Comunicação

50) MARCELO TAS: Repórter e ator

“NÃO TENHO PARTIDO POLÍTICO”

por Jairo Máximo

Dibujo

Marcelo Tas em São Paulo / Foto: Jorge Beraldo

Marcelo Tas (Ituberava, São Paulo, Brasil, 1960) Repórter e ator. Mas também é ator, pianista -estudou sete anos de música clássica- e ex-engenheiro. Atualmente incorpora o personagem Ernesto Varela, o melhor ator/repórter da TV brasileira que joga com a palavra, a estética e a ética. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Os comunistas brasileiros são uns porcos, são um bando”.

Como foram as origens da coisa?

O repórter Ernesto Varela entrevistando Lula / Foto: Reprodução Blog do Tas

Tudo começou quando o Goulart de Andrade abriu um espaço em seu programa de TV para o Olhar Eletrônico. Ele deu total liberdade para a gente. Neste programa eu era produtor, mas como fazia teatro, comecei a brincar com a câmera, de ficar na frente, fazer gracinhas. Era um dia chuvoso. Peguei os óculos vermelhos do Fernandinho, que é colecionador de óculos, e comecei a brincar de repórter, com as coisas óbvias. Nasceu naturalmente. Demos um nome -Ernesto Varela- e ele começou a entrevistar pessoas reais – políticos, artistas e o público em geral na rua.

O Marcelo Tas perdeu a identidade profissional ao incorporar o emergente personagem Ernesto Varela?
Acho que não. O Varela é uma pessoa que vive dentro de mim. Agora pintou o Bob McJack que é o apresentador do Crig-Rá; diferente do Varela O Bob é mais plástico, mais moderno. Enfim, é um cara modernoso. O Varela é tradicional. O Bob é rock, sanduíche. Personagens que podem aparecer ou não. Vai daí que a gente vai trabalhando.

Na infância você fez troca-troca?
Mas é claro.

Politicamente qual é a sua?
Bem estou trabalhando como a maioria dos brasileiros, com esperança de melhorar o País. Nada de esperar coisas do governo. Os políticos conseguiram chegar ao limite da descrença e agora estão querendo recuperar a profissão desacreditando. Vão ter que provar tudo com trabalho. Agora, com a Nova República, eles têm mais respeito com os brasileiros. Se eu votasse em São Paulo votaria em Fernando Henrique Cardoso.  Mas eu não tenho partido político.

Você usa drogas?
Que tipo? Droga a gente consome o dia inteiro. O ar que respiramos aqui é uma droga. Eu acho.

Estou falando em drogas/drogas: maconha, álcool, haxixe, cocaína?
Olhe, eu acho que isso não tem importância. O importante está em outro lugar. Tudo tem que ser encontrado um ponto justo. As drogas na minha vida não têm importância. Eu não uso ou uso raríssima vezes. Uso pouco.

O repórter Varela era uma brincadeira. Hoje ele está no mundo  -Cuba, Nova Iorque, Moscou. Qual é a emoção desta viagem progressista?
De repente é um susto. Andando em Moscou eu me sentia alucinado, como o feito de uma droga, pois sem usar droga a gente viaja também. O Varela é um trabalho consciente de pesquisa. Na produtora Olhar Eletrônico a gente se reúne bastante. Temos um rigor de trabalho. Aquilo que na TV aparece ser um delírio esta dentro de uma base sólida. Pé na terra. Viajar é bom.

Nenhum comunista comeu a criancinha do Varela em Moscou?
Não, não. Os comunistas preferem agora comer caviar e tomar vodca. Eles estão em outra. Fomos muito bem tratados, de uma maneira especial. A gente fez matérias com certo constrangimento: duas pessoas acompanharam todas as gravações. Eu só não dormia com estes caras. Isso atrapalhou, mas ao mesmo tempo revelou todo este controle que há na União Soviética. Eles são todo um império. São poderosos. Têm tecnologia avançada.

Como a população é servida desta tecnologia?
As pessoas moram direitinho. Recebem um salário que permite uma sobrevivência boa. Para eles o que interessa é servir à média. Quanto aos “privilegiados” eles consideram que tem que ter mesmo, porque são pessoas que têm responsabilidade de tocar o Partido. Mas tem geniais que estão confinados. A rebeldia existe. Às vezes é criativa e é estimulada.

