todos los días observo desde la terraza el trozo de playa con mar y veo la espesa espuma más blanca y que durante la noche las aguas han alcanzado inquietas. Veo esto por la marca que las olas dejan en la arena. Observo los almendros de la calle donde vivo. Antes de dormir me ocupo del mundo y observo si el cielo de la noche está estrellado y azul marino porque algunas noches en vez de negro el cielo parece azul marino, un color que he pintado en un vitral. Me gustan las intensidades. Me ocupo del niño que tiene nueve años y que está cubierto de harapos y delgadísimo. Tendrá tuberculosis, si es que no la tiene ya. Y en Jardín Botánico me quedo agotada. Tengo que ocuparme de la mirada de millares de plantas y árboles y sobre todo de la victoria regia. Ella está allí y yo la miro”.

“Me preguntarás por qué me ocupo del mundo. Es que nací con ese encargo”. •

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“Cuando escribo estoy muerta”, decía Clarice Lispector.

Nota del autor: Artículo publicado en la ACPE

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Política

DANZAD, DANZAD, BANDERAS

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Banderas rojigualda encontradas en una céntrica calle madrileña. / Foto: Jairo Máximo

Por Jairo Máximo

MADRID – España ─ (Blog do Pícaro) – Desde la cuna conviví con la bandera de Brasil a la vista. Todo un símbolo nacional venerado por todos; sin distinción de clase social, ideología o religión. Crecí con ella armoniosamente. La encontraba en las dependencias públicas, casas particulares, tiendas, garitos, conciertos, eventos deportivos, festivos, manifestaciones políticas, etcétera. En la adolescencia descubrí que muchas chicas llevaban braguitas con esta insignia. Me gustaban las chicas, pero no la seña de identidad nacional plasmada en sus prendas íntimas. Nunca me ha gustado ningún símbolo nacional: bandera, himno, uniforme, etcétera.

Décadas después, cuando vine a vivir a España, a finales de los años ochenta del siglo pasado, me desconcertó comprobar el rechazo explícito que la mayoría de los españoles manifestaban por su bandera nacional. Más tarde supe que la rojigualda estuvo relacionada con la dictadura fascista de Francisco Franco (1939-1975) que se apoderó de esta insignia nacional. ¡Pobre bandera!

El tiempo pasó… Y la bandera española constitucional, redefinida como tal en 1981, continuaba visiblemente ausente. Pero en 2010 cuando la selección de fútbol de España ─la roja─ ganó la XIX edición de la Copa Mundial de Fútbol, disputada en Sudáfrica, me sorprendió la cantidad de banderas que los madrileños ondeaban por las calles Princesa y  Gran Vía durante el desfile en carroza descubierta con los futbolistas campeones originarios de diferentes comunidades del país.

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Una estelada al viento.

Años después, en 2014, encontré en Barcelona muchas banderas (estelada) colgadas en los balcones de la ciudad condal que me resultaron incomprensibles a primera vista. Al instante deduje que era una seña de identidad de los independentistas catalanes. “España nos roba”, era la consigna.

Posteriormente, en septiembre de 2017, cuando el Parlamento de Cataluña sin seny [sentido común] se saltó a la torera la legalidad y convocó un referéndum ilegal, que se llevó a cabo el día 01 de octubre, con el objetivo de validar una Declaración Unilateral de Independencia (DUI), empecé a ver bastantes banderas rojigualda en los balcones madrileños como símbolo de unidad, españolidad y patriotismo.

Llegado el 20 de octubre de 2017, durante la ceremonia de entrega de la XXXVII edición de los premios Princesa de Asturias, presididos por Su Majestad el Rey de España Felipe VI, en el teatro Campoamor de Oviedo, el presidente de la Comisión Europea (CE), Jean-Claude Juncker, durante su discurso en nombre de la premiada Unión Europea (UE), dijo: “Es la segunda vez que estoy en Oviedo, y tuve la ocasión de visitar la ciudad. Pero esta vez es un poco diferente. He visto banderas españolas por todas las calles y es una visión hermosa”.

Todo esto me trae a la memoria un empirismo. Poco antes de la muerte del periodista y ensayista español Eduardo Haro Tecglen (1924-2005), le pregunté el por qué un día había escrito: “No soy hombre de banderas, ni emblemas, ni marchas o uniformes, pero respeto a los que tienen”. Y él contestó: “¿Sabías qué toda guerra o conflicto social tiene como trasfondo la patria y la religión?”. Si, le contesté. Además, Oscar Wilde (1854-1900) ya escribió: “El patriotismo es la virtud de los sanguinarios”. •

Nota del autor: Artículo publicado en la Acpe

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Literatura

THOREAU: MANANCIAL DE IDEIAS

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Nem todos os homens sabem ser livres. (H. D. Thoreau)

Por Jairo Máximo

MADRI ―Espanha  ― (Blog do Pícaro) ― Este ano comemora-se o segundo centenário do nascimento do filósofo, escritor e poeta, Henry David Thoreau, que defendia o respeito à Vida, à Natureza e o direito de utilizar a desobediência civil ante os abusos do Estado.

Thoreau se autodefinia como “professor de escola, tutor particular, topógrafo, jardineiro, granjeiro, pintor (de paredes), carpinteiro, pedreiro, granjeiro, fabricante de lápis, fabricante de papel de lixa, escritor e poetastro”. No entanto, seu autêntico emprego foi “Inspetor de ventanias e dilúvios”, insistia.

“É necessário dizer: ame a verdade e escreva sinceramente”, dizia.

Henry David Thoreau (1817―1862, Concorde, Massachusetts, Estados Unidos) escreveu durante mais de duas décadas um diário contemplativo ―germe de sua frutífera obra – onde vertia suas ideias e visão de como viver em harmonia com a Natureza e a sociedade. Pensava que as ideias somente tinham sentido sob a condição de que tomassem corpo numa pratica eficaz e concreta.

“Elegi as letras como profissão”, escreveu Thoreau ao bibliotecário da Universidade de Harvard, em setembro de 1849. “A linguagem é a obra de arte mais perfeita do mundo. O cinzel de mil anos a retoca”, afirmava.

Foi seu amigo o escritor, filósofo e poeta, Ralph Waldo Emerson (1803-1882), quem lhe incentivou a escrever o diário. O resultado é um suculento experimento original, sem precedentes literários, publicado postumamente.

“Não busques expressões, busque ideias para expressar”.

“Não prefiro nenhuma religião ou filosofia por cima de outra. Não tenho nenhuma simpatia pelo fanatismo e a ignorância que fazem distinções transitórias, parciais ou supérfluas, entre a fé de outro, como cristão e pagão. Rezo para me ver liberto do pequeno olhar, da parcialidade, do exagero e do fanatismo. Para o sábio, todas as religiões, todos os países, são iguais. Amo a Brahma, Krishna, Buda e ao Grande Espírito tanto como a Deus”.

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FRUTÍFERO BOSQUE

Entrar no fantástico bosque ―literário, poético e filosófico― de Thoreau é encontrar um manancial luminoso de ideias. Sua sublime obra convida a levar uma vida filosófica no dia a dia, não a cinzelar conceitos para utilização exclusiva de bibliotecas.

“Assim é sempre a busca do saber. Os frutos celestiais, as maças douradas das Hespérides estão permanentemente escoltadas por um dragão de cem de cabeças que nunca dorme, e colhê-las é um trabalho hercúleo”, considerava.

Martin Luther King (1929-1968), Mahatma Gandhi (1869-1948) ou o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, deixaram-se influenciar por suas ideias. Gandhi o descobriu enquanto cumpria pena de prisão e o adotou como seu mestre. Luther King afirmou ter dado vida aos ensinamentos do filósofo nas atitudes que tomou contra a segregação racial dos afro-americanos.

Michel Granger, professor emérito de literatura americana do século XIX na Universidade de Lyon, especialista nos escritores do “Renascimento norte-americano”, em particular Nathaniel Hawthorne (1804-1864), Herman Melville (1819-18912) e Thoreau, considera que convém ter em mente que Thoreau é principalmente um homem de letras, enquanto que, nestes últimos anos lhe queiram outorgar maior importância à sua faceta de filósofo ou de pensador político.

THOREAU

“O pensamento de Thoreau é complexo, mutante, paradoxo, provocador. É preciso ler (e reler) o texto de seus ensaios atentamente para levar em consideração à retórica, para interpretar corretamente a pose de orador, já que frequentemente seus ensaios foram, num primeiro lugar, conferências ou discursos: desta forma, evita-se reduzir seu pensamento a um punhado de ideias sem apenas relação com suas intenções”, explica o professor.

