Literatura

Anjos Arcanjos

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Grafite encontrado em São Paulo, novembro de 2018.

Por Jairo Máximo (Texto e fotografias)

Mogi das Cruzes, São Paulo, Brasil – (Blog do Pícaro) −Durante uma viagem de 90 dias que este viajante realizou ao seu país natal, entre as muitas preocupações que levou em mente estavam: cuidar bem de si mesmo, estar perto de pessoas íntimas e, sobretudo, não esquecer objetos pessoais no meio do caminho.

Posse Bolsonaro

Posse do presidente Jair Bolsonaro, janeiro de 2019.

Quando cumpriu 70 dias de estadia no país, numa manhã de verão, com a ajuda de uma amiga jornalista, tentei copiar em meu notebook as fotografias e vídeos que tinha registrado até aquele momento, com a câmera fotográfica e celular. Era uma urgência intuitiva. Mas foi em vão. O desconhecimento técnico causou o fracasso da operação. As fotografias da posse do presidente direitista Jair Bolsonaro, da tragédia de Brumadinho, das igrejas evangélicas, da exposição artística Galhinhos Entre Nós, corriam sério perigo.

Igreja Evangélica em MOgi

Igreja evangélica em Mogi das Cruzes, fevereiro de 2019.

No mesmo dia, fui até a casa de outra amiga. Lá, encontrei um antigo amigo fotógrafo que me disse: “Um amigo nosso, também fotógrafo, te ajudará neste trabalho. Ele sabe muito…”. Dito e feito! Imediatamente fui pedir ajuda e logicamente fui ajudado. Fizemos cópias de tudo que tinha na câmera e no celular.

Finalizado o necessário trabalho de resgate, para relaxar, fui fumar um baseado, numa praça próxima à residência do meu amigo, um lugar que faz parte da história de minha infância. Em silêncio agradeci aos amigos que encontrei pelo caminho ao longo do dia e pensei nas fotografias e vídeos jornalísticos que foram salvos sobre a tragédia de Brumadinho. Também pensei no apoio estratégico que tive do jovem belo-horizontino Gabriel que conheci nas montanhas de Brumadinho.

De repente, do nada, apareceu na praça um jovem desconhecido pedindo uma tragada no baseado. Foram várias tragadas juntos, em silêncio. Em seguida, para quebrar o gelo, perguntei como se chamava, de onde era e quem era.

“Meu nome é Rafael. Nasci aqui em Mogi das Cruzes. Sou um ex-viciado em crak. O crak é o inferno. Hoje sou outro homem”, respondeu. E voltaram a ficar em silêncio. Num determinado momento o desconhecido disse: “Que triste o que aconteceu em Brumadinho. Coitadas das pessoas que morreram. Que tristeza para aquelas que ficaram vivas”.

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Na minha cabeça o pensamento de que as coincidências da vida são mágicas ocupava todo meu espaço mental. Eu pensando nas imagens gráficas captadas da tragédia em Brumadinho, e Rafael falando sobre as vítimas do rompimento da barragem Córrego do Feijão em Brumadinho.

Naquele instante recebi um forte impulso para começar imediatamente escrever a reportagem que tinha em mente: A merda da Vale mata.

Voltei para a loja de fotografias do amigo e agradeci de coração o apoio profissional.

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Detalhe da exposição “Galinhos Entre Nós”, de Maurício Chaer, janeiro de 2019.

Quando faltavam 10 dias para a viagem terminar, tudo corria como o desejado. Não tinha perdido nada. Não tinha esquecido nada. No entanto, faltando apenas cinco dias para voltar para casa, notei que minha câmera fotográfica tinha desaparecido.

Depois de rememorar os últimos momentos vividos antes de dar conta da perda da câmera, este viajante chegou à conclusão de que não sabe se ela foi roubada num descuido ou roubada intencionalmente.

E refletiu: se a câmera foi roubada num descuido, o ladrão não poderá utilizá-la. Sem o cabo especial que se adapta ao computador e sem carregador de bateria ela não funciona. Assim, o cartão fotográfico com as imagens da sua viagem irá direto pra lixeira. Mas, se foi roubada por encomenda, o viajante só perdeu 20% da viagem. Ou seja, pouco menos de um mês porque o resto, 80% da sua estadia no Brasil, outro anjo salvou. ●

Boissucanga comprimida

Praia de Boissucanga, litoral paulista, dezembro de 2018.

*Nota do autor: Existem sete arcanjos, porém os únicos três citados nas escrituras sagradas foram: São Gabriel, São Rafael e São Miguel. Gabriel é o mensageiro por excelência. Rafael tem confiada a missão de curar a cegueira e Miguel é cada um nós…

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Literatura

73 días vagando por Brasil

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Por Jairo Máximo

Madrid, España – (Blog do Pícaro) – Cuando un día por la Red aquél joven alocado prometió para aquella luminosa joven brasileña que le enviaría de regalo la biografía del torero sevillano Juan Belmonte, matador de toros (1935), escrita por el periodista y escritor sevillano Manuel Chaves Nogales, no sabía que el libro estaba agotado en las librerías españolas. Lo prometido es deuda; piensa él.

La última edición que ha llegado al mercado las data de 2009, y fue la que él envió con alegría, el día 5 de marzo de 2018. El ejemplar destinado a la joven brasileña había sido un regalo personal de un editor catalán para ayudarlo en la preparación del artículo A pecho descubierto dedicado a Manuel Chaves Nogales (1857-1944) que él estaba elaborando.

