humor

47) GLAUCO: Cartunista e desenhista de HQ

“MEU TRABALHO É ANTROPAFÁGICO”

por Jairo Máximo

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Glauco em São Paulo / Foto: Marisa Uchiyama

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Ilustração: Castilho

Glauco Villas Boas* (Jandaia do Sul, Paraná, Brasil, 1957) Caricaturista e desenhista de HQ. Em 1978 foi o grande premiado do Salão de Humor de Piracicaba. Em 1980 conquistou o troféu Casa das Américas, vinculado ao Salão de Humor de Cuba. Desde 1980 publica na Folha de São Paulo, onde levanta paixão com seus personagens Cruz Credo, Zé do Apocalipse, Casal Neuras, Geraldão e Geraldinho. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Minha vida profissional é um acidente de percurso”.

Quem é você

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Encontro marcado: Glauco e Spacca no jornal Pícaro em junho de 1986

Nasci sob o signo de Peixes. Sou filho de Maria Aparecida e Leon Villas Boas. Não sou católico apostólico romano e, sim católico romano. Sou parente de 2º grau dos famosos sertanistas Orlando e Cláudio Villas Boas. Casamento com papel passado estou devendo, mas tenho dois filhos Raoni (Guerreiro) e Ipojuã (Guerreiro da Dor). Atualmente tenho 29 anos chutados; divididos entre dez de criancice necessária, dez de adolescente punheteiro e os nove restantes dedicados ao humor. Não transo partido político. Entrei e sai da droga, sem perder o humor e a cabeça. Todos têm um pouco de louco.

Danadinho da vida
Na escola sentava nas carteiras do fundão. Na rua empinava papagaio, fazia troca-troca e desenvolvia meus primeiros desenhos em forma de super-heróis. Em Jandaia do Sul eu tinha 22 primos e todo mundo era primo elevado ao quadrado de todo mundo. Todo mundo era gozador. Metade do tempo a molecada estudava e a outra parte do tempo, todos sentavam na sapataria para falar uns dos outros simplesmente para poder rir.

Adolescência sem trauma
Nesta época eu já desenhava procurando formas para expressar minha arte. Até usava creme para fazer desaparecer as espinhas do rosto. Era uma fase difícil. É a pior idade que tem. Você fica no ar. A gente começa a se masturbar pra caralho, os peitos começam a crescer e os amigos tiram um sarro. Lembro que até raspei o pelinho do saco para ver se crescia rápido. Repartia o cabelo no meio, deixava o bigodinho. Estava começando a tomar jeito.

Acidente de percurso
Minha vida profissional é um acidente de percurso. Fui divulgar um show de música, quando tocava numa banda de baile, daquelas antigas, furiosas, e acabei sendo contratado -recebendo e tudo-, pelo jornal Diário da Manhã, de Ribeirão Preto. Neste momento foi quando eu tomei contato com o jornal Pasquim e em seguida o Fradim, do Henfil. Levei um tapa na cabeça legal e mudei o esquema de super-herói para o humor.

Revelando a manha
No primeiro quadro você coloca uma situação normal. No segundo quadro você detona a situação e, em seguida, sobra o quadro para o resultado final, que pode ser qualquer coisa sem graça. Gosto da imagem e pouco texto.

Quirera do artista
Meu trabalho é resultado de muitas coisas que chupei, alimentei -meio antropofagia. Aquilo que a gente ouve desde moleque. Psicologia caseira. Se fizer isto vai apanhar. Bater punheta cresce verruga na mão. Sei lá, qualquer coisa. Fazer humor é como cagar: você filtra tudo e despeja no quadrinho. Entendeu?

Alienado?
Nos anos 70 a ditadura fechou e os humoristas desempenharam um trabalho de resistência, mesmo! Eles viveram na pele a repressão militar. Mas como a gente faz parte da geração dos anos setenta, pois na época da repressão implacável eu estava jogando bola, depois passei a fumar maconha, escutar rock. Era paz e amor.Festival de Iacanga e outras baladas. É aceitar o trabalho dos outros e pedir para falar de suas experiências.

Emoção infantil
É incrível trabalhar para criança, melhor do que para adulto. As crianças de 4/5/6 anos estão com uma esperteza que te deixa besta e também aquela luz que demonstraram ter. As crianças adoram o Geraldinho. O personagem para elas é real.

Nova geração

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Glauco em São Paulo / Foto: Marisa Uchiyama (Arquivo Blog do Pícaro)

É aquela coisa de soma. De repente a gente encontra uma molecada de 15 ou 16 anos, verdadeiramente incrível. Acredito que está se criando uma nova geração musical. Hoje qualquer garoto pega uma guitarra e estraçalha.

Brasileiro em todas
O povo brasileiro tem a capacidade de não dividir nada, nem vivência, pois tudo o que faz se expressa e manifesta da maneira dele. Isto está explícito no futebol que é uma cabala pura. São 22 arcanos, onde o campo de futebol é cabalístico. A gente tem essas manhas que eu acho incrível que nenhum outro povo tem. Quem é o brasileiro?

Amantes sem Crises
O trabalho do Angeli tem uma afinidade muito grande com o meu trabalho. A gente tem uma troca de energia muito louca. Temos uma identificação de cabeça e ideologia.

Patrão, patrão, patrão…
Censura não existe, pelo contrário. A Folha de São Paulo já abriu espaço para mim fazer coisas do Geraldão que eu não fiz em nenhum outro veículo. Masturbar não pode. É certo compromisso, um bom senso que você tem que ter.

Infuso perturbado
O personagem Geraldão pintou em 1981. Depois passei a desenvolver a tira. Ele foi feito para ficar na minha gaveta. É aquela coisa mais escrota que você faz quando está sozinho consigo mesmo. Aquilo era um autorretrato para mim. Eu podia me expandir sozinho, numa época em que não tinha amigos, pois morava em Sampa há pouco tempo. O Geraldão reflete a incapacidade de você viver numa realidade mágica e ao mesmo tempo no tédio. Essa incapacidade de viver cada minuto de maneira plena, inteiro, que faz com que a gente canalize isto para esta parte do Geraldão, que seria fumar um cigarro atrás do outro, masturbar-se compulsivamente e tomar todas. Ele até mora com a mãe.

Por outro lado, a mãe não permite que ele torne independente. O Geraldão é a tentativa de certa pessoa se realizar e ser aceita como é. No início eu comecei a querer mostrar a tristeza em volta de minha pessoa, no entanto, eu mostrei uma puta criatividade tomando todas, dançando pelado na frente do espelho. É ridículo pra caralho, mas também é emocionante. Pícaro, você nunca dançou pelado na frente do espelho? ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em junho de 1986.

*Glauco Villas Boas morreu em março de 2010 em Osasco, São Paulo, Brasil.

