Comunicação

Desvendando um jornalista de patas

Resultado de imagen de portadas del libro El oficio de contar“Ainda existem pátrias na terra para os homens livres”. (Chaves Nogales)

Por Jairo Máximo

Madri, Espanha  ─ (Blog do Pícaro) – Antes de começar a ler a bem documentada biografia Chaves Nogales – O ofício de contar, de Maria Isabel Cintas Guillén, catedrática de Língua Castelhana e Literatura e doutora em Filologia Hispânica pela Universidade de Sevilha, já tinha lido e ouvido boas críticas referentes a esta obra. Além disso, sabia do esforço que a autora fez ─depois de defender, em 1998, a tese “Manuel Chaves Nogales. Quatro reportagens entre a literatura e o jornalismo”─, para resgatá-lo do ostracismo imposto pelos franquistas e outras forças políticas.

Resgate histórico

Chaves Nogales, O ofício de contar (2011), é um primoroso trabalho de resgate histórico sobre a intensa e surpreendente trajetória profissional do jornalista e escritor espanhol.

“Manuel Jacinto José Domingo Chaves Nogales nasceu no dia 7 de agosto de 1897, na Rua Dueñas, nº 11, “rua triste e silenciosa”, como ele a definiu, no centro histórico de Sevilha”, escreve Cintas Guillén. “Morreu no dia 4 de maio em Londres vítima de uma peritonite. Foi enterrado no cemitério de Fulham (North Shueen y Mostake) em Richamond, Kew, perto de Londres, no dia 11 de maio de 1944. Assim consta no registro. Tumba CR19. A cova é identificável entre dois túmulos”.

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A perseverante Cintas Guillén durante a promoção do livro O ofício de contar.

Em uma fotografia que a autora encontrou em Londres, realizada durante o funeral de Chaves Nogales, estão: A. Sala (advogado catalão refugiado empregado da agência do jornalista), J. Motriz de Aragão, embaixador do Brasil; Mac Ewen, amigo; D. A. Rosenweig Díaz, embaixador do México; J. Jaramillo Araújo, embaixador da Colômbia; Frances Kaye, secretária e colaboradora de administração na empresa; J.M. Bianchi, embaixador do Chile; Márquez Ricaño, da embaixada do México; Paz Castillo, da Venezuela; os ministros de Cuba e da República Dominicana e outros.

Na capital inglesa, o jornalista fundou uma agência, escreveu artigos para jornais latino-americanos e trabalhou como jornalista no frente de guerra, ao lado dos exércitos aliados que lutavam na Europa contra a Alemanha nazista.

Para o escritor basco Pío Baroja (1872-1956), o sevilhano Chaves Nogales era um jornalista de patas, aquele que busca a notícia onde ela está, com eficácia e um ponto de risco.

Chaves Nogales – O ofício de contar é, simplesmente, um compêndio de dados sobre a sua vida profissional que reuni ao longo de um tempo determinado. Durante muitos anos consultei arquivos, bibliotecas e hemerotecas, primeiro em Sevilha e Madri, depois em Paris e Londres e, em seguida, na América Latina, procurando colaborações e informações numa averiguação minuciosa”, explica a autora.

 Boca a Boca

A primeira informação que Cintas Guillén encontrou sobre Manuel Chaves Nogales foi por intermédio do doutor Reyes Cano, da Universidade de Sevilha, em 1990, quando ela lhe pediu que sugerisse um tema para elaborar sua tese de doutorado.

Resultado de imagen de portadas del libro El oficio de contar“Ele disse-me que se tratava de um jornalista sevilhano que tinha escrito uma biografia do toureiro Belmonte, com a qual tinha obtido um relativo êxito: era o autor de outro livro sobre a revolução russa, O mestre Juan Martínez que estava ali, e, logicamente, falou-me do seu livro sobre Sevilha, A cidade, um dos melhores sobre o tema local tão em moda nas primeiras décadas do século XX. Proporcionou-me alguns poucos artigos de imprensa relacionados com o jornalista. Disse-me, também, que de vez em quando, algum intelectual intercedia por ele e lamentava que continuasse sofrendo um injusto ostracismo”, explica Cintas Guillén.Resultado de imagen de portadas del libro Belmonte, de Chaves Nogales

Oito anos depois, em 1998, Cintas Guillén defendeu a tese “Manuel Chaves Nogales. Quatro reportagens entre a literatura e o jornalismo”.

Em seguida, ela continuou averiguando a atividade profissional de Chaves Nogales, autor de uma inspiradora obra literária que inclui esplêndidos artigos jornalísticos, reportagens, biografias, contos e romances.

Na introdução do O ofício de contar, ela conclui que dois temas destacam-se no conjunto de interesses informativos de Chaves Nogales, “que não são outros que as duas grandes forças locomotoras de todas as comoções sofridas pela Europa no século passado: a revolução russa e as suas conseqüências, e a presença no panorama europeu do nazismo e do fascismo, expressões para o jornalista de um mesmo caráter antidemocrático, filhos de um mesmo sentir totalitário, implacável e destruidor. (…) Em um país pouco dado à imparcialidade e em uns momentos de posturas visceral como sinônimo de comprometidas, tentou manter a mente serena e relaxada ao julgar os acontecimentos, realizando contínuos apelos à calma e conciliação quando os gritos da luta impediam o sossego. Pagou com o ostracismo à ousadia deste intento, que se demonstrou inútil. No entanto, o tempo lhe traz de regresso, como uma onda de uma maré que volta a beira de uma Espanha que já conhece muito bem os resultados daquelas aventuras, e está em condições de evitar que se repita a história. Otimista sem trégua foi capaz de declarar, nos piores momentos do êxito que teve que viver em solidão: “Ainda existem pátrias na terra para os homens livres”.

Fragmentos de O ofício de contar

“Chaves Nogales era capaz de estabelecer conexões que atravessavam a mais simples notícia ao âmbito mais atual e denso de conteúdo”.

Resultado de imagen de capa do livro As ruinas do império russo

“Uma editora portuguesa, a Editorial Enciclopédia Limitada (Lisboa – Rio de Janeiro) começou a publicar em 1935 a sua coleção “As grandes tragédias reais”, (dando à palavra real à acepção de verdadeira), com a reportagem “As ruínas do Império Russo”. A editora justificava a publicação deste trabalho assim:

            Chaves Nogales o narra [refere-se ao panorama da Rússia branca] com aguda e inexorável verdade, com a crueza e serenidade de um grande mestre da reportagem, ouvindo as misérias dos lábios dos próprios miseráveis, pintando uma extensa galeria de quadros ao ar livre, palpitante e surpreendente, sobre um fundo de sangue, ódio e neve, o mesmo telão de fundo que serve para a execução de Nicolau II, do pequeno herdeiro, da Imperatriz e das princesinhas, na grande ratoeira de Ecaterimburgo, sobre a neve implacável…”.

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Lo que ha quedado del imperio de los zares, foi publicado na Espanha em 1931.

“O governo de Franco quis eliminar o vestígio do jornalista condenando-o no dia 16 de maio de 1944 (uma semana após sua morte), e através do Tribunal de Repressão da Maçonaria e o Comunismo,

            (…) a pena de prisão de 12 anos e um dia de prisão de menor, e a proibição perpetua para ocupar qualquer cargo do Estado, Corporações Públicas e Oficiais, Entidades Subvencionadas, Empresas Concessionárias, Gerencias e Conselhos de Direção de empresas privadas, assim como cargos de confiança, chefia ou direção dos mesmos, afastando-o definitivamente dos mencionados cargos, que proceda a busca, captura e prisão do sentenciado. (…)*

*Expediente da condenação de Chaves Nogales por pertencer à Maçonaria. Aproximadamente dois milhões e meio de pessoas foram fichadas como “vermelhos” [comunistas] e inimigos do Estado Novo.Imagen relacionada

O homem que estava ali

Depois de terminar a leitura da biografia O oficio de contar, imagino uma novela ou uma série de TV sobre os 47 anos ─bem vividos?─ de Chaves Nogales, o homem que estava ali, de peito aberto, sem perder o estilo e a ética. Um espanhol inquieto dono de uma pluma privilegiada que desfrutou do êxito do profissional e acabou no ostracismo.

“Talvez alguém algum dia decida novelar a vida de Chaves Nogales, da qual nem tudo está dito e escrito. Não faltará nela fatos de grande interesse. No meu caso foi um atrevimento tentar fazer uma biografia, somente profissional, de quem foi considerado por seu Belmonte o melhor biógrafo do século XX espanhol”, constata Cintas Guillén. •

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Chaves Nogales, em Astúrias, Espanha, com as testemunhas do assassinato do padre de Sama (diário Ahora, 27 de outubro de 1934).

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CHAVES NOGALES: DE PEITO ABERTO

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Manuel Chaves Nogales / Foto: Arquivo Pessoal Pilar Chaves Jones.

Por Jairo Máximo

MADRI – Espanha – (Blog do Pícaro) – O jornalista e escritor espanhol Manuel Chaves Nogales é autor de uma inspiradora obra literária que inclui esplêndidos artigos jornalísticos, reportagens, biografias, contos e novelas.

“Minha técnica – a jornalística – não é uma técnica científica. Andar e contar é o meu ofício”, dizia o jornalista.

Segundo os estudiosos, alguns dos melhores livros jornalísticos de língua espanhola têm sua inconfundível autoria. A leitura de um deles conduz a outro e assim sucessivamente.

Manuel Chaves Nogales (Sevilha, 1897 – Londres, 1944) utilizou a pluma como uma navalha para contar os fatos tal como eram. Ia direto ao ponto sem subterfúgios. Fez parte de uma estirpe de jornalistas que nos anos 30 viajavam com frequência ao estrangeiro para realizar reportagens e entrevistas.

Democrata e republicano convencido, durante toda sua vida ―profissional e pessoal― lutou para ser livre e se manter livre. E conseguiu!

“Sou um pequeno burguês liberal cidadão de uma República democrática e parlamentaria”.

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Filho de mãe pianista e pai jornalista, desde jovem começou a exercer o ofício de jornalista em sua cidade natal. Em 1923, durante a entre guerra, chegou à Madri. Entre os anos 1927 e 1937 saboreou o êxito, escrevendo reportagens para os principais jornais da época.

A partir de 1931 foi diretor do diário Ahora (1930-1939), publicação favorável a Manuel Azaña (1880-1940) ―político e escritor que foi presidente do Governo entre 1931 e 1933, e presidente da Segunda República entre 1936 e 1939. Chaves Nogales era um reconhecido partidário de Azaña. Apoiava a República e não se deixava levar pelas correntes totalitárias que arruinavam Europa.

DAR A CARA

Quando estourou a Guerra Civil espanhola, no dia 18 de julho de 1936, Chaves Nogales se colocou ao serviço da Segunda República, até que o Governo abandonou definitivamente Madri, e se instalou em Valência, momento no qual, pressagiando a vitória dos franquistas e a posterior catástrofe eminente, em novembro deste mesmo ano, decide se exilar com sua família em Paris, sem ter renunciado nunca às suas convicções democráticas nem às suas lealdades republicanas.

