Música

41) CLÁUDIA WONDER: Travesti, cantora e compositora

“NÃO QUERO SER HOMEM NEM MULHER”

por Jairo Máximo

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Cláudia Wonder em São Paulo / Foto: Cortesia da artista

Cláudia Wonder* (São Paulo, Brasil, 1955) Travesti, cantora, compositora e atriz. Para fins burocráticos, jurídicos e eleitorais ela é Marco Antônio Cláudio Wonder. Contudo, nos palcos underground da noite paulistana ele é Cláudia Wonder. Canta rock e compõe versos ditos poesia marginal. Suas composições musicais falam do holocausto nuclear, da miséria, violência, poluição e desejos reprimidos. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Envolvo as pessoas mais pelo lado humano do que pelo lado sexual”.

Anota aí! Um
Mas antes de cair na vida artística, rodei bolsinha, mostrei a bundinha nas esquinas da cidade de São Paulo e até usei o pintinho para o consolo dos heterossexuais. Sai deste mundo rapidinho e, em 1978, fui morar na Europa, e residi na Holanda, Suíça e Itália, assimilando a cultura destes países aos que realmente me fizeram mulher. Em 1981, retornei ao Brasil. E aqui vou levando… A vida difícil de artista. Não quero ser homem nem mulher. Quero ser travesti.

Anota aí! Dois!
Quando eu tinha seis anos e estudava numa escola e eu não sei por que a professora me fez ficar horas de pé em frente à lousa, sendo motivo de brincadeira de mau gosto de todos os meninos. Lembro-me disso até hoje. Depois, quando cheguei a casa e falei com o meu pai, ele não entendeu e acabou me dando a maior surra e ainda no outro dia me fez levar umas margaridas que tinha no jardim de casa para a professora. Coisa de um pai militar, autoritário e uma professora louca. Que repressão.

Quem é Você
Uma pessoa solitária. Aprendi a conviver com ela. Sou o pequeno carente da sociedade.

Família/família
Venho de uma família tradicional classe média. Pai militar repressor e mãe protetora. Na infância sentia que era diferente das demais crianças. Isto não me incomodava.

Continue na infância
Quando eu tinha 13 para 14 anos passei a exercer a rebeldia e não aceitava à imposição de ter que ser homem sem ser.

Fez troca-troca
Comigo era assim: eu ficava atrás do menino e contava até dez e pronto. Depois eu virava e o menino colocava e eu contava: um, dois, quinze, trinta, sessenta e nove, até… Ele não querer mais. Era simples, não tinha mistério.

Veio ao mundo pra quê
Meu objetivo é cantar rock. Do mesmo jeito que a Europa tem no rock Sigue Sigue Sputnik, a América do Norte tem Lou Reed e Nova York tem The Doors, o Brasil tem Cláudia Wonder.

Para falar o que
Essencialmente do amor proibido, aquele feito às escondidas, que no fundo são os fatos que cobrem o manto da hipocrisia da sociedade.

Mas Deus castiga
Que nada! Somos todos Deuses Cósmicos nas cidades. Diferentes do Deus cristão.

Travesti dá e come
Geralmente fazemos o papel de uma mulher na relação sexual. Porém, em muitos casos somos a salvação do heterossexual enrustido que gosta de transar o pintinho.

Antigas companheiras de guerra
A Rogéria é o travesti mais antigo do Brasil. Eu dou o maior valor. Os travestis antigos abriram caminho para isto que estou fazendo agora. Não faço meu trabalho apenas pelo consumo e apelo sexual. Transo arte.

Telma Lipp e Roberta Close
É difícil falar delas, pois são públicas e diferentes. Agora, eu digo que já fiz esquina e faço de novo se precisar, daquele jeitinho, de bundinha de fora. A carne é fraca meu bem.

No palanque abraçadinho com político
Já estive uma vez com o Leonel Brizola, por causa do Jorge Mautner. O Brizola e o pessoal do Partido Democrático Trabalhista ficaram passados. Mas o Brizola não é meu coronel.

Votar em quem
O meu candidato é o Eduardo Matarazzo Suplicy. Mas é muito difícil transar um partido. Tanto preconceito! Mas eu estou com o Partido dos Trabalhadores (PT), pois o preconceito independe de partido.