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Glauco no jornal Pícaro em junho de 1986

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro nº 10, junho de 1986, realizado por JAM / Arquivo Blog do Pícaro

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humor

45) WILDE WEBER: Chargista, cartunista e artista plástica

“SINTO COM O TRAÇO E NÃO COM A PALAVRA”

por Jairo Máximo

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Wilde Weber, por Cris Eich

Wilde Weber* (Waldau, Alemanha, 1913) Chargista, cartunista, ilustradora, jornalista e artista plástica. É a primeira-dama do cartum brasileiro por excelência.  Com 19 anos colaborava com importantes publicações europeias e ilustrava diversos livros, inclusive infantis. Há mais de trinta anos seu grafismo ocupa as páginas de política do diário brasileiro O Estado de São Paulo. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Com a charge você pode dizer coisas que a palavra não pode”.

Revelações precisas

Desenho:

Otávio Magabeira, por Wlde Weber

Estudei artes gráficas em Hamburgo, sofrendo influências de Wilhelm Busch, autor de Jeca e Juca; do irônico expressionismo do grupo Simplicius, revista de humor editada em Hanover, que contava com o grafismo de W. Schultz, R. Wilke, K. Arnold.

Chega uma gringa
Em 1933 cheguei ao Brasil e comecei a trabalhar nos Diários Associados como desenhista e chargista. Fiz cerâmica, trabalhei com Volpi e Zanini, pintando azulejos e participando de exposições coletivas e individuais. Em meu currículo constam prêmios da Bienal de São Paulo (1954), pelo conjunto de minhas obras. Prêmio Irineu Marinho (medalha de Ouro) e o prêmio Internacional de World Newspapers Fórum (1960).

Gringa integrada
De 1933 a 1950 colaborei com jornais e revistas, tais como Folha de São Paulo, Noite Ilustrada, O Cruzeiro e outras. Em 1950, a convite de Carlos Lacerda, fui para o Rio de Janeiro, então Capital Federal, e fiquei conhecida por minhas charges políticas, principalmente às de Getúlio Vargas Em 1962 retornei a São Paulo e aqui estou até hoje. O papel da imprensa é informar, ensinar e influir.

Sonho Realizado
Acabo de lançar no Rio de Janeiro, e na 9º Bienal Internacional do Livro de São Paulo, meu particular e desejado livro: Brasil em Charges―1950-1985― uma coletânea de 140 trabalhos que reuni 35 anos de atividades profissionais e um antigo sonho que trazia desde os anos cinquenta, quando ainda residia na antiga Capital Federal.

Moral da História
Com a charge você pode dizer coisas que a palavra não pode.

Revelações Concisas
Nunca faço um trabalho contra a minha própria opinião. Isto não! O trabalho rejuvenesce.

Lazer
Vou bastante ao cinema. Um bom filme é como uma obra de arte que temos que apreciar. Não costumo ir muito ao teatro. Sou apaixonada por leituras -ficção científica, biografias, romances. Gosto dos escritores Isaac Asimov, Dan Brown, Ray Bradbury, Robert A. Heinlein.

Circo, década de 1940, azulejo pintado, por Wilde Weber

Tabu
Quando eu fui para a Capital Federal, na década de cinquenta, eu acreditava que política era mais coisa de homem do que para mulher. No entanto, gostei da experiência de fazer charges políticas e continuo fazendo até hoje. Sinto com o traço e não com a palavra.

Feministas
Não as apoio totalmente. Nós, mulheres, queremos direitos iguais, mas não sermos iguais aos homens. Não admito discriminação.

Não Sei
Eu estou mais para a esquerda do que para a direita. Hoje é difícil encontrar candidatos. Identifico com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro de modo, e uma parte do Partido dos Trabalhadores, mas não sei ainda em que votar.

Pupilos do cartum
Gosto do Chico Caruso, Laerte, Henfil e Paulo Caruso, além do Millôr Fernandes, que ocupa um lugar todo especial nesta lista, pois ainda é jornalista, escritor e cartunista.

Mutante
Gostaria de fazer trabalhos para crianças, pois encontro muitas coisas mal feitas. Criança é um crítico severo. Não me sinto a salvadora do barco. Para contrabalancear com a política quero trabalhar com o desenho infantil. Também adoro fazer desenho para teatro.

Cristos
Antigamente nossos alvos humorísticos preferidos eram os deputados. Hoje são os governadores. Muitos políticos já me pediram os originais dos meus trabalhos. Delfim Netto faz coleção. Dou com o maior prazer.

Ouro Preto, 1944, por Wilde Weber

Nova?
Eu estou achando que a Nova República é uma coisa abstrata. Acho que o José Sarney é um camarada legal, corajoso. Temos que contar com homens, mas estes são sempre os mesmos que possuem egoísmo e procuram tirar proveito e vantagem própria.

Cruzado

Não entendo nada. Eu sou chargista. Não entendo nada de economia e do plano cruzado.

Hereditário?
Sair do jornal O Estado de São Paulo é muito duro. Mas duro que continuar. Se seu penso que não estarei mais ouvindo as notícias em primeira mão, eu me sinto perdida.

Realmente eu gosto do meu trabalho. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em outubro de 1986.

* Wilde Weber morreu em dezembro de 1994 em São Paulo, Brasil.

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Wilde Weber no jornal Pícaro em outubro de 1986

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humor

44) SPACCA: Cartunista, desenhista e roteirista de HQ

“NÃO SEI SE VOU DAR CERTO”

por Jairo Máximo

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Spacca, por Cris Eich

João Spacca de Oliveira, Spacca (São Paulo, Brasil, 1964) Cartunista, desenhista e roteirista de HQ. Mas também é compositor, vocalista, gaitista e astrólogo. Seu humor é refinado e certeiro, leva ao desconhecido leitor variadas reflexões do cotidiano político, econômico e social brasileiro. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Sempre usei o desenho para ganhar as pessoas. É chantagem pura”.

É bom saber
Sou do signo de câncer, com ascendente em escorpião. Tive uma infância normal, sem maiores problemas. Menino precoce, não fui coroinha de Igreja, no entanto, recebi a contragosto a injeção da filosofia cristã da família brasileira. Desde os quatro anos de idade utilizo meus dotes artísticos para conquistar as notonas nas escolas, às atenções dos familiares e, inegavelmente, o amor das gatas. Sou desenhista. Sempre usei o desenho para ganhar as pessoas. É chantagem pura.

Aparece o Spacca
Na flor da adolescência arrumei meu primeiro emprego na agência de publicidade propaganda Young & Rubicam, onde fiquei durante quatro anos aprendendo os macetes profissionais, fazendo story board, layout e filmes vinculados ao humor. Ali fiz muitos amigos.

Safadinho consciente
Na infância fui muito ligado em televisão, escola, e ganhei muitos amigos com desenhos de sacanagem e caricaturas de professores. Acredito que faltou alguma coisa. Usei muito o desenho como arma e esqueci-me de desenvolver o resto.

