teatro

48) CACÁ ROSSET & UBÚ REI: Ator e diretor de teatro; apátrida universal

“O TEATRO É UMA ARTE PRIMITIVA”

por Jairo Máximo

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Cacá Rosset em São Paulo / Foto: Jorge Beraldo

Cacá Rosset (São Paulo, Brasil, 1955) Ator e diretor de teatro. Em 1977 fundou o iconoclasta grupo de teatro Ornitorrinco, em companhia de Luiz Roberto Galizia e Maria Alice Vergueiro. Não bebe, não fuma e adora o teatro. Detesta droga e não tem partido político. Mas é um ser engajado em mil coisas. Seus espetáculos teatrais sempre terminam em folia. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Sou uma pessoa bastante simples”.

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Cacá Rosset / Foto: Nelson R. Spada

Intimidade do artista
Não transo partido político. Sou supercareta; detesto droga. Bebo pouco. Nem cigarro eu fumo. Adoro sexo, mais primeiro fico com o teatro depois o sexo. Sou uma pessoa bastante simples.

Galizia vive
O Luiz Roberto Galizia teve uma importância fundamental na formação da linguagem do Ornitorrinco -grupo de teatro fundado em 1977, dentro da Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo, por mim, por ele e Maria Alice Vergueiro. Ele era um ator excelente. Todas suas sacadas eram de importância fundamental para a gente.

Liberdade conquistada
O Ornitorrinco não depende de um produtor para o próximo trabalho. Aliás, nunca dependemos. O espetáculo UBU-Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes, do teatrólogo francês Alfred Jarry (Laval, 1873- Paris, 1907) é muito visual. Você pode ter uma leitura mesmo que não entenda o texto. O essencial o público capta.

Arte primitiva
O teatro depende do público. Ele não é uma atividade privada. O teatro sem público não existe. Teatro não é televisão e é no mínimo tão bom quanto. Acredito quer o teatro não precisa e não depende do avanço tecnológico. Não precisa da informática, do raio laser. O teatro é uma arte primitiva; alquimia.

Teatro brasileiro
Acho que de um modo geral o teatro que é feito hoje em dia, principalmente em Sampa é muito ruim, primário. Mas torço para o teatro dar certo em Sampa e no Brasil. Quanto mais você fortalecer o movimento teatral, melhor para todo mundo.

Tio Sam proibiu
Achei o fim da picada à atitude da Kurt Weill Foundation, dos Estados Unidos, detentora dos direitos da peça proibir o espetáculo Mahagonny-Songspiel. É totalmente contra as ideias que Bertolt Brecht e Kurt Weill defendiam. É uma coisa institucional, censura.

Patafísica
A patafísica é um pouco da junção da matemática com a poesia. Ela vai além do real, além da física e da matemática. Ela é justamente a patafísica, o terceiro nível, que é o estudo das exceções do universo. ●

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Cacá Rosset no jornal Pícaro em abril de 1986

48-B) UBÚ REI: PERSONAGEM UNIVERSAL APÁTRIDA

“MATEI, ROUBEI E NÃO ESCONDO DE NINGUÉM”

por Jairo Máximo

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Ubú Rei recebe o ex-governador Maluf no Palácio / Foto: Ari Brandi

Ubú Rei (França, século XIX) Monarca. Personagem universal apátrida criado pelo teatrólogo francês Alfred Jarry, que neste momento está incorporado em Cacá Rosset. Ubú Rei é o arquétipo do cinismo, do ridículo e da grosseria. Também é autoritário e se sente o dono da verdade. Não tem senso de ridículo. É autêntico! Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Deus salve a folia!”

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Alfred Jarry, teatrólogo, poeta e pai da patafísica.

Transparência informativa

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Ubú Rei corrompendo o Pícaro publicamente / Foto: Jorge Beraldo

SKMBT_C36016042608451Antes de começar nossa entrevista quero lhe dar um forte abraço , uma gorjeta e um vale-emprego número 96.948, série Y, por você ter trabalhado de corpo & alma na minha vitoriosa campanha política manipulando a informação para que eu caísse bem para os leitores/votantes do jornal Pícaro. É deste jornalismo que eu gosto: aquele que beija o santo, passa no caixa e manipula até Deus. Muito obrigado!

Altivo e ativo governador Ubú Rei
Eu -sua excelência o governador de São Paulo- juro por Deus todo poderoso que conto com total apoio das massas e de parcela considerável da imprensa. Também juro que as pesquisas de opinião que, desde o início me favoreciam, não deixei que fossem divulgadas, para não influir nas eleições e nem na noite de reflexão. Eu já sabia, assim que começou a campanha eleitoral, que eu tinha 68% dos votos. E ganhei com 98% dos votos do eleitorado útil. Para mim a voz do povo é a voz de Deus.

Plano de Merdras

Cacá Rosset e Christiane Tricerri em Ubú Rei / Foto: Divulgação

Quero que o honrado povo paulistano, da capital econômica do Brasil, continue guardando no peito a intenção da efetivação do -Plano de Merdras- que será colocado em ação final do ano. Para esta dura tarefa acabo de nominar o Capitão Botoadura para a pasta da Justiça, porque lhe considero como o único homem capaz de diminuir os altos índices criminais dos colarinhos brancos, verdes, amarelos e azuis.

Merdras de Rei
Sou um rei eleito governador de São Paulo e trabalho muito. Suo a cueca. Sou único por sou aquele que fala a verdade: Roubei, matei e não escondo de ninguém.

Impunidade como fim único
Os quatros itens de minha plataforma que me levaram à vitória esperançosa foram: roubar tudo; aumentar os impostos; matar todo mundo; e finalmente, ir embora.

Puta mãe que o pariu
Mas o dinheiro que eu utilizei na minha campanha política consegui na bolsa da minha mãe. Digo isto que é para que todos saibam que jamais tocarei nos cofres públicos. Não sou dado às pequenas coisas.

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Cacá Rosset em Ubú Rei / Foto: Marisa Uchiyama (Arquivo Blog do Pícaro)

Mas católicas e variadas sim
Depois de finalizadas às apurações iniciei uma cansativa campanha política de olho na minha futura candidatura a presidente da República do Brasil. Minha primeira ação foi convocar as senhoras das Ligas Católicas e Variadas para que se engajem de peito aberto na memorável campanha da primeira e única dama -mãe Ubú-, que pretende atuar nas comunidades periféricas, no campo agrário e nos bordéis urbanos com o slogan “Agasalhe seu croquete com a mãe Ubú”.

Ubú Rei recebe ex-governador Maluf
Sim! Ontem recebi sim aqui, no Palácio dos Bandeirantes, o ex-governador Paulo Maluf para um encontro que inicialmente, se supunha ser de confraternização. Na verdade, o candidato vencido nas últimas eleições estava de posse de vale-emprego distribuído por mim durante minha campanha e exigia a secretaria do Planejamento. Não pude atendê-lo, afinal, o cargo foi ocupado pela dupla de palhaços Arrelia e Pimentinha.

Ubú Rei, o justiceiro

Joan Miró tinha uma especial fascinação por Ubú Rei

Antes de terminar nossa entrevista, quero aproveitar a ocasião e agradecer o grafólogo do Pícaro pela sua precisa análise elaborado através de um recado que escrevi de próprio punho antes das eleições para este jornal. Segundo o grafólogo, acertadamente eu -Ubú Rei- tenho um traço firme, profundamente marcante, que demonstra, ao menos, muita força na mão direita. As minhas deficiências nos riscos horizontais só provam que a caneta falhou. A espiral criada por mim significa o destino que me levará a passos largos, ao centro das decisões: o Palácio do Planalto, em Brasília, DF.

Excelente excelência
Não sou materialista. Acredito em Deus, especialmente nos debates públicos pela TV. E você? Deus salve a folia! ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em abril e setembro de 1986.

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Ubú Rei no jornal Pícaro em setembro de 1986

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Ilustração: Castilho, setembro de 1986 / Arquivo Blog do Pícaro

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40) ANTÔNIO BIVAR: Jornalista, escritor e dramaturgo

“A VIDA É UMA ETERNA PERMUTA”

por Jairo Máximo

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Antônio Bivar em São Paulo / Foto: Lailson Santos

Antônio Bivar (São Paulo, Brasil, 1939) Jornalista, escritor e dramaturgo. É um homem lírico, descolado e simples de tudo. Quando era jovem foi office-boy e bibliotecário. Hoje em dia circula em variadas rodas sociais, intelectuais, punks, marginais e underground tupiniquim e internacional. É um personagem de alma beat generation. Upa! Neguinho na estrada… Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “A picaresca é uma arte”.

Palavras ao vento

Quentin Crisp, por Tim Perkins

No momento eu ando curtindo aqueles musicais dos anos 30: swing, foxtrote. Mas também sou chegado ao som de Marina, Caetano Veloso, Rita Lee, Lobão e outros. Nas artes, gosto dos trabalhos do amigo Antônio Peticov. Ele tem esta coisa do trabalho jogado em cima do mercado. Peticov é um cientista. Na literatura, meu escritor de coração é o americano Quentin Crisp, com quem troco correspondência frequentemente. Para Crisp o dinheiro é sagrado. Ele acredita que terá vida eterna porque faz parte do circuito do amendoim -aqueles que só fazem refeições em vernissage. Além de tudo, ele descobriu que se você ficar 10 anos sem limpar uma casa, ela ficará eternamente limpa.

Influência declarada
A Dercy Gonçalves foi uma das minhas grandes influências, na vida e na dramaturgia. Ela é orgasmo. Ela é divina. Santo gozado. Passa luz. Dercy é uma pessoa religiosa. É uma mulher de 80 anos, e que você vai saber pela boca dela, que ela sente prazer sexual, que basta você tocar no lugar certo, mexer lá. Ela disse que é seco, mas de repente você põe um pouco de óleo, uma coisa qualquer. Então, uma mulher para dizer isto, é porque é maravilhosa. A sua mãe não diz isso. A mãe da gente não vai dizer mesmo. Não é mesmo Pícaro?

Onde está o seu combustível poético?
As coisas são abrangentes; se eu estou fazendo rádio, a paixão se torna o rádio. Quando pinta de ter que encarar o trabalho, aí a coisa vira uma obsessão.

Você trabalha pensando no hoje ou no amanhã?
Eu caio mesmo no hoje: na gandaia -intensamente.

Você é ateu?
Sou pagão, mas cristão também por formação católica.

Em sua opinião, no rock’n’roll, quem vai estourar no mercado fonográfico quase no final desta década dos anos oitenta?
No Brasil, sem dúvida, quem vai estourar é a banda 365, porque durante o programa Rádio Amador, na FM-89, a gente recebia muitas demos e eu ficava com elas para ouvir. Mas quando chegou a demo do 365, senti que no meio da coisa toda era uma banda que tinha as músicas umas diferentes das outras. A poesia era boa, a coisa musical… Acho o Lixomania e o Ratos do Porão também ótimos. Eles me surpreenderam. No mundo eu acho que não está acontecendo nada musicalmente; aconteceu em 81 e 82. Agora, tirando os independentes, que ainda são virgens, porque quando partem para uma gravadora a coisa é diferente, é outra coisa.

Por que depois eles sujam o pau e aí não tem mais jeito?
(risos) Lógico. Você vê o Cólera, que é um grupo punk, e hoje está viajando pela Europa e manda cartas por navios, porque estão sem dinheiro. Eles já tocaram na Holanda, Bélgica, Polônia, Alemanha…, sempre andando de trem, tudo fora do esquema do superstar. Mas ao mesmo tempo, vocês foram ver o show do Echo & the Bunnymen?

Sim! Foi um show simples e contagiante…
É um grupo que acho legal musicalmente, como também o comportamento deles aqui no Brasil, porque a Siouxsie and the Banshees, The Cure foi tudo uma coisa fria, gelada, horrível. O próprio The Cure, que era uma coisa que todo mundo levava a sério, é uma coisa de peruca, cabelo, para aparecer coisas. No entanto, o Echo & the Bunnymen é uma coisa de uma naturalidade e simplicidade surpreendente. Eles saíram por aqui, foram às ruas. Essa coisa mais simples. Eu acho que é por aí.

No teatro, atualmente temos boas novidades no mercado?
No teatro eu não vi muita coisa porque estava fazendo teatro. Então, acho que Antunes Filho, que já estava fazendo e continua, já teve uma explosão. Agora, se eu fosse fazer teatro hoje, gostaria de fazer um espetáculo com a Regina Casé e a Dercy Gonçalves.