Caminhar, contemplar, voar, pensar, escrever, respeitar e preservar o planeta foram as consignas que Thoreau levou ao extremo; com beleza e simplicidade.

“Não existe em absoluto o sentido comum: é semsentido comum”.

Andar a Pé (Ebook)

POÇO SEM FUNDO

De seu legado literário já foi publicado tudo; ou quase tudo. Ensaios, poesias, conferências, reflexões e correspondências. De sua ─pessoa e vida─ também já foram publicados diversos ensaios, biografias e teses doutorais. Inclusive, atualmente, existem vários blogs dedicados unicamente ao estudo de seu Diário- 1837-1861, um poço sem fundo de ideias e pensamentos. Em 2013 foi publicada na França e na Espanha a deslumbrante história em quadrinhos Thoreau A vida sublime, autoria de A. Dan y Le Roy.

WaldenEntre suas obras mais emblemáticas estão Diário, A desobediência civil, Uma semana nos rios Merrimack e Concorde, Os bosques de Maine, Vida sem Princípio, Maças Silvestres & Cores de Outono, Cape Cod e a obra-prima Walden ou a Vida nos Bosques, escrita e reescrita entre 1847 e 1854.

 “Vive-se muito rápido. Os homens acreditam que o importante é que o país tenha comércio, que exporte gelo, que tenha comunicações telegráficas e que se possa viajar a quarenta quilômetros por hora; mas não param para pensar se eles a necessitam ou não. Resulta incerto se atuando assim vivemos como homens ou como babuínos”.

“A riqueza supérflua nos possibilita comprar somente coisas supérfluas. Para comprar aquilo que a alma necessita o dinheiro não faz falta”.

“Tinha três cadeiras na minha casa: uma para a sociedade, outra para a amizade e uma terceira para a sociedade”.

“O intelecto é uma navalha; discerne e abre caminho ao segredo das coisas”.

 DESOBEDIENTE TRANSCENDENTAL

A Desobediência Civil Seguido De Walden

Como consequência de sua decidida oposição a escravidão, ainda vigente nos Estados Unidos, e a guerra que seu país mantinha contra o México, em 1849 Thoreau publicou A resistência ao governo civil, republicado postumamente como A desobediência civil, que o levou a ser considerado como “pai” da desobediência civil: proposição individual e potencialmente coletiva que solicita impugnar um poder (um decreto, uma lei, etc.) ilegítimo ou autoritário, pelo método de negar seu consentimento─ que continua sendo válido e prático hoje em dia.

“A única obrigação que tenho direito de assumir é a de fazer em todo o momento aquilo que considero equânime”.

“Aceito de todo coração o lema: “O melhor governo é aquele que menos governa”, e gostaria que atuasse com mais honestidade e esforço. O qual, levado em pratica, significa que “o melhor governo é aquele que não governa em absoluto”, coisa que também estou convencido. E quando os homens estiverem preparados para isso, será o governo que terão”.

Seu magistral Diário (1837-1861), de 14 volumes, que foi publicado pela primeira vez em 1906, 44 anos depois da sua morte, continua sendo a grande referência para os estudiosos de sua obra. A Universidade de Princeton publica há 40 anos a edição mais completa e confiável dos escritos de Thoreau.

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Diário original de Thoreau

O primeiro registro do Diário foi escrito no dia 22 de agosto de 1937; e o último em 3 de novembro de 1861, seis meses antes de sua morte. Nele, ele reflete sobre a vida e a escrita, e recria com minúcia o ambiente natural no qual vive. São mais de sete mil páginas.

“Este inverno estão cortando nossos bosques com mais intensidade que antes ─ Fair Haven Hill, Walden, Linnae Boreales, Wood etc. etc. Graças a Deus que não podem cortar as nuvens!”.

“Vida cidadã: milhões de seres vivendo juntos em solidão”.

“Quantas batalhas têm que enfrentar o homem por todas as partes para manter seu exército de ideias e marchar com elas em ordenada formação através de um território hostil! Quantos inimigos têm o pensamento lúcido!”.

“Uma lei jamais irá fazer livre o homem; são os homens quem tem que fazer livre as leis”.

“Um livro verdadeiramente bom é algo tão ferozmente natural e primitivo, misterioso e maravilhoso, fértil e celestial, como um líquen ou um fungo”.

“A imprensa é, quase sem exceções, corrupta”.

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PINCELADAS DE UMA VIDA

Henry David Thoreau nasce no dia 12 de julho de 1817. Era o terceiro de quatro irmãos. Sua família era descendente de emigrantes franceses. Levou uma vida discreta; porém intensíssima. Faz parte do denominado “Renascimento norte-americano” junto a outros quatros criadores fundamentais: Ralph Waldo Emerson, Walt Whitman (1819-1892), Herman Melville e Nathaniel Hawthorne. São cinco nomes que nos campos do ensaio, da poesia e da novela constituem a grande tradição norte-americana, cinco pilastras que sustentam uma literatura.

Em 1837, com apenas 20 anos, graduou-se pela Universidade de Harvard. Este mesmo ano retornou a sua cidade natal e começou a dar aulas em um colégio, entretanto renunciou este trabalho depois que lhe obrigaram, contra sua vontade, a dar uma surra em seis alunos, seguindo as ordens do diretor da escola.

Em seguida, começou a trabalhar no negócio da família: fabricação de lápis de grafite. Quando teve êxito e seus amigos o felicitaram por ter criado a possibilidade de enriquecer, ele respondeu que jamais fabricaria outro lápis. ”Para quê?”, disse. “Não quero fazer outra vez aquilo que já fiz uma vez”.

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Em julho de 1845, abandonou a casa familiar de Concorde e foi morar na cabana que construiu às margens da lagoa de Walden Pond, em um terreno que lhe cedeu seu amigo Emerson. Durante dois anos escreveu ali a obra homonímia na qual descreve sua economia doméstica, seus experimentos em agricultura, seus visitantes e vizinhos, as plantas e a vida selvagem.

Em 1846, seu compromisso cívico gerou problemas com a justiça. É preso e passou uma noite na cela da cadeia por negar a pagar seus impostos como protesto contra a guerra com México (1846-1948), que considerava totalmente injustificada.

Um ano depois, em 1847, abandonou definitivamente a cabana de Walden. Em 1849, publicou seu primeiro livro, Uma semana nos rios Concorde e Merrimack, depois de se comprometer a arcar com os gastos da edição e renunciar seus direitos autorais. Neste mesmo ano, publicou o ensaio Resistência ao governo civil.

Comprometido com a causa contra a escravidão, participou no denominado “trem subterrâneo”, uma rede de pessoas que escondiam em suas casas os escravos que fugiam das plantações do Sul e os ajudavam a chegar ao Canadá. A prisão em Boston, em 1854, do escravo fugitivo Anthony Burns lhe inspirou a escrever o ensaio A escravidão em Massachusetts.

Cape Cod (Ebook)Durante uma viagem a Nova Iorque, em 1856, conheceu o poeta Walt Whitman, quem lhe presenteou com uma cópia dedicada de Folhas de relva. Thoreau ficou fascinado pelo pai da poesia norte-americana. Em uma carta que enviou ao seu amigo e discípulo Harrison Blake, explicou: “Parece o maior democrata que o mundo já viu. […] Mesmo que aparentemente seja peculiar e áspero, em essência é um cavaleiro”.

 Em 1861, a tuberculose que contraiu quando era adolescente piorou. Incapaz de sair de casa, e consciente que tinha pouco tempo de vida, revisou suas obras para que a sua irmã Sophie se responsabilize de sua publicação póstuma. Não teve força para materializar seu acariciado projeto de escrever um estudo etnográfico sobre os índios. Morreu no dia 6 de maio deste mesmo ano, com 44 anos. Suas últimas palavras foram: “alce” e “índio”.

Para o poeta e dramaturgo espanhol Antonio Machado (1875-1939), o norte-americano Thoreau era um “intelectual que sonhou como latino, e como anglo-saxão colocou em pratica seu sonho”. É um clássico, que emerge e submerge.

“Podemos estar seguros de que qualquer livro ou frase que suporta ser lida duas vezes foi pensado duas vezes”, dizia Thoreau. •

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Em 2013 foi publicada a história em quadrinhos Thoreau – A vida sublime, de A. Dan e Le Roy.