Na capital francesa escreveu para um grande grupo de jornais americanos de língua espanhola que publicavam suas crônicas “redatadas única e exclusivamente ao serviço da causa francesa”, afirmava. Ao mesmo tempo, diariamente, a Rádio Francesa para Espanha e América do Sul divulgava seus comentários de atualidade. Além disso, em Paris, fundou e editou uma pequena publicação sobre atualidade destinada aos exilados republicanos na França.

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Em 1940, depois de saber que era objetivo dos nazistas que estavam às portas de Paris, Chaves Nogales se mudou para Bordeaux antes de ir morar definitivamente em Londres. Na capital inglesa, fundou uma agência, escreveu artigos para jornais latino-americanos e trabalhou como jornalista no frente de guerra, ao lado dos exércitos aliados que lutavam na Europa contra a Alemanha nazista.

“Porém, a catástrofe da França, como a da Espanha, não era a derrota definitiva. Era somente uma nova etapa dolorosa de uma luta que não tem pátrias nem fronteiras porque não é senão a luta da barbárie contra a civilização, das forças destruidoras contra o espírito construtivo e o instinto de conservação da humanidade, da mentira contra a verdade…”, escreveu no prólogo do relato A agonia da França, publicado em Montevidéu, em 1941, e reeditado na Espanha quase sessenta anos depois. Neste relato, Chaves Nogales conta com lucidez como o país que tinha sido durante um século e meio o faro da democracia no mundo se colocou em junho de 1940 aos pés do nazismo.

Em 1944 quando tinha apenas 47 anos, Manuel Chaves Nogales, morreu de uma peritonite, em Londres, Reino Unido, onde descansa em paz numa tumba desamparada. Dignificou uma profissão prisioneira do servilismo político. É um referencial do bom jornalismo. Construiu uma obra difícil de catalogar.

“Ambicioso, vazio, extravagante, a hora de Chaves Nogales passou. Nem foi, nem é e nem voltará a ser nada”, escreveu o desprestigiado jornalista Francisco Casares no livro Azaña e eles: cinquenta perfis vermelhos (1938).

Contudo, com o passar do tempo, Manuel Chaves Nogales seria considerado “um paradigma” de intelectual comprometido com seu tempo. “É um dos grandes, o que soube disparar de uma distância precisa”, considera o escritor e jornalista valenciano Manuel Vicent.

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Cartaz do documentário O homem que estava ali, sobre o inclassificável jornalista e escritor Manuel Chaves Nogales.

Banido e esquecido pela direita e pela esquerda espanhola durante mais de sete décadas, atualmente seus livros são reeditados com êxito. Sobre seu legado se organizam conferências, colóquios e se publicam diversos textos sobre sua pessoa. Como reconhecimento, o governo de Sevilha editou sua obra jornalística completa em três tomos. Em 2011, María Isabel Cintas Guillén publicou a premiada biografia Chaves Nogales, O ofício de contar, sobre a trajetória profissional do jornalista e escritor. Também, em 2013 se estreiou o documentário O homem que estava ali, baseado em sua pessoa e legado. Em Alcorcón, em Madri, há um colégio público que tem o seu nome e, na capital espanhola, tentam, sem muito êxito, honrar-lhe com o nome de rua depois de sete décadas de sua morte.

 PRONTO PARA LER

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Ler hoje a obra de Chaves Nogales ajuda a compreender a história do século XX. Inesquecíveis são: A defesa de Madri, reportagem publicada em 16 capítulos na imprensa mexicana, em 1938, e editado em livro em Sevilha em 2011; a biografia Juan Belmonte, matador de toros. Sua vida e suas façanhas (1935); a novela O maestro Juan Martínez que estava ali (1934), ou a surpreendente reportagem O que sobrou do Império dos czares (1931), publicada originalmente nesse mesmo ano no jornal Ahora. Revela a vida dramática dos dois milhões de pessoas que tiveram que abandonar à Rússia depois da Revolução de 1917, uma revolução que naquela época era defendida e admirada pela esquerda espanhola.

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Suas diversas reportagens, entrevistas e perfis de famosos e anônimos, realizadas de peito aberto, lhe levaram a ser considerado como um dos melhores jornalistas do século XX. Sua obra é um antídoto para aqueles que hoje em dia anseiam “conquistar o céu” a base de mentiras e manipulações. Nos não tão distantes anos 30 Chaves Nogales já denunciava contundentemente que o populismo mata.

“É uma lei histórica que todo povo vencido adota fatalmente a forma de governo do vencedor”.

Em Com sangue e fogo ―heróis, bestas e mártires da Espanha, publicado pela primeira vez no Chile em  1937, título de nove emocionantes e alucinantes relatos que ele escreveu sobre a Guerra Civil espanhola (durante seu exílio na França) é um manual que reforça o sem razão das guerras. Na Espanha são muitos aqueles que consideram que esta obra é um dos melhores livros escritos sobre a Guerra Civil espanhola (1936 ―1939).

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No prólogo desta obra, Chaves Nogales constatou: “Mas a estupidez e a crueldade se apoderaram da Espanha. Por onde começou o contágio? Os caldos de cultivo desta nova peste, germinada nesse grande panteão da Ásia, nos proporcionaram os laboratórios de Moscou, Roma e Berlim, com as etiquetas de comunismo, fascismo ou nacional-socialismo, e o despreocupado homem celtibero os absorveu avidamente. (…) É perder tempo tentar apontar os focos do contágio da velha febre fratricida neste ou naquele setor social, nesta ou naquela área da vida espanhola. Nem brancos nem vermelhos têm nada que dizer um do outro. Idiotas e assassinos foram produzidos e atuaram com idêntica profusão e intensidade nos dois bandos que se dividiram Espanha”.

TOUREANDO UM TOUREIRO

Na biografia Juan Belmonte, matador de touros: sua vida e suas façanhas, considerada a melhor biografia escrita em espanhol, Chaves Nogales conta a vida de seu compatriota, o toureiro Juan Belmonte García (1892―1962), que no começo do século 20 brilhou como ninguém ―dentro e fora― das arenas espanholas, numa época em que a devoção às touradas era transcendente e chegava a diversas classes sociais que professavam uma paixão febril pela tauromaquia, a arte de tourear.

A biografia do sevilhano Juan Belmonte, apelidado Pasmo de Triana, que foi escrita como uma autobiografia é fruto dos vários encontros que o jornalista, que não era amante das touradas, teve com o toureiro. Narra a apaixonante história daquele menino Juan que nasceu pobre e sofreu preconceitos na infância, porém, quando cresceu se tornou uma celebridade imensamente rica “fundadora do toureio moderno”.

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Depois de saborear a glória, e com quase 70 anos, Juan Belmonte se suicidou em abril de 1962. Apesar de ser um suicida, se permitiu que ele fosse enterrado no cemitério São Fernando de Sevilha.

Para Chaves Nogales, “Belmonte tinha um forte espírito de superação e caráter conciliador, inimaginável em um toureiro”.

No prólogo da reedição editada em 2009 pela editora catalã Libros del Asteroide, o poeta e escritor espanhol Felipe Benítez Reys, escreve: “Com este livro sobre Juan Belmonte, Chaves Nogales deu uma lição de literatura e uma lição de jornalismo que consegue ascender ao âmbito da grande literatura”.

Idealizado originalmente como folhetim, Juan Belmonte, matador de touros: sua vida e as suas façanhas, foi publicado pela primeira vez na revista espanhola Estampa, entre junho e dezembro de 1935 em 25 magníficos capítulos.

 PALAVRAS DE TOUREIRO

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“Tenho que insistir na minha convicção de que o toureio é fundamentalmente um exercício de ordem espiritual e não uma atividade simplesmente esportiva”.

“Uma tarde eu estava toureando em Tablada às margens do rio; tinha atravessado de uma margem a outra nadando, e toureava completamente desnudo. Da outra margem do Triana, umas mocinhas que voltavam do trabalho em alguma fazenda me cumprimentavam de longe, agitando alegremente os braços. Tinha conseguido separar um bezerro e quando percebi que estava sendo contemplado de longe por aquele grupo feminino, comecei a tourear com todo o estilo que era capaz. Em um dos lances o bezerro passou tão perto de mim, que me cortou o lábio. Rodei pelo chão. Já estava outra vez de pé e com a blusinha nas mãos quando ouvi o eco perdido do grito de terror que na outra margem deram as mulheres quando me viram ser ferido. Percebi que o ferimento era pequeno; no entanto, como acontece com todas as feridas no rosto, sangrava abundantemente. Percebi que o contratempo não era grave e deixei que o sangue escorresse por todo o corpo para continuar toureando. Não queria ser mal visto por aquelas mulheres que do outro lado do rio se entusiasmavam vendo aquele jovem garoto pelado que toureava sozinho o touro. Mas quando elas me viram com o corpo coberto de sangue se assustaram e começaram a dar uns gritos espantosos. Umas tapavam o rosto com as mãos, outras corriam até a margem do rio me chamando com vozes de angustias, outras fugiam horrorizadas. Levaram à Triana uma imagem espantosa daquele garoto que toureava sozinho, desnudo e sangrando em pleno campo de Tablada.”

“O dia em que se toureia a barba cresce mais rápido. É o medo. (…) Não é necessário dar muitas voltas. É o medo. (…) É um íntimo amigo meu. (…) O medo nunca me abandonou. É sempre o mesmo. Meu companheiro inseparável. (…) O medo que se passas nas horas que antecedem uma tourada é espantoso. (…) Muda o tom de voz, se emagrece de hora em hora, modifica-se o caráter e surgem na gente umas ideias extraordinárias. Depois, quando já se está frente ao touro, é distinto. O touro não deixa tempo para a reflexão”.

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“Sempre me sublevo ante aos abusos do poder”.

“Teve uma época que as touradas tinham uma ressonância e transcendência que hoje não tem. (…) Era a época em que depois de uma boa tourada se encontrava gente toureando pelas ruas”.

“Se eu fosse ensaísta no lugar de toureiro, me atreveria a esboçar uma teoria sexual da arte; pelo menos, da arte de tourear”.

“Hoje, depois de milhares de anos, todos nós comemos o touro. A besta está dominada e derrotada. E, naturalmente, o touro está em franca decadência. Se conseguiu tudo o que se podia conseguir. O touro não tem hoje nenhum interesse. É uma pobre besta derrotada. (…) Subiste a beleza da festa, mas o elemento, a emoção, a angústia sublime da luta selvagem se perdeu. A festa está em decadência”.

DANÇANDO COM JUAN

Na obra O mestre Juan Martínez que estava ali, Chaves Nogales realiza um comovedor relato sobre os passos que os dançarinos de flamenco Juan Martínez (1896-1961), e a sua mulher Sole, realizaram para subsistir durante a revolução bolchevique na Rússia do começo século 20.