Que ótimo! Coisa de cultura popular na carne. Certo!
Exato. É com esta coisa pícara forte, que é uma coisa que eu tenho e só me identifico. Mas é claro que o Ubú Rei também é Pícaro, mas eu me identifico mais com a “picarisse” da Dercy, da Casé, uma coisa meio besteirol, porque eu vim antes. As minhas peças sempre foram meio besteirol, tipo Alzira Power. Eu gosto de entretenimento com bobagens. Nesta atual peça da Maria Della Costa, Ah, que Delícia, ela fala pelos cotovelos com o público. Assim, é uma comédia absurda e a crítica especializada sempre me rebaixa por causa exatamente disto. Eles cobram! Eles esperam que você faça teatro para salvar, uma coisa mais séria, mais adulta. Eu sou infantil, eu não venci esta fase infantil. Então o meu teatro é uma coisa bem assim, solta, descompromissada.

E o próximo trabalho?
Terminei de escrever a peça História do Brasil, com Celso Luiz Paulini. O trabalho é uma coisa em cima da história do Brasil, com muita música popular brasileira. É um musical pretensioso de 15 horas, no primeiro tratamento. O Antunes Filho combinou de a gente fazer este espetáculo o ano que vem. Vamos ver…

Quem é o Antônio Bivar, ex-editor da revista Around?
Quando me convidaram para ser editor eu estava em Paris. A Around, no começo era um jornal de 18 páginas, da boate Gallery aqui de São Paulo, que é um lugar que eu não frequento. Nunca tive nenhuma relação com o lugar. Por acaso eu sou editor da Around. Mas tudo bem… Aceitei o convite com um único compromisso com a revista, que era fazer duas ou três páginas com fotos de pessoas do Gallery, e o resto do espaço era aberto para qualquer coisa. No entanto, agora eu sinto que estou me afastando. Nestes oito anos sempre gostei de trabalhar em casa. Tenho um negócio muito de casa. Às vezes, cheguei a fazer a revista inteirinha, com pseudônimos feminino-masculinos. Sabe, vou te confessar uma coisa: nunca fiquei mais que um ano e meio em um emprego, em nada.

A década de oitenta é fértil em transgressão?
Sim. Mas as grandes coisas não acontecem. Já tivemos outras décadas que marcaram, como a de trinta e sessenta. Gosto mais dos anos oitenta, principalmente dos primeiros anos -81 e 82-, quando começou a ser tudo meio jogado, aquela coisa de não saber onde a coisa vai cair. Senti uma das épocas mais criativas. Foi quando tive vontade de escrever feito louco, de escrever poesia e foi quando eu também tive energia para organizar o 1º Festival Punk brasileiro, no Sesc Pompéia, de São Paulo.

Fale do seu envolvimento com o movimento punk?
Fiz um registro do movimento e vi que tinha uma estética interessante, um atrevimento -uma coisa nova. Tinha na verdade fraternidade, que eu achei bonita no começo. Coisa fraternal, meio irmandade, coisa que me venceu. Trabalhei e participei mesmo! Aquilo foi um trabalho de olhar, identificar e sentir que era um caminho de revolta e contestação. Sou assim também. Até hoje tenho muitos amigos punks.

Você fuma maconha?
Sim. Até teve uma época em que fui preso de gaiato. Estava escrevendo o livro O que é Punk, tinha fumado um baseado e na casa tinha bagana por todos os lados. Aí fui preso junto com o Patricio Bisso. Foi uma loucura… Denunciaram a gente! Aí fui para julgamento e assumi a coisa. Disse que fumava mesmo para escrever e que a polícia tinha encontrado bagana por todos os lados na casa. Na hora eles disseram que eu era réu -confesso- e me liberaram.

Réu confesso é ótimo!
(risos) E aí eu não poderia dançar durante dois anos, por causa daquela coisa de réu primário. Mas aí eu pensei: tenho que andar com fumo no bolso, mas sem documento. Da outra vez que dancei -logo depois- eu não tinha documento e nada em cima. Era uma tarde de domingo linda. Mas aí, lá na delegacia, disse que era amigo do filho do Franco Montoro, governador do Estado, o Paulinho Montoro, coisa que no interior sempre tinha. Se fosse outro governador, por exemplo, o Orestes Quércia, eu não sabia se ele tinha filho, parentes ou irmãos, pois não tinha nenhuma intimidade.

Poderia ter dito que era irmão de Alaíde Costa, a “nossa gracinha” primeira-dama do Estado?
É mesmo! Ou ser primo dela. Mas aí o delegado perguntou se eu não tinha vergonha de comprometer o filho do governador. Disse que não, porque ele também fumava. Entreguei o Paulinho Montoro (risos). Na hora eu dei outro nome e aí tudo bem. Viram que eu não rinha coisa alguma na justiça e soltaram.

Espertinho você… Mas a sociedade argumenta que quem fuma é vagabundo. É a mentalidade tipo Idade-Média, que o sistema perpetua?
Sim. Eu sei que é assim, infelizmente. Fui preso também na época que o Antônio Peticov foi preso com LSD. Ele entregou um monte de gente, e eu estava na lista, mas dizem que ele foi torturado, por isso entregou. Entendo o lado dele. Na cadeia vi gente toda esmigalhada.

Onde está a anarquia? Com os empresários, ministros, Ulysses Guimarães, José Sarney? Ou as coisas simplesmente vão continuar como estão?
Acho que as coisas vão continuar sempre como estão. Mas sempre com uma anarquia. Às vezes a anarquia acontece, depois vai embora. Eu não sei… O mundo tem uma continuidade -momentos. Este momento aqui no Brasil eu estou achando uma coisa revoltante. E quando você vê algumas coisas que te alugam tanto, como essa ferrovia, por exemplo, esta coisa toda escandalosa, porque de repente você sabe que o Brasil está ruim.

Quais são as suas relações com as feras hipócritas & tolas da Censura da Nova República?
Já estou com 48 anos, então, acho que já sofri tanto com ela. Hoje driblo a censura.

Escrever é o grande tesão da sua vida?
Não! Escrever também, mas têm vários. Mas o grande tesão é o tesão mesmo: foder.

O que acha das rádios piratas?
Enquanto ideia eu gosto. É o momento dessas coisas.

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Antônio Bivar durante a entrevista em São Paulo em 1987 / Foto: Lailson Santos

Você é homem feliz ou infeliz?
A maior parte do tempo sou infeliz, mas assim, no geral, eu sou uma pessoa feliz, eu acho.

E o negócio do sexo. Vamos falar de sexo?
Por que não? E fazer também… Porque depois de toda uma liberalização sexual, de repente a AIDS vem com tudo e engloba todas as outras doenças venéreas. A AIDS é uma coisa maior, assustadora, porque ela é mortal. Sabe que eu penso que a AIDS é um vírus que foi criado em laboratório -uma das hipóteses- levantada por aquele teórico inglês. Esse tipo de coisa das pessoas darem a mão para a AIDS é maravilhoso. A primeira pessoa a dar a mão foi a Elisabeth Taylor. Eu tenho visto falar na imprensa… Vamos falar de imprensa?

Você é a voz do Pícaro. Continue!
A imprensa que gosto mais é a imprensa inglesa. É surpreendente o trabalho que eles dão ao tema. Colocam tudo de uma forma amorosa, sendo que até tem uma propaganda que diz: economize sexo para salvar sexo.

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Antônio Bivar durante a entrevista / Foto: Lailson Santos

Guardar o sexo?!?
Eles inventaram uma camisinha que cabe a mão, é para enfiar o pau, mas que dê também para enfiar a mão. As propagandas são com música de rock. As mulheres e os jovens tinham pedido. É engraçado a coisa do sexo hoje, porque o tesão é uma loucura. Teve um dia desses, uma noite, que eu estava com o maior tesão e não ia trepar. Aí saí louco para comprar uma revista de sacanagem a tocar uma punheta. Aí de repente chego ao lugar e encontro um monte de gente comprando a mesma revista. Encontrei jovem de 18 anos com a namorada. Chegou um com uma mala de médico, com um monte de revistas para trocar 3×2, tudo isto ali, naquela banca da Avenida Ipiranga. O que tem de revistas de sacanagem-nacionais e americanas. É bom falar disto, do consumo sexual. Vocês não acham? Eu acho que a gente é animal -tem cio. Tem época que a gente tem tesão, que é uma coisa natural. Sempre fui uma pessoa meio de masturbação. Tenho o hábito de masturbação. Acho que todo mundo tem. De repente saio e compro uma revista, às vezes, uso binóculo. Essa coisa de fantasia… Não dissocio o sexo da coisa espiritual. Sexo é tão espírito. Quando eu me sentia mais garanhão, mas animal sexual me sentia mais próximo de Deus, da esperança, de uma série de coisas.

O anonimato aqui em São Paulo tem muito a haver com o sexo?
Eu acho que São Paulo tem qualquer coisa que mexe com a libido de uma maneira muito forte por causa deste anonimato, desta coisa toda. Devem faltar outros atrativos. São Paulo é uma loucura!

Você não quer votar  para presidente: ontem?
Gostaria que alguém salvasse o Brasil, botasse o Brasil no mapa como uma coisa digna.

Tá difícil!
Mas eu sempre achei que foi meio assim mesmo. Sempre teve difícil, mas é nesta hora que temos de criar situações criativas e passar por cima. ●

N. do A. – Participou nesta entrevista Maurício Chaer, artista plástico.

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em julho de 1987.

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Antônio Bivar no jornal Pícaro em julho de 1987

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teatro

36) DENISE STOKLOS: Mímica, atriz, autora e diretora

“CONDENSAR É A POSSIBILIDADE MÁXIMA”

por Jairo Máximo

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Denise Stoklos em São Paulo / Foto: Nelson Rubens Spada

Denise Stoklos (Irati, Paraná, Brasil, 1950) Mímica, atriz, autora e diretora. É uma estrela vibrante & combativa; performática de raça. Sua arma é a criação possível do Terceiro Mundo, aliada a perfeição da técnica. Tem dois filhos -Thais e Piatã- que juntamente com o teatro configuram sua eterna paixão. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Faço um teatro que subverte tudo: revolucionário. Não necessita nada daquilo que não seja aquilo que tenho: meu corpo e a minha voz”.

Aviso público
“Gostaria de falar devagar, pelo mesmo pensar bastante. Ou as coisas são aprofundadas ou então não valem à pena”.

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A minha viagem, a minha necessidade de fazer teatro ninguém vai tirar, por isso que eu faço um teatro que ele não precisa de absolutamente nada. Não precisa do sistema. Eu o faço em cima de uma mesa e se não tiver a mesa e se não tiver a mesa faço ele em cima de um banquinho e se não tiver o banquinho faço também sem ele. Este é o teatro que subverte tudo: revolucionário. Não necessita nada daquilo que não seja aquilo que tenho, que ninguém me tira – só se me matarem – que é o meu corpo e a minha voz.

Decididamente anarquista
Não faço parte de nenhuma associação, partido político, de nada. Não me identifico com a minha classe teatral, nem sou sindicalizada e não tenho título eleitoral. Não gosto de todas as regras sociais que a gente tem. Acho que é uma sociedade de morte, toda voltada para você viver pouco. Mas acho que não estou sozinha. Isso é Era de Aquário: fraternidade. São coisas que acontecem independentes.

Meninice descolada
Desde pequena escrevia a minha própria coisa porque não tinha onde encontrar, eu tinha que fazer, a minha necessidade fazia eu mesmo produzir aquilo que precisava, pois não tinha acesso. Morava numa cidade do interior do Paraná, em Irati -uma cidade muito pequenininha-, onde não tinha teatro, tinha apenas cinema aos domingos e era matinê. Então eu não tinha acesso mesmo, nem sabia como era, como se fazia teatro. Fui entrar em uma casa de espetáculo teatral quando eu tinha 15 anos, em Curitiba. Antes disso eu já fazia teatro: escrevia e dirigia.

Irati sempre
A minha opção é permanecer em Irati, sabe? Estou em Irati onde eu estiver no sentido assim, ninguém pode fazer aquilo que é o meu serviço. Não tem teatro aqui, não tem texto na cabeça, tenho que fazer. Gostaria de ter mais irmãos neste sentido.

Sobreviver artista
Acho que deve ser a possibilidade de furar todos os esquemas e sobreviver no mundo em que você esteja, naquele contexto com essas e essas maneiras, sem ter que com isso perder o seu impulso criativo. Se você se compromete com uma coisa que não é legal, é propaganda do sistema, fatalmente não vai dar.

Inventar gozando
Acho importante inventar. Inventar uma família. Todas as instituições estão acabadas. Você tem que inventar, não é niilismo, é a construção mesmo. Daquele jeito de inventar outros encaixes, diagramas, assim como numa cena no palco, numa estrutura de um espetáculo com a palavra e a imagem, ou no caso de Mary Stuart, onde tem o passado com o presente. E também na sua vida com sua família, na maneira de sobreviver.