Nota do autor: Artigo publicado em espanhol no site da Acpe e na revista El Siglo de Europa

 

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Literatura

THOREAU: MANANTIAL DE IDEAS

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No todos los hombres saben ser libres. (H. D. Thoreau)

Por Jairo Máximo

MADRID – España – (Blog do Pícaro) – Este año se cumple el segundo centenario del nacimiento del filósofo, escritor y poeta, Henry David Thoreau, que abogaba por respetar la Vida, la Naturaleza y, de paso, contemplar la Desobediencia civil frente a los abusos del Estado.

Thoreau se autodefinía como “profesor de escuela, tutor particular, topógrafo, jardinero, granjero, pintor (de paredes), carpintero, albañil, jornalero, fabricante de lápices, fabricante de papel de lija, escritor y poetastro”. No obstante, su auténtico empleo fue “Inspector de ventiscas y diluvios”, recalcaba.

“Es necesario decir: amad la verdad y escribid sinceramente”, decía.

Henry David Thoreau (1817― 1862, Concord, Massachusetts, Estados Unidos) escribió durante décadas un Diario contemplativo ―germen de su fructífera obra― donde vertía sus ideas y visión sobre cómo vivir en sintonía con la Naturaleza y la sociedad. Consideraba que las ideas solo tenían sentido a condición de que tomasen cuerpo en una práctica efectiva y concreta.

“Elegí las letras como profesión”, escribió al bibliotecario de la Universidad de Harvard, en septiembre de 1849. “El lenguaje es la obra de arte más perfecta del mundo. El cincel de mil años lo retoca”, sostenía.

Fue su amigo el escritor, filósofo y poeta, Ralph Waldo Emerson (1803-1882), que le incentivó llevar a cabo la escritura de un Diario. El resultado es un jugoso experimento original, sin precedentes literarios, publicado póstumamente.

“No busques expresiones, busca ideas para ser expresadas”.

“No prefiero ninguna religión o filosofía sobre otra. No siento ninguna simpatía por el fanatismo y la ignorancia que hacen distinciones transitorias, parciales y pueriles entre la fe de otro, como cristiano y pagano. Rezo por verme liberado de la estrechez de miras, la parcialidad, la exageración y el fanatismo. Para el sabio, todas las religiones, todos los países, son iguales. Amo a Brahma, Hari, Buda y al Gran Espíritu tanto como a Dios”.

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FRUCTÍFERO BOSQUE

Adentrarse en el fantástico bosque ―literario, poético y filosófico― de Thoreau es encontrar un manantial de ideas. Su sublime obra invita a llevar una vida filosófica en el día a día, no a cincelar conceptos para uso exclusivo de las bibliotecas.

“Así es siempre la búsqueda del conocimiento. Los frutos celestiales, las manzanas doradas de las Hespérides están permanentemente custodiadas por un dragón de cien cabezas que nunca duerme, y cogerlas es una labor hercúlea”, consideraba.

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Martin Luther King Jr. (1929-1968), Mahatma Gandhi (1869-1948), Barack Obama y otros contemporáneos se dejaron influenciar por sus ideas. Gandhi le descubrió en la cárcel y lo eligió como su “maestro”. Luther King afirmó haber dado vida a las enseñanzas del filósofo en sus acciones contra la segregación racial de los afroamericanos.

Michel Granger, profesor emérito de literatura americana del siglo XIX en la Universidad de Lyon, y especialista en los escritores del “Renacimiento americano”, en particular Nathaniel Hawthorne (1804-1864), Herman Melville (1819-1891) y Thoreau, considera que conviene tener presente que Thoreau es principalmente un hombre de letras, mientras que, en estos últimos años, se ha querido otorgar mayor importancia a su faceta de filósofo o de pensador político.

“El pensamiento de Thoreau es complejo, cambiante, paradójico, provocador. Hay que leer (y releer) el texto de sus ensayos con una atención continua para tomar en consideración la retórica, para interpretar correctamente la pose del orador, ya que con frecuencia los ensayos fueron, en primer lugar, conferencias o discursos: de esta forma, se evita reducir su pensamiento a un entramado de ideas sin apenas relación con sus intenciones”, explica el profesor.

Caminar, contemplar, volar, pensar, escribir, respetar y preservar el planeta, fueron las consignas que Thoreau llevó al extremo; con brillantez y sencillez.

“No existe en absoluto el sentido común: es sinsentido común”.

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POZO SIN FONDO

De su legado literario ya se han publicado prácticamente todo ―o casi todo. Ensayos, poesías, conferencias, reflexiones y correspondencias. Sobre su personalidad y vida han sido publicados diversos ensayos, biografías y tesis doctorales. Asimismo, actualmente hay varios blogs dedicados exclusivamente al estudio de su Diario – 1837-1861 , un pozo sin fondo de ideas y pensamientos. En 2013 se publicó en Francia el cómic Thoreau – La vida sublime.

Entre sus obras de referencias están Diario, La desobediencia civil, Una semana en los ríos Merrimack y Concord, Cape Cod, Los bosques de Maine y la obra maestra Walden, escrita y rescrita entre 1847 y 1854.

“Dadles a los ancianos viejos retos y a los jóvenes retos nuevos”.

“Se vive demasiado deprisa. Los hombres creen que lo importante es que el país tenga comercio, que exporte hielo, que haya comunicaciones telegráficas y que pueda viajar a cuarenta kilómetros por hora; pero no se detienen a pensar si ellos lo necesitan o no. Resulta incierto si actuando de esta manera vivimos como hombres o como babuinos”.

“El intelecto es una cuchilla: discierne y se abre camino hacia el secreto de las cosas”.

“Tenía tres sillas en mi casa: una para la soledad, otra para la amistad y una tercera para la sociedad”.

 “La riqueza superflua nos permite comprar sólo cosas superfluas. Para comprar lo que necesita el alma no hace falta dinero”.

DESOBEDIENTE TRANSCEDENTAL

A raíz de su frontal oposición a la esclavitud, aún en vigor en los Estados Unidos, y a la guerra que su país mantenía contra México, en 1849 Thoreau publicó La Resistencia al gobierno civil, retitulado póstumamente como La desobediencia civil, que le llevó a ser considerado como “el padre” de la desobediencia civil ―proposición individual y potencialmente colectiva que reclama impugnar un poder (un decreto, una ley, etc.) ilegítimo o autoritario, por el método de negarse a consentirlo―que sigue teniendo aplicaciones prácticas hoy en día.images

 “La única obligación que tengo derecho a asumir es la de hacer en todo momento aquello que considero recto”.

“Acepto de todo corazón el lema: “El mejor Gobierno es el que menos gobierna”, y me gustaría que actuase con la mayor honestidad y diligencia. Lo cual, llevado a la práctica, significa que “el mejor Gobierno es el que no gobierna en absoluto”, de lo que también estoy convencido. Y cuando los hombres estén preparados para ello, será el gobierno que tendrán”.

Su magistral Diario, de 14 volúmenes, fue publicado por primera vez en 1906, cuarenta y cuatro años después de su muerte y, todavía, continúa siendo la gran referencia para los estudiosos de su obra. La Universidad de Princeton lleva cuarenta años publicando la edición más completa y fiable de los escritos de Thoreau.

La primera entrada del Diario corresponde al 22 de agosto de 1837; y la última al 3 de noviembre de 1861, seis meses antes de su fallecimiento. En él reflexiona sobre la vida y la escritura, y recrea minuciosamente el entorno natural en el que se mueve. Son más de 7.000 páginas

“Este invierno están cortando nuestros bosques con más seriedad que en ninguna otra ocasión anterior ―Fair Haven Hill, Walden, Linnae Boreales, Wood, etc., etc. ¡Gracias a Dios que no pueden cortar las nubes!  thoreau-portada

 “Vida ciudadana: millones de seres viviendo juntos en soledad”.

“¡Cuantas batallas debe librar un hombre por todas partes para mantener su ejército de ideas y marchar con ellas en ordenada formación a través de un territorio hostil! ¡Cuántos enemigos tiene el pensamiento lúcido!”.

 “Una ley jamás hará libre a un hombre; son los hombres quienes tienen que hacer libre a las leyes”.

“Un libro verdaderamente bueno es algo tan ferozmente natural y primitivo, misterioso y maravilloso, fértil y celestial, como un liquen o un hongo”.