En una librería a la cual el joven acude con frecuencia, le han dicho un día, sin especulaciones: “Nosotros te conseguiremos otro ejemplar de la biografía de Juan Belmonte (1892-1962). Puedes enviar tu ejemplar para la muchacha brasileña”.

¡Dicho y hecho!

Goma de borrar en mano, él pasó varios días borrando las observaciones  que había hecho en los márgenes de las páginas, por defecto profesional.

El tiempo pasó… Sin embargo, su inquietud aumentaba diariamente con el paso del tiempo, porque el libro no llegaba a la destinataria brasileña, y la librería española tampoco encontraba ningún ejemplar disponible en el mercado. Ni de segunda mano; todo agotado.

Él dejó de dar vueltas al tema y partió de cero. Decidió perdonar al correo brasileño porque el envío coincidió con una huelga de los carteros,  y la librería que hizo lo que pudo. Pensaba en la próxima correspondencia y en cómo conseguir dos nuevos ejemplares de la biografía del torero Juan Belmonte.

Después de meses, el día 10 de mayo, la librería se puso en contacto con él: “Joven, hemos encontrado un ejemplar de la biografía de Belmonte. Una edición de 1970, en dos volúmenes, con una entrevista “extra” con el torero hecha en 1954, ocho años antes de suicidarse. Aquí está”.

Exactamente, diez días después, el día 18 de mayo, la joven brasileña avisa que el libro llegó a su destino, tras vagar 73 días por Brasil.

La vida es mágica; pensó él.

Y se puso “feliz” por todos. •

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73 dias vagando pelo Brasil

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Manuel Chaves Nogales em Londres nos anos 40 do século passado. / Foto: Arquivo Pilar Chaves.

Por Jairo Máximo

Madri, Espanha ―(Blog do Pícaro)― Quando um dia pela Internet aquele jovem desvairado prometeu para aquela luminosa jovem brasileira que lhe mandaria de presente a biografia do toureiro espanhol Juan Belmonte, matador de toros (1935), escrita pelo jornalista e escritor Manuel Chaves Nogales, não sabia que o livro estava esgotado nas livrarias espanholas. Promessa é dívida; pensa ele.

A última edição que chegou ao mercado editorial espanhol data de 2009, e foi a que ele enviou a ela com alegria, no dia 5 de março de 2018. O exemplar destinado à jovem brasileira tinha sido um presente pessoal de um editor catalão para ajudá-lo a preparar o artigo De peito aberto dedicado a Manuel Chaves Nogales (1857-1944) que ele estava elaborando.

Em uma livraria renomada, que o jovem frequenta em Madri, lhe disseram um dia, com contundência: “A gente te consegue outro exemplar da biografia de Juan Belmonte (1892-1962). Pode enviar seu exemplar para a bela jovem brasileira”.

Dito e feito!

Com uma borracha na mão, ele passou dias apagando as notas que tinha feito nas margens das páginas, por capricho profissional.

O tempo passou… No entanto, sua inquietude aumentava diariamente, porque o livro não chegava à destinatária brasileira, e a livraria espanhola também não encontrava nenhum exemplar da obra. Nem de segunda mão. Tudo esgotado!

Ele deixou de pensar no assunto e começar de zero. Decidiu perdoar o correio brasileiro e a livraria espanhola. Pensava na próxima correspondência e em como conseguir dois novos exemplares da biografia do toureiro Juan Belmonte.

Meses depois, no dia 10 de maio, a livraria lhe chamou e disse: “Jovem, encontramos um exemplar da biografia do Belmonte. Uma edição de 1970, em dois volumes, com uma entrevista “extra” com o toureiro, realizada em 1954, oito anos antes dele se suicidar. Aqui está”.

Exatamente, dez dias depois, no dia 18 de maio, a jovem brasileira informa que a biografia do toureiro escrita por Chaves Nogales chegou ao destino, depois de passar 73 dias vagando pelo Brasil.

A vida é mágica, pensou ele.

E ficou “feliz” por todos. ●

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Maria-fumaça e caminhoneiros

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Abandonar o transporte ferroviário brasileiro foi um suicídio anunciado. /Foto: Associação Brasileira de Preservação Ferroviária

Por Jairo Máximo

Madri, Espanha – (Blog do Pícaro) – Quando ele era criança seu avô materno Jorge Pereira dos Santos ―negro, alto, forte e culto―, era maquinista na Central do Brasil da histórica maria-fumaça, que fazia o trajeto ferroviário São Paulo―Rio de Janeiro e parava em Mogi das Cruzes, motor econômico do Alto Tietê.

Quantas vezes aquele menino fraco e branquinho, que gostava de vestir calça curta e meia três-quartos, foi com o avô ao Rio e a São Paulo. Para ele, aquelas “viagens” eram um sonho. (Ainda não tinha tomado LSD). Na ingenuidade infantil pensava que era possível chegar a todos os lugares do país e do mundo de trem. Entre uma estação e outra o avô lhe dizia: “quando você crescer o Brasil inteiro estará ligado por ferrovias. É a melhor maneira de transportar gente e mercadoria”.

O avô falava ―nos anos 60 do século XX― com tanta segurança e com palavras tão bonitas que no final das contas aquele menino viajante cresceu pensando assim. E continua pensando identicamente assim… ●

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Clarice Lispector: Um Kafka tropical

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“Escrevo sem a esperança de que nada do que escrevo pode transformar nada em absoluto”. (Clarice Lispector)

Por Jairo Máximo

Madri – Espanha – (Blog do Pícaro) – Penetrar no enigmático mundo literário da bela e misteriosa escritora brasileira de ascendência hebrea Clarice Lispector é encontrar um espelho pulcro onde somos refletidos sem retoques.