Constituinte é do centro
Recuso-me, a saber, quais foram às decisões da Constituinte porque ela não vai resolver nada. A revolução não vai se fazer por ali mesmo, porque ali é justamente a resistência.

Arte: explosão lúdica
A arte é baseada no lúdico. Não há necessidade nenhuma da arte para o consumo.

Paixão sem ilusão
A minha grande paixão são as coisas mais próximas, que estão muito relacionados aos círculos imediatos de atuação e ele me pega naquilo que é uma coisa muito evidente em mim, que é o teatro, uma coisa para qual não fui formada. Não sei qual é o ovo ou qual é a galinha.

Vem da infância?
Desde minha noção de estar viva eu estava fazendo teatro em casa, montando coisas. A minha percepção de vivência está relacionada com esta coisa: como transformar alguma coisa em cena. A paixão é o extremo prazer de dedicar para tentar resolver uma situação em arte cênica, todas as mil possibilidades. O aprofundamento vai dar nesta coisa de agora estar assumindo a direção, escrever e atuar ao mesmo tempo.

Autoexílio inglês
Só quem viveu a repressão de 67/68 no Brasil, sabe o que era. Não tinha nada se renovando. Era uma coisa de morte, mórbida. Fui embora para a Inglaterra e não sabia quando voltaria, ou o que ia fazer. Tive essa experiência, que foi junto com a minha primeira gravidez. Tive minha filha lá. Aí começou todo esse encontro com o novo, descobrir a mímica e fui fazer um curso e fiquei encantada com a possibilidade da técnica atrás da mímica.

Refletindo a identidade brasileira
Enfim, por opção mesmo, mesmo pintando uma possibilidade de fazer meu trabalho na Inglaterra, optei por voltar. Quero falar da minha pátria, sabe? Quero resolver a minha história. É isso que tenho para contar para o mundo. A minha discussão existencial é essa: a miséria daqui. A miséria do pão, do livro bom, da música boa e do teto, de tudo. A miséria geral brasileira.

Vivo Fidel Castro vive
Eu queria um líder assim para a América Latina que fosse… não sei se é esse, mas essa figura de alguém que pudesse conduzir a América Latina e dissesse: a gente não tem máquina, mas a gente tem a possibilidade da AL, se juntar com força e dizer: os nossos valores não são esses da máquina, nossos valores são todos esses milhões de brasileiros miseráveis que começam a produzir. O que não vai ser? Com os recursos que a gente tem -naturais, minerais, terra- a gente manda. A gente domina o mundo -claro.

Sem dúvida, nenhuma!
Com esse now how criativo que a gente tem, da própria paixão latina. E é onde meu trabalho está tendo internacionalmente essa proporção, porque eles veem isto ―eles sabem, eles percebem está terceira força. Não é o primeiro mundo, é uma coisa muito forte, o que é isso? Além do mais meu trabalho tem uma coisa que é necessária para furá-lo porque parece para ele, que é uma coisa chamada técnica, rigor, disciplina, que tem no meu trabalho. Tem energia. Eles piram.

Processo de criação
Tenho que isolar e ver o que eu posso dizer: arcar e ir às últimas consequências. Condensar é a possibilidade máxima.

Mary Stuart foi assim
Fiquei construindo o espetáculo sozinha -durante três meses- isolada nos Estados Unidos. Aí chamei a Isla Jay, que é fotógrafa e morava lá há nove anos, e é brasileira. Chamei a Isla para fazer as fotos dos espetáculos e a luz comigo, pois sabia o que eu queria com a luz, faltava realizá-la.

Emoção e surpresa em Nova York
A gente estreou e foi muito bom, a receptividade foi maravilhosa. Três dias depois a crítica do New York Times que consagrou o espetáculo de brilhante, disse que eu era maravilhosa. Lá a crítica tem uma importância, pois a partir do dia seguinte da crítica, o espetáculo já estava lotado com antecedência e aí eu fui convidada para ficar mais um mês, que eu não podia ficar, porque já começavam as aulas das crianças. Pude ficar apenas mais uma semana e recebi um convite para estrear lá, anualmente, uma peça nova. Estou voltando agora em janeiro de 1988.

Coisa da raça
Na minha experiência de maternidade pude ver que as experiências não são reduzidas ao ego, pelo contrário, sabe? Primeiro que o meu corpo sabia mais do que a cabeça, estava preparado para aguentar toda aquela tempestade que acontece num parto assim, quando a gente não toma anestesia, não toma nada, como foram os meus dois partos. É uma coisa tão violenta, tão enorme, tão forte e o corpo simplesmente sabe, conhece -tá tudo certo. Ele conversa com a tua psicologia.

Como num Chip de computador
É… tá tudo certo. Mas não fui eu, foi a minha raça. E é isso que estou falando. O importante é reabilitar isto, trazer isto a tona, toda a experiência que sabe e não conhece, sabe e não usa, sabe e se deixa escravizar por meios de comunicação fascista, tanto na política, quanto da indústria que vende, quer vender, vender.

Lar franciscano
Minha casa é totalmente franciscana. Não tem móvel a que eu me apegue. Tudo é assim: o mínimo necessário. Acho que a hora que eu optar por alguma coisa estou tendo uma relação com aquilo mais permanente. Já achei muito difícil ter este lar aqui em São Paulo, onde estamos, porque já estou optando. Isto significa que sou daqui, moro em São Paulo, enquanto o meu espírito não mora aqui.

Mora no mundo?
Entendeu! Eu tenho alguns pontos definitivos na minha vida: o teatro e meus filhos.

Kazuo Ono: sem palavras

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Kazuo Ono em São Paulo / Foto: Marisa Uchiyama (Arquivo Blog do Pícaro)

O Kazuo Ono é inesquecível, é a marca do teatro. Ele é um representante deste teatro de sobrevivência, aquela coisa que busco muito, aquela coisa de uma pessoa única, sozinha, com sua história, recursos, repertórios e seu testemunho transformado em teatro.

Liberdade de produzir
Sempre produzo eu mesmo os meus espetáculos. Gosto de criar as minhas condições de trabalho, pois não tenho que agradar ninguém.

Sem subvenção pública
Patrocínio seria excelente se existisse desde que não interferisse. Eu nunca consegui. Tentei até quando estive em Brasília e falei com o Ministro da Cultura. Mas aquilo é uma mentira, é uma coisa absurda. Fiquei escandalizada. Mas, enfim, fui lá e falei com ele e ele disse: vamos dar o apoio, seu trabalho é importante (mas quem é você mesmo?). Porque ele nunca foi a um espetáculo meu. (risos)

Sem cartinha de recomendação…
Primeiro, acho um desabono ser abonado pelo ministro da Cultura. Segundo, é totalmente irrelevante, porque com a desmoralização deles, quem é que vai levar a sério. Terceiro, nenhuma empresa, ou pouquíssimas empresas, aceitam a Lei Sarney, porque quase todas sonegam o imposto de renda mesmo. E porque se vai dar dinheiro para um governo que depois vai construir, com aquele dinheiro que você dá Angra dos Reis, elefantes brancos? Mas eu mandei cartas para 43 empresas pedindo patrocínio, sendo que nenhuma concedeu. Sete escreveram uma carta de volta negando, outras nem escreveram. Então, continuo mandando, mandando… Se derem ótimo, se não derem, vou continuar fazendo também.

Desejo
Gostaria de fazer um programa de TV completamente desvinculado destes programas comerciais. Uma coisa de estímulo, estimulante. Para isso ninguém me chama. Eles me chamam para aquilo que eu não quero -não faço-, que é coisa da TV Globo, que quando eu vou olhar bem é propaganda de uma firma de brinquedos.

Trabalho para gente serviçal
Tem ator que gosta e acha o maior prestígio e poder. Não está a fim de ter que enfrentar uma criação, porque não é moleza. Não tem brilho nenhum, é suor só. Não é festa.

Suando no palco
O desgaste físico é muito grande, principalmente porque tem muitos trabalhos respiratórios junto com movimentação.

Saudável por excelência
Não fumo e não bebo já algum tempo. Não como carne, só aves, peixes -carne branca. Não saio nunca. Não vou a festas. Não vou a reuniões. Durmo relativamente cedo e acordo relativamente cedo.

Se não for assim: nada
Porque no Mary Stuart são duas presenças no palco, onde esta se desenrolando um personagem que está se mexendo assim, aparentando assim, e no palco está a atriz cuidando da respiração que deve ser assim. Quer dizer, sempre tem duas lógicas atuando e aí está o desgaste: estar se adaptando o tempo inteiro, conduzindo -a atriz e o trilho.

Força nova na mímica
Tive um aluno, que depois virou meu assistente, chamado Júlio Sarcani. O Júlio é muito bom. É uma alegria do meu tempo didático porque parece que formei uma pessoa. Ele foi um discípulo mesmo, sabe? Um pupilo… naquele sentido mais greco-romano de acompanhar o mestre. Ele vai construir a história dele. Ele tem o casamento com o trabalho dele, assim, exclusivo, sabe? Acho que é só assim.

Decifra-me ou te devoro
Já fiz análise algum tempo com uma pessoa maravilhosa que foi guru de muita gente, a Regina Scheneider, que morreu durante nossa análise. Ela deixou para todos os analisados dela isto: decifra-me ou te devoro. A morte dela é a minha análise permanente. Saber que o fim tá aí. A morte é um momento solitário. Neste sentido que acho que os valores que acredito e que gosto de alimentar são esses: que vivem da experiência solitária.

Viver é doido
Viver é muito louco por causa das forças contraditórias.

(Des) crítica da crítica brasileira
Primeiro é o critério: não tem critério. Depois, da maneira como isso é feito, sem respeito do próprio meio de comunicação, que dá uma autoridade para uma pessoa que não tem nenhuma vivência dentro daquilo.

Veja que baixaria

Denise Stoklos, em Mary Stuart

Há uma revista que circula nacionalmente que o repórter teve lá com o fotógrafo e pediram convites. Acabou o espetáculo o cara foi lá dentro no camarim pedir para eu fazer pose, e olha que eu já tinha feito duas sessões. Disse que estava cansada, aí ele disse: sem pose não há crítica. Aí a Isla Jay falou: então tchau. Se eu concordar com uma ditadura dessas estou concordando com tudo. Essa situação é uma coisa também que quando produzo meu espetáculo quero transformar, revolucionar essa maneira de produzir. Não acho que o teatro deva pedir esmolas porque senão não sai. Não quero fazer este jogo com a empresa. Não quero mesmo! Então não saia. E não saiu mesmo. A revista Veja ignorou que aconteceu um espetáculo chamado Mary Stuart, em Sampa, em 1987.

Apenas marketing cultural
A imprensa oficial tem um espaço dedicado para a cultura -jornais, rádios, revistas. Mas você vê o que tem na sessão de cultura nunca é sobre cultura, é sempre sobre marketing cultural. Quem está vendendo quanto: o livro que estourou de vendagem: a peça que está levando 600 pessoas por noite. É o marketing… Aqui no Brasil as coisas são muito colonizadas. Não há diversidade para sobreviver. E é isso que está me cansando.

Coisa de 3º Mundo/ coisa de quem manda
Não tenha dúvida, por isso que é só revolucionando.

Jogando pela tangente
E não sustenta nenhum valor deles. Se o patrocínio não vem, não é por isso que você vai mudar o seu trabalho, que é isso que acontece com as revistas, rádios e jornais do sistema.

Isto mesmo!
Faço teatro para que consiga ter uma comunicação a nível artístico. Aquele que chega e ultrapassa o banal. Ultrapassa o superficial. Ultrapassa o cotidiano. Quando vou entrar em cena eu fico pensando o que posso oferecer -agora-, para o público que é além desse imediato que consome a vida da gente. O que pode chegar para as pessoas que seja uma ampliação da existência humana, uma dilatação da experiência vital e que não seja uma coisa que diminua a experiência vital.

Recado histórico

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Laurie Anderson / Foto: Divulgação

O que trago é o recado do Terceiro Mundo para o ano 2000, porque no momento em que tanto a máquina da tecnologia quanto a bomba atômica, são da mesma área, nós aqui temos a sobrevivência possível, a criatividade, o tesão, a energia que é a única coisa que vai sobreviver. Isto ninguém rouba! Se eu tivesse nascido em Nova York, com certeza, ou Londres ou em Paris, estaria fazendo um trabalho, como talvez o de Laurie Anderson, entendeu? Seria uma grande estrela de alguma coisa tecnológica, porque tenho uma combatividade muito grande, porque quero fazer, quero resolver. Teria tido uma condição favorável, mas em compensação eu não tenho isto. O meu trabalho é a criação. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em janeiro de 1988.