“La prensa es, casi sin excepciones, corrupta”.

PINCELADAS DE UNA VIDA

Henry David Thoreau nació el 12 de julio de 1817. Era el tercero de cuatro hermanos. Su familia descendía de emigrantes franceses. Vivió una vida discreta; pero muy intensa. Forma parte de lo que se denomina “Renacimiento americano” junto con otras cuatro figuras capitales: Ralph Waldo Emerson, Walt Whitman (1819-1892), Herman Melville y Nathaniel Hawthorne. Son cinco nombres que en los campos del ensayo, la poesía y la novela forjan la gran tradición americana, cinco pilares que sustentan una literatura.

En 1837, con solo veinte años de edad, se graduó por la Universidad de Harvard, y regresa a su pueblo natal y empieza a dar clases en un colegio, pero renuncia después de verse obligado, en contra de su voluntad, a azotar a seis alumnos, siguiendo las órdenes de un superior.

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En seguida se puso a trabajar en el negocio al que estaba dedicado su padre: la fabricación de lapiceros de grafito. Cuando tuvo éxito en este negocio y sus amigos lo felicitaron por haberse abierto la perspectiva de hacerse rico, él respondió que jamás fabricaría otro lapicero. “¿Para qué?”, dijo. “No quiero hacer de nuevo lo que haya hecho una vez”.

En julio de 1845 abandona la casa familiar de Concord y se instala en la cabaña que ha construido junto a la laguna de Walden Pond, en un terreno que le cedió su amigo Emerson. Durante dos años escribe allí la obra homónima en la que describe su economía doméstica, sus experimentos en agricultura, sus visitantes y vecinos, las plantas y la vida salvaje.

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En 1846 su compromiso cívico le provoca problemas con la justicia. La policía lo arresta y pasa una noche en la cárcel de Concord por negarse a pagar sus impuestos como protesta contra la guerra con México (1846-48), que considera totalmente injustificada.

Un año después, en 1847, abandona definitivamente la cabaña de Walden, y en 1849 publica su primer libro, Una semana en los ríos Concord y Merrimack, tras comprometerse a hacerse cargo del coste de la edición mediante la renuncia a sus derechos. Ese mismo año publica el ensayo Resistencia al gobierno civil.

Comprometido con la causa antiesclavista, participó en el llamado “tren subterráneo”, una red de personas que escondían en sus casas a los esclavos que huían de las plantaciones del Sur y les ayudaban a llegar a Canadá. El arresto en Boston en 1854 del esclavo fugitivo Anthony Burns le incita a escribir el ensayo La esclavitud en Massachusetts, que editan varias publicaciones progresistas.

En 1854 publicó Walden, que según los estudiosos “es un modo de escribir, de ponerse a disposición de las palabras, pero también es una Escritura, una forma de aprender lo que la vida nos enseña”.

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Diario de Thoreau.

Durante un viaje a Nueva York, en 1856, conoce a Walt Whitman, quien le da una copia firmada de Hojas de hierba. Thoreau queda fascinado por el patriarca de la poesía norteamericana. En una carta que le envía el 19 de noviembre a su amigo y discípulo Harrison Blake, le explica: “Parece el más grande demócrata que ha visto el mundo. […] Aunque resulta peculiar y áspero a simple vista, es en esencia un caballero. Me ha dejado desconcertado”.

En 1861 la tuberculosis que contrajo cuando era adolescente empeora. Incapaz de salir de casa, y consciente de que le queda poco tiempo de vida, revisa sus obras para que su hermana Sophie se encargue de su publicación póstuma. No puede afrontar el acariciado proyecto de escribir un estudio etnográfico sobre los indios. Muere el 6 de mayo de este año, a los 44 de edad. Sus últimas palabras fueron “alce” e “indio”.

Para el poeta y dramaturgo español Antonio Machado (1875-1939), el estadounidense Thoreau era un “intelectual que soñó como latino, y como sajón puso en práctica su sueño”. Es todo un clásico, que emerge y desaparece.

“Podemos estar seguros de que cualquier libro o frase que soporta ser leído dos veces ha sido pensado dos veces”, decía Thoreau. ●

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En 2013 la editorial española Impedimenta publicó el cómic biográfico Thoreau―La vida sublime, de Maximilien Le Roy y A. Dan.

 Artículo publicado en la revista El Siglo de Europa y Acpe

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Comunicação

CHAVES NOGALES: DE PEITO ABERTO

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Manuel Chaves Nogales / Foto: Arquivo Pessoal Pilar Chaves Jones.

Por Jairo Máximo

MADRI – Espanha – (Blog do Pícaro) – O jornalista e escritor espanhol Manuel Chaves Nogales é autor de uma inspiradora obra literária que inclui esplêndidos artigos jornalísticos, reportagens, biografias, contos e novelas.

“Minha técnica – a jornalística – não é uma técnica científica. Andar e contar é o meu ofício”, dizia o jornalista.

Segundo os estudiosos, alguns dos melhores livros jornalísticos de língua espanhola têm sua inconfundível autoria. A leitura de um deles conduz a outro e assim sucessivamente.

Manuel Chaves Nogales (Sevilha, 1897 – Londres, 1944) utilizou a pluma como uma navalha para contar os fatos tal como eram. Ia direto ao ponto sem subterfúgios. Fez parte de uma estirpe de jornalistas que nos anos 30 viajavam com frequência ao estrangeiro para realizar reportagens e entrevistas.

Democrata e republicano convencido, durante toda sua vida ―profissional e pessoal― lutou para ser livre e se manter livre. E conseguiu!

“Sou um pequeno burguês liberal cidadão de uma república democrática e parlamentaria”.

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Filho de mãe pianista e pai jornalista, desde jovem começou a exercer o ofício de jornalista em sua cidade natal. Em 1923, durante a entre guerra, chegou à Madri. Entre os anos 1927 e 1937 saboreou o êxito, escrevendo reportagens para os principais jornais da época.

A partir de 1931 foi diretor do diário Ahora (1930-1939), publicação favorável a Manuel Azaña (1880-1940) ―político e escritor que foi presidente do Governo entre 1931 e 1933, e presidente da Segunda República entre 1936 e 1939. Chaves Nogales era um reconhecido partidário de Azaña. Apoiava a República e não se deixava levar pelas correntes totalitárias que arruinavam Europa.

DAR A CARA

Quando estourou a Guerra Civil espanhola, no dia 18 de julho de 1936, Chaves Nogales se colocou ao serviço da Segunda República, até que o Governo abandonou definitivamente Madri, e se instalou em Valência, momento no qual, pressagiando a vitória dos franquistas e a posterior catástrofe eminente, em novembro deste mesmo ano, decide se exilar com sua família em Paris, sem ter renunciado nunca às suas convicções democráticas nem às suas lealdades republicanas.

Na capital francesa escreveu para um grande grupo de jornais americanos de língua espanhola que publicavam suas crônicas “redatadas única e exclusivamente ao serviço da causa francesa”, afirmava. Ao mesmo tempo, diariamente, a Rádio Francesa para Espanha e América do Sul divulgava seus comentários de atualidade. Além disso, em Paris, fundou e editou uma pequena publicação sobre atualidade destinada aos exilados republicanos na França.

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Em 1940, depois de saber que era objetivo dos nazistas que estavam às portas de Paris, Chaves Nogales se mudou para Bordeaux antes de ir morar definitivamente em Londres. Na capital inglesa, fundou uma agência, escreveu artigos para jornais latino-americanos e trabalhou como jornalista no frente de guerra, ao lado dos exércitos aliados que lutavam na Europa contra a Alemanha nazista.

“Porém, a catástrofe da França, como a da Espanha, não era a derrota definitiva. Era somente uma nova etapa dolorosa de uma luta que não tem pátrias nem fronteiras porque não é senão a luta da barbárie contra a civilização, das forças destruidoras contra o espírito construtivo e o instinto de conservação da humanidade, da mentira contra a verdade…”, escreveu no prólogo do relato A agonia da França, publicado em Montevidéu, em 1941, e reeditado na Espanha quase sessenta anos depois. Neste relato, Chaves Nogales conta com lucidez como o país que tinha sido durante um século e meio o faro da democracia no mundo se colocou em junho de 1940 aos pés do nazismo.