“Sou uma convidada da literatura”, dizia ela.

Clarice Lispector é a mais importante escritora do Brasil, e uma das mais originais do século 20. É comparada com o irlandês James Joyce, com a inglesa Virginia Woolf e com o austro-húngaro Franz Kafka. Tem um estilo original e inconfundível. Sua obra é altamente viciadora. Simplesmente escreve o que vê, sente e pensa.

Para o mexicano Juan Rulfo, Lispector produziu a literatura mais vigorosa da América Latina. “Enfrentou os demônios interiores como quem lança um último sopro”.

“Pretendo ─como já disse─ escrever de uma maneira cada vez mais simples”, desejava Clarice Lispector.

Seus romances e contos foram traduzidos em mais de 30 idiomas, incluindo o hebraico, o tcheco, o croata, o búlgaro, o finlandês, o turco e o coreano.

Curiosamente, diversas datas e vivências sobre sua atribulada vida pessoal ou estão incorporadas na sua obra literária ou são contraditórias. “Sou tão misteriosa que nem eu mesma me entendo. Porém, não escondo nenhum mistério”, confessava.

No romance Água Viva escreve: “Muito não posso te contar. Não quero ser autobiográfica. Quero ser bio”. E no conto Onde estivestes de noite revela: “Digo o que tenho que dizer sem literatura”.

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PORMENOR DE UMA ESTRELA

Clarice Lispector nasceu no dia 10 de dezembro de 1920 na pequena cidade de Tchetchelnik, na Ucrânia, por coincidência, enquanto seus pais, judeus russos, encontravam-se de caminho à emigração fugindo do pogrom ─movimento organizado visando o extermínio de certas coletividades em especial dos judeus─ que assolava as cidades russas.

Seu nome de batismo era Haia Pinkhasovna Lispector, mas adotou Clarice Lispector e se naturalizou brasileira.

Recém-nascida atravessou o oceano Atlântico com sua família que desembarcou no Recife, nordeste do Brasil, onde estabeleceram residência. No início dos anos 30 mudou-se para o Rio de Janeiro, que naquela época era a capital do Brasil. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, na cidade maravilhosa, vítima de um câncer de ovário.

“Eu sai do Recife, mas o Recife não saiu de mim”, constatava. “Abandonar o Brasil é um assunto muito sério. Eu pertenço ao Brasil”, afirmava.

Em 1943, quando estudava direito na faculdade, Clarice casou com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos e se separou em 1959. De alma viajante, entre 1944 e 1960, residiu em Milão, Nápoles, Berna, Paris, Londres e Washington.

Em 1944 publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que imediatamente foi elogiado pela crítica especializada, iniciando assim uma fértil carreira literária que não parou de crescer até seu falecimento. Em 1978 foi publicada postumamente a inquietante obra Um Sopro de Vida.

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Desde 1941, até seu último sopro de vida, Clarice Lispector colaborou com a imprensa brasileira. Em 1984 foi lançado no Brasil o livro A Descoberta do Mundo, uma coletânea de 468 crônicas publicadas aos sábados no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973.

“SEM ESTILO”

Difícil de ser classificada, Clarice definia seu estilo como um “sem estilo”. Pertenceu à terceira fase do modernismo brasileiro, a “geração de 45” que se preocupava com o apuro formal e foge a temas considerados banais.

“É que de repente o figurativo me fascinou: plasmo a ação humana e tremo”, explicava.

Conviveu com seus demônios que tentava derrotar quando escrevia textos afiados.

Em 1954 foi publicada na França a primeira tradução do primeiro romance de sua autoria, Perto do Coração Selvagem, com desenho de capa de Henri Matisse. Nos anos 70 as traduções ao inglês e ao francês de seus livros multiplicaram-se. Em seguida, nos anos 80, a editora Schoffing & Co. comprou os direitos autorais ao alemão e a editora Siruela ao espanhol. Em 1997, a Casa da América de Madri, programou um atrativo seminário dedicado à autora, que contou com a participação de Nádia Gotlib, biógrafa da escritora, que em 1995 publicou Clarice: Una Vida que se Conta, e que continua sendo a obra de referência sobre a escritora. Em 2008, Nádia Gotlib também publicou Clarice Fotobiografia, com 800 imagens de Clarice Lispector. O aclamado romance A Hora da Estrela (1977) publicado pouco antes de seu falecimento, virou um emotivo filme, Resultado de imagen de capa do livro Clarice Fotobiografiadirigido em 1985 pela cineasta Suzana Amaral. A Hora da Estrela narra a trágica historia de Macabéa, uma alagoana ingênua que migra para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor.

Atualmente por toda a geografia brasileira existem ruas e bibliotecas que se chamam Clarice Lispector, em homenagem a mais aclamada e traduzida escritora brasileira em décadas. Inclusive em São Paulo, a capital econômica brasileira, está o Centro de Referência Clarice Lispector, que acolhe e orienta as mulheres vítimas da violência machista.

ALMA LITERÁRIA

Em 2011, durante uma entrevista que realizei em Madri com o poeta, novelista e acadêmico brasileiro Lêdo Ivo, na mítica Residência de Estudantes, o espírito da escritora estava presente.

Quando perguntei ao poeta se era um homem feliz, ele respondeu: “Quando eu era jovem era amigo da escritora Clarice Lispector. Uma vez ela me mandou uma cartinha, quando eu ainda era jovem, que dizia assim: “Seja muito feliz. E faça versos”. Nunca pensei em ser muito feliz. Continuei fazendo versos. Talvez, como decorrência de fazer versos, eu sou feliz”.