Rabos de saia
As mulheres são importantes. Nossa! Gosto muito, gosto pra caralho.

Marx ou Cristo
Sinto uma grande pena deles por não terem seguidores decentes. Acho que deixaram o recado e falaram: Agora se virem. Fodam-se. Acredito em Deus porque me ensinaram. Mas para mim tanto faz se existe ou não! Mas que o Papa me dá nojo, como qualquer político, isso dá!

Autorreconhecimento
Gosto de música. Durante dois anos transei uma banda chamada Dalissensa. Fazia as letras, e era também o vocalista. Outro dia fui ouvir uma fita demo da época e… Meu, que bosta! Gosto de astrologia e tenho uma tendência de ficar revendo o passado. Agora, quanto ao meu trabalho, a minha pessoa, tá tudo para ser refeito… A não ser aquilo que ficou bom por descuido.

Free lance sem INPS
Na realidade, esse é o jeito que eu vivo. Só valeu ser empregado pra pagar os macetes necessários para ser free lance. Comparando com o cartum, como free numa agência, se ganha muita grana em pouco tempo. Mas o cartum dá mais excitação. Sei lá, acho uma linguagem forte.

Mídia e eleições
É um belo casal… Candidato é um produto que se vende. As técnicas de venda são as mais eficientes, as mesmas utilizadas com qualquer produto. Propaganda eleitoral é careta em função do público. Não dá prá sentir firmeza (como diz o cartunista Glauco) em nenhum partido político.

Cadê um líder
Tem só o Lula, mas ele tá meio queimado. O Partido dos Trabalhadores é uma zona… Não sei até que ponto um líder, um puto líder nacional poderá lutar contra os Meios de Comunicação de Massas. Num dá, num tem jeito. Acho, sei lá.

Miséria congelada e blefe
Não mudou nada. As pessoas passam fome há tantos anos…

Nova República?
Piada. Na Constituinte serão os mesmos (in) competentes que vão decidir.

Rádio pirata e desobediência
O lance independente é mais barato, mas seu alcance é reduzido. É tanto ruído, interferência que a gente sintoniza as rádios que pegam bem, as mesmas de sempre. Nenhuma preferência. Antes ouvia a 89 FM, mas ela também acabou ficando repetitiva e também não pára de tocar os seus próprios sucessos.

Rock candango
Não gosto desse rock de Brasília, é tudo igual. Todos imitam seus ídolos ingleses, sabe, tudo bem você protestar contra a guerra, mas não precisa fazer pose de revoltado irlandês! Sou chegado em blues, Janis Joplin, Paralamas do Sucesso, Eduardo Duzek, Camisa de Vênus, Chico Buarque de Holanda.

Dançando na prancheta da FSP
A Folha de São Paulo não é tribuna livre. Lá você toca a Voz do Dono… O que é publicado é opinião do jornal, não é do cartunista. Eu aprendi a fazer só cartuns publicáveis pra que sejam aceitos, pra ir embora cedo pra casa… Em troca, eles me dão prestígio. É meio cínico admitir isso… Mas é melhor que trabalhar num jornal e achar que o seu cartum vai mudar o mundo, vai mudar a cabeça de alguém. Isso é besteira.

Metodologia de trabalho
Basicamente é um trabalho cerebral. É ler os jornais, associar fatos, símbolos, e de repente surge à ideia. Aí entra a técnica de como a piada fica mais bem contada, bola balão pra cá, personagem pra lá, um quadrinho, dois quadrinhos. Mas às vezes mesmo assim alguns acabam ficando uma bosta. São esses que o editor exclama “genial”.

Diferença entre jornalismo e propaganda
É tudo igual. Só que jornalista jura que o que divulga é verdade. E publicitário não tem tanta cara de pau.

Dobradinha com Gougon
Muito bom. Eu nem conheço o Gougon pessoalmente, apenas por telefone (ele é de Brasília). Os textos dele são ótimos. No início eu pensei que não fosse gostar de fazer, mas as piadas dele me ganharam. Gostei, quero mais parceiros.

Maconha dá barato e cana
Cada um tem o direito de se intoxicar como bem entender. Com maconha, cocaína, café, açúcar, TV, vida sedentária, etc. Por que uísque não dá cana? Prejudica mais o corpo que maconha. A primeira vez que eu dei uma bola foi para ver se eu tinha preconceito ou era tão liberal como parecia. Foi uma decepção, não virei nem marginal nem nada.

O Humor está em alta
O que significa o humor estar em alta? Que o humor tá vendendo mais, ou que as pessoas estão mais bem humoradas? Acho que isso, nesse caso, o mau-humor é que está em alta. Mas é legal ver o jornal Planeta Diário e a revista o Chiclete (quem sabe o Circo?) darem certo, isso significa que estão sendo bem feitos, bem lançados. Estou em dúvida se as pessoas estão comprando humor mesmo ou se se trata de suas publicações que souberam conquistar um público. Acho que foi assim, na marra.

O sucesso subiu na cabeça?
Subiu, porra se subiu. O normal é subir mesmo.

Mas o problema de ser supervalorizado (afinal as pessoas são cúmplices) é que te concedem poderes que a gente nem tem. É besteira isso. Não, não gosto muito disto não.

Dúvida cruel
Meu trabalho é fazer piada. Trabalho bastante, mas não sei se vou dar certo. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em dezembro de 1986.

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Spacca no jornal Pícaro em dezembro de 1986

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humor

34) LOREDANO: Caricaturista

“NÃO SEI PORQUE PUBLICO”

por Jairo Máximo

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Loredano em Madri  / Foto: Angellis Paraíso

Cássio Loredano (Rio de Janeiro, Brasil, 1948) Caricaturista. Desde anos oitenta ocupa com seu trabalho as páginas do diário espanhol, El País, além de ser colaborador de várias revistas europeias. Antes de brilhar no Velho Continente trabalhou na imprensa carioca e paulista. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Sou espoleta com os amigos, mas no desenho não. No desenho é aquela melancolia portuguesa. Sou vascaíno”.

Quem é Você?
Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do Céu que palpite infeliz. (risos) Bom… Sou um desenhista brasileiro perdido no mundo. Quem sou eu? Hummm…Ta aí: brasileiro, maior, vacinado, casado, desquitado, juntado, separado, casado outra vez e sem filhos. Também sou um português nascido no Rio de Janeiro, triste e quieto. Sou espoleta com os amigos, mas no desenho não. No desenho é aquela melancolia portuguesa. “Sou vascaíno”.