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A dupla artística denominada “Los Martínez”, primeiro triunfou em Madri; depois na Paris boêmia, onde aceitaram um convite para realizar uma turnê na enigmática Turquia. Jamais poderiam imaginar as amargas experiências que o destino lhes tinha reservado. O casal embarcou em Marselha com destino ao Oriente no dia 26 de junho de 1914. Quarenta dias antes de começar a Primeira Guerra Mundial (1914-1919).

E foi assim que, sem querer, Los Martínez, encurralados em terras russas, viveram primeiro a guerra, depois a revolução bolchevique, que lhes perseguiam.  Foram testemunhas a força da violenta revolução bolchevique, que queria conquistar o céu- para eles- e o inferno para o outro.

No prólogo da reedição realizada em 2007 pela editora catalã Libros del Asteroide, o escritor e poeta Andrés Trapiello, escreve: “Chaves Nogales não quis fazer uma novela. As declarações de Martínez, que continuava trabalhando em Paris em cabarés, o impressionaram. É um relato linear, que após uma breve introdução, passa para os lábios de Martínez. Poderíamos considerar este livro como suas memórias russas. Não existe nela recordação íntima, nem estudos psicológicos, quase tudo transcorre em função dos acontecimentos”.

Em 1922, Los Martínez retornaram à Espanha, e pouco tempo depois voltaram a morar definitivamente em Paris. Chaves Nogales publicou sua história primeiro por capítulos no semanário Estampa, em 1934.

PALABRAS DE DANÇARINO DE FLAMENCO

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Retrato do espanhol Juan Martínez publicado na revista Estampa.

“Veja bem… Eu sou de Burgos, na Espanha, e apesar disso, estava entre os muçulmanos de Istambul como se estivesse na minha casa. (…) Poucos dias depois de estar ali se iniciou a guerra. Eu não compreendi o que era aquilo até que os diretores franceses do teatro onde trabalhávamos nos disseram que eles que não podiam nos pagar porque fechavam o negócio e abandonavam o país. Fomos ver o cônsul da Espanha. Como sempre passa com os nossos cônsules, não podia fazer nada. (…) No começo a guerra não se percebia muito, porém pouco a pouco, tudo foi mudando. As pessoas tinham a cara cada dia mais desconfiada, mais rude. Não voltamos a ver caras alegres, suaves, sorridentes, até muitos anos depois. E para ser sincero, acredito que caras amáveis como as de antes da Primeira Guerra não se voltaram a ser vistas pelas ruas da Europa”.

 “Eu nunca quis me meter em política”.

“Em Bucareste nos hospedamos no hotel Central, que estava em frente ao Correios. Apresentei-me pedindo trabalho num cabaré chamado Alhambra e estreamos cinco dias depois. Gostaram muito do nosso espetáculo e estávamos felizes. Tinha pão e paz. Quantas vezes depois presenciei homens matando homens, todos clamando por essas duas coisas: o pão e a paz!”.

“Naquela época aprendi que não é verdade que as revoluções se fazem com famintos. Quando se tem fome não se é capaz de nada”.

“Os bolcheviques, bons ou ruins, insistiam que os artistas de cabaré não tínhamos direito de viver e desejavam que morrêssemos o quanto antes”.

“Os vermelhos se impuseram utilizando o terror desde o primeiro momento, implantando o comunismo de guerra com uma ferocidade sem limites”.

“A viagem a Kiev foi um horror, porque o trem soviético ia cheio de militares, quer dizer, de camponeses que dias antes tinham recebido um fuzil e a autorização para assassinar qualquer pai de família que encontrasse pela frente, e aquela gente nos tratou a golpes. (…) Numa estação eu estava enchendo de água nosso bule, sem prestar muito atenção aos gritos que ouvia, quando de repente se aproximou um grandalhão grosseiro, que com violência pegou o utensílio da minha mão e disse:
― Vai embora daqui, porco burguês!
―Fora, se não quer ser preso! ―disseram em coro uns dez ou doze safados que lhes seguiam.
Fiquei furioso por ser tratado tão injustamente.
―Mas, por quê?
―Porque você é um burguês asqueroso e vamos te enforcar agora mesmo!
―Eu sou tão proletário como vocês.
Respondeu-me uma gargalhada coletiva. Realmente, eu, com meu pescoço rígido e o blazer curto que levava, devia ter para aqueles bárbaros que se vestiam de farrapos, uma presença ridícula.

Imagen relacionada ―Eu sou tão proletário como os senhores! Ou mais! ―gritei desesperado.
―Mentira!
―Mentira!
―Ou demonstra agora mesmo que você ganha à vida trabalhando como um operário ou te prenderemos.
―Quereis que eu lhes prove que sou um proletário? ―perguntei petulantemente.
―Se não provar agora mesmo não escapará de nossas unhas, canalha!
Ouve um momento de silêncio. Desafiante olhei para os seus olhos e gritei com raiva:
―Veja! Idiotas.
E mostrava, passando pelos seus narizes, as palmas de minhas mãos deformadas pelos enormes calos, cuja contemplação causou um grande impacto naquelas gentes.Eram os calos que saem em todos os dançarinos de flamenco de tanto tocar as castanholas.
Eles me salvaram”. ●

Artigo publicado em espanhol na revista El Siglo de Europa e Acpe

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50) MARCELO TAS: Repórter e ator

“NÃO TENHO PARTIDO POLÍTICO”

por Jairo Máximo

Dibujo

Marcelo Tas em São Paulo / Foto: Jorge Beraldo

Marcelo Tas (Ituberava, São Paulo, Brasil, 1960) Repórter e ator. Mas também é ator, pianista -estudou sete anos de música clássica- e ex-engenheiro. Atualmente incorpora o personagem Ernesto Varela, o melhor ator/repórter da TV brasileira que joga com a palavra, a estética e a ética. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Os comunistas brasileiros são uns porcos, são um bando”.

Como foram as origens da coisa?

O repórter Ernesto Varela entrevistando Lula / Foto: Reprodução Blog do Tas

Tudo começou quando o Goulart de Andrade abriu um espaço em seu programa de TV para o Olhar Eletrônico. Ele deu total liberdade para a gente. Neste programa eu era produtor, mas como fazia teatro, comecei a brincar com a câmera, de ficar na frente, fazer gracinhas. Era um dia chuvoso. Peguei os óculos vermelhos do Fernandinho, que é colecionador de óculos, e comecei a brincar de repórter, com as coisas óbvias. Nasceu naturalmente. Demos um nome -Ernesto Varela- e ele começou a entrevistar pessoas reais – políticos, artistas e o público em geral na rua.

O Marcelo Tas perdeu a identidade profissional ao incorporar o emergente personagem Ernesto Varela?
Acho que não. O Varela é uma pessoa que vive dentro de mim. Agora pintou o Bob McJack que é o apresentador do Crig-Rá; diferente do Varela O Bob é mais plástico, mais moderno. Enfim, é um cara modernoso. O Varela é tradicional. O Bob é rock, sanduíche. Personagens que podem aparecer ou não. Vai daí que a gente vai trabalhando.

Na infância você fez troca-troca?
Mas é claro.

Politicamente qual é a sua?
Bem estou trabalhando como a maioria dos brasileiros, com esperança de melhorar o País. Nada de esperar coisas do governo. Os políticos conseguiram chegar ao limite da descrença e agora estão querendo recuperar a profissão desacreditando. Vão ter que provar tudo com trabalho. Agora, com a Nova República, eles têm mais respeito com os brasileiros. Se eu votasse em São Paulo votaria em Fernando Henrique Cardoso.  Mas eu não tenho partido político.

Você usa drogas?
Que tipo? Droga a gente consome o dia inteiro. O ar que respiramos aqui é uma droga. Eu acho.

Estou falando em drogas/drogas: maconha, álcool, haxixe, cocaína?
Olhe, eu acho que isso não tem importância. O importante está em outro lugar. Tudo tem que ser encontrado um ponto justo. As drogas na minha vida não têm importância. Eu não uso ou uso raríssima vezes. Uso pouco.

O repórter Varela era uma brincadeira. Hoje ele está no mundo  -Cuba, Nova Iorque, Moscou. Qual é a emoção desta viagem progressista?
De repente é um susto. Andando em Moscou eu me sentia alucinado, como o feito de uma droga, pois sem usar droga a gente viaja também. O Varela é um trabalho consciente de pesquisa. Na produtora Olhar Eletrônico a gente se reúne bastante. Temos um rigor de trabalho. Aquilo que na TV aparece ser um delírio esta dentro de uma base sólida. Pé na terra. Viajar é bom.

Nenhum comunista comeu a criancinha do Varela em Moscou?
Não, não. Os comunistas preferem agora comer caviar e tomar vodca. Eles estão em outra. Fomos muito bem tratados, de uma maneira especial. A gente fez matérias com certo constrangimento: duas pessoas acompanharam todas as gravações. Eu só não dormia com estes caras. Isso atrapalhou, mas ao mesmo tempo revelou todo este controle que há na União Soviética. Eles são todo um império. São poderosos. Têm tecnologia avançada.

Como a população é servida desta tecnologia?
As pessoas moram direitinho. Recebem um salário que permite uma sobrevivência boa. Para eles o que interessa é servir à média. Quanto aos “privilegiados” eles consideram que tem que ter mesmo, porque são pessoas que têm responsabilidade de tocar o Partido. Mas tem geniais que estão confinados. A rebeldia existe. Às vezes é criativa e é estimulada.

Como o debochado Ernesto Varela pode passar para o público esta visão?
Passei através de uma coisa que ele tem: simplicidade. O Varela estando em Havana, Moscou, Queluz ou Rio Preto, é a mesma coisa. Ele é ingênuo, caipira e tradicional. Inexperiente diante de tudo. Ele é óbvio. Procura sempre o que atrai na rua. É curioso.

Você dormiu com alguma comunista em Moscou?
Não deu tempo. Cheguei a paquerar. As soviéticas são surpreendentemente descaradas. Elas na rua te caçam. Elas vêm em cima de você e ficam falando, falando. Elas são tímidas, mas na rua… Lá durante o verão o dia se põe a meia noite. Vai daí que, quando acabava o dia, que eu ia dormir tranquilamente.

A jornalista Belisa Ribeiro (TV-Bandeirantes) disse que a Rússia é um país de velho e criança. Esperança e experiência. Você endossa isto?
Aqui a juventude é a base. Lá, a primeira pirâmide deles é a Segunda Guerra Mundial, onde morreram 20 milhões de pessoas. Foi um corte na população masculina violento. A visão da juventude soviética para mim é de um grande animal que se movimenta muito lentamente.

O próprio urso seria?
É, talvez. É uma boa imagem. Não tem gestos bruscos. Fiz uma pergunta para eles de quando seria a próxima revolução russa. Não entenderam, não responderam. Para eles só houve uma e não vai existir outra revolução. Os caras falam de produtividade agrícola para o ano 2000. Os planos são em longo prazo. Nós, no Brasil, somos um país primário -lambões. A gente resolve as coisas no chute. Acredito que neste momento estamos nos tornando adolescentes.