Vida na noite
À noite para mim é o ar que respiro, mas viver de música na noite é barra. Veja os meus músicos, por exemplo, eles precisam trabalhar de dia para tocarem na noite comigo. Tem família para sustentar.

AIDS de vocês
AIDS de mim! Não gosto nem de ouvir esta palavra. Seria hipócrita eu mentir, dizer que não tive medo. Qualquer resfriado era motivo de neurose. No entanto, entre os casos registrados no Brasil, nenhum travesti foi internado ou morreu com AIDS.

Travesti da banheira
Ah, antes, nos meus shows, eu fazia uma performance dentro de uma banheira com groselha. Tinha até um nu artístico. Mas isto é coisa do passado, pois eu não queria ficar conhecida como a travesti da banheira de groselha.

Fotograma do filme Meu amigo Cláudia, dirigido por Dácio Pinheiro

Casa noturna Madame Satã
É um lugar bárbaro de gente bárbara, no bom sentido. Madame Satã é São Paulo.

Juventude transviada
Não sei não… Parece-me que tá chegando uma geração mais quadrada, careta do que a dos anos 60/70.

Vício declarado
Minha droga é o conhaque.

Amada amante
Envolvo as pessoas mais pelo lado humano do que pelo lado sexual.

Literatura e música
Adoro Charles Baudelaire, Jean Genet e Antonin Artaud. Neste momento estou lendo Paramahansa Yogananda, autor autobiográfico de Yoga. Na música, gosto do Inocentes, RPM, The Cure e outros.

Recado às novatas
Sejam naturais. A maioria é extremamente narcisista.

Falta gente como eu. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em outubro de 1986.

* Cláudia Wonder morreu em novembro de 2010 em São Paulo, Brasil.

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Cláudia Wonder no jornal Pícaro em outubro de 1986

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Cláudia Wonder era a musa do jornal Pícaro (1984-1988). Foi cover girl do Pícaro, nº 13, abril de 1987 / Foto: Marisa Uchiyama

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Música

35) ITAMAR ASSUMPÇÃO: Músico e médium

“SOU MÉDIUM MUSICAL”

por Jairo Máximo

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Itamar Assumpção em São Paulo / Foto: Lailson Santos

Francisco José Itamar de Assumpção* (Tietê, São Paulo, Brasil, 1949) Músico. Também é cantor, letrista, arranjador, ator e médium. Não tem partido político e é filho de pai de santo. Não abre mão de sua linguagem musical única. Adora o futebol. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Na cadeia eu fiz o melhor concerto da minha vida para um ouvinte anônimo, na base de modinhas caipiras”.

Dados precisos dele
Com onze anos sua família foi morar em Araponga, interior do Paraná, onde se revelou um pia fissurado & militante de teatro e futebol. Paralelamente gostava de música e tocava um violão maneiro. Mas um belo dia, em Londrina foi preso por engano, acusado de ter roubado um gravador. Na verdade, um lapso policial fatal, pois o gravador era do amigo contista Domingos Pellegrini e custou a Itamar cinco anos de “cana” dura: sem arrego & perdão. Já imaginaram a barra? Mas a figura tirou de letra. Depois veio para Sampa consciente de seus desejos e possibilidades artísticas. Aqui constituiu família e radicalizou sua trajetória profissional. Seu primeiro disco foi Beleléu, Leléu, Eu (1980), o segundo As próprias Custas S/A (1981) e o terceiro Sampa Midnight -isso não vai ficar assim (1983). Acaba de lançar pela o seu quarto disco de autor: Intercontinental! Quem Diria! Era Só o Que Faltava!!!

Revelação precisa
Na cadeia eu fiz o melhor concerto da minha vida para um ouvinte anônimo, na base de modinhas caipiras. Foi ali que percebi minha função musical. Vou assumir que sou artista e tudo bem, porque se o piloto do avião não assumir que ele é piloto, fico louco e falo mal.