Em 1944 quando tinha apenas 47 anos, Manuel Chaves Nogales, morreu de uma peritonite, em Londres, Reino Unido, onde descansa em paz numa tumba desamparada. Dignificou uma profissão prisioneira do servilismo político. É um referencial do bom jornalismo. Construiu uma obra difícil de catalogar.

“Ambicioso, vazio, extravagante, a hora de Chaves Nogales passou. Nem foi, nem é e nem voltará a ser nada”, escreveu o desprestigiado jornalista Francisco Casares no livro Azaña e eles: cinquenta perfis vermelhos (1938).

Contudo, com o passar do tempo, Manuel Chaves Nogales seria considerado “um paradigma” de intelectual comprometido com seu tempo. “É um dos grandes, o que soube disparar de uma distância precisa”, considera o escritor e jornalista valenciano Manuel Vicent.

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Cartaz do documentário O homem que estava ali, sobre o inclassificável jornalista e escritor Manuel Chaves Nogales.

Banido e esquecido pela direita e pela esquerda espanhola durante mais de sete décadas, atualmente seus livros são reeditados com êxito. Sobre seu legado se organizam conferências, colóquios e se publicam diversos textos sobre sua pessoa. Como reconhecimento, o governo de Sevilha editou sua obra jornalística completa em dois tomos. Em 2013 se estreiou o documentário O homem que estava ali, baseado em sua pessoa e legado. Em Alcorcón, em Madri, há um colégio público que tem o seu nome e, na capital espanhola, tentam, sem muito êxito, honrar-lhe com o nome de rua depois de sete décadas de sua morte.

 PRONTO PARA LER

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Ler hoje a obra de Chaves Nogales ajuda a compreender a história do século XX. Inesquecíveis são: A defesa de Madri, reportagem publicada em 16 capítulos na imprensa mexicana, em 1938, e editado em livro em Sevilha em 2011; a biografia Juan Belmonte, matador de toros. Sua vida e suas façanhas (1935); a novela O maestro Juan Martínez que estava ali (1934), ou a surpreendente reportagem O que sobrou do Império dos czares (1931), publicada originalmente nesse mesmo ano no jornal Ahora. Revela a vida dramática dos dois milhões de pessoas que tiveram que abandonar à Rússia depois da Revolução de 1917, uma revolução que naquela época era defendida e admirada pela esquerda espanhola.

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Suas diversas reportagens, entrevistas e perfis de famosos e anônimos, realizadas de peito aberto, lhe levaram a ser considerado como um dos melhores jornalistas do século XX. Sua obra é um antídoto para aqueles que hoje em dia anseiam “conquistar o céu” a base de mentiras e manipulações. Nos não tão distantes anos 30 Chaves Nogales já denunciava contundentemente que o populismo mata.

“É uma lei histórica que todo povo vencido adota fatalmente a forma de governo do vencedor”.

Em Com sangue e fogo ―heróis, bestas e mártires da Espanha, publicado pela primeira vez no Chile em  1937, título de nove emocionantes e alucinantes relatos que ele escreveu sobre a Guerra Civil espanhola (durante seu exílio na França) é um manual que reforça o sem razão das guerras. Na Espanha são muitos aqueles que consideram que esta obra é um dos melhores livros escritos sobre a Guerra Civil espanhola (1936 ―1939).

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No prólogo desta obra, Chaves Nogales constatou: “Mas a estupidez e a crueldade se apoderaram da Espanha. Por onde começou o contágio? Os caldos de cultivo desta nova peste, germinada nesse grande panteão da Ásia, nos proporcionaram os laboratórios de Moscou, Roma e Berlim, com as etiquetas de comunismo, fascismo ou nacional-socialismo, e o despreocupado homem celtibero os absorveu avidamente. (…) É perder tempo tentar apontar os focos do contágio da velha febre fratricida neste ou naquele setor social, nesta ou naquela área da vida espanhola. Nem brancos nem vermelhos têm nada que dizer um do outro. Idiotas e assassinos foram produzidos e atuaram com idêntica profusão e intensidade nos dois bandos que se dividiram Espanha”.

TOUREANDO UM TOUREIRO

Na biografia Juan Belmonte, matador de touros: sua vida e suas façanhas, considerada a melhor biografia escrita em espanhol, Chaves Nogales conta a vida de seu compatriota, o toureiro Juan Belmonte García (1892―1962), que no começo do século 20 brilhou como ninguém ―dentro e fora― das arenas espanholas, numa época em que a devoção às touradas era transcendente e chegava a diversas classes sociais que professavam uma paixão febril pela tauromaquia, a arte de tourear.

A biografia do sevilhano Juan Belmonte, apelidado Pasmo de Triana, que foi escrita como uma autobiografia é fruto dos vários encontros que o jornalista, que não era amante das touradas, teve com o toureiro. Narra a apaixonante história daquele menino Juan que nasceu pobre e sofreu preconceitos na infância, porém, quando cresceu se tornou uma celebridade imensamente rica “fundadora do toureio moderno”.

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Depois de saborear a glória, e com quase 70 anos, Juan Belmonte se suicidou em abril de 1962. Apesar de ser um suicida, se permitiu que ele fosse enterrado no cemitério São Fernando de Sevilha.

Para Chaves Nogales, “Belmonte tinha um forte espírito de superação e caráter conciliador, inimaginável em um toureiro”.

No prólogo da reedição editada em 2009 pela editora catalã Libros del Asteroide, o poeta e escritor espanhol Felipe Benítez Reys, escreve: “Com este livro sobre Juan Belmonte, Chaves Nogales deu uma lição de literatura e uma lição de jornalismo que consegue ascender ao âmbito da grande literatura”.

Idealizado originalmente como folhetim, Juan Belmonte, matador de touros: sua vida e as suas façanhas, foi publicado pela primeira vez na revista espanhola Estampa, entre junho e dezembro de 1935 em 25 magníficos capítulos.

 PALAVRAS DE TOUREIRO

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“Tenho que insistir na minha convicção de que o toureio é fundamentalmente um exercício de ordem espiritual e não uma atividade simplesmente esportiva”.

“Uma tarde eu estava toureando em Tablada às margens do rio; tinha atravessado de uma margem a outra nadando, e toureava completamente desnudo. Da outra margem do Triana, umas mocinhas que voltavam do trabalho em alguma fazenda me cumprimentavam de longe, agitando alegremente os braços. Tinha conseguido separar um bezerro e quando percebi que estava sendo contemplado de longe por aquele grupo feminino, comecei a tourear com todo o estilo que era capaz. Em um dos lances o bezerro passou tão perto de mim, que me cortou o lábio. Rodei pelo chão. Já estava outra vez de pé e com a blusinha nas mãos quando ouvi o eco perdido do grito de terror que na outra margem deram as mulheres quando me viram ser ferido. Percebi que o ferimento era pequeno; no entanto, como acontece com todas as feridas no rosto, sangrava abundantemente. Percebi que o contratempo não era grave e deixei que o sangue escorresse por todo o corpo para continuar toureando. Não queria ser mal visto por aquelas mulheres que do outro lado do rio se entusiasmavam vendo aquele jovem garoto pelado que toureava sozinho o touro. Mas quando elas me viram com o corpo coberto de sangue se assustaram e começaram a dar uns gritos espantosos. Umas tapavam o rosto com as mãos, outras corriam até a margem do rio me chamando com vozes de angustias, outras fugiam horrorizadas. Levaram à Triana uma imagem espantosa daquele garoto que toureava sozinho, desnudo e sangrando em pleno campo de Tablada.”

“O dia em que se toureia a barba cresce mais rápido. É o medo. (…) Não é necessário dar muitas voltas. É o medo. (…) É um íntimo amigo meu. (…) O medo nunca me abandonou. É sempre o mesmo. Meu companheiro inseparável. (…) O medo que se passas nas horas que antecedem uma tourada é espantoso. (…) Muda o tom de voz, se emagrece de hora em hora, modifica-se o caráter e surgem na gente umas ideias extraordinárias. Depois, quando já se está frente ao touro, é distinto. O touro não deixa tempo para a reflexão”.

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“Sempre me sublevo ante aos abusos do poder”.

“Teve uma época que as touradas tinham uma ressonância e transcendência que hoje não tem. (…) Era a época em que depois de uma boa tourada se encontrava gente toureando pelas ruas”.

“Se eu fosse ensaísta no lugar de toureiro, me atreveria a esboçar uma teoria sexual da arte; pelo menos, da arte de tourear”.