Aproveitando o momento, informei ao poeta Lêdo Ivo (1924-2012) que sou testemunha de que nas bibliotecas públicas de Madri os livros de Clarice são cobiçados. Feliz, ele completou: “Nos Estados Unidos e no Reino Unido Clarice Lispector está se tornando um fenômeno como Franz Kafka (1883-1924). Um Kafka tropical. Luminoso. Quiçá vá ser a grande contribuição da literatura universal. Uma figura solitária, sofrida e misteriosa. Um mito. Admirável. Tenho saudades dela”.

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Coincidindo com os quarenta anos do falecimento de Clarice Lispector, a editora espanhola Siruela acaba de lançar a biografia Por qué este mundo, do norte-americano Benjamin Moser. Este livro foi publicado no Brasil em 1996 com o título Clarice,.

“Meu afã é que se aproximem a essa pessoa enigmática, distante, que é ao mesmo tempo, misteriosamente, um espelho de nós mesmos. Nesta biografia o leitor descobrirá um grande imprevisto: que a verdadeira sucessora de Kafka era uma colunista de moda nas praias do Rio de Janeiro” declarou Moser recentemente à imprensa espanhola.

FRAGMENTOS ESCOLHIDOS ADREDE

Entre os 26 livros ─romances, ensaios, crônicas, relatos de viagem─ que a escritora deixou como legado, eis dois fragmentos de dois deles que escolhi intencionalmente:

Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres (1969) relata a história de amor entre a professora de escola primária Lorelei (Lóri) e Ulisses, professor de Filosofia. Lorelei é uma personagem de uma lenda alemã que seduz e feitiça os pescadores. O relato começa com uma vírgula, como se fosse a continuação de um texto já começado; e termina com dois pontos; indicando que a historia continua, independente de que apareça no livro.

Resultado de imagen de capa de livros de Clarice LispectorUlisses falou:
—Bem tranquila, Lóri, vá bem tranquila. Mas cuidado. É melhor não falar, não me dizer. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.
—Por que é que você olha tão demoradamente cada pessoa?
Ela corou:
—Não sabia que você estava me observando. Não é por nada que olho: é que eu gosto de ver as pessoas sendo.
Então estranhou-se a si própria e isso parecia levá-la a uma vertigem. É que ela própria, por estranhar-se, estava sendo. Mesmo arriscando que Ulisses não percebesse, disse-lhe bem baixo:
—Estou sendo…
—Como? perguntou ele àquele sussurro de voz de Lóri.
—Nada, não importa.
—Importa sim. Quer fazer o favor de repetir?
Ela se tornou mais humilde, porque já perdera o estranho e encantado momento em que estivera sendo:
—Eu disse para você — Ulisses, estou sendo. Ele examinou-a e por um momento estranhou-a, aquele rosto familiar de mulher. Ele se estranhou, e entendeu Lóri: ele estava sendo. Ficaram calados como se os dois pela primeira vez se tivessem encontrado. Estavam sendo.
—Eu também, disse baixo Ulisses.
Ambos sabiam que esse era um grande passo dado na aprendizagem. E não havia perigo de gastar este sentimento com medo de perdê-lo, porque ser era infinito, de um infinito de ondas do mar. Eu estou sendo, dizia a árvore do jardim…”.

Água Viva (1973), catalogada como romance, também pode ser uma carta, uResultado de imagen de capa de livros de Clarice Lispectorm diário… Talvez tudo junto. “Um denso e fluído poema em prosa”, foi definido pela crítica especializada brasileira.

“Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou uma pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar e vejo as espessas espumas mais branca e que durante a noite as águas avançaram inquietas. Vejo isto pela marca que as ondas deixam na areia. Olho as amendoeiras da rua onde moro. Antes de dormir tomo conta do mundo e vejo se o céu da noite está estrelado e azul-marinho porque em certas noites em vez de negro o céu da noite está estrelado e azul-marinho intenso, cor que já pintei em vitral. Gosto de intensidades. Tomo conta do menino que tem nove anos de idade e que está vestido de trapos emagérrimo. Terá tuberculose, se é que já não a tem. No Jardim Botânico, então, fico exaurida. Tenho que tomar conta com o olhar de milhares de plantas e árvores e sobretudo da vitória-régia. Ela está lá. E eu a olho.

“Você há de me perguntar por que tomo conta do mundo. É que nasci incumbida”.•

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Literatura

Clarice Lispector: Un Kafka tropical

1523“Escribo sin la esperanza de que nada de lo que escribo pueda cambiar nada en absoluto”, Clarice Lispector.

Por Jairo Máximo

Madrid – España ─ (Blog do Pícaro) – Adentrarse en el enigmático mundo literario de la hermosa y misteriosa escritora brasileña de origen hebreo Clarice Lispector es encontrarse con un espejo reluciente donde nos reflejamos sin retoques.

“Soy una invitada de la literatura”, decía la autora.

Clarice Lispector es la más importante escritora de Brasil, y una de las más originales del siglo XX. Se la ha comparado con el irlandés James Joyce, con la británica Virginia Woolf y con el austrohúngaro Franz Kafka. Tiene un estilo original e inconfundible. Su obra es altamente adictiva. Simplemente escribe lo que ve, siente y piensa.

Para el mexicano Juan Rulfo, Lispector ha producido la literatura más vigorosa de América Latina. “Enfrentó los demonios interiores como quien lanza un último aliento”.

“Pretendo –como ya lo anuncié─ escribir de manera más y más sencilla”, deseaba Clarice Lispector.