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Denise Stoklos no jornal Pícaro em janeiro de 1988

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro, nº16, janeiro/fevereiro de 1988 / Por Castilho (Arquivo Blog do Pícaro)

 

 

 

 

 

 

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teatro

33) MAITÊ PROENÇA: Atriz

“MEU OFÍCIO É LIBERTADOR”

por Jairo Máximo

Maitê Proença

Maitê Proença no Rio de Janeiro / Foto: Nelson Rubens Spada

Maitê Proença (São Paulo, Brasil, 1960) Atriz. Começou sua carreira profissional fazendo teatro, depois televisão e cinema. É poliglota e adepta da homeopatia e da acupuntura. Neste momento interpreta Dona Beija da novela do mesmo nome que acaba de ser retransmitida pelo segundo canal da Televisão Espanhola. Nesta entrevista exclusiva, concedida no Rio de Janeiro, afirma: “O ator tem que ser um curioso do comportamento humano”.

O que pensa da sua beleza?
A beleza não foi essencial para minha educação, nunca foi um valor que me estimulasse. Descobri que era uma mulher bela quando me transformei em atriz, porque, evidentemente, no Rio de Janeiro, este é um valor que se leva em consideração. Aqui o culto ao corpo é maior do que em qualquer lugar do mundo. As pessoas falam deste tema a cada cinco minutos.

Te incomoda a sua beleza?
Não, porque penso que tenho outras qualidades. Porém, existem pessoas que vendem isso toda hora, e até parecem “prostitutas” da beleza, porque só oferece isto como valor. Eu gosto de oferecer um prazer estético para as pessoas, igual quando se admira um cavalo bonito, uma árvore bonita, um quadro bonito e, logicamente também é bonito admirar uma pessoa bela. Considero que a beleza é um dom maravilhoso.

Sua beleza te abre portas profissionalmente?
Facilita a entrada, mas não garante a permanência, já que o público não é bobo. Se você não tem simpatia, se não pula da tela do cinema aos braços do telespectador, o coração não aceita. O público é muito mais sábio que qualquer crítico, porque primeiro ele assimila com o coração e depois pensa o porquê gostou; mais primeiro existe uma coisa que funciona ou não.

Quais são as suas recordações da novela Dona Beija que conquistou o mundo?
Dona Beija foi o trabalho que mais gostei de fazer na televisão. Esta novela foi exibida em todos os países latino-americanos -Venezuela, Colômbia, Cuba- e também na Espanha. Foi um trabalho difícil porque era na rede Manchete de Televisão e era a sua primeira telenovela. Fizemos um trabalho digno de reconhecimento e abrimos novos caminhos de trabalho para alguns artistas brasileiros. A novela foi bonita. Gravamos 18 horas diárias, sem ar condicionado e com roupas que pesavam 10 quilos. Realmente foi um trabalho cansativo, mas tínhamos uma perfeita integração. Particularmente, considerei que era um trabalho importante num país esquecido como o Brasil, um país que não cuida da sua cultura, não cuida do seu patrimônio histórico, aqui não existe nada preservado, portanto considerei que falar um pouco da nossa história, num país sem memória, através da TV, era importante. Aquela mulher seria revolucionária inclusive hoje em dia. Era uma mulher íntegra, tudo que fazia saía das suas entranhas e era verdadeiro, ainda que fosse cheia de contradições. Beija era imprevisível: amava, mas mandava matar a pessoa que amava. Tinha uma relação de amor e ódio com as pessoas bastante profundas. Era moralista, ainda que sua vida estivesse prostituída. Era um personagem maravilhoso de se interpretar e graças à equipe magnífica, pudemos fazer uma novela boa, capaz de caminhar pelo mundo com muita honra.

O que pensa desta novela que está sendo exibida em Portugal e Suíça, depois de ter finalizado sua exitosa exibição na Espanha?
É bom saber que seu trabalho chega a tantas e tantas pessoas. Considero que isto é devido ao grande trabalho em equipe que a realizamos, e à grande colaboração entre todos.

Você saberia nos dizer qual é a chave para que as novelas brasileiras tenham tanto êxito no estrangeiro?
Penso que é porque nós temos uma coisa menos montada, mais espontânea. Nós fazemos de tudo um pouco. Os estrangeiros vêm ao Brasil para ver como fazemos TV e não acreditam na rapidez com que trabalhamos, a agilidade que temos. Eu fazia uma média de 50 cenas diárias, com longos textos. Beija praticamente falava sozinha nas cenas. No cinema, normalmente, você faz três cenas por dia. Não é nenhum esforço e nós fazemos 50. Num piscar de olhos, numa cena você está estética, em outra nostálgica, em outros na boa ou arriscando-se. É isso o que nos dá agilidade, é parte da nossa condição e sabemos disto. Desde pequenos aprendemos a conseguir a fazer alguma coisa. Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça, segundo o cineasta Glauber Rocha. Nós não temos estrutura, temos muita influência norte-americana, europeia e africana; é uma sociedade que tem várias tendências dentro de si e nossa arte, portanto, é igual. As pessoas gostam e reconhecem sempre como um ponto referencial da sua cultura.

Você é uma atriz autodidata ou estudou arte dramática?
Continuo aprendendo. O ator tem que ser um grande observador, já que isto pode lhe ajudar na composição e compreensão dos seus personagens. O ator tem que ser um curioso do comportamento humano. Eu sou do signo de aquário e isto me ajuda muito. O nosso ofício é belo e libertador.

Como vive uma estrela brasileira?
Acordo às nove horas da manhã e faço ginástica durante uma hora com um professor que vem aqui em casa. Depois faço algumas ligações telefônicas -marcar entrevista, sessão fotográfica, viagens. Tenho uma ótima secretária que me ajuda nisto tudo. Atualmente tenho um espetáculo multimídia com Caetano Veloso, Milton Nascimento, Djavan e muitos outros artistas, para defender a Amazônia. O governo de José Sarney acaba de conceder 460 mil hectares de terra para fazer uma reserva extrativista, o sonho de Chico Mendes. O cantor inglês Sting conseguiu apoio e nós queremos mais apoio econômico. Da Fundação Mata Virgem, ainda não chegou um dólar para a Amazônia. O que está acontecendo é que estão queimando tudo e dentro de dez anos não existirá mais Amazônia. Isto supõe um desequilíbrio imenso e por isso, neste momento, somos os brasileiros que estão se manifestando.

O que você pensa da Fundação pro-Amazonia que existe hoje em Madri, cujo lema é: Amazônia, agora ou nunca?
Mas isto já existe em todo o mundo. Nós não temos consciência do drama, da catástrofe de proporções inimagináveis que estão acontecendo na Amazônia, mas como no Brasil tudo se faz de forma imediata, as pessoas só pensam no dia de amanhã, mas não pensam daqui a 20 anos. Eles vão destruir este imenso patrimônio ecológico que temos.

Destas três modalidades artísticas -cinema, teatro e televisão- qual mais te fascina?
Sempre gosto mais do último que estou fazendo. Adoro desfrutar de tudo aquilo que faço.

Gostaria de trabalhar com algum cineasta espanhol?
Claro que sim, principalmente com Pedro Almodóvar.

Podemos dizer que o artista brasileiro vive do seu trabalho?
Eu vivo do meu trabalho, porém existem muitas pessoas em condições trabalhistas lamentáveis que se veem obrigadas a fazer coisas distintas da arte para sobreviver. Portanto, minha situação é privilegiada, graças ao meu trabalho.

Como preserva sua vida privada sendo uma atriz popularmente conhecida no Brasil?
A televisão é um vínculo e no Brasil a novela vai ao ar em horário nobre, aquele em que toda a família está em casa, sendo assim aproximadamente oitenta por centro da população está assistindo a novela. No Brasil uma família pode não ter uma geladeira, mas tem uma televisão. Na rua as pessoas me chamam e me dizem que me viram no cinema, no teatro ou na televisão. Quando fui visitar a cidade de Dona Beija, em Araxá, em Minas Gerais, as pessoas se aproximavam de mim como se eu fosse fazer milagres, por isso não posso tratar mal ninguém, já que estas pessoas me querem bastante. Trabalho, portanto, com harmonia no que se refere à minha vida privada e à pública.

É Maitê Proença religiosa?
A maneira de se chegar a Deus é individual. Deus está dentro da gente e não importa qual seja o seu nome.

Qual a diferença entre a mulher brasileira e a europeia?
A mulher brasileira é o resultado de muitas mulheres, mesmo com as grandes diferenças sociais, econômicas e culturais entre nós. É difícil definir os brasileiros porque temos brasileiros alemães, africanos, italianos, portugueses, espanhóis, norte-americanos, paulistas, cariocas, gaúchos, maranhenses… É difícil falar do brasileiro. É difícil generalizar o Brasil. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi realizada para a agência Imagen Press de Madri em novembro de 1989.

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Maitê Proença na agência espanhola Imagem Press em novembro de 1989

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teatro

3) LEO BASSI: Ator, diretor teatral, dramaturgo e bufão

“MEU PATRIMÔNIO É O SÉCULO DO ILUMINISMO”

por Jairo Máximo

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Leo Bassi em Madri / Foto: Carmen Mato

Leo Bassi (Nova Iorque, Estados Unidos, 1952) Ator, dramaturgo, diretor e bufão. É nômade por natureza, provocador por tradição. Descende de uma família circense e anarquista cujas origens remontam ao século XVIII. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Sou um homem sério, mas dentro de mim tenho um grande otimismo, inclusive quando enfrento uma tragédia”.

Abro a cortina. Fale o que você quiser.
As ameaças que recebi na Espanha não me deram medo.
Uma coisa que o bufão sempre faz é dizer a verdade na cara, seja do imperador, papa, presidente ou rei, mesmo sabendo que pode ser assassinado por isto. Tem o caráter, a força e o orgulho de manter sua independência. Sou europeu. Meu patrimônio é o século do Iluminismo e suas consequências. Creio no que faço e falo. Sou um lutador.
Quero devolver ao bufão o seu direito ancestral de dizer em voz bem alta que os demais só pensam.

070130martesVocê vive entre Rio de Janeiro e Madri. E…?
Não somente entre estas duas cidades. Tenho outras moradias, como na Itália. Não é somente um binômio; é um plurinômio. Adoro o Brasil de maneira geral, e em particular o Rio de Janeiro. Aliás, sou amigo das pessoas da igreja Positivista, que tem sua sede perto da minha casa, no bairro do Catete.

Por que neste momento você esta apresentando para o mundo o espetáculo A revelação ―em nome da razão― que critica com profundidade o monoteísmo relacionado com a condição da mulher, a sexualidade e a ecologia, oferecendo uma defesa dos valores laicos e uma homenagem ao pensamento do século do Iluminismo?
É uma reflexão. Algo pedagógico para procurar salvar esta ideia do Iluminismo ―cuja principal característica é creditar à razão a capacidade de explicar racionalmente os fenômenos naturais e sociais e a própria crença religiosa― que penso que estamos perdendo como também a paixão por defendê-la. Quis fazer um espetáculo para recordar aos jovens por que temos esta sociedade. Por que temos algo que se chama liberdade. De donde vêm tudo isto. Creio que estamos regressando às ideias religiosas, que podem ser boas para uma pessoa, mas não como sistema político e de estruturação da sociedade.

mqdefaultSeu espetáculo começa com a projeção de um vídeo de uma intervenção sua em um ato público que contou com a presença de mais oito mil evangélicos brasileiros na Cinelândia, no Rio. Qual é diferença entre o fundamentalista cristão espanhol e o fundamentalista evangélico brasileiro?
Isto é muito complicado. No próprio Brasil existe neste momento esta diferença entre o catolicismo, que era a religião que imperava no país e o evangelismo que, nos últimos anos, cresce rapidamente e não sabemos até onde pode chegar. Mas o evangelismo brasileiro é uma ramificação do americano que é uma banalização do catolicismo com raízes protestantes. Têm uma visão teológica bastante pobre. Mas vão até a gente necessita: favelas, bairros marginais, áreas rurais. Além disso, amam o dinheiro. Sabem muito bem como ganhá-lo. Quando se conhece o velho catolicismo se constata que suas raízes são mais profundas, embora hoje em dia seja ineficaz e esteja estagnado nas estruturas do passado. No Brasil, tive à oportunidade de conhecer o teólogo Leonardo Boff, expoente da Teologia de Libertação, um movimento originariamente latino-americano que uniu a defesa dos valores cristãos com a luta pelos direitos dos mais desfavorecidos. Por pregar estas ideias, Boff foi condenado, em 1985, pela Congregação para a Doutrina da Fé, por defender “opções que podem colocar em risco a fé cristã.”. Que pena que Bento 16 não tenha entendido a importância deste homem! Teria transformado a história do Brasil e de toda a América Latina.