Como o debochado Ernesto Varela pode passar para o público esta visão?
Passei através de uma coisa que ele tem: simplicidade. O Varela estando em Havana, Moscou, Queluz ou Rio Preto, é a mesma coisa. Ele é ingênuo, caipira e tradicional. Inexperiente diante de tudo. Ele é óbvio. Procura sempre o que atrai na rua. É curioso.

Você dormiu com alguma comunista em Moscou?
Não deu tempo. Cheguei a paquerar. As soviéticas são surpreendentemente descaradas. Elas na rua te caçam. Elas vêm em cima de você e ficam falando, falando. Elas são tímidas, mas na rua… Lá durante o verão o dia se põe a meia noite. Vai daí que, quando acabava o dia, que eu ia dormir tranquilamente.

A jornalista Belisa Ribeiro (TV-Bandeirantes) disse que a Rússia é um país de velho e criança. Esperança e experiência. Você endossa isto?
Aqui a juventude é a base. Lá, a primeira pirâmide deles é a Segunda Guerra Mundial, onde morreram 20 milhões de pessoas. Foi um corte na população masculina violento. A visão da juventude soviética para mim é de um grande animal que se movimenta muito lentamente.

O próprio urso seria?
É, talvez. É uma boa imagem. Não tem gestos bruscos. Fiz uma pergunta para eles de quando seria a próxima revolução russa. Não entenderam, não responderam. Para eles só houve uma e não vai existir outra revolução. Os caras falam de produtividade agrícola para o ano 2000. Os planos são em longo prazo. Nós, no Brasil, somos um país primário -lambões. A gente resolve as coisas no chute. Acredito que neste momento estamos nos tornando adolescentes.

Onde pode ocorrer uma revolução dentro da União Soviética?
A falha para mim é na área da informação. Não existe inquietação, que é própria do Ocidente. Não há troca entre outros mundos. Eles têm uma ideia de incrementar, de mudar isto. Não é à toa que fomos lá fazer umas matérias. Tudo estava nos planos quinquenais.

Marcelo Tas reuni frases do presidente Lula em livro

Você acabou de ter contato com estilos diferentes de comunistas -soviético, cubano e brasileiro. Traça um perfilzinho deles pra gente?
O comunista soviético mora na matriz. É competente. Conseguiram dar uma qualidade de vida para as pessoas. Tem o problema da desinformação do mundo. Precisam ocidentalizar a informação! O comunista cubano é um comunista desenvolvido. O país é pobre, mas é um cara bem-humorado, gozador. Bem próximo ao brasileiro. Eles estão vivendo um processo primário em relação à União Soviética. Agora, o comunista brasileiro é aquele que ainda esta anos-luz atrasado em relação a estes outros dois. A maioria da delegação que foi a Moscou era do Partido Comunista Brasileiro. Sabe, na volta, depois de toda aquela maravilha de um povo asseado, as ruas limpas, os brasileiros invadiram as lojas de souvenir do aeroporto e levaram as coisas de bacias. Consumistas pra caralho. Os comunistas brasileiros são uns porcos; são um bando. Nós temos que nos civilizar e crescer muito. Estamos num estado bruto. Às vezes desanima, mas vamos trabalhar. Você me manda um jornal Pícaro quando sair à entrevista?

Mando! Ah, a vida sexual do Varela explodiu depois do sucesso nacional?
Manteve na mesma. Sou um rapaz tímido, contido na minha vida sexual. Como é que você me faz uma pergunta dessas, rapaz…

Qual a reação dos políticos, quando entrevistados pelo Varela?
Às vezes eles chegam extremamente preocupados e saem dando risadas; ou então as vezes chegam dando risada e saem extremamente preocupados.

E o seu projeto de mudar a bandeira nacional está andando?
Ele está aí, em andamento. Somos a única bandeira que tem uma coisa escrita. As bandeiras são símbolos. Se a Nova República é nova, então, não precisa de Ordem e Progresso na bandeira. Concorda Pícaro? Abraços. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em outubro de 1985.

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Marcelo Tas no jornal Pícaro em outubro de 1985

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro, nº7, outubro de 1985, realizado por Cris Eich / Arquivo Blog do Pícaro

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