Sus novelas y cuentos han sido traducidos a más de 30 idiomas. Curiosamente, diversas fechas y hechos sobre su vida personal o están incorporados en sus creaciones literarias o son contradictorios. Descíframe o devórate…

“Soy tan misteriosa que ni yo misma me entiendo…No obstante, no escondo ningún misterio”, confesaba.

“Mucho no puedo contarte. No voy a ser autobiográfica. Quiero ser “bio”, se sinceraba en la novela Agua Viva. “Digo lo que tengo que decir sin literatura”, revela en el relato Donde estuviste de noche.

PORMENOR DE UNA ESTRELLA

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Clarice Lispector nació el 10 de diciembre de 1920, en el pequeño pueblo de Tchetchelnik, Ucrania, de casualidad, mientras sus padres, judíos rusos, se hallaban de camino a la emigración huyendo de los pogromos ─saqueo y matanza de gente indefensa, especialmente judíos, llevados a cabo por una multitud─ que asolaba las provincias rusas.

Su nombre de pila era Haia Pinkhasovna Lispector, pero ella adoptó el de Clarice Lispector. En 1943 le concedieron la nacionalidad brasileña.

Con poco más de dos meses de vida cruzó el océano Atlántico con su familia que se instaló en Recife, capital del Estado de Pernambuco, noroeste de Brasil. Al cumplir catorce años se trasladó a Río de Janeiro, por entonces capital de Brasil. Falleció el 9 de diciembre de 1977, en Río de Janeiro, víctima de un cáncer de ovarios.

“Yo marché de Recife, pero Recife no se ha marchado de mí”, aseguraba. “Para mi dejar Brasil es un asunto muy serio. Yo pertenezco a Brasil”, afirmaba.

En 1943, mientras cursaba sus estudios de derecho, se casó con el diplomático Maury Gurgel Valente, con quien tuvo dos hijos y se separó en 1959. De alma viajera, entre 1944 y 1960, vivió en Milán, Nápoles, Berna, Paris, Londres y Washington.Cerca-del-corazon-salvaje_Clarice-Lispector

En 1944 publicó su primer libro, Perto do Coração Selvagem  (Cerca del corazón salvaje), que al instante fue avalado profusamente por la crítica especializada, dando inicio así a una prolífica carrera literaria que desde entonces no paró de agrandarse. En 1978, fue publicada póstumamente la inquietante obra Un soplo de vida.

Desde 1941, hasta su último soplo de vida, Clarice Lispector mantuvo una constante colaboración con la prensa brasileña. En 1984 se publicó en Brasil Revelación de un Mundo, una recopilación de 468 crónicas publicadas en el diario Jornal do Brasil, donde Clarice escribió todos los sábados, entre 1967 y 1973.

CON “NO ESTILO”

De difícil clasificación, ella misma definía su estilo como un “no estilo”. Pertenece a la tercera fase del modernismo, el de la generación del 45 brasileña. “Es que de repente el figurativo me ha fascinado: plasmo la acción humana y tiemblo”, explicaba.

Convivió con sus demonios que trataba de derrotar cuando escribía textos afilados.

 En 1954 se publicó en Francia la traducción de su primera novela, Cerca del corazón salvaje, con portada de Henri Matisse. En los años setenta los títulos de su autoría traducidos al francés y al inglés se multiplicaron. Posteriormente, en los años ochenImagen relacionadata, la editorial Schӧffling & Co. compró los derechos en alemán y Siruela hizo lo propio en español. En 1997, la Casa de América de Madrid programó un atractivo ciclo de conferencias dedicado a la autora, que contó con la participación de la brasileña Nádia Gotlib, biógrafa de la escritora, que en 1995 publicó Clarice: Una vida que se cuenta, que todavía continua siendo la obra de referencia sobre la escritora. En 2008, Gotlib también publicó Clarice Lispector Fotobiografia, con 800 imágenes de Clarice Lispector. Su celebrada novela La hora de la estrella (1977) fue publicada poco antes de su  fallecimiento y, en 1985, la cineasta brasileña Suzana Amaral hizo una primorosa adaptación cinematográfica de la misma.

Actualmente, 0738329041526_p0_v2_s550x406por toda la geografía brasileña hay calles y bibliotecas que llevan el nombre de la escritora brasileña más traducida y aclamada en décadas. Incluso en São Paulo, la capital económica de Brasil, está ubicado el Centro de Referencia Clarice Lispector, que acoge y orienta a mujeres víctimas de la violencia de género.

ALMA LITERARIA

En 2011, durante una entrevista que hice en Madrid con el poeta, novelista, ensayista, periodista  y académico brasileño Lêdo Ivo, en la mítica Residencia de Estudiantes, el espíritu de la escritora estaba presente.

Cuando pregunté al poeta si él era un hombre feliz, él me contestó: “Cuando yo era joven era amigo de Clarice Lispector. Una vez ella me ha enviado una cartita, cuando yo aún era joven, que decía así: Sea muy feliz. Y haga versos. Nunca he pensado en ser muy feliz. Continué haciendo versos. Quizá, como consecuencia de hacer versos, yo soy feliz”.

En seguida, informé a Lêdo lvo (1924-2012) de que era testigo de que en las bibliotecas públicas de Madrid los libros de Lispector son codiciados. Feliz, el poeta añadió: “En Estados Unidos y en el Reino Unido Clarice Lispector está convirtiéndose en un fenómeno como Franz Kafka (1883-1924). Un Kafka tropical. Luminoso. Quizá va ser la gran contribución de la literatura brasileña del siglo XX a la literatura universal. Una figura solitaria, sufrida y misteriosa. Un mito. Admirable. Tengo saudades de ella”.