Cruzada laica já?

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Leo Bassi em Madri / Foto: Carmen Mato

Sim. Por exemplo, no Brasil estive em um encontro evangélico, no Rio Grande do Norte, onde tinha mais de 25 mil pessoas. Impressionante. Em um determinado momento o pastor disse: “Jesus precisa de uma nova ajuda de cada um de vocês. Precisa de dez reais. Podem lhe dar menos. Mas não se esqueçam de que Jesus pode ver tudo. Ele sabe se em sua carteira você tem dez reais ou mais”. Em seguida, todos caminharam em silêncio até uma grande caçamba e depositaram suas doações em dinheiro vivo. Os pastores evangélicos são bastante eficazes nisto. Não têm nenhum problema com o dinheiro.

E quanto tem de escrúpulos?
Zero. Ainda bem que a igreja Católica não pensa assim. (risos) Quem sabe no futuro triunfe esta tendência. (risos). Vou te contar um fato real: tenho um aluno no Rio de Janeiro. O pai vive em Porto Alegre, é especialista de telecomunicação e trabalha para a empresa de celular Claro. Ele me contou que durante 15 dias seu pai esteve negociando com os evangélicos para assinar um substancioso contrato com a Igreja Universal Reino de Deus gaúcha que queria comprar 10 mil celulares para seus fiéis. Depois de muitas negociações as partes chegaram a um acordo. No dia seguinte, seu pai recebeu uma chamada no celular que dizia: ”Somos da igreja evangélica e queremos te felicitar por sua força negociadora. Foi um prazer trabalhar com o senhor. E temos uma proposta para nova compra de celulares destinados a outras 15 Igrejas evangélicas de Porto Alegre e adjacências. Queremos dar de presente para o senhor as 15 igrejas. Esses templos arrecadam mensalmente 40 mil reais. Nós, da igreja só queremos uma quantidade fixa. O resto é para você”. O pai de meu aluno recebeu a proposta como um insulto. Ele não podia imaginar que uma igreja atuasse com tanto descaramento.
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Por que você afirma que ocidente está perdendo o laicismo?
Porque comprovo que os Estados Unidos já não são mais uma república laica. Nos últimos 20 anos caiu em uma república teológica e tem esta visão religiosa do mundo. Inclusive, atualmente, os democratas têm que declarar sua religião, rezar publicamente e frequentar igrejas. Se não vai, não pode ser eleito. Há 20 ou 30 anos ninguém sabia qual era a religião de John Kennedy, Richard Nixon, Bill Clinton. Não era uma condição sine qua non.

Durante sua passagem pela península Ibérica em 2007 apresentando A revelação―em nome da razão― você sofreu uma campanha de boicote e de perseguição pessoal nunca antes vista em tempos de democracia espanhola. Em muitas cidades, suas representações foram canceladas sem contemplação porque uma página na web ultra-católica que utiliza um sistema automático de envios massivos de e-mails advertia com ameaças e pressões as instituições públicas e privadas que decidiam programar A revelação. Em Madri, você viveu uma breve temporada com proteção policial 24 horas, por ter recebido ameaças de morte pela Internet. O emblemático Teatro Alfil, onde representava sua obra, teve vigilância policial ostensiva durante toda a temporada, que durou semanas. Mesmo assim, cristãos fundamentalistas realizaram uma manifestação em frente ao teatro. Denunciavam “provocação”. Pediam “respeito à Igreja e a Deus”. Também diversos meios de comunicação ―rádios, TV, jornais― lhe censuraram. O que isso significa para você?
Muito e pouco. O pouco é que existem alguns grupinhos fanáticos que há tempo estão contra mim. Até colocaram uma bomba ao lado do meu camarim, em 2006. São uns desequilibrados mentais. Por isso necessitamos da polícia. Só um destes loucos, com uma barra de ferro, pode nos fazer bastante estrago. O muito é que estes loucos não vão ao teatro. Vivem no seu mundo. Foram organizados por pessoas que não dão a cara. O cardeal Cañizares, vice-presidente da Conferência Episcopal e arcebispo da cidade de Toledo ―coração do cristianismo e de todos os movimentos nacionalistas e fascistas da Espanha― fez uma homilia que dizia assim: “Leo Bassi é o símbolo da decadência dos valores. Seu espetáculo é um atentado à liberdade religiosa“. Sendo assim, considero que o responsável por incitar essa gente é o cardeal aliado a um pequeno grupo de intelectuais que escrevem nos diários espanhóis ABC e La Razón.

Como um bufão vive em Madri com guarda-costas 24 horas?Utopia
Tive proteção policial durante alguns dias. Já não tenho mais, embora tome minhas precauções. Já estou acostumado a este tipo de situações. Intuo que os peixes gordos viram que isto estava chegando longe demais e deram uma contraordem para não me tocarem. Estava me dando muita publicidade gratuita.

Qual é a moral da história?
Que o governo do Partido Socialista Operário Espanhol ordenou uma proteção especial. Mandou um sinal de apoio: Neste aqui ninguém toca. Os outros entenderam a mensagem.

O que é leobassipuntocom?
Um bufão com Internet. Algo novo na minha vida. A Internet é fantástica para os bufões. É uma arma ou um meio para conectar ideias, procurar aliados e quebrar o monopólio da informação. A minha primeira briga é com diário espanhol El Mundo, por manipular notícias e difundir falsa informação. Fiz um estudo que está no meu site sobre os artigos do britânico Gordon Thomas, publicados por este diário, que o apresenta como um especialista em terrorismo. Constatei que as suas denúncias não se encontram em nenhum outro lugar. São inventadas. Uma coisa interessante de tudo isto é que com o julgamento do 11-M (atentado terrorista contra trens na Espanha que matou 191 pessoas e deixou cerca de 1.550 feridos) parte dos argumentos do direitista Partido Popular e de seus meios de comunicação, sobre a teoria da conspiração (uma suposta conexão entre etarras e islamistas) vem dos artigos de Thomas. Inclusive nos debates parlamentares, muitos populares o citam como fonte de informação.

9788495764607Acabas de lançar na Espanha o livro com o texto de A revelação ―em nome da razão―, que em breve será traduzido para o português. Por que o livro?
Este documento para mim é importante porque desde estreia deste espetáculo, mais de 150 mil pessoas já o assistiram. Teve lugares em que fiz espetáculo para mais de cinco mil pessoas. No norte da Espanha, cheguei a fazer durante muitas noites, apresentação para 1.440 pessoas em cada sessão.

Por que A Revelação para os brasileiros?
Porque considero que esta mensagem é importante para o Brasil.

Por que você é bufão?
Aqui existem duas coisas e quero que fiquem claras: a primeira é que me impuseram ser bufão. Descendo de uma família circense anarquista, e cresci com a ideia de que tinha que seguir esta tradição. Aquela coisa de filho/neto/pai de açougueiro. Eu mesmo ―como jovem inquieto― me rebelei contra esta tradição. Durante alguns anos não queria saber de espetáculo. Olhava-os como uma coisa que não era minha, era da família. Mas chegou um momento, buscando minha identidade, que comecei a pensar nesta tradição e a analisar qual era a função da minha família, dos bufões, dos palhaços, da importância do riso e passei a gostar desta história. Quem sabe foi aí que entrou o genético. O meu pai é um homem divertidíssimo. Constantemente está inventando e contando piadas. Aos 80 anos tem um otimismo, uma fé no futuro surpreendente. Fisicamente é um velhinho, mas mentalmente é um homem lúcido. E penso que tenho isto dentro de mim. Eu sou um homem sério, mas dentro de mim tenho um grande otimismo, inclusive quando enfrento uma tragédia. Ela não me afeta. Tenho certeza que depois de uma tragédia as coisas podem melhorar. Para afrontar a tragédia qual melhor arma que o humor e a comicidade.

Seu teatro é provocativo?
A provocação é uma ferramenta que utilizo para incitar o público. Penso que a maioria das pessoas é apática. E a provocação é uma coisa que desperta a consciência, pois o público a enfrenta. Muitos podem não gostar, e inclusive se assustar, mas todos têm que reagir.

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Leo Bassi em Madri / Foto: Jairo Máximo

Fecho a cortina. Haverá ovação?
Temos esquecido que a grande revolução do Iluminismo não é só o racional. É também o sensual, o sexual e os prazeres.
Preciso criar um novo espetáculo para chegar a algo mais. Estes desejos me chegam por meio do público, sem usar a palavra. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista El Siglo de Europa, no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) e na agência Eurolatinnews em maio de 2007.

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Leo Bassi na revista espanhola El Siglo de Europa em maio de 2007

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teatro

JUAN MAYORGA: “SOU FELIZ ESCREVENDO TEATRO”

Por Jairo Máximo*

Juan Mayorga fotografiado en Madrid, primavera del 2014

Juan Mayorga em Madri /Foto Jairo Máximo

MADRI, Espanha – (Blogdopícaro) – O dramaturgo, diretor teatral, filósofo e matemático Juan Mayorga é um dos autores contemporâneos mais representativos nos palcos teatrais espanhóis e europeus.

Por suas obras já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Nacional de Teatro 2007 e o Nacional de Literatura Dramática 2013; o Valle-Inclán de Teatro 2009; o Max, de melhor autor −2006, 2008 e 2009− e a melhor adaptação −2008 y 2013.

Em 1988, ele se formou em filosofia e matemática. Em 1997, concluiu doutorado em filosofia. Foi professor de matemática e atualmente é professor de dramaturgia e filosofia. Mayorga_web

Em 2011, fundou o grupo teatral La Loca de La Casa. Acaba de publicar o livro Teatro 1989 −2014, uma seleção de vinte de suas obras prediletas ordenadas cronologicamente.Muitas delas foram traduzidas para mais de 20 idiomas como alemão, árabe, francês, inglês, hebraico, português, russo, esperanto; e encenadas na Alemanha, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Coréia do Sul, Cuba, Estados Unidos, França, Grécia, Israel, Itália, México, Noruega, Reino Unido, Romênia, Ucrânia e Uruguai.

Entre suas dezenas de peças e textos teatrais breves se encontra a aclamada peça O rapaz da última fila, que recentemente foi o foco da primeira emissão radiofônica de teatro espanhol contemporâneo na rádio pública inglesa. A estimativa da BBC é que mais de 700 mil ouvintes ouviram a leitura.

Nesta entrevista exclusiva, realizada em Madri, Juan Antonio Mayorga Ruano (Madri, 1965) afirma: “A palavra que escrevo tem um corpo no espaço”.

Por acaso, durante a infância você foi o personagem Cláudio -o estudante que se intromete perigosamente em vidas alheias para alimentar sua vocação literária− da peça O rapaz da última fila?

chico-ultima-fila−Sim, claro que sim. Tenho esse duplo gesto, que é o do artista e do escritor. Prestar uma atenção obsessiva naquilo que se vê e ativar a imaginação. 

Quando você descobriu a palavra?

−O meu pai tinha −e ainda tem− o costume de ler em voz alta. Quando fazia o colegial ele tinha um amigo cego e que para que ambos pudessem aproveitar as horas de estudo, meu pai lia em voz alta. E ele manteve esse costume. Isto fez com a que minha casa fosse uma casa habitada pela palavra. Que as palavras estivessem no ar. Meu pai lia ensaios do Gregório Marañón, a novela A montanha mágica, de Thomas Mann, sempre em voz alta, mas não para que nós -eu e os meus irmãos- ouvíssemos e, sim, por costume. Por isso, creio que minha convicção interior de que as palavras geram mundos, tecidos, paisagens, vêm daí. Logicamente que isso impregna o meu teatro e a minha fé na palavra pronunciada. A palavra que escrevo tem um corpo no espaço. Ela chegará aos lugares mais imprevisíveis pela boca de atores. Isto também está relacionado com a minha busca artística. Por exemplo, quando leio o Livro da Vida, da Teresa de Jesús, me pergunto: como seriam essas palavras escritas na solidão proferidas pela boca de um ator? Aqui começa a minha intervenção. Em seguida escrevo uma versão teatral que intitulo A língua em pedaços.pk4qvwuhgjtvertical

Em A língua em pedaços, Prêmio Nacional de Literatura Dramática 2013, o fictício personagem Inquisidor de Teresa de Jesús, avisa: “A singularidade é subversiva”. É assim na vida real?      