“Hoje, depois de milhares de anos, todos nós comemos o touro. A besta está dominada e derrotada. E, naturalmente, o touro está em franca decadência. Se conseguiu tudo o que se podia conseguir. O touro não tem hoje nenhum interesse. É uma pobre besta derrotada. (…) Subiste a beleza da festa, mas o elemento, a emoção, a angústia sublime da luta selvagem se perdeu. A festa está em decadência”.

DANÇANDO COM JUAN

Na obra O mestre Juan Martínez que estava ali, Chaves Nogales realiza um comovedor relato sobre os passos que os dançarinos de flamenco Juan Martínez (1896-1961), e a sua mulher Sole, realizaram para subsistir durante a revolução bolchevique na Rússia do começo século 20.

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A dupla artística denominada “Los Martínez”, primeiro triunfou em Madri; depois na Paris boêmia, onde aceitaram um convite para realizar uma turnê na enigmática Turquia. Jamais poderiam imaginar as amargas experiências que o destino lhes tinha reservado. O casal embarcou em Marselha com destino ao Oriente no dia 26 de junho de 1914. Quarenta dias antes de começar a Primeira Guerra Mundial (1914-1919).

E foi assim que, sem querer, Los Martínez, encurralados em terras russas, viveram primeiro a guerra, depois a revolução bolchevique, que lhes perseguiam.  Foram testemunhas a força da violenta revolução bolchevique, que queria conquistar o céu- para eles- e o inferno para o outro.

No prólogo da reedição realizada em 2007 pela editora catalã Libros del Asteroide, o escritor e poeta Andrés Trapiello, escreve: “Chaves Nogales não quis fazer uma novela. As declarações de Martínez, que continuava trabalhando em Paris em cabarés, o impressionaram. É um relato linear, que após uma breve introdução, passa para os lábios de Martínez. Poderíamos considerar este livro como suas memórias russas. Não existe nela recordação íntima, nem estudos psicológicos, quase tudo transcorre em função dos acontecimentos”.

Em 1922, Los Martínez retornaram à Espanha, e pouco tempo depois voltaram a morar definitivamente em Paris. Chaves Nogales publicou sua história primeiro por capítulos no semanário Estampa, em 1934.

PALABRAS DE DANÇARINO DE FLAMENCO

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Retrato do espanhol Juan Martínez publicado na revista Estampa.

“Veja bem… Eu sou de Burgos, na Espanha, e apesar disso, estava entre os muçulmanos de Istambul como se estivesse na minha casa. (…) Poucos dias depois de estar ali se iniciou a guerra. Eu não compreendi o que era aquilo até que os diretores franceses do teatro onde trabalhávamos nos disseram que eles que não podiam nos pagar porque fechavam o negócio e abandonavam o país. Fomos ver o cônsul da Espanha. Como sempre passa com os nossos cônsules, não podia fazer nada. (…) No começo a guerra não se percebia muito, porém pouco a pouco, tudo foi mudando. As pessoas tinham a cara cada dia mais desconfiada, mais rude. Não voltamos a ver caras alegres, suaves, sorridentes, até muitos anos depois. E para ser sincero, acredito que caras amáveis como as de antes da Primeira Guerra não se voltaram a ser vistas pelas ruas da Europa”.

 “Eu nunca quis me meter em política”.

“Em Bucareste nos hospedamos no hotel Central, que estava em frente ao Correios. Apresentei-me pedindo trabalho num cabaré chamado Alhambra e estreamos cinco dias depois. Gostaram muito do nosso espetáculo e estávamos felizes. Tinha pão e paz. Quantas vezes depois presenciei homens matando homens, todos clamando por essas duas coisas: o pão e a paz!”.

“Naquela época aprendi que não é verdade que as revoluções se fazem com famintos. Quando se tem fome não se é capaz de nada”.

“Os bolcheviques, bons ou ruins, insistiam que os artistas de cabaré não tínhamos direito de viver e desejavam que morrêssemos o quanto antes”.

“Os vermelhos se impuseram utilizando o terror desde o primeiro momento, implantando o comunismo de guerra com uma ferocidade sem limites”.

“A viagem a Kiev foi um horror, porque o trem soviético ia cheio de militares, quer dizer, de camponeses que dias antes tinham recebido um fuzil e a autorização para assassinar qualquer pai de família que encontrasse pela frente, e aquela gente nos tratou a golpes. (…) Numa estação eu estava enchendo de água nosso bule, sem prestar muito atenção aos gritos que ouvia, quando de repente se aproximou um grandalhão grosseiro, que com violência pegou o utensílio da minha mão e disse:
― Vai embora daqui, porco burguês!
―Fora, se não quer ser preso! ―disseram em coro uns dez ou doze safados que lhes seguiam.
Fiquei furioso por ser tratado tão injustamente.
―Mas, por quê?
―Porque você é um burguês asqueroso e vamos te enforcar agora mesmo!
―Eu sou tão proletário como vocês.
Respondeu-me uma gargalhada coletiva. Realmente, eu, com meu pescoço rígido e o blazer curto que levava, devia ter para aqueles bárbaros que se vestiam de farrapos, uma presença ridícula.

Imagen relacionada ―Eu sou tão proletário como os senhores! Ou mais! ―gritei desesperado.
―Mentira!
―Mentira!
―Ou demonstra agora mesmo que você ganha à vida trabalhando como um operário ou te prenderemos.
―Quereis que eu lhes prove que sou um proletário? ―perguntei petulantemente.
―Se não provar agora mesmo não escapará de nossas unhas, canalha!
Ouve um momento de silêncio. Desafiante olhei para os seus olhos e gritei com raiva:
―Veja! Idiotas.
E mostrava, passando pelos seus narizes, as palmas de minhas mãos deformadas pelos enormes calos, cuja contemplação causou um grande impacto naquelas gentes.Eram os calos que saem em todos os dançarinos de flamenco de tanto tocar as castanholas.
Eles me salvaram”. ●

Artigo publicado em espanhol na revista El Siglo de Europa e Acpe

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Comunicación

CHAVES NOGALES: A PECHO DESCUBIERTO

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Manuel Chaves Nogales / Foto: Archivo de Pilar Chaves Jones.

Por Jairo Máximo

MADRID – España ― (Blog do Pícaro) ― El periodista y escritor Manuel Chaves Nogales es autor de una inspiradora obra literaria que abarca espléndidos artículos periodísticos, reportajes, biografías, cuentos y novelas.

“Mi técnica ―la periodística―no es una técnica científica. Andar y contar es mi oficio”.

Según los especialistas algunos de los mejores libros del reporterismo español llevan su inconfundible firma. La lectura de uno conduce a otro y así sucesivamente.

Manuel Chaves Nogales (Sevilla, 1897―Londres, 1944) utilizó la pluma como un cuchillo para contar los hechos tal como eran. Iba directo al grano sin subterfugios. Perteneció a una estirpe de periodistas que, en los años 30, viajaron a menudo por el extranjero, realizando reportajes y entrevistas.

Demócrata y republicano convencido, durante toda su vida ―profesional y personal― luchó por ser libre y mantenerse libre. ¡Y lo consiguió!

“Soy un pequeño burgués liberal, ciudadano de una República democrática y parlamentaria”.

Hijo de madre pianista y padre periodista del diario sevillano El Liberal, desde muy joven empezó a ejercer el oficio de periodista, primero en Sevilla y después en Córdoba. En 1923 se trasladó a Madrid de entreguerras. Entre los años 1927 y 1937 saboreó el éxito, escribiendo reportajes para los principales periódicos de la época.

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A partir de 1931 fue subdirector del diario Ahora (1930-1939), publicación afín a Azaña, de quien Chaves Nogales era un reconocido partidario. Apoyaba la República sin dejarse tentar por las corrientes totalitarias que asolaban Europa. Manuel Azaña (1880-1940), político y escritor fue presidente del Gobierno entre 1931 y 1933, y presidente de la Segunda República entre 1936 y 1939.

“Los totalitarismos son la puntilla de la República y la ignorancia su mortífero instrumento”, escribió proféticamente Chaves Nogales en 1934.

A LO HECHO, PECHO

Al estallar la Guerra Civil el 18 de julio de 1936 se puso al servicio de la Segunda República, hasta que el Gobierno abandona definitivamente Madrid, y se instala en Valencia, momento en que presagiando la victoria de los fascistas franquistas, y la subsiguiente catástrofe por venir, a finales de 1937 decide exiliarse con su familia en París, sin haber renunciado nunca ni a sus convicciones democráticas ni a sus lealtades republicanas.