Onde pode ocorrer uma revolução dentro da União Soviética?
A falha para mim é na área da informação. Não existe inquietação, que é própria do Ocidente. Não há troca entre outros mundos. Eles têm uma ideia de incrementar, de mudar isto. Não é à toa que fomos lá fazer umas matérias. Tudo estava nos planos quinquenais.

Marcelo Tas reuni frases do presidente Lula em livro

Você acabou de ter contato com estilos diferentes de comunistas -soviético, cubano e brasileiro. Traça um perfilzinho deles pra gente?
O comunista soviético mora na matriz. É competente. Conseguiram dar uma qualidade de vida para as pessoas. Tem o problema da desinformação do mundo. Precisam ocidentalizar a informação! O comunista cubano é um comunista desenvolvido. O país é pobre, mas é um cara bem-humorado, gozador. Bem próximo ao brasileiro. Eles estão vivendo um processo primário em relação à União Soviética. Agora, o comunista brasileiro é aquele que ainda esta anos-luz atrasado em relação a estes outros dois. A maioria da delegação que foi a Moscou era do Partido Comunista Brasileiro. Sabe, na volta, depois de toda aquela maravilha de um povo asseado, as ruas limpas, os brasileiros invadiram as lojas de souvenir do aeroporto e levaram as coisas de bacias. Consumistas pra caralho. Os comunistas brasileiros são uns porcos; são um bando. Nós temos que nos civilizar e crescer muito. Estamos num estado bruto. Às vezes desanima, mas vamos trabalhar. Você me manda um jornal Pícaro quando sair à entrevista?

Mando! Ah, a vida sexual do Varela explodiu depois do sucesso nacional?
Manteve na mesma. Sou um rapaz tímido, contido na minha vida sexual. Como é que você me faz uma pergunta dessas, rapaz…

Qual a reação dos políticos, quando entrevistados pelo Varela?
Às vezes eles chegam extremamente preocupados e saem dando risadas; ou então as vezes chegam dando risada e saem extremamente preocupados.

E o seu projeto de mudar a bandeira nacional está andando?
Ele está aí, em andamento. Somos a única bandeira que tem uma coisa escrita. As bandeiras são símbolos. Se a Nova República é nova, então, não precisa de Ordem e Progresso na bandeira. Concorda Pícaro? Abraços. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em outubro de 1985.

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Marcelo Tas no jornal Pícaro em outubro de 1985

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro, nº7, outubro de 1985, realizado por Cris Eich / Arquivo Blog do Pícaro

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Comunicação

38) TARSO DE CASTRO: Jornalista e editor

“ESCREVER É UM PROCESSO DE ENCANTO”

por Jairo Máximo

TARSO DE CASTRO

Tarso de Castro, por Cris Eich

Tarso de Castro* (Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil, 1941) Jornalista e editor. Descende de família italiana imigrante. O pai era proprietário do jornal O Nacional, fundado em 1925, em Passo Fundo. Quando era criança caiu na profissão e foi vender jornal do pai nas ruas da cidade. Depois de marmanjo, foi editor, diretor e fundador de sete respeitadas e históricas publicações jornalísticas brasileiras. Primeiro O Panfleto, depois O Pasquim, Já, Folhetim, Enfim e Careta. Nesta entrevista exclusiva, concedida no Rio de Janeiro, afirma: “O grande tesão da minha vida é estar vivo”.

Bach! Tchê… Um Lead Real
Em meu currículo constam passagens homéricas em diversas empresas -jornais, revistas, TV- e, em especial no Serviço Nacional de Informação, onde estão registradas as duras que sofri em função do espírito irônico que norteava minhas crônicas, entrevistas e reportagens. Desde outubro de 1986 ressuscitei O Nacional, com a força de antigas feras do nosso jornalismo como Cláudio Abramo, Moacir Werneck de Castro, Paulo Caruso, Luis Carlos Maciel, Tão Gomes Pinto, Alex Wolinski, Eric Nepomuceno, Fausto Wolff e outros.

Quem eres tu?
Ah! Mas eu não vou dizer tudo isso não. Assim eu vou passar dias e dias conversando com você. Tá maluco! Eu só tenho 15 minutos para esta entrevista.

(risos) Vamos lá… Quem é o Tarso de Castro?
Eu nem faço análise… (risos)

(risos) Por isso mesmo!
O meio não vai gostar? (risos) Eu sou como vocês me veem. Ando meio, meio muito maduro.

Escrever é o grande tesão de sua vida?
[Pausa para o drink] Não. O grande tesão da minha vida é estar vivo.

Mas onde fica a escrita?
É um componente. É um componente. Sei lá. Adoro minha máquina de escrever. Escrevo o tempo inteiro, sem pegar na máquina -é lógico! Gosto dos meus textos etc. e tal. Tô menos dependente das opiniões dos outros e mais navego em minha opinião. É uma coisa de cabeça. Escrever é um processo de encanto. É como se estivesse acordando de um sonho, com aquelas imagens imaginárias.

Trabalhas pensando no hoje ou no amanhã?
[Pausa para o drink] Sabe que nunca pensei nisto. (risos) Mais tenho uma ampla necessidade de amanhã. Acho que eu escrevo pra frente. Quando eu digo assim: Este babaca do José Sarney… é porque para mim ele já ex-presidente da República, pois já estou no futuro. Estou acima dele, além dele. Preciso estar no amanhã.

A trinca: droga, poder & mulher, representa o poder, ou são coisas distintas?
Não. O poder… Por exemplo, eu cheirei durante 20 anos.

Porra! Meu…
(risos) Aí vamos dizer que a gente cheirava se divertindo. Eu, o Sérgio Porto, o Paulo Francis -que ainda vive cheirando. Ele acha que é dono de Nova York por isso! Então a gente cheirava…

Você tomou muito LSD (ácido lisérgico-25)?
Não! Só uns 400… (risos) Mas então, quer dizer, tem um estágio maravilhoso da cocaína que é o seguinte: no tempo de paz e calma eu cheirava para trabalhar. Foi uma coisa fantástica. Bom… Aí uma noite cheguei a casa; passei dois dias virados, aquelas coisas, falando e ouvindo besteira e aquela coisa e tal e o meu filho estava morrendo. Eram 4 horas da manhã. Eu não tinha carro. Cadê o meu poder? Não existia poder…

Paranoia?
Paranoia porra nenhuma. Não existia poder. Eu tava tonto, tão desprovido, tão frágil que não podia falar com o médico. Aí senti a enorme e maravilhosa sensação de volta ao ser humano normal. Chamei um amigo e falei: por favor, leve meu filho ao médico que ele está morrendo. Foi aí que nunca mais cheirei porque achei que já tinha passado a fronteira da burrice.

Marx ou Cristo?
[Pausa para o drink] Boouzzie… (risos)

Porque nasceu o jornal O Nacional e o que ele pretende?
O Nacional, em 1925, nasceu porque existia e há um domínio muito grande da província do Rio Grande do Sul. Agora, acho que ele renasceu como uma coisa quase mágica. Eu tinha reunido uma equipe e coisa e tal para fazer uma reforma na Tribuna da Imprensa. Aí, nesta Tribuna que vendia assim -dois mil exemplares ou mil exemplares por dia, ou 800, que praticamente não é nada- sendo que em um mês a gente levou o jornal de 800 para 20 mil exemplares.

Em um mês?
Aí entraram chantagens e o jornalista Hélio Fernandes pressionando e coisa e tal. Mas o governo que queria cortar a publicidade… Como o Hélio Fernandes é um chantagista e como todo dinheiro que entra vem por baixo. Então, eu pedi demissão. Não permitia que ele entrasse na redação e opinasse e falasse. Fazia parte do meu contrato de trabalho. Enfim, quando eu saí pedi para que todo mundo ficasse trabalhando lá mesmo. E ninguém ficou. E aí, pensei…, como tá todo mundo desempregado, por minha causa, e não quero isso: e o pessoal dizia: Não, que é isso… Bobagem! Então, bom, eu disse, vou um abrir um jornal para vocês. E eu tinha jurado nunca mais trabalhar numa redação de jornal. Um erro leva ao outro. Recomecei O Nacional sem ter um tostão no bolso. Alguns amigos emprestaram dinheiro e aí fui avisando as pessoas que ia fazer um jornal. Até que um dia fui falar com o governador de São Paulo, Franco Montoro, de quem eu gosto muito. Fui lá e falei que queria fazer um jornal. Aí ele falou: vamos almoçar? E fui almoçar com o governador e ele disse como se ia chamar o jornal. E eu disse: olha, tenho dois nomes para o jornal, um O Parcial, que eu achava engraçado. Sou parcial mesmo. Não acredito em jornalista que não seja parcial. Imparcial é Villas-Bôas Corrêa, Carlos Chagas -que são babacas. Parcial com liberdade ou imparcial fazendo mentira. Enfim, o outro nome era Jornal Diário. Aí o Montoro disse: Porque você não põe O Nacional?

Não diga que o nome veio do governador Franco Montoro…

Entrevista que polemizou o Brasil em 1969.

Aí eu falei: você sabia governador que o meu pai era dono de um jornal chamado O Nacional, em Passo Fundo? Ele disse não. Então eu disse: é um recado do céu, o nome vai ser O Nacional. Na verdade quem deu o nome do jornal foi o Montoro.

Gostas do Franco Montoro como pessoa ou administrador?
Como governante. Como também gosto demais do Lula, entende? Como acho o Eduardo Suplicy um incompetente…

O Partido dos Trabalhadores (PT) é uma zona generalizada?
[Pausa para o drink] Ah! Todo mundo sabe o que acho. Acho o PT um colégio de normalista. Acho que o PT está melhorando porque ele entrou no convencional. Afinal, o Lula é deputado… Mas quero dizer bem claro que gosto do Lula. Ele é um bom sujeito. Mas acho que tem o defeito que não é dele…

Da estrutura do PT?
Não, da estrutura do Brasil. Nós somos mal-educados para a democracia, para a vida pública. Nós fomos educados pelos ideais dos fazendeiros. Nós não estamos no capitalismo. Nós estamos no colonialismo capitalista. Então, o erro do Lula são erros que independe dele. O Lula é produto do nosso meio. E o Montoro dentre esses homens é uma das melhores coisas. Coisa que não atributo ao Ulysses Guimarães, que é meu amigo há muitos anos. O Ulysses é um patife… Ele é senhor das indiretas. Hoje ele é mais traidor que o José Sarney. O Sarney nem é traidor…

Está subordinado às Forças Armadas?
É um bobo alegre. É um bobo alegre. (risos)

E se o Tancredo Neves estivesse vivo?
Se o Tancredo estivesse vivo haveria pelo menos um presidente da República do Brasil. E nós temos um chefe de Estado que não manda.