−(silêncio) Sim. Qualquer forma de dissidência é castigada. Na nossa sociedade a singularidade tende a ser domesticada, pasteurizada, reconduzida e utilizada.

Por que você escreve teatro?

−Porque creio que o teatro é um ato de amor para as pessoas. É entregar algo a elas. Estou empenhado nisto. Quero continuar entregando algo às pessoas. Sou feliz escrevendo teatro. O teatro não existe sem a cumplicidade do espectador.

Você tem dificuldade para escrever uma peça teatral?

−Sim. Escrever teatro para mim é extraordinariamente difícil. A escritura é um combate. Sinto uma grande dificuldade para encontrar a fórmula exata de minhas obras. Estou constantemente guerreando com os meus textos. Normalmente reescrevo minhas obras muitas vezes.

Então, suas obras estarão eternamente inacabadas?

−Existe uma imagem que eu gosto de levar em consideração e que é utilizada pelo sindicato da construção. Os pedreiros falam de obras brancas, negras e cinzas. A branca é aquela obra pronto para morar. A negra é aquela obra ainda não apta para morar. E a cinza é aquela obra que sem estar concluída, pode ser habitada. A minha obra permanentemente é cinza.

Que metáfora bem feita!

−(risos) Estou em constante conversação com as minhas obras porque sou um homem ambicioso de talento limitado que tem capacidade para ouvir os outros. Essa conversação me ensina novas possibilidades de desenvolvimento, extensão e limites delas.

Quando você descobriu o teatro? 526_01

−Acho que sem saber foi durante a minha infância na casa habitada pela palavra pronunciada. No entanto, a primeira vez que eu fui ao teatro foi em 1981, quando eu tinha 16 anos, simplesmente porque no colégio selecionaram quatro alunos para ir ao teatro María Guerrero, de Madri, ver a peça Senhora Rosinha a solteira ou A linguagem das flores, de Federico García Lorca, interpretada por Núria Espert e dirigida por Jorge Lavelli, que naquela época já era um mestre do teatro europeu. Trinta anos depois, Lavelli montaria em Paris as minhas peças: Cartas de amor a Stalin, O rapaz da última fila e O tradutor de Blumemberg. Quer dizer, de alguma maneira no teatro María Guerrero estabeleceu-se um encontro entre aquele homem e aquele adolescente. Além disso, foi no Teatro María Guerrero onde já estreei quatro peças de minha autoria: Cartas de amor a Stalin, Himmelweg-Caminho do céu, A paz perpétua e A arte da entrevista. 

Quanta coincidência. Você é um homem místico?

−(risos) Bem… É que este “encontro marcado” no tempo e no espaço com o teatro parece um sonho profético. Ou não? (risos) Sim. Aqui existe uma trama, afinidades seletivas. Neste momento descubro o teatro com fascinação, como uma arte de reunião. Posteriormente, me transformo em um amante da arte teatral, sem nunca imaginar que um dia iria me dedicar a isto.

Onde você encontra as ideias para escrever suas peças?

−Levo sempre a mão uns pequenos cadernos de onde surge grande parte das minhas peças. Outras nascem de alguma coisa que alguém me conta ou a raiz de uma notícia que leio na imprensa. Tenho uma atitude receptiva das coisas. Procuro conexões entre fenômenos distantes.

Você é um antropófago sem trauma?

−Evidentemente que sim. Para mim isso não é um exercício cruel. É um prazer. Não existe um momento específico para um escritor porque inclusive da situação aparentemente mais medíocre se pode fazer uma reelaboração; se pode reconstruir, transformar e mostrar esta mediocridade por meio de uma representação que a eleve a uma coisa bela.

Posso considerar que o personagem Macaco Branco da peça Últimas palavras de Floquet de Neu é uma possível reencarnação contemporânea de Michel de Montaigne? NUEVO CARTEL COPITO

−(silêncio) Esta sua pergunta me interessa muito. Faz-me pensar que uma possível interpretação desta obra seria a de que o Macaco Branco é um disfarce do Montaigne. Mascarar-se de animal para realizar o velho ofício de pensar.

Você caça a ideia ou é ela quem lhe caça?

−Uma atitude promissora é se deixar ser caçado por ela. Mas isso requer um aprendizado ou um (des)aprendizado. Um esperançoso horizonte é o de estar escutando o mundo. Quando nos abrimos para ver e ouvir o que o mundo tem a nos dizer, pode surgir uma ideia fértil.

Quando você tem as ideias: de dia ou de noite?

−Walter Benjamin imaginava que as ideias deveriam ser como assaltantes que assaltam alguém despreocupado no bosque. Gosto muito desta ideia de assalto à imaginação. As ideias me assaltam. Não tem hora. Chegam quando chegam. Benjamin é o intelectual que mais me influenciou. Um parágrafo dele vale mais que as trezentas páginas da tese doutoral que fiz sobre o pensador titulada Revolução conservadora e conservação revolucionária. Política e memória em Walter Benjamin.

No programa da peça A arte da entrevista você escreve: “Uma entrevista é uma navalha”. Você pensa assim?

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Teatro María Guerrero / Foto Jairo Máximo

−Claro que sim. No entanto, uma entrevista também pode ser um combate, uma briga, uma reunião e, por que não? um pacto de interesse de ambas as partes. Porém, neste momento, diante de você retifico e a deixaria assim: “Alguma entrevista é uma navalha”.

O que você acha que a arte teatral acrescenta perante as outras artes?

−Duas coisas muito importantes: reunião e imaginação. O teatro é uma arte onde um setor representa possibilidades da vida humana para que outro setor imagine. Isso continua sendo extraordinário.

Qual é o papel do cinema em seu trabalho?

−Devo muito mais ao cinema daquilo que eu sou consciente. O cinema educou a minha geração. Porém, eu não escrevo pensando que cinema será o destino final de minhas obras. Meus escritos estão comprometidos com o teatro. Mas é obvio que me sinto grato pelo fato do cineasta François Ozon ter adaptado a peça O rapaz da última fila. No entanto, não sinto que o segmento cinematográfico tenha me destinado uma tribuna de honra, é outro tipo de interpretação e representação. Também me sinto agradecido pelo fato de que algumas das minhas peças tiveram audição nas rádios estatais do Reino Unido, França e da Romênia, assim como também me sinto honrado de que O rapaz da última fila tenha sido a primeira peça do teatro contemporâneo espanhol transmitida pela BBC. Foram peças teatrais que se converteram em uma apresentação sonora.

Deduzo que o seu teatro está baseado no desassossego e, principalmente no silêncio. Tenho razão?

−(silêncio) Gosto muito da sua interpretação de minha obra teatral. O teatro é o lugar onde melhor se explica o silêncio da voz humana. Evidentemente que sobre a poesia do silêncio já se falou muito, mas é no teatro onde o silêncio se escuta, se vê e se sente. Por exemplo, no meu primeiro trabalho como diretor teatral de uma peça de minha autoria, A língua em pedaços, o momento favorito para mim é aquele no qual o Inquisidor de Teresa de Jesus se retira para rezar, pensar, analisar e revisar a sua vida em silêncio. A primeira vista não é nada espetacular. Entretanto, creio que é o momento mais importante do espetáculo. Ao espectador interessa o silêncio. Tenho outras obras, como Hamelin, sobre as diferentes formas de maus-tratos exercidas pelos adultos contra as crianças, que também está escrita para que se ouça o silêncio das crianças. Himmelweg. Camino del cielo, obra sobre o extermínio dos judeus europeus, também foi escrita para que se ouça o silêncio. Não vou lhe dizer que o meu teatro é um teatro para o silêncio, mas sim que no meu teatro o silêncio é fundamental. É uma experiência da consciência estendida.  

O que você quer ser quando crescer?

−(risos) Bem… Hoje eu gostaria −já maior− ser bom filho, bom pai e bom marido. Mas sei que ser bom marido é extraordinariamente difícil.

(risos) A vida é sonho.La-vida-es-sueño-teatro-Pavón

−(risos) Sim. Quanto ao resto não vejo a minha vida fora do teatro. Continuarei sendo cada dia mais exigente e rigoroso comigo mesmo. Continuarei tendo sempre como horizonte aquilo que falei no começo da entrevista: quero continuar entregando algo às pessoas.

O que você pensa desta frase: “Twitter lhe leva a pensar que és sábio. Instagram que és fotógrafo, e Facebook que têm amigos. O despertar vai ser duríssimo”?

−(silêncio) Como comentar esta frase? Quem escreve os nossos sonhos? Quem escreve nossas vidas? Todas essas ferramentas tecnológicas podem nos dar uma ilusão de liberdade, que seja só isso, ilusão, porque na realidade existem outras formas de recolonização do nosso imaginário, do nosso mundo da vida. O que você pensa? (silêncio) Por pensar, não me adapto às redes.

−(risos) Somos dois. •Dans-la-maison

ROTEIRO DE LEITURA DAS OBRAS CITADAS

O rapaz da última fila (2006) − Uma obra sobre mestres e discípulos; sobre pais e filhos; sobre pessoas que já viram muito e pessoas que estão aprendendo a olhar. Uma obra sobre o prazer de aproximar-se de vidas alheias e sobre os riscos de confundir vida e literatura. Uma obra sobre os que escolhem a última fila: aquela da qual se vê todas as outras.

A língua em pedaços (2011)− Na realidade para se deixar levar até Teresa é suficiente lê-la e constatar o muito que a nossa língua lhe deve e, portanto, o muito que a nossa experiência no mundo lhe deve. Somente nossos grandes poetas submeteram a tal tensão extrema a língua espanhola. Ganhar para o teatro essa palavra foi o meu primeiro objetivo. Como foi também a palavra de Teresa que me levou a imaginar o Inquisidor, seu antagonista nesta fantasia teatral.

cartel_CARTAS_BLAnCOCartas de amor a Stalin (1977)É uma história de amor na qual participam três personagens: um homem, uma mulher e o diabo. É uma meditação sobre a necessidade que o artista tem de ser amado pelo poder, necessidade tão forte como a que o poder tem de ser amado pelo artista. É uma fantasia baseada na terrível experiência do russo Mijail Bulgákov (1891-1940), grande escritor que o estalinismo condenou ao silêncio.

El traductor de Blumemberg (1993) − Uma obra sobre língua e linguagem e sobre a difícil tarefa, pouco reconhecida às vezes, pelos grandes setores: o trabalho dos profissionais que a exercitam para dar apresentar outras vozes e outros âmbitos do pensamento da literatura do outro.

Himmelweg. Camino del cielo (2003)Aparentemente “Himmelweg” é uma obra de teatro histórico. Mas, na realidade é e quer seruma obra sobre a atualidade. Fala de um homem que se parece a quase todos que conheço: tem uma grande vontade de ajudar aos outros; quer ser solidário; Himmelweg Posterhorroriza-lhe a dor do semelhante. No entanto, também como quase todas as pessoas que conheço esse homem não é suficientemente forte para desconfiar daquilo que lhe dizem e lhe mostram. (…) Não é o suficientemente forte para descobrir que o “Caminho do céu” pode ser o nome do inferno.

A paz perpétua (2007) − A paz perpétua é uma fábula. Uma fábula sem moral. Em um lugar secreto, um rottweiler, um dobermann e um pastor alemão competem para conseguir o cobiçado colar branco e com ele a distinção do cachorro antiterrorista de elite, “uma profissão com muito futuro”.

A arte da entrevista (2014) − De um e de outro lado da câmera, as mulheres jogam a se entrevistar. Jogando, riem e se ferem mutuamente. E se ferem muito. Uma entrevista é uma forma de diálogo que tem suas própias regras, sendo que a mais importante é: eu pergunto você responde e o silêncio também é uma resposta. Uma entrevista é um jogo bastante sério quando a realizamos diante de uma câmera que a registra. Uma entrevista é uma navalha. Em A arte da entrevista, as entrevistas entram em conflito, se ferem uma às outras.

Últimas palavras de Floquet de Neu (2004) − Floquet de Neu está morrendo. Agonizante ele quer nos falar. A palavra é sua libertação, fala-nos de tudo aquilo que antes não soube ou não ao quis dizer. Copito se humaniza diante de nossos olhos e nos fala de sua vida; do que pensa sobre o guarda-costas que lhe vigia e sobre o macaco negro que o acompanha.

05051106Hamelin (2005) − Aqueles que realmente conhecem o conto asseguram que as crianças nunca regressaram a Hamelin. O flautista lhes levou para sempre com a encantadora música de sua flauta. Ao levar consigo os filhos inocentes, o flautista culpou os pais e lhes deu o pior dos castigos. Também este “Hamelin” é um conto sobre as crianças que pagam a culpa dos mais velhos. Um conto sobre as crianças de uma cidade que não sabe protegê-los. Um conto sobre as crianças e seus inimigos. Sobre o barulho que lhes rodeia e o medo com que nos olham.