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Coincidiendo con los cuarenta años del fallecimiento de Clarice Lispector, la editorial española Siruela acaba de publicar la biografía Por qué este mundo, del estadounidense Benjamin Moser. Este libro se publicó con el título Clarice, en Brasil en 1996.

“Mi afán es que  se aproximen a esa persona enigmática, lejana, que es al mismo tiempo, misteriosamente, un espejo de nosotros mismos. En esta biografía el lector descubrirá algo completamente imprevisto: que la verdadera sucesora de Kafka era una columnista de moda en las playas de Río de Janeiro”, declaró recientemente Moser a la prensa española.

FRAGMENTOS ADREDE  

Entre las 26 obras -novelas, ensayos, crónicas, relatos de viajes, cuentos infantiles- que la autora dejó como legado, he aquí fragmentos de dos novelas escogidas adrede.

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Aprendizaje o El libro de los placeres (1969), narra la historia de amor entre la profesora de primaria Lorelei (Lori) y Ulises, profesor de Filosofía. Lorelei es un personaje de una leyenda alemana que seduce y hechiza los pescadores. La narrativa empieza con una coma, como si fuera la continuación de algo ya iniciado; y termina con dos puntos; indicando que la historia continúa, independiente de que aparezca en el libro.

“Ulises habló:
-Bien tranquila, Lori, vete bien tranquila. Pero cuidado. Es mejor no hablar, no decirme nada. Hay un gran silencio dentro de mí. Y ese silencio ha sido la fuente de mis palabras. Y del silencio ha venido lo que es más precioso que todo: el propio silencio. ¿Por qué miras tan detenidamente a cada persona?
Ella se ruborizó:
-No sabía que me estabas observando. No miro por nada: me gusta ver a las personas siendo.
Entonces se extrañó a sí misma y eso parecía producirle vértigo. Es que ella misma, al extrañarse, estaba siendo. Aun arriesgándose a que Ulises no lo entendiera, le dijo bien bajo:
-Estoy siendo…
-¿Cómo? –preguntó él ante aquel susurro de voz de Lori.
-Nada, no importa.
-Importa, sí. ¿Quieres hacer el favor de repetir?
Ella se volvió más humilde, porque ya había perdido el extraño y encantado momento en que había estaba siendo:
-Te dije, Ulises, que estoy siendo.
Él la examinó y por un momento no la reconoció, aquel rostro familiar de mujer. Se desconoció, y entendió a Lori: él estaba siendo.
Se quedaron callados como si los dos se hubieran encontrado por primera vez. Estaban siendo.
-Yo también- dijo por lo bajo Ulises.
Ambos sabían que ése era un gran paso hacia el aprendizaje. Y no había peligro de gastar este sentimiento con miedo a perderlo, porque ser era infinito, tan infinito como las olas del mar. Estoy siendo, decía el árbol del jardín…”.

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Agua Viva (1973), catalogada como novela, también puede ser una carta, un diario. Tal vez todo junto. Fue definido por la crítica como “un denso y fluido poema en prosa”.

“Estoy cansada. Mi cansancio viene de que soy una persona extremamente ocupada, me ocupo del mundo. Todos los días observo desde la terraza el trozo de playa con mar y veo la espesa espuma más blanca y que durante la noche las aguas han alcanzado inquietas. Veo esto por la marca que las olas dejan en la arena. Observo los almendros de la calle donde vivo. Antes de dormir me ocupo del mundo y observo si el cielo de la noche está estrellado y azul marino porque algunas noches en vez de negro el cielo parece azul marino, un color que he pintado en un vitral. Me gustan las intensidades. Me ocupo del niño que tiene nueve años y que está cubierto de harapos y delgadísimo. Tendrá tuberculosis, si es que no la tiene ya. Y en Jardín Botánico me quedo agotada. Tengo que ocuparme de la mirada de millares de plantas y árboles y sobre todo de la victoria regia. Ella está allí y yo la miro”.

“Me preguntarás por qué me ocupo del mundo. Es que nací con ese encargo”. •

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“Cuando escribo estoy muerta”, decía Clarice Lispector.

Nota del autor: Artículo publicado en la ACPE

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Literatura

THOREAU: MANANCIAL DE IDEIAS

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Nem todos os homens sabem ser livres. (H. D. Thoreau)

Por Jairo Máximo

MADRI ―Espanha  ― (Blog do Pícaro) ― Este ano comemora-se o segundo centenário do nascimento do filósofo, escritor e poeta, Henry David Thoreau, que defendia o respeito à Vida, à Natureza e o direito de utilizar a desobediência civil ante os abusos do Estado.

Thoreau se autodefinia como “professor de escola, tutor particular, topógrafo, jardineiro, granjeiro, pintor (de paredes), carpinteiro, pedreiro, granjeiro, fabricante de lápis, fabricante de papel de lixa, escritor e poetastro”. No entanto, seu autêntico emprego foi “Inspetor de ventanias e dilúvios”, insistia.

“É necessário dizer: ame a verdade e escreva sinceramente”, dizia.

Henry David Thoreau (1817―1862, Concorde, Massachusetts, Estados Unidos) escreveu durante mais de duas décadas um diário contemplativo ―germe de sua frutífera obra – onde vertia suas ideias e visão de como viver em harmonia com a Natureza e a sociedade. Pensava que as ideias somente tinham sentido sob a condição de que tomassem corpo numa pratica eficaz e concreta.