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Araci de Almeida, por Loredano

Sangue viajante
Meu pai era oficial da marinha e por causa disso moramos no país inteiro. Ele vivia sendo transferido todo ano do Rio Grande do Sul para o Paraná, de Minas Gerais para o interior de São Paulo e muitas outras cidades, mas principalmente nas fronteiras brasileiras. Minha mãe e meus sete irmãos mais novos moram em São Paulo até hoje. Ficamos ali porque foi o último lugar que meu pai foi transferido.

Sobrevivendo na Europa
To fazendo o que quero, o que gosto. É muito agradável que te paguem para fazer o que você quer.

Clarice Lispector, por Loredano

Morte, Desejo, Paixão
Eu não tenho nenhuma visão da morte… estas perguntas! Você vai desculpar o que vou te dizer. Meu Deus do Céu me deixa ver uma coisa… Como é que eu vou pegar tudo isso? Não. Redigi aí: Estas perguntas este fulaninho não responde. Não responde por que eu acho que não tem nenhuma relação. Você deve perguntar para qualquer um… (risos). Não tenho nenhuma novidade a dizer, sinceramente.

Quando Goza?
Quando estou desenhando. Quando um sujeito fica muito concentrado pode sair uns desenhos bonitos, entendeu? Não é todo dia.

É Podado no El País
Não dizem nem a nem b. O que eu apresentar esta apresentada; publicado. Completa liberdade. Estava quieto, morando na Suíça, me chamaram. Agora que me deixem em paz.

Cartum Espanhol

Rimbaud, por Loredano

Tá fraco. Tem gente boa, mas não é uma coisa geral. Tá todo mundo ainda meio… ainda não levantaram as cabeças. A Europa inteira está assim. Não é tédio, é desespero. Morreu muita gente na Segunda Guerra. Fizeram muita coisa feia -todo mundo. Nada tem mais graça. Por enquanto não. Tá todo mundo tristísimo. A efervescência, a ebulição cultural, isto tudo acabou. Agora é tudo respeitoso, pesado, medido. Não tem mais “chispa”. Tem é isolamento.

Vícios
Fumar charuto, um costume que gosto de monte. Também adoro uma cerveja, e a cerveja gosta de mim, porque não fico barrigudo. Ah, também gosto de olhar as mulheres. Adoro. Olhar seres humanos, em geral. Eu sou pago para olhar, mas às vezes me criticam um pouco porque sou muito especula. Mas olho sem disfarce. Olho direto, só isso.

Revelação
As questões fundamentais da minha vida são de amores e de trabalho. São as únicas colunas que se mantém em pé. Acabou-se.

Fernando Pessoa, por Loredano

Gosta de Pessoas?
E de Fernando Pessoa… e de ficar olhando. Olhar mais as mulheres do que os homens. Mas por tragédia da minha profissão tenho que desenhar poucas mulheres e muitos homens, quase não há mulheres políticas, escritores, cineastas…

Poucas!
Pouquíssimas, mas na Noruega e na Suécia -por lei- todos os cargos são divididos 5X5 entre homens e mulheres, nos empregos públicos e privados. Não importa se tem competência ou não. Parece que esta lei durará mais cem anos, para que ocorram as experiências necessárias. Depois volta a livre competência, compreende? Por lei, porque senão os homens não vão mais largar a carniça. Por lei 50% de tudo. Então é assim: Quantos ministros? Catorze? Muito bem… sete homens e sete mulheres.

Gostos Musicais
Adoro música… Sou chamado no Brasil como a enciclopédia do samba. Eu conheço os sambas clássicos que ninguém mais conhece. Não tenho nenhum disco em casa. Tá tudo na cabeça: Vanzolini, Charutinho, Noel Rosa… mas detesto dançar. Só consigo dançar samba que é a única coisa que mexe com a minha alma.

E o Rock’n’rolll?
Rock’n’roll eu gosto, mas não sei dançar. Tenho certo prazer espiritual naquilo, mas o samba não. O Samba é dionisíaco. Já não é só espiritual -é alma-, entendeu? É o corpo. É sair e não poder se conter. É isso!

Pablo Neruda, por Loredano

Vendo o Mundo ao Vivo?
Não sai por dinheiro. Sai para não precisar ler traduções. Sai e fui para a Alemanha, Itália, França, para não precisar ler traduções e para ver outras formas de socialização do ser humano e também para compreender que o Brasil não é o maior. A França também é a maior, dizem os franceses. Os espanhóis ficam loucos quando a seleção ganha. A melhor coisa do mundo é você ir lá, ver os outros e compreender o que o outro sente, pensa, vive e como paga as suas contas. A humanidade inteira é igual. Então o que teria que acabar eram os passaportes, as fronteiras e as bandeiras nacionais.

Anarquista. Com certeza?
E por convicção.

Agradando a Europa
Eu não sei por que o meu trabalho agrada. Faço caricatura, no máximo, e não cartum. Quando são políticos “filho da puta” é caricatura. E quando são escritores -queridos meus- são retratos expressionistas, ou psicológicos. Eu não sei, não tem nome. É aquilo e pronto. Agora, cartum é outra coisa. Eu não sei, tenho que te dizer que tenho a impressão que a maioria é cega, não vê bem. Isto dá uma tristeza… Você publica e pensa bem: Eu publico porque tenho um nível razoável. Não. Eles não se apercebem do nível, são cegos. Tai a resposta para a sua pergunta: eu não sei por que publico.

Clementina de Jesus, por Loredano

Sobre o Brasil
É o país do futuro, eternamente.

Desenho Clean
Toda sujeira foi sendo limpa ao longo dos anos. Não vou ficar enchendo o trabalho de informações de merda, de tracinhos, de coisinhas, de suasticazinhas só para dizer que sou de esquerda. Não preciso disso. Limpo: conceito. O olho é o que manda não a palavra.

Onde Está a Imprensa Séria
Nos Estados Unidos é uma coisa séria. Derrubam presidente, mandam o sujeito para a cadeia. Descobrem isso, descobrem aquilo. Na Alemanha também. Agora, no mundo mediterrâneo é outra coisa. A França não tem dessa seriedade. Aqui na Espanha é lógico que não… imagina. Não vou dizer o que eu sei. Tenho que dizer em off Record…

Tu que Sabes

Millor Fernandes, por Loredano

Bom, eu até posso dizer, não posso? Será que é prudente? Mas o presidente Felipe González, do Partido Socialista Operário Espanhol tem um telefone direto com El País que é o maior diário espanhol. Mas não é um telefone direto, é um canal. Ele não manda no que o El País publica, mas o El País acata tudo.

Pressão Internacional não Funciona
Pode ser, pode ser… É um instrumento, se usa muito. A guerra do Vietnã acabou em parte por essa pressão internacional, exterior, depois se originaram manifestações dos americanos. Mas as primeiras manifestações foram na Europa, onde os governos não querem compactuar com aqueles criminosos. Pode ser. Se for assim, está ótimo.