A vida é sonho (2011) − Se a condição do clássico é sua permanente atualidade, não existe clássico em nosso teatro que o seja tanto como A vida é sonho. Pedro Calderón de La Barca (1600-1681) encontrou uma forma exata para representar uma experiência universal: aquela que faz quem, ao olhar a sua volta, pergunta se vive ou se sonha  −os se lhes fazem sonhar −. Tampouco, não existe em nosso teatro outro personagem que nos possibilite ver a frágil beleza do humano como lhe reconhecemos em Segismundo, “um homem das feras e uma fera dos homens”. Nem alcançou nossa língua em outra obra, me parece, a tensão que atravessa os versos desta trágica comédia. •

Instituições e personalidades citadas

Prêmio Nacional de Teatro e Nacional de Literatura Dramática, concedido desde 1995 pelo Ministério de Educação, Cultura e Esporte da Espanha. Reconhece o mérito do trabalho de uma pessoa ou entidade no âmbito teatral, preferencialmente por meio de uma obra ou atuação pública representada durante o ano.

Prêmios Valle-Inclán de Teatro, foi criado em 2007 pelo suplemento El Cultural do diário espanhol El Mundo del Siglo XXI. São dirigidos aos profissionais do meio teatral e o prêmio de maior valor da Espanha.

Prêmios Max das Artes Cênicas, criados em 1998 pela Sociedade Geral de Autores e Editores com a finalidade de premiar e reconhecer o trabalho dos profissionais e a qualidade das produções mais destacadas do ano no âmbito das artes cênicas.

GregorioMarañon-CatalogoConmemoracion2010Marañón, Gregório (1887-1960) Médico e escritor espanhol. Especialista em endocrinologia. Foi doutor “honoris causa” de várias universidades europeias e americanas. Desenvolveu um amplo trabalho literário no campo de ensaio.

Mann, Thomas (1875-1955) Escritor alemão considerado como o grande literato do século XX em seu país. Prêmio Nobel de Literatura em 1929.

Teresa de Cepada Ahumada (1515-1582) Mais conhecida como Santa TeresaExtasis Santa Teresa-2 de Jesús ou simplesmente Teresa de Ávila. Foi religiosa, fundadora das carmelitas descalças, mística e escritora religiosa. Doutora da Igreja Católica.

Teatro María Guerrero, foi inaugurado em 1885 como Teatro da Princesa. Em 1931, como tributo à sua última proprietária, a prefeitura de Madri decidiu trocar o nome de Teatro da Princesa pelo da atriz Maria Guerrero (1867-1928). Em 1978 passou a ser sede do Centro Dramático Nacional.

García Lorca, Federico (1898-1936) Poeta e dramaturgo espanhol. Sua obra é objeto de contínuos estudos, comentários e polêmicas. En 1935 escreveu Doña Rosita la soltera ou El lenguaje de las flores. En 1936 fue fusilado pelos franquistas.

Espert, Núria  (1935, L’ Hospitalet de Llobregat) Atriz de teatro, cinema, ópera e diretora teatral espanhola. En 1981 protagonizou com sucesso Doña Rosita la soltera ou El lenguaje de las flores no Teatro María Guerrero.

Lavelli, Jorge (1932, Buenos Aires) Diretor de teatro e de ópera franco-argentino. É considerado como um dos diretores que mais renovou o teatro francês.  Destaca-se por sua preocupação de representar um teatro vivo, vigente e atrativo.

Montaigne2291wlMontaigne, Michel de (1533-1592) Filósofo, escritor, humanista, moralista e político francês do Renascimento, autor de Ensayos e criador do gênero literário conhecido na Idade Média como ensaio.

Benjamin, Walter (1892-1940) Filósofo, crítico literário e social, tradutor, locutor de rádio e ensaísta alemão. Seu pensamento está vinculado à Escola de Frankfurt. Morreu em Portbou, na Espanha, depois de ingerir uma dose letal de morfina ao saber perseguido pela Gestapo.

Ozon, François (1967, Paris) Cineasta. Em 2012 estreiou Dans la maison baseado na obra O rapaz da última fila. O filme encontra-se entre o gênero cinematográfico e o literário, tanto por seu estilo como pela evolução dos personagens. •

* Com a colaboração de Vanice Assaz, jornalista.

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JUAN MAYORGA: “EL TEATRO ES UN ACTO DE AMOR A LA GENTE”

Por Jairo Máximo

Juan Mayorga fotografiado en Madrid, primavera del 2014

Juan Mayorga en Madrid /Foto: Jairo Máximo

MADRID — (Blogdopícaro) — El dramaturgo, director teatral, filósofo y matemático, Juan Mayorga es uno de los autores contemporáneos más representado en España y en la escena teatral europea.

Ha ganado diversos premios, entre ellos, el Nacional de Teatro 2007 y el Nacional de Literatura Dramática 2013; el Valle-Inclán de Teatro 2009; el Max, al mejor autor —2006, 2008 y 2009—, y a la mejor adaptación —2008 y 2013.

En 1988 se licenció en Filosofía y Matemáticas. En 1997 se doctoró en Filosofía. Enseñó Matemáticas en institutos de Madrid y Alcalá de Henares durante cinco años y es profesor de Dramaturgia y Filosofía. En 2011 fundó la compañía teatral La Loca de La Casa.

Mayorga_webAcaba de publicar el libro Teatro 1989—2014, una selección personal de veinte de sus obras predilectas. Muchas de estas piezas han sido traducidas a más de veinte idiomas (alemán, árabe, francés, inglés, hebreo, portugués, ruso, esperanto y otros); y puestas en escena en Alemania, Argentina, Australia, Brasil, Canadá, Corea del Sur, Cuba, Estados Unidos, Francia, Grecia, Israel, Italia, México, Noruega, Reino Unido, Rumania, Ucrania, Uruguay y otros países.

Entre sus decenas de piezas y textos teatrales breves, se encuentra la obra El niño de la ultima fila, que recientemente fue la protagonista de la primera emisión radiofónica de teatro español contemporáneo en la cadena pública británica. La estimación de la BBC es que más de 700 mil oyentes siguieron la lectura.

En esta entrevista exclusiva concedida en Madrid, Juan Antonio Mayorga Ruano (Madrid, 1965) afirma: “La palabra que escribo tiene un cuerpo en el espacio”.

¿En la infancia has sido el personaje Claudio —el estudiante que se inmiscuye peligrosamente en las vidas ajenas para nutrir su vocación literaria— de su aclamada pieza El chico de la última fila?

¡Claro! Tengo este doble gesto que Claudio hace, que es el gesto del artista y del escritor. Prestar una atención obsesiva a algo que estás viendo y activar la imaginación.

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¿Cuándo encuentras la palabra?

Mi padre tenía —y todavía tiene— la costumbre de leer en voz alta. Cuando él estudiaba magisterio tenía un amigo ciego, y para que juntos pudieran aprovechar las horas de estudio, mi padre leía en voz alta. Y con esa costumbre se quedó. Eso hizo que mí casa fuese una casa habitada por la palabra. Que las palabras estuviesen en el aire. Mi padre leía ensayos de Gregorio Marañón, la novela La montaña mágica, de Thomas Mann, siempre en voz alta, pero no para que yo y mis hermanos escuchásemos. Por eso, creo que mí convicción interna de que las palabras crean —mundos, tejidos y paisajes— viene de ahí. Por supuesto que eso impregna mí teatro y mí fe en la palabra pronunciada. La palabra que escribo tiene un cuerpo en el espacio. Llegará a lugares imprevisibles en la boca de unos actores. Eso también tiene que ver con mi búsqueda artística. Por ejemplo, cuando leo el Libro de la Vida, de Teresa de Jesús, me pregunto: ¿cómo serían esas palabras escritas en soledad en boca de un actor? Ahí empieza mi intervención. Acto seguido escribo la pieza La lengua en pedazos.

20140227071250En la inquietante  La lengua en pedazos, galardonada con el premio Nacional de Literatura Dramática 2013, el ficticio personaje Inquisidor de Teresa de Jesús avisa: “La singularidad es subversiva”. ¿Es así en la vida real?

(silencio) Sí. Cualquier forma de disidencia es castigada. En nuestra sociedad la singularidad tiende a ser domesticada, pasteurizada, reconducida y utilizada.

¿Por qué escribes teatro?

Porque creo que el teatro es un acto de amor a la gente. Es entregar algo a la gente. Me empeño en eso. Quiero continuar entregando algo a la gente. Soy feliz escribiendo teatro. El teatro no existe sin la complicidad del espectador.

 ¿Tienes dificultad para escribir una pieza teatral?

¡Claro! Para mí escribir teatro es extraordinariamente difícil. La escritura es un combate. Se me hace muy difícil encontrar la fórmula exacta de mis obras. Estoy constantemente peleando con mis textos. De hecho, normalmente reescribo mis obras una y otra vez.

 ¿Entonces son tus obras inacabadas?

Hay una imagen que me gusta mucho tener en cuenta. La utiliza el gremio de la construcción. Los albañiles hablan de obras blancas, negras y grises. Las blancas son las obras acabadas; habitables. Las negras son las obras no aptas para ser habitadas. Y las grises son las obras que sin estar acabadas, son habitables. Mis obras están permanentemente en gris.

¡Que pulcra metáfora!

(risas) Estoy en constante conversación con mis obras porque soy un hombre ambicioso de talento limitado que tiene una cierta capacidad de escucha. La conversación que genera mis obras me enseña nuevas posibilidades para su desarrollo, extensión y límites.

¿Cuándo encuentras al teatro?

Creo que sin saberlo yo, fue durante la infancia en mí casa habitada por la palabra pronunciada. Sin embargo, fui al teatro por primera vez cuando tenía 16 años, simplemente porque en el instituto seleccionaron a cuatro alumnos para ir al Teatro María Guerrero y ver Doña Rosita la soltera o el lenguaje de las flores, de Federico García Lorca, protagonizada por Núria Espert, y dirigida por Jorge Lavelli, que por entonces ya era un maestro del teatro europeo. Treinta años después, Lavelli montaría en París mis piezas, Cartas de amor a Stalin, El chico de la última fila y El traductor de Blumemberg. De algún modo en el Teatro María Guerrero de Madrid se estableció un encuentro entre aquel hombre y aquel adolescente. Por otra parte, en el Teatro María Guerrero es donde hasta ahora he estrenado cuatro de mis piezas. Cartas de amor a Stalin, Himmelweg. Camino del cielo, La paz perpetua y El arte de la entrevista.

cartel_CARTAS_BLAnCO¡Cuanta coincidencia! ¿Eres un hombre místico?

(risas) Bueno…

Es que este “encuentro marcado” en el tiempo y en el espacio con el Teatro, suena como un sueño profético. ¿O no? 

(risas) Efectivamente. Aquí hay una trama. Unas afinidades selectivas. En aquel momento descubro el teatro con fascinación, como el arte de reunión. Después de eso me convierto en un aficionado al teatro, sin imaginar que un día iba a dedicarme a eso. 

¿De dónde sacas las ideas para escribir tus piezas?

Llevo siempre encima unos cuadernos de donde surgen buena parte de mis piezas. Otras surgen de algo que alguien me cuenta o a raíz de noticias que leo en la prensa. Tengo una actitud hospitalaria de las cosas. Busco conexiones entre fenómenos distantes. 

¿Eres un antropófago sin miramientos?

¡Claro! Para mí eso no es un ejercicio cruel. Es un placer, un gozo. No hay momento advenido para un escritor porque incluso de la situación aparentemente más mediocre uno puede hacer una elaboración, reconstruirla y mostrar esa mediocridad haciendo con que la representación sea de algún modo algo hermoso.

NUEVO CARTEL COPITO¿Es el mono Copito de Nieve, de la pieza Últimas palabras de Copito de Nieve, una reencarnación contemporánea de Michel de Montaigne?

(silencio) Esa pregunta me interesa mucho. Me hace pensar que una interpretación posible de la obra sería la de que Copito de Nieve es un disfraz de Michel de Montaigne. Enmascararse de animal para desarrollar el viejo oficio de pensar. 

¿Tú cazas la idea o es ella la que te caza?

Una actitud óptima es ser cazado por ellas, pero eso requiere un aprendizaje o un desaprendizaje. Un bello horizonte es el estar a la escucha del mundo. Cuando nos abrimos a oír lo que el mundo quiere decirnos puede aparecer algo fértil.