O Sarney disse que os empresários são anarquistas. Pode?
[Pausa para o drink] Mas isto foi nocaute. Quer dizer, os empresários não fazem desobediência civil, greve, porra nenhuma. Desobediência civil é uma coisa honesta e os empresários brasileiros são desonestos, mentirosos e não querem dar a fatia do bolo. Mas vão se foder! Eu não sei no Brasil o que temos de pior: se as Forças Armadas, os empresários ou o PMDB.

Você veste a camisa do Partido Democrático Trabalhista (PDT)? O Leonel Brizola é o seu coronel?
[Pausa para o drink] Não! Não! Acho que o Brizola é o único caminho viável para impor eleições logo. Só isso.

Aqui no Rio de Janeiro o Fernando Gabeira teve mais de 500 mil votos na coligação PT/PV (Partido Verde). E aí…
Adoro o Fernando Gabeira e quem trouxe o Fernando de Minas Gerais para o Rio fui eu, para fazer o jornal O Panfleto. Moramos juntos quando ele veio de Minas. Moramos -eu, ele e Paulo César Pereio. O João Vicente -meu filho- vai passear com a filha dele, com ele e comigo -volta e meia- aqui no Jardim Botânico. Então ele é um ótimo sujeito, um ótimo amigo. Agora, penso também que foi linha auxiliar do político Moreira Franco -da direita. Infelizmente. Jamais diria que ele fez isto premeditadamente. Mas claro que ele não deve admitir isto porque tem uma série de babacas em torno dele, de idiotas que conheço e que são egressos do PDT e coisa e tal. O fato é que o Rio de Janeiro mergulha no reino da mediocridade.

E Sampa com o Orestes Quércia?
Eu nem conheço o Quércia direito. Mas o negócio de caipira dele eu acho muito engraçado. Quer dizer, entre aquele falso moralismo, falso reacionarismo e falso purismo, eu preferia o Quércia… Não entendo São Paulo… Quer dizer, se a Câmara dos Vereadores escolheu uma mesa janista, eu não entendo. São Paulo quer se fuder mesmo!

Você não tem medo físico da direita?
Já tive preso seis vezes e tive nove processos. E lá dentro a gente descobre o seguinte: a gente tem destino. Nada mais que isto.

Acreditas em destino?

Fundadores do Pasquim:  Millôr, Luiz Carlos Maciel, Paulo Francis, Bárbara Oppenheimer, Sérgio Cabral, Jaguar, Tarso de Castro, Danuza Leão e Ziraldo na revista “Realidade”, em 1970.

(risos) Mas o que tem de mal meu Deus do céu; eu viajo pela Varig. (risos)

Porque existe um medo explícito de Leonel Brizola? É o carisma?
[Pausa para o drink] O Brizola é candidato a presidente da República. O Brizola independe de ganhar ou perder eleição, se ele for posto na rua hoje -para qualquer cargo- ele ganha. Mas ele não tem o poder de transferir votos.

Gosta de cinema, teatro, música…
Gosto demais de cinema. Mas sou louco é por musical, pois cai um garfo no chão e eu acho que é musical. Gosto de Antonioni. Adorava o trabalho de Glauber Rocha -é claro! Tenho aqui em casa, a última carta do Glauber, anunciando que ia morrer. Ele ligava para essa casa onde estamos diariamente. Era meu irmão. Paixão!

Vistes o Cinema Falado de Caetano Veloso?
Sabe que eu não vi. Mas tenho certeza que gosto. O Caetano Veloso também é meu irmão. Esse grupinho nosso -Chico Buarque, Caetano, Gil, Edu Lobo- se criou junto.

E o Gilberto Gil no poder?
Acho gênio. A verdadeira Bahia está surgindo com o Waldir Pires que é uma pessoa maravilhosa. É o povo baiano chegando ao poder.

E o Paulo Francis em Nova York? A franga brilha?
É um veado de direita. Porra! Mas o Francis tá ficando melhor agora que ele enviadou mesmo. Chegou à Nova York e rasgou a fantasia. Dando o cu ele vai melhorar. Eu acho… (risos). Hoje ele tem uma agência de Relações Públicas em Nova York, que se encarrega de contas do Delfim Neto, da Rede Globo. Ele é o rapaz que leva os ladrões para jantar em Nova York. Outra coisa -é um escândalo- ele não vê uma peça de teatro. Não vê porra nenhuma. Cheirei muito com ele em Nova York. Ele compra todos os undergrounds de lá e copia.

Então porque o diário Folha de São Paulo dá tanto espaço ao Paulo Francis? [pausa para o drink] Porque a FSP é um negócio de direita -um jornal de direita. O sonho da FSP é ser o O Estado de São Paulo, da direita. Entendeu? O Estadão é um jornal conservador e pronto. Mas a FSP é de direita e é dirigida pelo Frias Filho -que é um rapaz solteiro… Como todo mundo sabe. Usa cama de solteiro. (risos)

Vamos construir um novo país é o novo slogan da Nova República e…
Eu trocaria este slogan pelo -Vamos resgatar o velho país. Era um país maravilhoso. O país sempre foi maior que a corrupção. Hoje, a corrupção é maior que o país. Eu queria apenas uma coisa: voltar ao governo de João Goulart e continuar o que se estava fazendo e bem. No mais, boa noite de todo meu coração Mogi das Cruzes… Adeus! Pícaro: quando eu morrer você põe o nome do banheiro do jornal Pícaro de: Banheiro Tarso de Castro? ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em abril de 1987.

* Tarso de Castro morreu em maio de 1991 em São Paulo, Brasil.

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Tarso de Castro no jornal Pícaro em abril de 1987

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Comunicação

37) CARLITO MAIA: Publicitário e filósofo popular petista

“EU SOU MEIO DOINDIM”

por Jairo Máximo

CARLITO MAIA

Carlito Maia, por Cris Eich

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Ilustração: Castilho

Carlito Maia* (Lavras, Minas Gerais, Brasil, 1924) Publicitário, filósofo popular petista e um dos fundadores do PT. É uma peça rara: escreve, lê e pensa sem parar. Sempre é convidado para os mais diversos atos culturais e políticos que acontecem em São Paulo. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Vivo livre e solitário, qual uma árvore. Porém, solidário como uma floresta”.

Prestação de contas
A humanidade tem mais que se amar, senão, como vai ser? Hiroshima, Nagasaki? De novo? Pela última vez? Hoje, 06 de agosto de 1987, por coincidência, faz 42 anos que o mundo tomou conhecimento, na própria carne, do horror da guerra atômica. Aliás, tendo nascido em 1924, sou contemporâneo de três coisas, que foram fundo demais na condição humana, essa frágil fortaleza: a desintegração do átomo, a televisão e o LSD.

Quem é o Carlito Maia
Sou três coisas ao mesmo tempo. Acima de tudo, um ser humano, como todo mundo. Depois, cidadão, cidadão de segunda categoria. Se fosse de primeira, poderia ajudar os destinos do meu país, do meu povo. Votei no marechal Teixeira Lott (1894-1984) contra Jânio Quadros , em 1960. Depois, nunca mais. Agora temos aí a farsa chamada Nova República e temos lá um vice-rei: José Sarney. Seria cômico se não fosse trágico. Finalmente, sou um homem de comunição. Ah, outra coisa que sou, que tudo mundo é algo que não chamo de CCC (Comando de Caça Comunista) por motivos óbvios, mas são três cês -Cidadão, Contribuinte, Consumidor. Como Cidadão, sou logrado. Como Contribuinte, sou extorquido. Como Consumidor, sou roubado.

Abrindo o jogo
Mineiro não fica doido, piora. E eu sou meio doidim.

Nasce uma estrela
Nasci em Santana das Lavras do Funil, chamada Lavras, nas Minas Gerais. Foi em 1924, na casa da avó materna, América do Brasil Republicano Moura Maia. Não nasci antes porque não havia o surrealismo e este não chegou antes porque eu não tinha nascido.

Mineira infância maneira
Não sei bem da minha infância, não. Faz tempo. Foi boa, sim, não foi infeliz, apesar de pobre. Filho de um homem honesto, pobre e muito inteligente. Às vezes acho burrice ser honesto, é mais cômodo ser desonesto, mas meu pai era muito honesto, e muito inteligente. Não deixou filho nenhum ir à escola. Ele não usava a expressão “fazer a cabeça” porque ela nem existia, mas dizia algo parecido: “Não vão lá, senão vocês não vão continuar pensando por conta própria. Não… Não… Não… Aprendam na vida, que é o único meio de se aprender tudo”. Então, aos 12 anos, sai de casa.

Pivete descolado
Meu primeiro emprego foi de office-boy na Companhia Expresso Federal, em 1936. Depois trabalhei em tudo. Não tinha diploma nem projeto de vida. Fiz o Tiro de Guerra, acabei sargento da FAB, no fim da guerra. Vê que falta de perspectiva, Pícaro?

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Carta de Carlito Maia para o jornal Pícaro / Arquivo Blog do Pícaro

Farsa burlesca?
Acho que as diretas-já era uma armação-já. Quando o Partido dos Trabalhadores, que é o único partido decente deste país, promoveu o comício dia 27 de novembro de 1983, no Pacaembu, eu estava lá e o Fernando Henrique Cardoso salvou-se de uma vaia numa bela tarde de sol. Era até aniversário do Joel Barcellos, o ator que é meu genro e pai de minha neta Olívia. Eu estava lá e me lembro. FHC foi salvo porque, oportunista, anunciou a morte de Teotônio Vilela (1917-1983), sem o que seria vaiado merecidamente. Dia seguinte, os jornais publicam a razão da ausência de Franco Montoro no palanque, e era um comício suprapartidário, não um comício só do PT, e o Sr. Montoro estava no Jockey Club e disse que corrida de cavalo era também uma coisa importante. A partir daí, nunca mais liguei pras diretas-já do PMDB. E abominei aquela bobagem de usar amarelo, copiada das Filipinas porque alguém viu na televisão, coisa de macaco. Nunca mais fui a comícios ou manifestações pró-direta. Já sabia da armação que estava sendo feita com isso, para lesar o povo mais uma vez. E a nova classe, essa gente do PMDB que se diz exilada, banida, é mentira porque a maior parte se autoexilou para ficar bem, se mandaram daqui por medo. Minha irmã mais nova foi banida, depois de sofrer torturas inenarráveis em ano e meio de prisão. Ela ficou nove anos no exílio, só voltou com a anistia mezzo-a-mezzo que fizeram. Não como esses que foram viver a grande vida na margem esquerda do Senna e voltaram ao país para fazer a vida na margem direita do Oiapoque ao Chuí. Eu tinha ódio da ditadura militar. Agora tenho nojo da Nova República, um bordel moderno, é verdade, porém, com as mesmas mulheres do antigo.