José Sarney é Blefe
Em todo lugar tem gente boa e escrota. Vou cantar um samba, tá chato isso -papo de governo. Qual é o samba que devo cantar, me diz… Quem é você. Lembra-se do Zé Kéti? Hoje eu quero saber quem é você… Em todo o mundo a base é a corrupção, mas no Brasil é um exagero. Brasil, Bolívia, Colômbia, Itália são países extremamente corruptos.

Europa Defende a Amazônia
Primeiro, acho justo que se defenda a Amazônia. Agora, o que eu acho um saco é que os europeus destruíram tudo aqui, a natureza, a Espanha não. Mas quem me enchia o saco com esses assuntos era meus amigos alemães, que acabaram com a paisagem do país deles. Aquilo tudo são rios de química, região de siderúrgicas. O Reno está acabado com as indústrias químicas da Basiléia. Bombardearam tudo lá e estão preocupando com a Amazônia. É justo? Sim, é justo que se preocupem, porque parece ser um dos pulmões do mundo. Bom, isto é o primeiro ponto importante e que deve receber aplausos de todo o mundo. Agora, preocupem-se com o país deles, não é não? Querem encher o saco lá no Brasil, pô! Não fazem nada na casa deles e vão se meter na nossa? Não! ●

●Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista Animal de São Paulo em dezembro de 1990.

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Loredano na revista brasileira Animal (1987-1991) em dezembro de 1990

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31) DANIEL TORRES: Desenhista de HQ e ilustrador

“APRENDI A LER COM HQ”

por Jairo Máximo

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Daniel Torres em Valença / Foto: Cortesia do artista

Daniel Torres (Valença, Espanha, 1958) Desenhista de HQ e ilustrador. Foi estudante de arquitetura, mas logo se revelou um artista gráfico de talento. Sua primeira publicação na área de HQ foi em 1980. Hoje ele publica suas HQs em várias revistas especializadas dos cinco continentes. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Valença, afirma: “A HQ é uma ciência exata. Há um processo e uma incógnita”.

Qual foi o seu primeiro contato com os quadrinhos?
Sempre digo que aprendi a ler com as HQs. Meu pai comprava coleções inteiras para mim e meus irmãos. Gostava muito de HQs americanas -Flash Gordon, Mandrake, Dick Tracy. Lembro-me muito bem dessa época, porque vivíamos em uma cidade pequena e eu tinha muito tempo para ler. Minha infância está vinculada à cultura de HQ, que me abria mundos. Era como tentar entrar dentro da história e a partir daí recriar.

Quem são seus ídolos, na HQ?
Os mesmos de quando eu tinha cinco ou seis anos, os clássicos americanos -Foster, Cannif, Mackay, Falk. Posteriormente, Hugo Pratt; e aos 15 anos, conheci Jijé.

De qual escola seu trabalho recebeu mais influências: da belga ou da americana?
São movimentos distintos, mas sempre tive mais influência da escola americana. Aprendi a fazer HQ com os autores americanos, só depois conheci a escola belga.

Como você vê o mercado editorial na Europa, hoje?
As melhores HQs da Espanha estão em Barcelona, porque é onde estão as editoras. Em Madri -capital da Espanha- não há editoras! Mesmo assim, é um lugar onde se produzem boas coisas. Aqui em Valença havia uma tradição -dos anos trinta aos anos cinquenta-, mas hoje em dia não existe mais. Na Europa, a melhor situação é a da França, porque lá existe uma tradição de mais de um século, que se transmite de pai para filho. Isso não existe na Alemanha, Espanha, Inglaterra e Itália, onde se vende pouco. A Bélgica é o mercado mais potente. Para exemplificar, Triton vendeu cerca de seis mil exemplares, contra vinte mil na França. Já nos Estados Unidos vendeu apenas cinco mil exemplares. Deve haver algo especial lá, você não acha?

No Brasil Triton vendeu mais que na Espanha e Estados Unidos juntos!
O Brasil é um país jovem, com uma população bastante jovem. Gostaria de conhecer o Brasil, fazer uma exposição, conversar com a moçada. O mercado brasileiro existe, tem que ser respeitado e considerado; e os desenhistas brasileiros têm que conquistar o mercado internacional. Fiquei surpreso com o êxito da edição brasileira de Triton (Coleção Animal, número 2). Achei o papel, a impressão e a apresentação de uma qualidade comprável às revistas daqui da Europa e às americanas.

Fazer quadrinhos dá dinheiro, tanto para os artistas como para as editoras?
Sim. Na França, por exemplo, as editoras de HQ estão na mão de grupos financeiros, principalmente bancos, que descobriram que podem ganhar muita grana com isso, porém, sob a ideologia de investimento e retorno. Com isso, é lógico que existe certa inquietude no ar com relação à dobradinha mercado/produção. Dizem que a nova onda é a HQ book, pequena revista com menor preço, maior venda, que proporciona mais lucro e maior difusão. Fiz um HQ book que foi editado no ano passado na França e está vendendo muito bem lá e aqui na Espanha.

Como nasceu Triton, e o que significa para você este personagem?
Criei a história em 83; logo pensei no gênero -ficção científica- e disse: gosto de certo tipo de herói, de certo retrato da sociedade, da decoração dos anos 30/40, dos automóveis dos anos cinquenta… Enfim, a receita é essa: um coquetel. Na série de Roco Vargas fui colocando tudo o que me passava pela cabeça. No terceiro álbum tem uma guerra tipo Vietnã. Recorro, às vezes, à história verdadeira e transformo. Roco Vargas é uma experiência interessante, aprendi muito enquanto realizava esse trabalho. Por outro lado, considero o ato de mentir uma qualidade nas pessoas. Acho que deveriam dar um Oscar para os melhores mentirosos. Contar mentiras é muito difícil, a mentira tem que ser real. Na mentira há uma lógica, e aprender a manter essa lógica é difícil. Se quiser um ambiente de ficção, faço da mentira a minha verdade. Daí surgiu à série de Roco Vargas. Imagino um mundo da maneira como acho que deveria ser. Um mundo com coisas boas e más, com um ambiente que torna a história mais atraente.

Você costuma dizer que é um devorador de imagens. O que isto significa?
É um estado de vigilância constante. Às vezes quero descansar e vou ao cinema, leio um livro… De repente percebo que, mesmo nesse estado de quem não quer nada com nada, a gente vai assimilando coisas. Eu olho muito. Vejo as pessoas, os anúncios, os grafites, a arquitetura. Olho e pronto.

Você disse em uma entrevista que considera a HQ uma ciência exata. Como é isso?
Ciência exata porque todos os elementos têm uma relação entre si, como em uma equação matemática. Há um processo e uma incógnita. A incógnita é a história; como unir todas as dúvidas, montar as peças desse quebra-cabeça que, uma vez ciência, deve ser perfeito, sem ser fácil nem chato. O acaso, o imprevisível também influi neste processo. Isso não quer dizer que o imprevisível seja necessário. A maestria está em não se preocupar com isso. Não acho que existe uma fórmula, tenho a sensação de que nunca consigo fazer o que quero. Sempre procuro ir além, mas a humanidade está aí fora e pensa, geralmente, que a melhor HQ é a que eu fiz antes.