Paulo Leminski interpreta Itamar I
“Venho acompanhando o processo criativo musical brasileiro como consumidor e também um pouco como produtor a mais de 10 anos. Quanto a minha sensibilidade, desde a Tropicália, desde o surgimento de Caetano/Gil, Chico/Milton, nos final dos anos 60, até esta virada do final dos anos 80 e começo dos anos 90, acho o trabalho de Itamar Assumpção à coisa mais importante que aconteceu na MPB, tanto a nível musical quanto poético. Itamar para mim tem um processo exemplar, porque vindo de três LPs independentes, agora ele é gravado por uma gravadora comercial, mas o percurso dele é um percurso claro, nítido, sem concessões e, sobretudo sem sobressaltos de mudanças de registro. É um processo com uma lógica interna, uma dinâmica interna extraordinária e de uma força poética musical que agora vai chegar àquela viabilidade comercial de ser gravado pela Continental e eu gosto muito. Uma imagem me parece que acompanha o percurso de Itamar, que é para mim a imagem da criminalidade ligada à marginalidade. Crime no sentido de violação da norma, porque o trabalho de Itamar é violador, tanto a nível poético quanto a nível musical. Então, aí seria um ideograma complexo da criminalidade. Agora vamos fazer um trocadilho com o nome dele: Assumpção de assumir. Assumpção da criminalidade poética no sentido da inovação, no sentido de rompimento das normas, com uma coisa de criminalidade associada inclusive à negritude que Itamar Assumpção superiormente representa em nível de Brasil. Então me parece que esta coerência em torno da ideia da invenção é o fio condutor da obra de Itamar, aquele que produz o crime musical, o crime poético, da invenção da mais alta criatividade, do rompimento dos padrões e da violação de todas as normas. Esta é a imagem que eu tenho do Ita”.

Quer saber
Quando eu tinha nove anos queria tocar violão. Com 15 anos efetivamente eu estava começando a tocar. São 23 anos tocando e eu não sei ainda tocar.
Minha música tem um universo próprio.
Às vezes faço 10 arranjos para a mesma música.
Eu curto o universo, as plantas, as orquídeas…
Não quero falar de política, quero falar do meu trabalho porque já está uma confusão danada.
Foi meu pai que falou de maconha pela primeira vez. Eu tinha 15 anos e levei um choque.
Eu resolvi só fazer música e mostrar meu trabalho agora, não quando tiver 70 anos. Isso o Cartola fez e a Clementina também…
Música é uma coisa que ninguém sabe como é porque é som.
A minha música é minha música. Não há escola.
Música eu levo a sério.
Eu trago a novidade. O que eu faço então? Eu canto. Porque o Gil, o Caetano cantam… se eu não cantar o que eu estou fazendo?
O Gil me pediu uma música recentemente. Agora eu sou compositor.
Quando eu trabalho com Arrigo Barnabé é uma terceira coisa. É uma coisa de vida.
Agora o Arrigo está aprendendo fazer música popular como eu também.
A beleza de São Paulo está na sua barra.
A gravadora veio e se não viesse eu iria continuar o meu trabalho.
O ter é consequência do ser.
Eu me deparei com a grandeza da MPB não foi frequentando nenhuma escola, coisa assim: curso, sonho… Foi ouvindo Ismael Silva, Cartola, Roberto Carlos e por aí afora.
Todo técnico de estúdio tem que ser músico. Eles são uma extensão da música.
A música que faço tem que ver com a minha cara. Reflete alguma coisa que aconteceu.
Meu disco é cada um diferente do outro. Vou sempre fazendo diferente até onde der. Acho que Miles Davis é isso. O mundo rola dando cabeçada, mas me parece que tem um fiozinho da moeda que independe de todo esse caos. A música tem essa linguagem.

Chegando junto
Quando eu cheguei a São Paulo, cheguei com um violão e umas músicas assim, assim… Eu já era compositor, mas não queria colocar isto ao público porque eu percebi que era uma coisa aquém do que estes artistas que você tem aí, muitos compositores de MPB -Djavan, Milton, Caetano, Gil, Tom Jobim, etc. Então eu não queria fazer “musiquinhas”, meu negócio não era esse. Eu gostava de cantar e tinha uma coisa com o cantar que era diferente do que eu ouvi dizer. Então daí eu peguei item por item: composição/compositor e passei a ver que eu precisava de algo mais. Eu tinha só um violão e tocava. Aí eu peguei um contrabaixo e aprendi a me virar mesmo com ele. Aí um piano, uma bateria… Aí eu entrei no processo de desenvolver meu ouvido, ele não era desenvolvido. Foi isso que eu descobri, todo este universo.