“Elegi as letras como profissão”, escreveu Thoreau ao bibliotecário da Universidade de Harvard, em setembro de 1849. “A linguagem é a obra de arte mais perfeita do mundo. O cinzel de mil anos a retoca”, afirmava.

Foi seu amigo o escritor, filósofo e poeta, Ralph Waldo Emerson (1803-1882), quem lhe incentivou a escrever o diário. O resultado é um suculento experimento original, sem precedentes literários, publicado postumamente.

“Não busques expressões, busque ideias para expressar”.

“Não prefiro nenhuma religião ou filosofia por cima de outra. Não tenho nenhuma simpatia pelo fanatismo e a ignorância que fazem distinções transitórias, parciais ou supérfluas, entre a fé de outro, como cristão e pagão. Rezo para me ver liberto do pequeno olhar, da parcialidade, do exagero e do fanatismo. Para o sábio, todas as religiões, todos os países, são iguais. Amo a Brahma, Krishna, Buda e ao Grande Espírito tanto como a Deus”.

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FRUTÍFERO BOSQUE

Entrar no fantástico bosque ―literário, poético e filosófico― de Thoreau é encontrar um manancial luminoso de ideias. Sua sublime obra convida a levar uma vida filosófica no dia a dia, não a cinzelar conceitos para utilização exclusiva de bibliotecas.

“Assim é sempre a busca do saber. Os frutos celestiais, as maças douradas das Hespérides estão permanentemente escoltadas por um dragão de cem de cabeças que nunca dorme, e colhê-las é um trabalho hercúleo”, considerava.

Martin Luther King (1929-1968), Mahatma Gandhi (1869-1948) ou o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, deixaram-se influenciar por suas ideias. Gandhi o descobriu enquanto cumpria pena de prisão e o adotou como seu mestre. Luther King afirmou ter dado vida aos ensinamentos do filósofo nas atitudes que tomou contra a segregação racial dos afro-americanos.

Michel Granger, professor emérito de literatura americana do século XIX na Universidade de Lyon, especialista nos escritores do “Renascimento norte-americano”, em particular Nathaniel Hawthorne (1804-1864), Herman Melville (1819-18912) e Thoreau, considera que convém ter em mente que Thoreau é principalmente um homem de letras, enquanto que, nestes últimos anos lhe queiram outorgar maior importância à sua faceta de filósofo ou de pensador político.

THOREAU

“O pensamento de Thoreau é complexo, mutante, paradoxo, provocador. É preciso ler (e reler) o texto de seus ensaios atentamente para levar em consideração à retórica, para interpretar corretamente a pose de orador, já que frequentemente seus ensaios foram, num primeiro lugar, conferências ou discursos: desta forma, evita-se reduzir seu pensamento a um punhado de ideias sem apenas relação com suas intenções”, explica o professor.

Caminhar, contemplar, voar, pensar, escrever, respeitar e preservar o planeta foram as consignas que Thoreau levou ao extremo; com beleza e simplicidade.

“Não existe em absoluto o sentido comum: é semsentido comum”.

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POÇO SEM FUNDO

De seu legado literário já foi publicado tudo; ou quase tudo. Ensaios, poesias, conferências, reflexões e correspondências. De sua ─pessoa e vida─ também já foram publicados diversos ensaios, biografias e teses doutorais. Inclusive, atualmente, existem vários blogs dedicados unicamente ao estudo de seu Diário- 1837-1861, um poço sem fundo de ideias e pensamentos. Em 2013 foi publicada na França e na Espanha a deslumbrante história em quadrinhos Thoreau A vida sublime, autoria de A. Dan y Le Roy.

WaldenEntre suas obras mais emblemáticas estão Diário, A desobediência civil, Uma semana nos rios Merrimack e Concorde, Os bosques de Maine, Vida sem Princípio, Maças Silvestres & Cores de Outono, Cape Cod e a obra-prima Walden ou a Vida nos Bosques, escrita e reescrita entre 1847 e 1854.

 “Vive-se muito rápido. Os homens acreditam que o importante é que o país tenha comércio, que exporte gelo, que tenha comunicações telegráficas e que se possa viajar a quarenta quilômetros por hora; mas não param para pensar se eles a necessitam ou não. Resulta incerto se atuando assim vivemos como homens ou como babuínos”.

“A riqueza supérflua nos possibilita comprar somente coisas supérfluas. Para comprar aquilo que a alma necessita o dinheiro não faz falta”.

“Tinha três cadeiras na minha casa: uma para a sociedade, outra para a amizade e uma terceira para a sociedade”.

“O intelecto é uma navalha; discerne e abre caminho ao segredo das coisas”.

 DESOBEDIENTE TRANSCENDENTAL

A Desobediência Civil Seguido De Walden

Como consequência de sua decidida oposição a escravidão, ainda vigente nos Estados Unidos, e a guerra que seu país mantinha contra o México, em 1849 Thoreau publicou A resistência ao governo civil, republicado postumamente como A desobediência civil, que o levou a ser considerado como “pai” da desobediência civil: proposição individual e potencialmente coletiva que solicita impugnar um poder (um decreto, uma lei, etc.) ilegítimo ou autoritário, pelo método de negar seu consentimento─ que continua sendo válido e prático hoje em dia.

“A única obrigação que tenho direito de assumir é a de fazer em todo o momento aquilo que considero equânime”.

“Aceito de todo coração o lema: “O melhor governo é aquele que menos governa”, e gostaria que atuasse com mais honestidade e esforço. O qual, levado em pratica, significa que “o melhor governo é aquele que não governa em absoluto”, coisa que também estou convencido. E quando os homens estiverem preparados para isso, será o governo que terão”.