Dia-a-dia do mestre
É cômodo, é muito bom. Se fosse egoísta diria que sou um homem feliz, pois sou feliz pessoalmente. Minha ex-mulher, uma criatura fantástica, é a mãe dos cinco filhos. Hoje, vivo com Tereza. Tem a metade da minha idade, mas nos damos tão bem como se fossemos iguais. Minha vida particular é muito boa. Moro muito perto de onde trabalho. Vou e volto a pé. Não tenho nada, abri mão de tudo e vivo sem medo nenhum, porque nada tenho a perder. Entendeu Pícaro? Não me sinto preso a ninguém, nem a nada. Vivo livre e solitário, qual uma árvore. Porém, solidário como uma floresta. Morou?

Livro faz cabeça
Sobre o livro Exército de Um Homem Só, já dei nem sei quanto exemplares desse livro maravilhoso do Moacyr Scliar, médico e escritor gaúcho. Em todos os exemplares, a mesma dedicatória: “Nenhum exército decente precisa de mais gente”. Gosto de presentear livros porque creio que as coisas do mundo são de quem as entende e não de quem as detêm. Coisa de sonhador. O que me faz lembrar Mário Casassanta, professor lá de Minas. Ele disse um dia: Quem é o mais louco: o Quixote que delirava na sua fantasia, ou o Sancho, que não delirava e seguia o Quixote? Gostei tanto do Exército de Um Homem Só que até sonho em fazer um filme do livro. O Scliar já deu autorização. Estamos estudando a maneira de realizá-lo para o Joel Barcellos ser o Capitão Birobidjan. E agora onde é que a gente parou; Pícaro?

Que tal aborto
Mas homem falando de aborto, não sendo médico, está falando de coisas que não dizem respeito a ele, apesar de sua participação na gravidez. Mesma coisa que o Papa falar de sexo, coisa que não faz. Papa não tem relações sexuais. E eu não sei de um único caso de aborto por prazer, é um tremendo sacrifício moral, ético, físico; uma violência.

MPB já era
Acho que está encerrada a fase dos seus papas, depois de 20 anos de poder. Eles já me cansam quando ouço no rádio, apesar de terem feito coisas memoráveis. Mas são sempre os mesmos, pô. O pior é que a MPB está hoje atrelada ao carro Nova República, que eles apoiaram e ajudaram a fazer.

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Carlito Maia em Madri / Arquivo Blog do Pícaro

Viraram -alguns- garotos propaganda da farsa, entende? Estavam se guardando pra quando o carnaval chegasse e o carnaval deles era isso aí, esse estranho caso de homossexualismo entre bandido e mocinhos que é a falecida Nova República.

Marx ou Cristo
Sou ateu, mas não sou marxista, nunca li O Capital, pois sei que não ia entender. Marx, no tempo em que pregou, registrou coisas certíssimas, indiscutíveis, tanto que eu respeito o comunismo, ainda que não respeite esses comunistas sob a saia larga do PMDB. Na última eleição, se dividiram: a foice foi emprestada ao homem do campo Orestes Quércia, e o martelo para Antônio Erminio de Moraes. Pouco respeito comunista brasileiro, a não ser o legendário Cavaleiro da Esperança, Luis Carlos Prestes, e poucos outros.

Carlito, na Folha de São Paulo, na coluna Painel, de Boris Casoy e Emanuel Nery, sempre sai uns adágios populares de sua autoria. O que você acha disto? São amigos?
Evidentemente eles se portam como amigos meus. Sei que são amigos e eu também sou amigo deles. Um dia, pelo telefone, eu disse uma frase meio engraçada e o Boris Casoy gostou. Gostou e publicou com aquela designação criada por ele “filósofo popular petista” Agora acho o maior barato quando chego num lugar qualquer e alguém me saúda com um “olá, filósofo popular petista”, como vai? Juro que fico feliz, acho genial. A chamada filosofia popular me agrada, os ditos populares. Minha mãe usava e abusava. Vez e outra ligo para o Emanuel Nery e dou uma dica. Se ele gosta, se a dica for oportuna sai logo. Se não, esfria e não sai nunca. Respeito muito o critério deles, nunca me limitam. Escrevo para tudo quanto é jornal. Vivo me manifestando, quero provar que estou vivo ainda. O que mantêm vivo o homem é a sua participação na vida, no mundo. Repito: só gosto de filosofia popular, a que todo mundo entende.

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Credencial de imprensa do PT em 1989, por Carlito Maia / Arquivo Blog do Pícaro

Quero o povo livre!carlitos
Eu quero ver o povo votando livremente, entende? Então eu não aceito paternalismo nem tutelas de ninguém. Não aceito. Nada imponho no PT, onde tem muito nego falando em socialismo já, pura bobagem. Nem no capitalismo estamos ainda. Muito menos na democracia. O que temos agora é o capitalismo bárbaro, sucessor do selvagem. Aliás, o Brasil decolou da barbárie e pousou na decadência, sem ter feito escala na civilização.

Falta “Amor” na bandeira nacional
Ainda recentemente, em sua crônica dominical em O Globo, Otto Lara Rezende, mineiro como eu, dizia: como prega Carlito Maia, a bandeira brasileira está incompleta, explicando que Augusto Comte, fundador do Positivismo, tinha elaborado uma trilogia para a sua religião da humanidade: O Amor por base, a Ordem por princípio e o Progresso por fim. Então, nossa bandeira, pra ser positivista de verdade, coisa que os nossos militares de antigamente eram, os de hoje não sei, eles que pusessem nela o lema completo -Amor, Ordem e Progresso- e não só estes últimos. Com Ordem e Progresso, só, a bandeira omitiu, triste esquecimento, a base de tudo, o Amor. Terem omitido tá bem, mas que reponham agora, que dizem estar mudando tudo com a Nova Constituição.

Vícios de classe
Quanto a mim, creio que o cigarro (o careta) representa a Igreja Católica, geralmente aceita. E a maconha é a Umbanda, da qual as pessoas do povão gostam mais, não as elites (estas gostam também, mas não gostam de admitir isso). Há elitismo também nisso: o careta dá status ao bacana e a maconha é coisa de vagabundo, não é Pícaro? Também na bebida se observa isso: cachaça é coisa de negro, do povão. Já champanhe, uísque, e agora o tal de poire, que é uma aguardente de pera, são dos bem de vida, dos que não se rebaixam. O PMDB podia ser Pore Muito do Brega, o Ulysses, que foi maître na Santa Ceia, não dispensa o poire. Até trocou Le espoir (a esperança, em francês) pelo Poire a tal cachaça de pera importada. Enfim, o pó (a cocaína) é perigoso demais, é fazer roleta russa com o nariz. Quando dá o azar, não tem volta. Uma loucura das menos sadias.

Justiça própria
Minha justiça se baseia em dois sujeitos. Um faz dez anos que morreu. O outro faz vinte. Em 25 de dezembro de 1977, noite de Natal, perdemos o maravilhoso Charlie Chaplin (1889-1977): “Pensamos em demasia e sentimos bem pouco”. Dia 8 de outubro de 1967, o Che Guevara (1928-1967): “Há que endurecer-se sem perder a ternura jamais”. Dois caras que me deram a mais exata versão de justiça, de solidariedade, de desprendimento. Entregarem-se à humanidade. Chaplin e Guevara viveram para isso.

Ex-alcóolatra convicto
Faz 11 anos que não ponho uma só gota de álcool na boca. Extinguiu dentro de mim a vontade do álcool, mistério completo. É a única condição de se deixar um vício, qualquer que seja ele. Não recomendo nem proíbo nada para ninguém: álcool, tabaco, maconha… Cada qual faz à sua maneira o sonho da sua vida. Mas hoje tenho raiva de bêbado, hálito de bêbado. Bêbado gosta de muleta, se você der uma pra ele, vai ser bêbado a vida inteira. O álcool me enlouqueceu e me levou aos sanatórios 18 vezes na vida, uma dúzia e meia de vezes.

Trabalhar na TV Globo de SP
Faço comunicação, isto é, me encarrego -do meu jeito, há 14 anos- de estabelecer o melhor relacionamento possível entre a TV Globo e a comunidade. Preservar e levar a imagem da Rede Globo como corporação. Somos seis mil trabalhadores na casa e devo colaborar para que sejam respeitados. Tenho as minhas discordâncias, como teria se trabalhasse no cinema ou rádio ou outra TV qualquer. Não vim ao mundo para me resignar, como disse Tolstoi. Faço comunicação instintivamente, mas nunca botando mais uma folha verde na paisagem, o que ninguém notaria. Lembro-me de Ingmar Bergman, o cineasta sueco. Perguntado sobre o que objetiva com seus filmes, disse: O único gesto que realmente vale à pena é o que estabelece contato, que comunica, que sacode a passividade e a indiferença das pessoas. A Globo me contratou e me emprestou à cidade de São Paulo. Devo admitir que sou muito respeitado, aqui e fora daqui. Nesta sala recebo jornalistas, como vocês, gente da Universidade, padres, escoteiros, boêmios, todo mundo. As pessoas entram aqui sem terem o que temer. O que eu posso fazer faço; por todos. Convidam-me amiúde para participar de manifestações públicas, sou lembrado por pessoas e entidades. O James Dean era um rebelde sem causa.

E tu
Sou um rebelde com mil causas. E abraço todas. Pode ser até que não sirva para nenhuma coisa, tanto me espalho. Vou às vernissages, lançamentos de livros, espetáculos teatrais, shows, todas as manifestações culturais. Sou sempre convidado. E mando flores, o que acabou sendo uma marca global nesses atos. Enfim, não quero sucesso, prestígio, fortuna. O que exijo é respeito.

Trabalho publicitário interessante
Engraçado, Pícaro, hoje eu vi num jornal anúncio da Mentex, meio subliminar, meio de gaiato na programação dos cinemas. Você vai procurar um filme na seção e dá de cara com a embalagem da Mentex, bem grandona. Achei inteligentíssimo, nem tem mensagens de vendas, só a caixinha do produto reproduzida lá. Ora, Mentex é produto de grande saída nas bombonnières de cinemas e teatro. Quem frequenta está acostumado. Então, esse é um exemplo de criatividade no uso da mídia, da colocação na mídia, o que pode ser inteligente quanto a mais inteligente das peças publicitárias. A mídia criativa. É só uma lembrança, uma insinuação bastante sutil. Um reminder (lembrete). Vai ao cinema? Não se esqueça de mim: Mentex. Criatividade, grande criatividade. E este é só um exemplo da criação publicitária.

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Condecoração concedida ao Pícaro por Carlito Maia em 1987 (Arquivo Blog do Pícaro)

Maconha livre
Sou pela descriminalização da maconha. Ou então pela criminalização do álcool e do tabaco. Sou contra a legalização da maconha, porque ela acabaria sendo oferecida à venda com filtro, mentolada, caixinha crush-prool e sei lá o quê. O ideal seria não haver nada disso, mas esse desejo é uma bobagem. Está na condição humana: o homem precisa viajar de alguma forma. Se vivesse a seco, sem fumar, sem beber, sem nada, pra que viver? Fica sendo necessidades, como comer, dormir, ter relações sexuais, escovar dentes. O álcool é uma fuga, o tabaco outra fuga. Maconha também é uma fuga. Mas o tabaco e o álcool matam e alijam muito mais, e são consentidos e até mesmo estimulados pelo Estado, que tira o seu barato, como no jogo.