Durante su paso por la capital gala, escribió para un grupo numeroso de periódicos americanos de lengua española que publicaba sus crónicas “redactadas única y exclusivamente al servicio de la causa francesa”, afirmaba. Al mismo tiempo, diariamente, la Radio Francesa para España y América del Sur divulgaba sus comentarios de actualidad. Además, en París fundó y editó una publicación artesanal sobre la actualidad española dirigida a los exiliados republicanos en Francia.

En 1940, tras saber que era “presa de caza” de los nazis, que estaban a las puertas de París, Chaves Nogales se trasladó a Burdeos y desde allí a Londres. En la capital inglesa fundó una agencia, escribió artículos para los periódicos latinoamericanos y trabajó como periodista en las filas de los ejércitos aliados que luchaban en Europa contra la Alemania nazi.

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“Pero la catástrofe de Francia, como la de España, no era la derrota definitiva. Era sólo una nueva etapa dolorosa de una lucha que no tiene patrias ni fronteras porque no es sino la lucha de la barbarie contra la civilización, de las fuerzas de destrucción contra el espíritu constructivo y el instinto de conservación de la humanidad, de la mentira contra la verdad…”, escribió en el prólogo del relato La agonía de Francia, publicado en Montevideo en 1941, y reeditado en España casi sesenta años después. Cuenta con lucidez cómo el país que había sido durante siglo y medio el faro de la democracia en el mundo se puso en junio de 1940 en manos del nazismo.

En 1944 con 47 años, Manuel Chaves Nogales falleció víctima de una peritonitis, en Londres, Reino Unido, donde cria malvas en una tumba desamparada. Dignificó una profesión presa del servilismo político. Es toda una referencia al buen hacer periodístico. Construyo una obra indecidible ―aquello que resulta imposible decidir si se trata de una cosa o de otra.

“Ambicioso, vacío, extravagante, la hora de Chaves Nogales pasó. Ni fue, ni ha sido ni volverá a ser nada”, escribió el deslucido periodista Francisco Casares (1899-1977) en su libro Azaña y ellos: cincuenta semblanzas rojas (1938).

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Con todo, con el paso del tiempo, Manuel Chaves Nogales sería considerado “un paradigma” del intelectual comprometido con su tiempo.

“Es uno de los grandes, el que supo disparar desde la distancia precisa”, considera el escritor y periodista valenciano Manuel Vicent.Resultado de imagen de portada del libro ¿Que pasa con Cataluña?, de Nogales

Desterrado y olvidado por la derecha e izquierda española durante más de siete décadas, actualmente sus libros son reeditados con éxito, y sobre su legado se organizan charlas, coloquios y se publican diversos textos. En 2001 la Diputación Provincial de Sevilla publicó su obra periodística completa en dos tomos, con edición y estudio introductorio de María Isabel Cintas Guillén. A continuación, en 2011, Cintas Guillén publicó Chaves Nogales, El oficio de contar, centrado en la trayectoria profesional del periodista. Y en 2013 se estrenó el documental El hombre que estaba allí, basado en su figura. En Alcorcón, Madrid, está ubicado un colegio público de educación secundaria que lleva su nombre, y actualmente en la capital española se intenta, a duras penas, honrarle con una calle tras más de siete décadas de su muerte.

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Cartel del documental El hombre que estaba allí, sobre el inclasificable Chaves Nogales.

LISTOS PARA LEER

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Leer hoy la obra de Chaves Nogales ayuda a comprender la historia del siglo XX. Inolvidables son: La defensa de Madrid, reportaje publicado en 16 entregas en la prensa mexicana en 1938 y editado como libro en Sevilla en 2011; la biografía Juan Belmonte, matador de toros. Su vida y sus hazañas (1935); la novela El maestro Juan Martínez que estaba allí (1934) o el sorprendente reportaje Lo que ha quedado del imperio de los zares (1931), publicado originalmente ese mismo año en el periódico Ahora, en 24 entregas, a lo largo de un mes. Revela la vida dramática de los dos millones de personas que tuvieron que salir de Rusia tras la Revolución de 1917, una revolución que por aquellos años era defendida y admirada por la izquierda española.

Sus diversos reportajes, realizados a pecho descubierto, y editados posteriormente en libros, le llevaron a ser considerado como uno de los mejores periodistas del siglo XX. Son un antídoto para aquellos que anhelan “conquistar el cielo” a base de mentiras y manipulaciones. En los años treinta del siglo pasado Chaves Nogales ya denunciaba a cuatro vientos que el populismo mata.

“Es una ley histórica que todo pueblo vencido adopta fatalmente la forma de gobierno del vencedor”.

En  A sangre y fuego – héroes, bestias y mártires de España, publicado por primera vez en Santiago de Chile en 1937, título de nueve emotivos y alucinantes relatos que él escribió sobre la Guerra Civil española (durante su exilio en Francia) es un manual que incide en la sin razón de las guerras. En España son muchos los que consideran que  esta obra es uno de los mejores libros que se han escrito jamás sobre la Guerra Civil española que ocurrió entre 1936 y 1939.

Resultado de imagen de imagenes publicas de chaves nogalesEn el prólogo de la obra el autor constató: “Pero la estupidez y la crueldad se enseñoreaban de España. ¿Por dónde empezó el contagio? Los caldos de cultivo de esta nueva peste, germinada en ese gran pudridero de Asia, nos los sirvieron los laboratorios de Moscú, Roma y Berlín, con las etiquetas de comunismo, fascismo o nacionalsocialismo, y el desapercibido hombre celtíbero los absorbió ávidamente. (…) Es vano el intento de señalar los focos de contagio de la vieja fiebre cainita en este o aquel sector social, en esta o aquella zona de la vida española. Ni blancos ni rojos tienen nada que reprocharse. Idiotas y asesinos se han producido y actuado con idéntica profusión e intensidad en los dos bandos que se partieron España.”

LIDIANDO UN MATADOR DE TOROS

Resultado de imagen de PORTADAS DE LIBROS DE CHAVES NOGALES En Juan Belmonte, matador de toros: su vida y sus hazañas, considerada una de las mejores biografías jamás escritas en castellano, Chaves Nogales realiza una magnífica biografía de su paisano, el matador de toros Juan Belmonte García (Sevilla, 1892 – Utrera, 1962), que a principios del siglo XX brilló como nadie ―dentro y fuera― de los ruedos españoles, en una época en la cual la afición a los toros era trascendente y llegaba a los diversos extractos sociales, que profesaban una pasión febril por la tauromaquia.

La biografía de Juan Belmonte, el llamado Pasmo de Triana, está redactada en forma de autobiografía a partir de las numerosas conversaciones que el periodista, que no era amante de la lidia, mantuvo con el diestro. Narra la apasionante historia de aquél niño que nació pobre y marginado, pero que de mayor se convirtió en una celebridad  “fundador del toreo moderno”.

Tras saborear la gloria y a punto de cumplir 70 años, Juan Belmonte se suicidó de un disparo en su cortijo de Gómez Cardeña en 1962. A pesar de ser un suicida se le permitió ser enterrado en el cementerio de San Fernando de Sevilla. Según Chaves Nogales, “Belmonte tenía un marcado espíritu de superación y talante conciliador, inimaginable en un torero”.

En el prólogo de la reedición editada en 2009 por la editorial catalana Libros del Asteroide, el poeta y escritor Felipe Benítez Reyes, escribe: “Con este libro sobre Juan Belmonte, Chaves Nogales dio una lección de literatura y una lección de periodismo: el periodismo que logra ascender al ámbito de la gran literatura”.

Concebida originalmente como un folletín, Juan Belmonte, matador de toros. Su vida y sus hazañas, apareció por primera vez por entregas en el semanario Estampa del 29 de junio al 14 de diciembre de 1935 en veinticinco magníficos capítulos.

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Juan Belmonte retratado en 1924 por Ignacio Zuloaga.

PALABRAS DE TORERO

“Tengo que insistir en mi convicción de que el toreo es fundamentalmente un ejercicio de orden espiritual y no una actividad meramente deportiva”.

“Siempre me han sublevado los abusos de poder”.