Seu magistral Diário (1837-1861), de 14 volumes, que foi publicado pela primeira vez em 1906, 44 anos depois da sua morte, continua sendo a grande referência para os estudiosos de sua obra. A Universidade de Princeton publica há 40 anos a edição mais completa e confiável dos escritos de Thoreau.

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Diário original de Thoreau

O primeiro registro do Diário foi escrito no dia 22 de agosto de 1837; e o último em 3 de novembro de 1861, seis meses antes de sua morte. Nele, ele reflete sobre a vida e a escrita, e recria com minúcia o ambiente natural no qual vive. São mais de sete mil páginas.

“Este inverno estão cortando nossos bosques com mais intensidade que antes ─ Fair Haven Hill, Walden, Linnae Boreales, Wood etc. etc. Graças a Deus que não podem cortar as nuvens!”.

“Vida cidadã: milhões de seres vivendo juntos em solidão”.

“Quantas batalhas têm que enfrentar o homem por todas as partes para manter seu exército de ideias e marchar com elas em ordenada formação através de um território hostil! Quantos inimigos têm o pensamento lúcido!”.

“Uma lei jamais irá fazer livre o homem; são os homens quem tem que fazer livre as leis”.

“Um livro verdadeiramente bom é algo tão ferozmente natural e primitivo, misterioso e maravilhoso, fértil e celestial, como um líquen ou um fungo”.

“A imprensa é, quase sem exceções, corrupta”.

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PINCELADAS DE UMA VIDA

Henry David Thoreau nasce no dia 12 de julho de 1817. Era o terceiro de quatro irmãos. Sua família era descendente de emigrantes franceses. Levou uma vida discreta; porém intensíssima. Faz parte do denominado “Renascimento norte-americano” junto a outros quatros criadores fundamentais: Ralph Waldo Emerson, Walt Whitman (1819-1892), Herman Melville e Nathaniel Hawthorne. São cinco nomes que nos campos do ensaio, da poesia e da novela constituem a grande tradição norte-americana, cinco pilastras que sustentam uma literatura.

Em 1837, com apenas 20 anos, graduou-se pela Universidade de Harvard. Este mesmo ano retornou a sua cidade natal e começou a dar aulas em um colégio, entretanto renunciou este trabalho depois que lhe obrigaram, contra sua vontade, a dar uma surra em seis alunos, seguindo as ordens do diretor da escola.

Em seguida, começou a trabalhar no negócio da família: fabricação de lápis de grafite. Quando teve êxito e seus amigos o felicitaram por ter criado a possibilidade de enriquecer, ele respondeu que jamais fabricaria outro lápis. ”Para quê?”, disse. “Não quero fazer outra vez aquilo que já fiz uma vez”.

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Em julho de 1845, abandonou a casa familiar de Concorde e foi morar na cabana que construiu às margens da lagoa de Walden Pond, em um terreno que lhe cedeu seu amigo Emerson. Durante dois anos escreveu ali a obra homonímia na qual descreve sua economia doméstica, seus experimentos em agricultura, seus visitantes e vizinhos, as plantas e a vida selvagem.

Em 1846, seu compromisso cívico gerou problemas com a justiça. É preso e passou uma noite na cela da cadeia por negar a pagar seus impostos como protesto contra a guerra com México (1846-1948), que considerava totalmente injustificada.

Um ano depois, em 1847, abandonou definitivamente a cabana de Walden. Em 1849, publicou seu primeiro livro, Uma semana nos rios Concorde e Merrimack, depois de se comprometer a arcar com os gastos da edição e renunciar seus direitos autorais. Neste mesmo ano, publicou o ensaio Resistência ao governo civil.

Comprometido com a causa contra a escravidão, participou no denominado “trem subterrâneo”, uma rede de pessoas que escondiam em suas casas os escravos que fugiam das plantações do Sul e os ajudavam a chegar ao Canadá. A prisão em Boston, em 1854, do escravo fugitivo Anthony Burns lhe inspirou a escrever o ensaio A escravidão em Massachusetts.

Cape Cod (Ebook)Durante uma viagem a Nova Iorque, em 1856, conheceu o poeta Walt Whitman, quem lhe presenteou com uma cópia dedicada de Folhas de relva. Thoreau ficou fascinado pelo pai da poesia norte-americana. Em uma carta que enviou ao seu amigo e discípulo Harrison Blake, explicou: “Parece o maior democrata que o mundo já viu. […] Mesmo que aparentemente seja peculiar e áspero, em essência é um cavaleiro”.

 Em 1861, a tuberculose que contraiu quando era adolescente piorou. Incapaz de sair de casa, e consciente que tinha pouco tempo de vida, revisou suas obras para que a sua irmã Sophie se responsabilize de sua publicação póstuma. Não teve força para materializar seu acariciado projeto de escrever um estudo etnográfico sobre os índios. Morreu no dia 6 de maio deste mesmo ano, com 44 anos. Suas últimas palavras foram: “alce” e “índio”.

Para o poeta e dramaturgo espanhol Antonio Machado (1875-1939), o norte-americano Thoreau era um “intelectual que sonhou como latino, e como anglo-saxão colocou em pratica seu sonho”. É um clássico, que emerge e submerge.

“Podemos estar seguros de que qualquer livro ou frase que suporta ser lida duas vezes foi pensado duas vezes”, dizia Thoreau. •

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Em 2013 foi publicada a história em quadrinhos Thoreau – A vida sublime, de A. Dan e Le Roy.

Nota do autor: Artigo publicado em espanhol no site da Acpe e na revista El Siglo de Europa

 

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