Para quem nada entendeu
Mas, quanto a mim, aos 63 anos de idade e já avô, não admito que me proíbam de consumir o que quer que seja. Quem sabe da minha vida sou eu, melhor do que ninguém. Para as coisas capitais da vida estamos sempre sós, e a nossa verdadeira história jamais será compreendida pelos outros, registrou Henri-Frédéric Amiel (1821-1881), em seu Diário Íntimo. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em  setembro de 1987.

* Carlito Maia morreu em junho de 2002 em São Paulo, Brasil.

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Carlito Maia no jornal Pícaro em setembro de 1987

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Comunicação

27) GILBERTO DIMENSTEIN: Jornalista e escritor

“QUANTO MAIS PODER MAIS INFORMAÇÃO”

por Jairo Máximo

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Gilberto Dimenstein em Madri / Foto: Carlos Bullejos

Gilberto Dimenstein (São Paulo, Brasil, 1956) Jornalista e escritor. Já desempenhou importantes trabalhos nos principais jornais e revistas brasileiras. Realiza um trabalho permanente de investigação sobre violações dos direitos humanos no Brasil. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “A imprensa mundial, no afã de vender mais, joga com a piedade pública. Quando acaba uma mercadoria substitui por outra”.

Privacidade e notícias
O jornalismo consciente não deve entrar na vida privada das pessoas, seja quem seja. Se um político é homossexual ou tem uma amante não interessa a ninguém. Mas se isto interfere no desenvolvimento do deu trabalho isto é notícia. Por exemplo, quando alguns colocam sua amante num cargo público isto é notícia porque esta mulher está ocupando o posto de trabalho de uma cidadã que tem os mesmos direitos. É isto é o paradoxo da privacidade e da notícia.

O poder vicia
Quanto mais inexperiente é uma pessoa e maior o seu cargo político, mas possibilidade tem de cair nas trampas do poder, sair da realidade, ou seja, embebedar e enlouquecer com o poder e este deslumbramento causar sérios problemas à sociedade. Existe toda uma áurea de superioridade ao redor do poder. Os bastidores do poder são uma fábrica de armadilhas. A engenharia do poder também é fascinante, inteligente, folclórica e irreverente. Devemos estar atentos a tudo: aos assessores de marketing, com suas minuciosas pesquisas, ao merchandising, às amantes dos amantes, às brigas entre amigos… Os homens do poder têm todo o direito de nos tratar como bobos, tentando nos convencer da importância, seriedade e genialidade das suas ideias e ações, mas nós -os jornalistas- temos o sagrado direito de, pelo menos, dificultar um pouco esta tarefa.

A imprensa faz negócio
A imprensa mundial, no afã de vender mais, joga com a piedade pública. Quando acaba uma mercadoria substitui por outra. Todos administram a desgraça, produzem um jornalismo truculento e são cúmplices das violações dos direitos humanos. O leitor é um súdito e não pede responsabilidades para os donos dos jornais. Penso que a imprensa tem que ter a humildade de dizer que faz parte da estrutura do poder, porque muitas vezes a imprensa está mais preocupada em ser Poder, do que derrubar o poder ou esclarecer o poder. Até deforma o poder. Os jornalistas não podem cair nesta armadilha. A função da imprensa é a de ser um instrumento de investigação do poder, ou seja, esclarecê-lo, revelar a manipulação deste e informar a população.

Não se engane
É bom conhecer o jornalismo para, pelo menos, não ser embrulhado pela imprensa. Os jornalistas refletem as ondas governamentais e reproduzem o que os políticos falam. Matam-se crianças, homens e mulheres, com certeza o próximo a ser liquidado é a imprensa, e se a gente fica calada, podemos prever o futuro…

Silvio Berlusconi lembra Collor de Melo
O mundo dá importância demais à televisão e isto leva ao que eu chamo de “vídeo-cracia”. Meu grande medo é que quando se destroem as estruturas políticas e em seu lugar não existe alternativa, a gente termina oferecendo sua confiança à valorização da imagem e com isso está abrindo espaço para os fascistas.

Vivência em primeira pessoa
“Repórter: Posso fazer uma fotografia sua para o livro que fala de vocês?
Menino de rua: Nunca fizeram uma fotografia minha. Esta será a primeira.
Repórter: Posso?
Menino de rua: Eu sei que vou morrer e quero aparecer na fotografia.
Repórter: Dentro de três ou quatro meses saem às fotografias.
Menino de rua: Tá legal. E quando sair às fotos estarei morto. “Minha vida é como o vento e não existe nada que segura ela”.
[Este diálogo foi mantido com um menino de rua na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, considerada uma das zonas mais violentas do mundo].

Dito e feito! Quando cheguei a São Paulo e publiquei a reportagem com as fotos deste menino, na FSP, tentei fazer chegar suas fotos em suas mãos, mas ele já tinha sido assassinado, confirmando assim sua profecia. Temo, evidentemente, que o Brasil torne-se inabitável, que evolua para os nexos da droga e violência, idênticas a certas zonas da Colômbia que conta com um índice de violência superior a do Brasil.

Chute na barriga
É o método mais utilizado pelas meninas prostitutas do 3º Mundo para abortar. É barato, quase eficiente e está estendido, como um câncer, em toda a América Latina.

Brasil resiste e avança
Assistimos a um processo de solidez da democracia pela simples razão de existir tudo isto que acabamos de falar, quero dizer, o Estado falhou e não consegue resolver questões básicas de cidadania, como é a saúde e a educação. Entretanto, a sociedade continua trabalhando sem esperar um salvador.

Alerta vermelho aqui
Nos países desenvolvidos existe um crescente e evidente racismo. Até parece que, ao mesmo tempo em que existe uma globalização do mundo nos sistemas de informação, ocorre um regresso à província dos países civilizados. Tudo isto aliado ao crescimento da direita na Europa, em particular, o que está acontecendo na Itália, é como um reflexo desta nefasta tendência. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal La Hora de los Pueblos de Madri em maio de 1994.

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Gilberto Dimenstein no jornal La Hora de los Pueblos de Madri em maio de 1994

 

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Comunicação

24) JUAN LUIS CEBRIÁN:Jornalista e escritor

“EU NÃO ME DEFINO”

por Jairo Máximo

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Juan Luis Cebrián em Madri / Foto: Carlos Bullejos

Juan Luis Cebrián (Madri, Espanha, 1944) Jornalista e escritor. Já trabalhou em todos os meios de comunicação ―jornal, rádio e televisão― e integrou o grupo de fundadores de El País, e foi seu primeiro diretor, cargo que ocupou durante treze anos. Atualmente é conselheiro delegado do grupo Prisa, que edita o diário El País. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “O afã de lucro não desvirtua a qualidade da informação”.

Profissionalmente, como você define Juan Luis Cebrián, o criador de El País, lançado no dia 4 de maio de 1976?
Eu não me defino… Apenas sou uma pessoa que está na profissão há 37 anos. No jornalismo, já fiz quase tudo o que se pode fazer. Na atual etapa dessa trajetória, dedico-me quase que exclusivamente aos temas relacionados com a empresa jornalística e os meios de comunicação audiovisuais.

Sua relação profissional com o jornalismo é herança familiar?
De certa maneira sim. Meu pai era jornalista e vivi um pouco esse ambiente em casa. Consequentemente, isso faz parte de uma herança cultural. Mas meu pai foi jornalista por acaso, por questões relacionadas com a guerra civil espanhola (1936-1939). Na realidade, ele era médico.

Jornalismo e literatura se complementam?
Existe um gênero na literatura que é o jornalismo. Grandes escritores, como Gabriel García Márquez, Ernest Hemingway e muitos outros foram grandes jornalistas antes de serem grandes literatos.

A Internet e os serviços on line são ameaças à palavra escrita?
Não. Porque, primeiro ler um livro ou um jornal na tela de computador é cansativo. Depois, o que o computador produz é uma grande quantidade de papel. A ameaça à palavra ou à cultura letrada por parte dos meios audiovisuais é falsa, pois, de alguma maneira, esses sistemas estão interligados entre si. Atualmente, os jornais e revistas estão se transformando em função das novas tecnologias, assim como todo o conceito de jornalismo, mas a palavra escrita continuará tendo força.

Qual a contribuição do grupo Prisa ao jornalismo contemporâneo e à recente história da Espanha?
Inicialmente, a empresa foi montada para fazer um jornal -El País-, que não pôde sair às ruas durante o franquismo, e só saiu depois da morte de Franco. Historicamente, foi uma oportunidade única para nós. Na realidade, a história do Grupo Prisa está relacionada com o período de transição política nacional e solidificação da democracia espanhola. Mas só há nove anos me responsabilizei pela empresa. A mais importante contribuição do Grupo Prisa para a história da Espanha foi justamente El País, sempre um jornal independente e inovador em muitos aspectos, ocupando um lugar na Europa e no Mundo.

Em que se baseia essa independência?
No Grupo Prisa não existem interesses pessoais, de partidos políticos, grupos econômicos, religiosos ou ideológicos que possam afetar sua independência. Sendo que essa independência está baseada no profissionalismo estrito dos seus meios de comunicação. O Grupo Prisa é o que são seus meios de comunicação. Os jornalistas tomam as decisões editoriais; e os gerentes comerciais, as empresariais. É isso, o que sustenta nossa independência. E é basicamente isso o que tratamos de proteger, para que continue assim. Nestas duas últimas décadas, o que tentamos fazer, e conseguimos, foi abrir a profissão e utilizar as novas tecnologias e os novos sistemas de comunicação.

Na opinião de diversos profissionais liberais e intelectuais espanhóis El País tem sua cara. Dizem que seu trabalho foi definitivo para estruturar uma ideia, um modelo de jornalismo. Está de acordo com esse ponto de vista?
Fundei e dirigi El País durante 13 anos, de 1976 a 1988. Quando deixei a direção, já estava consolidado como o primeiro jornal espanhol -também financeira e economicamente sólido. Minha aspiração é ter deixado em El País uma marca não só minha, mas de toda uma equipe, com seus matizes e particularidades. Não é porque muda o diretor que muda o jornal. Isso também acontece em The New York Times, The Times, The Independent e outros grandes jornais. Deixei a direção quando julgamos que o projeto estava consolidado. E para saber se isso era realidade, era necessário provar se tínhamos conseguido ou não. Conseguimos! Mas isso não significa que o jornal tenha minha cara. E que, durante muito tempo, em momentos cruciais e muito peculiares da vida política espanhola, minha cara se identificou com o jornal.

Qual foi o melhor e o pior momento das últimas décadas de existência de El País?
O melhor momento foi o pior. Quase sempre é assim. Como jornal, como empresa El País está sempre crescendo. Na história do jornal, o melhor/pior momento foi o dia 23 de fevereiro de 1981, quando o tenente-coronel Tejero irrompeu no Congresso e tentou dar um golpe de Estado.