E qual é a melhor história?
A de que eu mais gosto é aquela que ainda vou fazer… ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista Animal de São Paulo em agosto de 1990

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Daniel Torres na revista brasileira Animal em agosto de 1990

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humor

29) FELIPE HERNÁNDEZ CAVA: Roteirista e editor de HQ e artista plástico

“A HQ É UM TRABALHO QUASE EVANGÉLICO”

por Jairo Máximo

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Felipe Hernández Cava em Barcelona / Foto: Círculo Leitores de Barcelona

Felipe Hernandez Cava (Madri, Espanha, 1953) Desenhista, roteirista, editor de HQ e artista plástico. Foi fundador e editor da histórica revista de HQ Madriz -um marco no boom dos quadrinhos espanhóis dos anos oitenta- e um dos primeiros editores a publicar autores que atualmente são figuras de destaque na HQ espanhola e mundial. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “A HQ tem características industriais que devem ser associadas ao desenvolvimento dos meios de comunicação impressos”.

Almas românticas
A HQ é um trabalho quase evangélico, de idealistas. É algo para almas românticas dispostas a abrir mão da ambição e da tentação do dinheiro em nome de um desfrute pessoal, salvo algumas exceções.

O novo
Creio que atualmente os quadrinhos mais interessantes são os produzidos na Itália e na Espanha, países onde existem tradições muito ricas e, ao mesmo tempo, pessoas desenvolvendo trabalhos muito interessantes, à margem da indústria.

Sair da marginalidade
A revista Medios Revueltos é uma continuação da extinta Madriz. Nossa obsessão sempre foi tirar a HQ da marginalidade, mostrar que é possível e viável relacionar a HQ com o interesse por outras manifestações artísticas. É uma revista que existe há dois anos, mas que se mantém à duras penas. Dificilmente conseguimos cumprir a periodicidade estabelecida -a princípio trimestral. O último número atrasou nove meses, e dificilmente conseguimos anunciantes. A saída que encontramos pelo momento, é fazer tiragens de 100 serigrafias da capa de cada número, assinada e numerada pelos artistas.

Salões, salões
Os salões de HQ são necessários para dar uma saída comercial ao meio. Ao mesmo tempo, devido a certa mentalidade mercantilista, podem se transformar em simples pontos de encontro para compra e venda. O que se nota com frequência é a falta de atenção aos aspectos culturais e artísticos dos quadrinhos. Muitas exposições estão vinculadas aos interesses dos editores em potencializar a personalidade de um autor que estão editando ou vão começar a editar, e poucas vezes os critérios destas exposições têm um caráter amplo e ambicioso.

As origens
Existe uma grande discussão sobre as origens dos quadrinhos. Tem gente que, tentando buscá-las, e levando, sobretudo em conta seu aspecto narrativo, chegou às pinturas rupestres e as às covas de Altamira, onde podemos encontrar sequencias que fazem alusão ao comportamento dos caçadores pré-históricos. Tudo isso me parece excessivo, porque a HQ tem características industriais que devem ser associadas ao desenvolvimento dos meios de comunicação impressos. Não creio também que, como pensam os americanos, os quadrinhos tenham nascido nos Estados Unidos e que a primeira HQ tenha sido Yellow Kid. Acho que existem antecedentes muito importantes na Europa, como as aventuras de Max e Moritz, do alemão Whihelm Bush, ou mesmo alguns trabalhos do desenhista e gravurista  francês Gustave Doré.

O inferno de Dante 18 – Gustave Doré

Trabalhar em dupla
Existem duas possibilidades. A primeira é fazer um roteiro duro, dando ao desenhista indicações muito precisas de como devem ser as páginas e tudo mais. Isto é necessário, sobretudo se existe uma distância física e mental entre o roteirista e o desenhista. Em outras ocasiões, quando se trabalha entre amigos, o roteirista se converte em mero criador de diálogos e situações, dando ao desenhista ampla liberdade gráfica.

América Latina
O mercado latino- americano sempre acusou forte dependência dos Estados Unidos, sendo, preferencialmente, um mercado de consumo e não de criação. Contudo, em algumas ocasiões a HQ serviu como um instrumento contra esta agressão. Os exemplos que estou recordando agora são os trabalhos feitos durante a Unidade Popular do Chile de Salvador Allende, alguns trabalhos de origem mexicana, como do de Rius, e os trabalhos do peruano Juan Acevedo. No geral, porém, o país que a meu ver faz as colaborações mais interessantes em todo o continente Latino Americano é a Argentina, onde se encontra uma ótima escola de roteiristas e desenhistas.

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Felipe Hernández Cava, por Federico Del Barrio

E o Brasil?
Quanto ao Brasil, fundamentalmente, reconheço meu alto grau de desconhecimento. Tive sempre a ideia de que é um país totalmente dominado, e, no entanto, tive a ocasião de conhecer trabalhos de desenhistas notáveis, preparados para a caricatura e o humor, como é o caso de Ziraldo e Loredano.

E o Spacca…
Publiquei um trabalho do Spacca, a cores, de quatro páginas na revista Medios Revueltos número 5. Tive acesso a alguns autores brasileiros através de você, que me passou as revistas Animal, Níquel Náusea, Monga, Geraldão e Chiclete com Banana, e o Spacca me pareceu um desenhista brasileiro muito interessante, porque em outros desenhistas sinto uma forte relação gráfica com autores americanos e europeus. Acho o trabalho do Spacca bastante pessoal, original, e que se encaixa na tradição e no domínio das linhas que eu sempre associei, dentro do conhecimentoserpientes que possuo, ao estilo gráfico brasileiro.

Neste momento, o que você está fazendo?
Estou fazendo muitas coisas. Recentemente escrevi um roteiro de TV, destinado à TV Autônoma de Valência, sobre a trajetória de Daniel Torres, dentro de uma série monográfica que pretende falar dos cinco mais importantes artistas gráficos de Valência: Michard Moore, Mike Beltrán, Miguel Catalaud, Cento e Daniel Torres. ●

• Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista Animal de São Paulo em fevereiro de 1991.

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Felipe Hernández Cava na revista brasileira Animal em fevereiro de 1991

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2) MAX: Desenhista de HQ e ilustrador

“A LEITURA DISPARA MINHAS VERTENTES CRIATIVAS”

por Jairo Máximo

Foto Max

Max em Palma de Maiorca / Foto: Carme Aguilló

Francesc Capdevila, Max (Barcelona, Espanha, 1956) Desenhista de HQ e ilustrador. Em 2007, ganhou o primeiro Prêmio Nacional de HQ, instituído pelo Ministério de Cultura da Espanha, pela publicação do álbum “Fatos, ditos, ocorrências e andanças de Bardín, o super-realista”, que segundo o júri “é uma obra graficamente deslumbrante, com um roteiro repleto de referencias literário, filosófico e cinematográfico”. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Sou do tipo passeante, caminho sem rumo definido”.