Cuidando do gogo
Parei de fumar de um dia para outro. Não tomo gelado. Você tem que ter um clima com a garganta… Já bebi muito. Vigê Maria… rodando está terra aqui doido. Quê? Documento aí! Vigê Maria… Cadê? Entra aí caramba e tal. É… a coisa é assim; né? E hoje quando o Leminski fala da criminalidade/marginalidade, não é isso, é que sempre eu estive exposto a isso. Sempre morei na Penha, andei de ônibus. Não tenho carro. Então é uma coisa que realmente faz parte do meu dia a dia.

Apareceu o Itamar
No festival da extinta TV-Tupi, nos anos 70, participei com a música Sabor de Veneno onde eu ganhei melhor arranjo e a Vânia Pinheiro ganhou como melhor intérprete. Foi à primeira coisa que me colocou no cenário musical. Foi ali -naquele momento- onde a gente rompeu com o que então se ouvia, onde tinha a Tetê Spindola, Vânia Bastos e Regina Porto nos vocais. Porque quando estávamos apresentando a música eu perguntava: sabor de quê? As meninas respondiam: tutti-frutti. Sabor de quê? O público: hortelã. Até que um dia o público disse: sabor de merda. Aí eu vi que estava chegando aonde eu queria. Aí foi aquele bafafá porque sabe como é que é festival: é aquela coisa, a gente já sabe quem vai ganhar… Ninguém ouvia nada porque 30 mil pessoas gritando, a Orquestra atravessou, o maestro Arruda Paz… Bom, para nós a resposta foi ótima.

Caindo de boca na música
Aprendi a fazer disco com o Rogério Duprat. Faço música independente porque aprendi e ele me deu uma oportunidade. Ele disse que ia demorar muito para poder gravar um disco por aí. Isso veio de encontro com a ideia de que um disco tenha que ter um produtor. Então todo este universo caótico em termos de você poder criar uma linguagem nova eu tinha botado para baixo. Ou fazia música deste jeito ou senão não ia sair nada. Assim como tinha feito com o futebol. Entrei na música para valer, porque depois de Caetano, Gil, João Gilberto, como é que dá para chegar e falar: Eu faço música. Tenho um “somzinho” aqui novo… A gente se respeita por causa da democracia, mas sem a criatividade não rola nada.

Pra quem não sabe
Um disco é completamente diferente de um show ao vivo. Isso também aprendi porque fiz muito teatro e o palco não tinha nenhuma novidade, mas o microfone sim. O microfone foi uma coisa de pegar e ver como se carrega isto nas mãos.

De suspeito a clean
Os caras me paravam na rua e pediam documento. Se eu não tinha ia preso. Não fiquei pedindo verba isto e aquilo. O Estado eu pago. Pago os impostos, pago o aluguel, tenho as minhas filhas na escola. Batalho para segurar a onda, não fico reclamando. Eu sou artista para os meus botões. O segredo é esse para mim. Uma relação pessoal com a arte. Faço meu trabalho assim. Esse negócio de agora não dá entrevista… Dou as entrevista que quiser, quantas forem possíveis como ser humano. Só porque agora é uma coisa que está em evidência eu vou ter que dar 800 entrevistas por dia para ser bom com todo mundo. Mas e aí? Como é que eu faço música? Como é que desenvolvo meu trabalho? Isto é uma armadilha que eu não vou entrar.

Cantoras massas
Temos Elizeth Cardoso, Gal Costa, Naná Caymmi… é tão loucamente este universo que a gente se dá ao luxo de dizer: eu gosto de fulana, não gosto daquilo, o que é isso? Entende? Todos eles acusam e pronto acabou. Como hoje temos o privilégio de escolher, então pode se dizer: gosto disto e não gosto daquilo, etc. Na verdade o que rola é uma coisa só.