¿Cuándo tienes las ideas: de día o de noche?

Walter Benjamin imaginaba que las ideas deberían ser como atracadores que asaltan al confiado paseante en el bosque. Me gusta muchísimo esa idea del asalto. Las ideas me asaltan. No tienen hora. Llegan cuando llegan. Benjamin es la persona que más me ha influenciado. Un párrafo suyo vale más que las trescientas hojas de la tesis doctoral que escribí sobre él titulada “Revolución conservadora y conservación revolucionaria. Política y memoria en Walter Benjamin”.

En el programa de mano de la pieza El arte de la entrevista, afirmas: “Una entrevista es una navaja”. ¿Piensas así?

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Teatro María Guerrero / Foto: Jairo Máximo

¡Claro! Pero una entrevista también puede ser un combate, una pelea, una reunión y ¿por qué no? una negociación pactada e interesada. Ahora, me rectifico ante ti, y la dejaré así: “Alguna entrevista es una navaja”.

¿Qué crees que el arte teatral aporta frente a otras artes?

Dos cosas muy importantes: reunión e imaginación. Unos sectores representan posibilidades de la vida humana para que otros sectores se las imaginen. Eso sigue siendo extraordinario.

¿Qué papel juega el cine en tu obra artística?

Debo mucho más al cine de lo que soy consciente. El cine ha educado a la gente de mi generación. Pero no escribo pensando que el cine podría ser el destino final de mis obras. Mi escritura está comprometida con el teatro. Ahora, es obvio que me siento halagado por el hecho de que el cineasta  François Ozon hiciera una adaptación de la obra El chico de la última fila. Sin embargo, no siento que me hayan relegado a una división de honor, sino que es otro tipo de puesta en escena. También, me siento halagado por el hecho de que algunas de mis obras tuvieran audición en las radios públicas de Francia, Rumania y Reino Unido. Asimismo, me siento halagado de que El chico de la última fila fuera la protagonista de la primera emisión radiofónica de teatro español contemporáneo en la cadena pública británica BBC. Son piezas teatrales que se han convertido de algún modo en una puesta de escena sonora.

¿Puedo concluir que tu teatro está basado en el desasosiego y, fundamentalmente, en el silencio?

(silencio) Me gusta mucho tu interpretación sobre mi teatro. En el teatro es donde se explica el silencio de la voz humana. Por supuesto que ya se ha hablado mucho de la poesía del silencio. Pero es en el teatro donde el silencio se escucha, se ve, se percibe, se siente. El teatro, que es el arte de la palabra pronunciada, también es el teatro del arte del silencio. Por ejemplo, en mi primer trabajo como director teatral de una pieza mía, La lengua en pedazos, para mí el momento favorito es aquel en que el Inquisidor de Teresa de Jesús se encierra a rezar, pensar, analizar y revisar su vida, en silencio. En principio no es nada espectacular. Pero creo que es el momento más importante del espectáculo. Al espectador le interesa el silencio. Hay otras obras mías, como Hamelin, sobre las diversas formas de violencia de los adultos sobre los niños, que también está escrita para que se escuche el silencio de los niños. Asimismo, Himmelweg. Camino del cielo, sobre el exterminio de los judíos europeos, está escrita para que se escuche el silencio. Ahora, no te diré que mi teatro es un teatro para el silencio. Pero, en mi teatro es fundamental el silencio. Es una experiencia de la conciencia extendida.

¿Qué quieres ser de mayor?

(risas) Bueno… A mí me gustaría −hoy ya de mayor− ser un buen hijo, buen padre y buen esposo. Con todo, sé que ser un buen esposo es extraordinariamente difícil. 

(risas) La vida es sueño.

(risas) Sí. Por lo demás no veo mi vida fuera del teatro. Seguiré escribiendo teatro. Seguiré cada vez más riguroso y exigente conmigo. Seguiré teniendo siempre como horizonte aquello que te he dicho al principio: quiero continuar entregando algo a la gente.

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¿Qué piensas de esta frase: “Twitter te hace pensar que eres sabio. Instagram que eres fotógrafo, y Facebook que tienes amigos. El despertar va a ser muy duro”?

(silencio) ¿Quién escribe nuestros sueños? ¿Quién escribe nuestras vidas? Todas esas herramientas tecnológicas nos pueden dar una ilusión de libertad, que sea sólo eso —ilusión— porque en realidad hay otras formas de recolonización de nuestro imaginario, de nuestro mundo de la vida. ¿Y tú qué piensa?

(silencio) Por pensar, no me adapto a las redes.

(risas) Somos dos.•

PROGRAMA DE MANO DE LA ENTREVISTA

Obras citadas

 – El chico de la última fila (2006) — Una obra sobre maestros y discípulos; sobre padres e hijos; sobre personas que ya han visto demasiado y personas que están aprendiendo a mirar. Una obra sobre el placer de asomarse a las vidas ajenas y sobre los riesgos de confundir vida y literatura. Una obra sobre los que eligen la última fila: aquella desde la que se ve todas las demás.

– La lengua en pedazos (2011) — En realidad, para dejarse arrastrar hacia Teresa es suficiente leerla y advertir lo mucho que le debe nuestra lengua y,por lo tanto, lo mucho que le adeuda nuestra experiencia del mundo. Sólo nuestros mayores poetas han sometido a tan extrema tensión la lengua castellana. Ganar para el teatro esa palabra fue mi primer objetivo. Como fue también la palabra de Teresa la que me llevó a imaginar al Inquisidor, su antagonista en esta fantasía teatral.

– Cartas de amor a Stalin (1997) — Es una historia de amor en la que intervienen tres personajes: un hombre, una mujer y el diablo. Es una meditación sobre la necesidad que tiene el artista de ser amado por el poder, necesidad tan fuerte como la que el poder tiene de ser amado por el artista. Es una fantasía basada en la terrible experiencia del ruso Mijail Bulgákov (1891-1940), enorme escritor al que el estalinismo condenó al silencio.

– El traductor de Blumemberg (1993) — Una obra sobre lengua y lenguaje y sobre lo difícil que es una tarea tan poco apreciada a veces, por los grandes sectores: la labor de la de los profesionales que la ejercitan para dar a conocer otras voces y otros ámbitos del pensamiento de la literatura del otro. 

– Himmelweg. Camino del cielo (2003) — A primera vista, “Himmelweg” es una obra de teatro histórico. En realidad, es —quiere ser— una obra acerca de la actualidad. Habla de un hombre que se parece a casi toda la gente que conozco: tiene una sincera voluntad de ayudar a los demás; quiere ser solidario; le espanta el dolor ajeno. Sin embargo, también como casi toda la gente que conozco, ese hombre no es lo bastante fuerte para desconfiar de lo que le dicen y le muestran. (…) No es lo bastante fuerte para descubrir que “Camino del cielo” puede ser el nombre del infierno.

La paz perpetua (2007) — La paz  perpetua es una fábula. Una fábula sin moraleja. En lugar secreto, un rottweiler, un doberman y un pastor alemán compiten para conseguir el codiciado collar blanco y con él la distinción de perro antiterrorista de élite, una profesión con mucho futuro.

– El arte de la entrevista (2014) — A uno  y otro lado de la cámara, las mujeres juegan a entrevistarse. Jugando, ríen y se hacen daño. Mucho daño. Una entrevista es una forma de diálogo que tiene sus propias reglas, la más importante de las cuales es: yo pregunto, tú respondes y el silencio también es una respuesta. Una entrevista es un juego muy serio si se hace ante una cámara que la registra. Una entrevista es una navaja. En El arte de la entrevista, las entrevistas entran en conflicto, se hieren una a otras.

– Últimas palabras de  Copito de Nieve (2004) — Copito de Nieve se muere. Y en su agonía quiere hablarnos. La palabra en su liberación, nos dice todo aquello que antes no ha sabido o no ha querido decir. Copito se humaniza antes nuestros ojos y nos habla de su vida; de lo que piensa sobre el guardián que lo custodia y sobre el mono negro que lo acompaña.                                                            

– Hamelin (2005) — Los que de verdad se saben el cuento, aseguran que los niños nunca volvieron a Hamelin. El flautista se los llevó para siempre con la hermosa música de su flauta. Arrebatándoles los hijos inocentes, el flautista dio a la culpa de los padres el peor de los castigos. También este “Hamelin” es un cuento sobre niños que pagan las culpas de los mayores. Un cuento sobre los niños de una ciudad que no sabe protegerlos. Un cuento sobre los niños y sus enemigos. Sobre el ruido que los rodea y el miedo con que nos miran.

– La vida es sueño (2011) — Si la condición del clásico es su permanente actualidad, no hay clásico en nuestro teatro que lo sea tanto como La vida es sueño. Pedro Calderón de la Barca (1600-1681) encontró forma exacta para representar una experiencia universal: la que hace quien, al mirar a su alrededor, se pregunta si vive o si sueña —o si le hacen soñar—. Tampoco hay en nuestro teatro otro personaje en que se nos dé a ver la frágil belleza de lo humano como la reconocemos en Segismundo, “un hombre de las fieras y una fiera de los hombres”. Ni ha alcanzado nuestra lengua en otra obra, me parece, la tensión que atraviesa los versos de esta trágica comedia.

Instituciones y Personalidades citadas

Premio Nacional de Teatro y Premio Nacional de Literatura Dramática , otorgado desde 1995 por el Ministerio de Educación, Cultura y Deporte de España, reconoce  la meritoria labor de una persona o entidad en el ámbito teatral, puesta de manifiesto preferentemente a través de una obra o actuación hecha pública o representada durante el año.

Premios Valle-Inclán de Teatro, concedido desde 2007 por el suplemento El Cultural del diario El Mundo del Siglo XXI. Está dirigido a la profesión teatral. Es el premio teatral de mayor dotación económica en España.

Premios Max de las Artes Escénicas,  creados en 1998 por la Sociedad General de Autores y Editores, con el fin de premiar y reconocer la labor de los profesionales y la calidad de las producciones más destacadas del año en el ámbito de las Artes Escénicas.

Marañón, Gregorio (1887-1960) Médico, endocrino, científico, historiador  y escritor español. Fue doctor “honoris causa” de varias universidades europeas y americanas. Desarrolló una amplia labor literaria en el campo del ensayo.

Mann, Thomas (1875-1955)  Escritor alemán. Se le considera la figura máxima de la literatura del siglo XX en su país. Premio Nobel de Literatura en 1929.

Cepada Ahumada, Teresa de (1515-1582) Más conocida como Santa Teresa  de Jesús o simplemente Teresa de Ávila fue religiosa, fundadora de las carmelitas descalzas, mística y escritora religiosa. Doctora de la Iglesia Católica.

Teatro María Guerrero, fue inaugurado en 1885 como Teatro de la Princesa. En 1931, como tributo a su última propietaria, el Ayuntamiento de Madrid decidió cambiar el nombre del Teatro de la Princesa por el de la actriz María Guerrero (1867-1928). En 1978 pasó a ser sede del Centro Dramático Nacional. 

García Lorca, Federico (1898-1936) Poeta y dramaturgo español. Su obra es objeto de ininterrumpidos estudios, comentarios y polémicas. En 1935 escribió  la pieza Doña Rosita la soltera o el lenguaje de las flores. En 1936 fue fusilado por los franquistas.

Espert, Núria  (1935, L’Hospitalet de Llobregat, España) Actriz de teatro, cine, ópera y directora teatral española. En 1981 protagonizó con éxito de crítica y público Doña Rosita la soltera o el lenguaje de las flores, en el Teatro María Guerrero.

Lavelli, Jorge (1932, Buenos Aires, Argentina) Director de teatro y de ópera francoargentino. Es considerado uno de directores que más ha renovado el teatro francés.  Se ha destacado por su preocupación de representar un teatro vivo, vigente y atractivo.

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Montaigne, Michel de (1533-1592) Filósofo, escritor, humanista, moralista y político francés del Renacimiento, autor de los Ensayos y creador del género literario conocido en la Edad Moderna como ensayo.

Benjamin, Walter (1892-1940) Filósofo, crítico literario, crítico social, traductor, locutor de radio y ensayista alemán. Su pensamiento se asocia con la Escuela de Frankfurt. Murió en Portbou, España, tras ingerir una dosis letal de morfina al sentirse atrapado por la Gestapo.

Ozon, François (1967, París) Cineasta. En 2012 estrenó la película Dans la maison basada en la pieza El chico de la última fila.  Es una película que se encuentra entre el género cinematográfico y el literario, tanto por el estilo como por la evolución de los personajes.•

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Entrevista publicada en Acpe y Eurolatinnews

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