263344Abro o quadro. Coloque a primeira frase nesta entrevista.
Um hieróglifo bastante conhecido: se vê um cachimbo desenhado e abaixo dele a frase ceci n’est pas une pipe. Gosto destas coisas, os paradoxos filosóficos ou matemáticos, os enigmas da Esfinge, os jogos de adivinhança. Eles são inesgotáveis, sempre têm cantos para serem explorados, disparam a imaginação. [Aqui Max faz referência a um dos trabalhos mais famosos do belga Rene Magritte, a tela “A traição das imagens”].

O que você sentiu quando soube que tinha ganhado o primeiro Prêmio Nacional de HQ instituído pelo Ministério de Cultura da Espanha? Uma grande satisfação. Sempre é assim ver o trabalho reconhecido. Ainda mais quando, como neste caso, trata-se de um prêmio recém-criado e que, de alguma maneira, significa um reconhecimento institucional a HQ, equiparando-a finalmente às demais disciplinas artísticas.

Considera que isto mudará alguma coisa na sua trajetória professional? Em principio, não. A trajetória está aí e os meus projetos criativos pessoais para o futuro imediato continuam sendo os mesmos. Pode ser que o prêmio reflita num aumento de leitores das minhas HQs. Quem sabe também, espero,melhores oportunidades quanto a trabalhos de encomenda como ilustrador. Sem dúvida, este prêmio dá um prestigio especial, porém vamos ver se repercute numa melhora das condições diárias de trabalho, minhas e de meus colegas.

Quem descobriu quem: você a HQ ou a HQ você?
Sou do tipo passeante, caminho sem rumo definido. Sei que aparecerão coisas no meu caminho, mas em geral eu não estou fazendo nenhuma procura especial. Não sei se eu era assim desde criança, quando um dia alguém colocou em minhas mãos a primeira HQ. Na adolescência,quando comecei a desenhá-lás, fiz sem pensar em nenhum momento que aquilo podia chegar a se transformar na minha futura profissão.

1Em 1990 fiz uma entrevista exclusiva com você para a revista brasileira Animal [1987-1991] que publicava suas HQs. Naquela época, você me disse: “cada personagem que crio é como um filho. Ganho dinheiro com a HQ”. Continua assim?
Quanto aos personagens sim. Porém, pouco depois daquela entrevista, decidi acabar com meu personagem Peter Pank, e fiquei uns anos longe da HQ, dedicando-me à ilustração. Quando quis voltar à HQ comprovei que tinha perdido muitos leitores. Então foi quando decidi a criar Bardín. Percebi que sem um personagem, é difícil conservar o leitor. Justamente por este distanciamento voluntário deixei de ganhar dinheiro com a HQ. Mas também é certo que todo o setor entrou em crise no final dos anos 80, com o desaparecimento das revistas mensais. Atualmente não poderia sobreviver somente fazendo HQ. Meu trabalho neste momento é menos comercial, um pouco mais experimental, e isso se nota nas vendas. Mas fui eu mesmo quem, inconscientemente, procurou esta situação. Ganho a vida fazendo ilustrações, e desta maneira sinto-me livre para fazer as HQs que quero fazer sem estar sujeito às regras mercadológicas. O único problema é que, com este sistema, tenho pouco tempo para me dedicar a HQs, consequentemente minha produção é escassa.

libro_1417626164Quem é Bardín, o super-realista? Como nasceu? Como convive com ele?
Nasceu como um experimento. Não queria voltar a criar um personagem que acabasse se convertendo em minha prisão. Os personagens são assim: têm uma personalidade bastante definida, uma psicologia previsível e nada mutante, está obrigado a serem eles mesmos sempre, aconteça o que acontecer, caía quem caía. Tentei o contrário: um tipo sem personalidade definida, de aspecto anódino e vulgar, aberto a qualquer coisa, com reações sempre imprevisíveis. Uma cesta na qual pudesse colocar qualquer coisa em qualquer momento. Que me permitisse mudar de registro, de tom, de lugar. O importante nas suas historias não é ele, e sim o que lhe passa. Pensei que assim não me cansaria. E, no momento, assim é: convivemos maravilhosamente. Com certeza influi o fato de que não lhe forço, de que trabalho com ele bastante intermitentemente, sem pressas nem pressões. Diria que ainda tem bastante corda

Como foi o processo de criação do premiado Bardín, o super-realista, que também ganhou os prêmios a melhor obra, melhor roteiro e melhor desenho do Salão Internacional de HQ de Barcelona de 2007?
A partir de 1997 comecei a fazer histórias curtas, sem um plano pré-determinado para ver o que acontecia. Ia publicando em lugares diferentes. Fui explorando possíveis registros gráficos e temáticos. Um par de linhas foi se delineando: os pesadelos, os encontros com entidades místicas, às conversas de bar. Publiquei dois comic-books baseados neste tipo de histórias, em 2000 e 2002. Quando tive material suficiente para pensar numa recopilação em livro, revisei e vi que o conjunto, ainda que bastante heterogêneo, tinha sentido. Finalmente introduzi uma história nova e longa, para dar contundência ao livro.

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Max em Madri em 1990 / Foto: Manuel Blanco (Arquivo Blog do Pícaro)

Cria sua obra em Palma de Maiorca, e edita em Barcelona. Aonde chega mais longe? Quem compra mais?
No mundo atual, é indiferente onde você viva e não importa onde publica. Tudo circula muito e rapidamente. O livro Bardín o Super-realista, de fato, foi publicado simultaneamente em co-edição na Espanha, França, USA e Holanda. Em seguida, houve edições em italiano, alemão e catalão, esta, um esforço pessoal. A edição castelhana já está na terceira edição, e nos Estados Unidos e na França funciona relativamente bem. Sobre as outras edições ainda é cedo para se ter dados precisos.

Qual é o papel da literatura na sua obra?
Importantíssimo. Sempre me abasteço de fontes literárias. A leitura dispara minhas vertentes criativas mais que qualquer outra coisa. Inspiraram-me muito os relatos mitológicos gregos. José Luis Borges, Lewis Carroll, Franz Kafka, Edgar Allan Poe e Howard Philip Lovecraft desde a juventude. Dylan Thomas, Robert Graves, C.G. Jung, a poesia china clássica, o nonsense inglês… Ultimamente o chileno Roberto Bolaño e o japonês Haruki Murakami.