“Una tarde estaba yo toreando en Tablada junto a la orilla del río; había cruzado el cauce a nado y toreaba completamente desnudo. Desde la orilla de Triana, unas muchachas que volvían de trabajar en algún cortijo me saludaban a lo lejos agitando alegremente los brazos. Había conseguido apartar un becerro, y al sentirme contemplado a distancia por aquel grupo femenino me puse a torear con todo el estilo de que era capaz. En uno de los lances pasó el becerro tan cerca de mí, que me dio un puntazo con el pitón en la cara y me partió el labio. Rodé por el suelo. Ya estaba yo otra vez en pie y con la blusilla en las manos cuando llegó hasta mí el eco perdido del grito de terror que en la otra orilla dieron las mujeres al ver la cogida. La herida era pequeña; pero, como ocurre con todas las heridas en la cara, manaba sangre en abundancia. Me di cuenta de que el percance no era grave y dejé que la sangre me corriera por el cuerpo para seguir toreando. No quería quedar mal ante aquellas mujeres que desde la otra banda del río se entusiasmaban viendo aquel muchacho desnudo que lidiaba a solas a los toros. Pero cuando ellas me vieron con el cuerpo tinto en sangre se asustaron y se pusieron a dar unos gritos espantosos. Unas se tapaban la cara con las manos, otras avanzaban hasta el borde del agua llamándome con voces angustiadas, otras huían despavoridas. Llevaron a Triana una imagen pavorosa del aquel muchacho que toreaba solo, desnudo y sangrante en pleno campo de Tablada”.

“El día que se torea crece más la barba. Es el miedo. (…) No hay que darle vueltas. Es el miedo. (…) Es un íntimo amigo mío. (…) El miedo no me ha abandonado nunca. Es siempre el mismo. Mi compañero inseparable. (…) El miedo que se pasa en las horas que preceden a la corrida es espantoso. (…)  Se cambia el tono de la voz, se adelgaza de hora en hora, se modifica el carácter y se le ocurren a uno las ideas más extraordinarias. Luego, cuando ya se está ante el toro, es distinto. El toro no deja tiempo para la introspección”.

“Entonces, las corridas de toros tenían una resonancia y una trascendencia que hResultado de imagen de JUAN BELMONTEoy no tienen. (…) Era la época en que después de una buena faena se veía a la gente toreando por las calles”.

“Si yo fuese ensayista en vez de ser torero, me atrevería a esbozar una teoría sexual del arte; por lo menos, del arte de torear”.

“Hoy, al cabo de miles de años, todos nos comemos al toro. La bestia está dominada y vencida. Y, naturalmente, el toro está en franca decadencia. Se ha logrado todo lo que se podía lograr. El toro no tiene hoy ningún interés. Es una pobre bestia vencida. (…) Subsiste la belleza de la fiesta, pero el elemento dramático, la emoción, la angustia sublime de la lucha salvaje se ha perdido. Y la fiesta está en decadencia”.

 BAILANDO CON “LOS MARTÍNEZ”

 Resultado de imagen de PORTADAS DE LIBROS DE CHAVES NOGALESEn El maestro Juan Martínez que estaba allí, Chaves Nogales realiza un conmovedor relato novelado de los pasos que el bailaor Juan Martínez (1896-1961) y su esposa Sole, bailaora, que se hacían llamar Los Martínez, realizaron para subsistir durante la convulsa revolución bolchevique en Rusia de principios del siglo XX.

La pareja artística, primero triunfó en los tablaos de la Cava Baja de Madrid; después en el París bohemio, donde aceptaron una invitación para realizar una gira a la enigmática Turquía. Jamás podrían imaginar las amargas experiencias que el destino les tenía reservadas. La pareja embarcó en Marsella rumbo a Oriente el día 26 de junio de 1914. Cuarenta días antes de estallar la Gran Guerra (1914-1919).

Sin quererlo, Los Martínez, terminaron atrapados en tierras rusas donde primero la guerra, después la revolución bolchevique, les apretaban los talones. Fueron testigos forzosos de la violenta revolución bolchevique, que quería conquistar el cielo ―para ellos― y el inferno para ―el otro.

En el prólogo de la reedición editada en 2007 por la editorial Libros del Asteroide, el escritor y poeta Andrés Trapiello, escribe: “Chaves Nogales no quiso hacer una novela. El testimonio de Martínez, que seguía trabajando en París en lo suyo, el cabaret, le impresionó. Es un relato lineal, que tras una breve obertura, pasa a labios de Martínez. Podríamos considerar este libro sus memorias rusas. No hay en ellas recuerdos íntimos, ni estudios psicológicos, casi todo discurre por el nudo de los acontecimientos”.

Los Martínez regresaron a España en 1922 y, poco después, volvieron a instalarse definitivamente en París. Chaves Nogales publicó su historia primero por entregas en el semanario Estampa en 1934.

PALABRAS DE BAILAOR

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Retrato del bailaor burgalés Juan Martínez publicado en la revista Estampa a principios del siglo pasado.

Imagen relacionada “Ya ve usted. Yo soy de Burgos, pues, a pesar de eso, estaba entre los musulmanes de Estambul como en mi casa. (…) A los pocos días de estar allí se declaró la guerra. Yo no me di cuenta de lo que era aquello hasta que los directores del teatro donde trabajábamos, que eran franceses, nos dijeron que no podían pagarnos, que cerraban y que se iban. Fuimos a ver al cónsul de España. Como les pasa siempre a nuestros cónsules, no pudo hacer nada. (…) Al principio la guerra no se notaba mucho, pero poco a poco todo fue cambiando. La gente tenía la cara cada vez más apretada, más dura. Ya no volvimos a ver caras anchas, abiertas, sonrientes, hasta muchos años después. Y, la verdad, creo que caras amables como las de antes de la guerra no se han vuelto a ver por las calles de Europa”.

“Yo nunca me he querido meter en política”.

“En Bucarest fuimos a parar al hotel Central, que estaba frente a Correos. Me presenté pidiendo trabajo en un cabaret llamado Alhambra y debutamos a los cinco días. Gustamos mucho y nos sentimos felices. Había pan y paz. ¡Cuántas veces he visto después a los hombres hacerse matar, clamando por estas dos cosas: el pan y la paz!”.

“Aprendí entonces que no es verdad que las revoluciones se hagan con hambrientos. Cuando se tiene hambre no se es capaz de nada”.

“Los bolcheviques, buenos o malos, sostenían que los artistas de cabaret no teníamos derecho a la vida y deseaban que nos muriésemos cuanto antes”.

“Los rojos se impusieron por el terror desde el primer momento, implantando el comunismo de guerra con una ferocidad sin límites”.

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“El viaje a Kiev fue terrible, porque el tren soviético iba lleno de militares, es decir, campesinos a los que días antes les habían dado un fusil y la autorización para asesinar a los padres que se les pusiesen por delante, y aquella gente nos trató a baquetazos. (…) En una estación estaba yo llenando de agua nuestra tetera, sin hacer caso de los gritos, cuando se me acercó un hastial, que de un manotazo me tiró el cacharro, y me dijo:
― ¡Largo de aquí, cochino burgués!
― ¡Largo, si no quieres que te arrastremos! – corearon diez o doce gandules que le seguían.
Me revolví furioso al verme atropellado tan injustamente.
― Pero ¿por qué?
― ¡Porque eres un burgués asqueroso, y te vamos a colgar ahora mismo!
― Yo soy tan proletario como ustedes.
Me contestó una salva de carcajadas. Yo, realmente, con mi cuello almidonado y el gabancito corto que llevaba, debía de tener entre aquellos bárbaros, que lucían las ropas en jirones, un aire bastante ridículo.
― ¡Yo soy tan proletario como ustedes! ¡O más! ― grité exasperado.
― ¡Mentira!
― ¡Mentira!
―O demuestra ahora mismo que se gana la vida trabajando como un obrero o le arrastramos.
― ¿Queréis que os pruebe que soy un proletario? ― pregunté jactancioso.
― ¡Como no lo pruebes no sales de nuestras uñas, canalla!
Hubo un momento de silencio. Les miré a los ojos retándoles y les grité con rabia:
― ¡Mirad, idiotas!
Y les mostraba, metiéndoselas por las narices, las palmas de mis manos deformadas por dos callos enormes, cuya contemplación causó un gran estupor a aquellas gentes.
Eran los callos que a todos los bailarines flamencos nos salen en las manos de tocar las castañuelas.
Ellos me salvaron”. ●

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Busto de Manuel Chaves Nogales obra de Emiliano Barral.

Nota del autor: Artículo publicado en la revista El Siglo de Europa y Acpe

 

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