Esse também foi o melhor momento da então recente democracia espanhola…
Sem dúvida nenhuma… Mas, também foi o melhor momento de El País, porque foi o momento em que o jornal demonstrou efetivamente que, à margem de ser uma empresa, também tinha uma função social e devia e podia contribuir -e contribui- para a imediata desarticulação daquele falido golpe de Estado.

O que você acha da existência de leis de imprensa? Considera que: a melhor lei de imprensa é nenhuma; como afirma Fernando Castelló, presidente da organização não governamental Repórteres sem Fronteiras?
A melhor lei de imprensa é nenhuma, é um lema com o qual estou de acordo. Mas o que quer dizer esse lema? Quer dizer que a imprensa, como qualquer outra atividade, em qualquer país democrático, deve ser regida por leis gerais que regulam uma série de outras atividades. Qualquer lei específica para a imprensa que ameace a liberdade de expressão deve ser sempre evitada.

O jornalismo de investigação é o trabalho mais nobre que se pode realizar na profissão?
Não sei se é o mais nobre ou mais (i)nobre… (risos) Penso que o jornalismo de investigação, que foi e é uma das tendências mais importantes da imprensa escrita, tem de se aprofundar, mais para poder continuar contribuindo socialmente e cumprir seu papel. O que atualmente podemos constatar no mundo todo é que ele caminha para um jornalismo de suposição, e isso pode levar a falência qualquer empresa jornalística. Infelizmente, essa tendência levou à realização de um tipo de jornalismo de investigação de escândalos a qualquer preço. E isso não é nada nobre. Além disso, o que chamamos de jornalismo de investigação também, infelizmente, quase não é mais isso, mas um jornalismo de fontes, porque são estas que filtram e oferecem informações de interesse próprio para os jornalistas. E é legítimo utilizá-las. Portanto, na realidade, quase já não existe tanta investigação rigorosa, mas informações interessadas de determinadas fontes.

O que pensa do jornalismo sensacionalista praticado com avidez e sem escrúpulos em diversos países, entre eles Espanha e Brasil?
O que temos de perguntar primeiro é: o que é jornalismo sensacionalista, marrom? Simplesmente é um jornalismo abominável, que mente, manipula e tergiversa a verdade, publica notícias inverídicas, não comprovadas, e também trabalha com os sentimentos baixos da população. Hoje em dia, tem notória incidência nos meios de comunicação audiovisual e cresce também nos demais meios em geral. Esse jornalismo tem cada vez mais pontos de contato entre informação e entretenimento. O roteiro exige drama… Acho que este tipo de jornalismo é cada dia mais sensacional do que sensacionalista. A diferença entre a imprensa séria e a sensacionalista é muito sutil. Sempre me surpreendeu uma afirmação do meu amigo, o escritor Carlos Fuentes: “O jornalismo sensacionalista, de bulevar francês, marrom, etc. é abominável, porém é o único canal da vida real, no qual podemos ver a vida retratada como ela é de verdade. Enquanto a imprensa séria, de qualidade, fala dos burocratas e políticos, que vão e vêm, e reproduz o que eles falam e discutem… esse jornalismo fala de um setor muito concreto da sociedade”.

Para um meio de comunicação, qual é o limite entre a informação veraz e a ganância do sistema neoliberal?
Quem é o juiz para determinar que informação seja veraz? Seriam, talvez, os burocratas? Os donos de jornais? Os editores? Os governos? Ou mesmo os próprios juízes? Ninguém! O que tem de ocorrer é que a informação seja suficientemente comprovada pelo próprio profissional que maneja e publica a informação. Existem leis que regulam o mercado em todas as suas atividades. E o mercado é a lei, não regulada nem controlada por um regime político específico. Dizer que a informação é um negócio e os jornais se movem por interesses equivale a acusar os partidos políticos, a saúde pública, os colégios privados, etc. de se moverem por dinheiro. Porém, não devemos esquecer que um colégio particular procura sempre cuidar da qualidade do ensino e do nível dos professores. Em síntese, o afã de lucros não desvirtua a qualidade da informação; além disso, não é impudico. Entretanto, é preciso haver um equilíbrio entre princípios e negócios. É verdade que os partidos políticos se movem por votos, porém também é verdade que se movem por princípios. Se não fizerem isso, perdem votos.la españa que bosteza (ebook)-juan luis cebrian-9788430609208

Em outras palavras, você quer dizer que a imprensa é um negócio que pode ou não ter princípios…
Não só a imprensa, mas também a moradia, a alimentação, a cultura, a saúde… são negócios. Enfim, todos os direitos fundamentais do homem estão estruturados por sistemas que buscam lucros. Pelo fato de ser um negócio, uma empresa jornalística não tem por que adulterar a qualidade informativa do seu produto. Mas isso não quer dizer que um produto informativo não seja isento de adulteração… E também não quer dizer que todas as empresas jornalísticas pratiquem alterações.

Recentemente o governo de direita do Partido Popular (PP) realizou uma campanha de intimidação política considerada sem precedentes contra diversos meios de comunicação do país, especialmente contra El País e o Grupo Prisa. Inclusive chegaram a levá-los aos tribunais, que, entretanto arquivam as acusações de estelionato e apropriação ilegal. Qual foi a causa desta ação de intimidação?
Isso você deveria perguntar ao secretário de Estado de Comunicação do PP, ou diretamente ao presidente do governo José María Aznar. Em poucas palavras, há pouco mais de um ano, por um lado o governo do PP sentia-se fortemente debilitado, sem forças; e por outro, tentou criar um projeto de empresa de comunicação, utilizando uma temática de ataque para nos debilitar e destruir. Mas a realidade demonstrou que isso não é tão fácil…

Mudando de assunto pode-se dizer que se existem paparazzi é porque os leitores querem ver as fotos que eles fazem?
A definição da palavra paparazzi já por si só pejorativa. Existem fotógrafos que se dedicam a trabalhos nobres. Mas tudo tem um limite: as pessoas públicas não têm por que ser permanentemente perseguidas pelos paparazzi. Devem ter vida privada. No acidente fatal da princesa de Gales em Paris, não interessa saber se o carro ou a moto que perseguia a princesa era ou não de um paparazzo. A pergunta que devemos fazer é: foi um carro ou uma moto que provocou o acidente? De quem era? De um paparazzo? De alguém anônimo? Na verdade, pode ter sido qualquer um. Pergunto: existe abuso envolvendo a vida privada de pessoas públicas? Sem dúvida… Porém muitos desses abusos são provocados pelas próprias pessoas, que utilizam os meios de comunicação para se promover. Particularmente nessa questão, Lady Di era mestra. Mas isso não isenta ninguém de ter sido o causador da tragédia.

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Juan Luis Cebrián durante a entrevista / Foto: Carlos Bullejos

Quais são os critérios profissionais básicos que imperam em El País?
Basicamente, eles estão definidos de modo pormenorizado no manual de estilo El País. Em poucas palavras, são: liberdade de opinião, obrigação de ouvir as partes e rigor informativo.

O que pensa da intimidação sofrida por jornalistas bascos por parte do grupo terrorista ETA (Euskadi ta Askatasuna -em português, País Basco e Liberdade) e de atentados a diversos jornalistas no mundo?
No País Basco, a liberdade não só de jornalistas, mas de toda a sociedade está sob ameaça permanente. Nem mesmo os bascos compreendem a situação particular em que vivem. Às vezes, perder o medo gera mais violência. O que favorece a continuidade dos atentados contra os profissionais de imprensa no mundo -na Argélia, Argentina, Brasil, Rússia e China- são a impunidade para crimes e ameaças.

O que é ser jornalista neste fim do século XX, com as novas tecnologias, a possibilidade de trabalhar em casa? Muda o conceito generalizado de que jornalista é aquela pessoa que pergunta, incomoda e difunde?
Os conceitos mudaram, porém existem classes de jornalistas, de estilos e de gêneros. O jornalista é uma pessoa que fala o que vê na rua. E uma das maneiras de seguir por essa rua é estar numa biblioteca, navegar pela internet, telefonar… No conjunto, a atividade é a mesma. A essência do jornalista não variou. E a técnica obriga a selecionar e discernir as informações antes de concluir o trabalho.el fundamentalismo democratico-juan luis cebrian-9788430605293

Qual é o papel dos telejornais nos países em que a televisão é a única fonte de informação para seus habitantes?
No fundo, o que impede a sociedade de desenvolver sua capacidade crítica não são as influências da TV ou outras de índole histórica, mas a carência educacional e cultural. O poder dos telejornais neste momento é idêntico aos dos púlpitos da Idade Média nos países europeus. Era um poder terrível. O importante é multiplicar o número de púlpitos e suas influências. Na medida em que houver mais emissoras de televisão para informar e mais profissionais qualificados trabalhando nesse meio, a capacidade crítica da população também melhorará. As pessoas devem ser alfabetizadas, tornar se mais participativas. Enfim, devem ter o básico.

Mas isso não ocorre na África negra, na Rússia, na China e muito menos em zonas remotas do Brasil. Por exemplo, o mundo inteiro sentiu uma dor universal sem precedentes com o funeral da princesa de Gales, graças aos meios de comunicação de massa. A que se deve esse fenômeno?
Isso continuará acontecendo, porque estamos num momento global, e a instantaneidade da comunicação é evidente. Isso não é necessariamente ruim se a sociedade tem suficientemente capacidade para…

…desligar a TV…
Ou pensar sobre o que está vendo na televisão. A televisão não é um mal, e a concentração de poderes aumentará. O que temos de fazer é organizar a sociedade, sabendo que a concentração está fundamentalmente nas mãos dos norte-americanos e consórcios europeus que vivem um processo cumulativo. Por exemplo, existem mais linhas de telefônicas na cidade de Tóquio do que em toda a África negra. As telecomunicações trazem consigo um poder de concentração tecnológica onde já existe tecnologia. Essas tecnologias se desenvolverão mais no Japão, Estados Unidos e Europa. Neste momento, 85% do tráfico de internet são entre Japão, Estados Unidos e Europa, crescendo dia-a-dia. E 80% desse intercâmbio são realizados em inglês. A verdade é que não tenho resposta para isso. Devemos ser conscientes. Não é dizer “isso é injusto e não pode ser assim”, provavelmente é injusto e pode ser assim…
O que temos de perguntar é: o que se pode fazer para equilibrar esse poder cultural e esse meio informativo? O que se tem de fazer para que não seja assim? Primeiro, o que temos de fazer é equilibrar isso nos países considerados do Terceiro Mundo, e que esses países deem um salto cultural formidável. O que não podemos pretender é que alguém passe da dança antiga ao século XXI sem ter passado primeiro pela Idade Média e a Idade Moderna. Isto é bastante complicado… ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista Imprensa  em abril de 1998.

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Juan Luis Cebrián na revista brasileira Imprensa em abril de 1998

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