Hoje em dia onde se faz a melhor HQ?
Em todos os lugares. Existem pessoas boas em qualquer país. No entanto, naqueles lugares onde a tradição é solida, se nota mais: França, Estados Unidos, Japão.

bA Espanha vive o auge do gênero HQ?
É preciso distinguir. Eu diria que o que se vive é um auge editorial: edita-se muito, tanto material espanhol como internacional, de todos os gêneros, para todos os gostos. Além disso, parece que finalmente se consegue que determinadas HQ de alta qualidade (neste momento etiquetadas de “novela gráfica”) alcancem as grandes livrarias ou os shopping-centers, e parece que o público aumenta. Mas os auges criativos dos autores sempre estiveram aí. Nunca se deixou de fazer boas HQs, só que nos anos 90 isso não era visível, e hoje em dia sim. Também existe um auge de notícias sobre HQ. Os meios de comunicação descobriram que falar de HQ nas seções de cultura os torna mais respeitáveis. Enfim, os sintomas são bons.

O que você pensa do recolhimento da revista de HQ espanhola El Jueves acusada de atentar contra a honra do príncipe herdeiro, e a posterior condenação do desenhista Guillermo Torres e do roteirista Manel Fontdevila a pagar três mil euros de multa?
É absurdo recolher uma publicação, porque no final das contas o que se consegue é dar mais eco para aquilo que se pretendia silenciar. Penso que esta lição os juízes aprenderam bem. As multas, me parece lhe colocaram simplesmente para manter o tipo e limpar a cara, ou isto me pareceu a mim. Todos estão expostos à sátira e à gozação, como todos estamos expostos e podemos escorregar em uma cascara de banana na rua e manter a linha, além do escorregão, provocando risadas de quem estiver por perto. Penso que ninguém deve ser uma exceção. Os reis do Medievo eram mais sábios que os de hoje em dia: tinham seu bufão, que era intocável, e tinham licença absoluta para tirar um sarro do seu senhor com prazer. O logotipo da El Jueves é, precisamente, um bufão.

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Ilustração: Max / Arquivo Blog do Pícaro

O profeta Maomé não pode pertencer ao universo do humor e, no entanto, Cristo e o rei Juan Carlos podem pertencer ao universo do humor. Qual é a saída?
Não existe saída, não se cedermos um só milímetro conquistado na luta pela liberdade de expressão porque é uma batalha cotidiana, e os censores se encorajam a cada triunfo e buscam mais. Se se cede com o Maomé, logo virão os cristãos para solicitar o mesmo tratamento.

Como você vê o governo do primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero?
Ufa! Bastante medroso. Começaram com bastante energia, mas de repente começaram a ter medo até da igreja católica. Será que ainda acreditam que hoje em dia alguém ainda escuta os bispos?

Você nunca pensou em criar um personagem chamado ZP [siglas pela qual o primeiro-ministro espanhol Zapatero é popularmente conhecido na Espanha]?
Nunca me interessou a referência às situações ou personagens determinados da realidade. A minha linha é transportar a realidade a lugares imaginados ou fantásticos, tirá-la do contexto cotidiano, e assim revelar aspectos dela que de outra maneira passariam despercebidos. Eu já usava esta técnica com Peter Pank (tribos “urbanas” na selva), e continuo utilizando-a com Bardín.

O que você sente quando fica sabendo que houve um atentado no Afeganistão, Iraque, Líbano, Palestina, Paquistão? Isto é democracia; isto não é democracia…?
Isto é loucura e fanatismo. Mas não vamos posar de puristas. Aqui todos são muito democratas, mas se organizou uma guerra civil não faz tanto tempo, e na Europa se organizou uma matança atroz. Sinto muito, eu também penso que a civilização é só uma capa muito fina que se rasga com grande facilidade. Penso, além disso, que o humor é imprescindível para fazer esta capa um pouco mais resistente. Eu nunca vejo nenhuma graça em todos estes endemoniados que pensam que fazendo jorrar sangue as coisas lhes serão melhor.

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Ilustração: Max / Arquivo Blog do Pícaro

Como vê a inevitável miscigenação que vive Espanha desde os anos 90 do século passado?
É inevitável. As coisas mudam, mas nós custamos a nos adaptar. As incertezas nos deixam nervosos. Mas nada voltará, por mais que alguns se empenhem. Os seres humanos têm medo do novo que exige mudanças de atitude, de adaptação. Temos que ficar espertos, faz falta a curiosidade, e mais uma vez, o bom humor…

A série infantil norte-americana Vila Sésamo recentemente foi classificada, em seu próprio país, como só para adultos. São os desenhistas e roteiristas uns depravados ou inofensivos monstros das bolachas?
Os monstros das bolachas só levam a reflexão. Pode ser que isto seja alguma depravação? Sem dúvida, para os outros monstros, os de verdade, os que não são peludos, desprezam as bolachas, nunca estão de bom humor e preferem devorar consciências.

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Ilustração: Max / Arquivo Blog do Pícaro

Um desenho pode ser uma arma de destruição de massa?
Evidentemente que não. Do mesmo modo que o violão de Pete Seeger, contra o que proclamava, jamais matou a nenhum fascista. Do mesmo jeito que minha pena não é minha espada. Um desenho é uma maquininha de pensar, o qual é bastante mais modesto. Ela me faz pensar e pode (somente pode) fazer pensar quem a lê ou veja. Ainda que para alguns, isso possa lhes parecer bastante depravado.

Qual a mensagem que gostaria de enviar para os novos desenhistas?
Hum… A mensagem de sempre. Este é um trabalho duríssimo, cheio de incertezas e quase sempre mal remunerado. Assim, ou se têm uma amor desaforado pela HQ, ou melhor, é procurar outra profissão. Em compensação, a satisfação pessoal de inventar e desenhar histórias são uma coisa indescritível.

Você poderia citar um ditado popular entre os que mais gosta? Nunca me recordo destas coisas quando me perguntam. Não tenho nenhuma frase pendurada nas minhas paredes. “Tudo flui, nada permanece”, continua sendo, parece-me, a grande verdade desta vida.

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Ilustração: Max / Arquivo Blog do Pícaro

Qual é a dor e o prazer de chegar aos 50 anos?
O prazer é o de ver tudo desde uma distância um pouco relativizadora, não me ver arrastado por todos os ventos. Provavelmente seja uma ilusão, mas é prazeroso. A dor é bem mais concreta (a minha, nas costas). O corpo já nem sempre segue docilmente a cabeça. E o tempo, que se escorre como água entre os dedos… Com isso, lido bastante mal.

Fecho o quadro. Coloque a última frase nesta entrevista.
Uma adivinhança (fácil):
Qual é o lugar onde terminam todas as historias? ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista El Siglo de Europa, na agência Eurolatinnews e no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) em janeiro de 2008.

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Max na revista espanhola El Siglo de Europa em janeiro de 2008

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