Compositor entendido
Um dia a Naná Caymmi chegou e falou assim para mim. “Não canto suas músicas porque sou intérprete de outra coisa”. Aí eu entendi que tinha que fazer uma música para ela e não ela cantar as minhas músicas, é claro! Aí entra o quesito compositor. Uma hora faço uma música para a Naná.

Vendo política
Ao mesmo tempo em que não existe nenhuma possibilidade para o ser humano; existem todas. E esta é a barra. Já que é assim vou fazendo o meu trabalho.

Equívocos raciais
Agora eu acho que assim: eu tô aqui no Brasil, com esta coisa de escravidão e tal, então de repente neste momento que faz 100 anos de Abolição e a capacidade desta raça está claro. Embora tenha dificuldades socialmente dizendo. Então, acho que esta parte do mundo, o Brasil, não é igual japonês, que é japonês aqui. Minhas filhas são mestiças, quer dizer, é uma coisa. Claro que há aquela coisa de preconceito, mas o Brasil é uma coisa. Rola muito… Então esta coisa de pele nasceu aqui. É uma questão de lugar, essa possibilidade de ter estas informações. Não sei, sabe? Vou partir para o genético agora? Dizer que… não vejo as coisas assim. O Pelé foi tão importante quanto Santos-Dumont. Acho isso: ambos daqui. Essa coisa transcende a cor da pele. É aquela coisa: Cartola, Clementina de Jesus e eu. Coisa de cor! O negro é isso, aquilo ou é… porque na rua a Polícia já me falou: você é preto na rua e assim é ladrão. Aí eu olhei para ele e falei: que loucura, gente… Como é que uma pessoa pode ficar tão exposta assim? Claro que o ser humano não está com nada porque se fosse legal não teria polícia, não existiria polícia. Mas eu me coloco aí: em nenhum dos dois lados. A minha marginalidade que se falou e tal é no sentido carregar esta cor. Se cada um tem uma cruz para carregar que é ser humano, eu tenho a minha, e não vou ficar reclamando. Quem é que não tem? Mas eu acho que o mais importante nesta coisa de abolição que está acontecendo neste momento, eu espero que o Gilberto Gil se torne prefeito. É complicado, é dificílimo, mas é importante porque isso é a novidade. Isso é fazer política. É um político que todo mundo sabe qual é a dele e de onde ele tira a grana e tal. De repente é um negro. No Brasil está faltando coisas assim. Já faz 100 anos que a Lei Áurea foi assinada, concretamente no dia 13 de maio de 1888.

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“O importante sobre a plataforma do Gil é que ele está dando ênfase cultural para a coisa, partindo do pressuposto que as soluções dos outros problemas decorrerão desta postura. Ele mudou o estilo do jogo. Coisa que em Salvador faz toda uma diferença porque lá se trata de uma população negra que tem uma cultura afro-brasileira integral, inteira. Tem substância. Essa experiência do Gil pode ser uma das coisas revolucionárias que nós vamos ver nesta virada do século”.

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Leminski no Pícaro, nº 17, ano IV, julho/agosto de 1988

Colocando a história nos eixos
Eu só queria acrescentar um dado sobre este papo de negritude, que é muito importante nesse ano em que se comemora 100 anos desta fajuta abolição, que na realidade foi o desemprego de toda uma raça que construiu este país e que de repente foi atirada bruscamente no desemprego, subemprego e na marginalidade. Tanto que a consciência hoje -lúcida- comemora na realidade o Quilombo dos Palmares Zumbi, em outubro, que é o dia da consciência negra, que não coincide com esse desemprego em massa que é a Lei Áurea da princesa Isabel. Mas um dado antropológico, que até uns antropólogos de direita como Gilberto Freyre, teve que admitir em certo momento, que entre as três raças que constituíram o Brasil, basicamente, sem querer fazer nenhum tipo de “flaxflu”, entre os portugueses, índios e negros existem inúmeros aspectos nas quais essas três raças o elemento sob vários aspectos superior é realmente o negro. Inclusive culturalmente, porque os negros atravessaram o Atlântico trazido nos navios negreiros aqui para a América e para o Brasil, eles representavam, vocês não imaginam, eram tipo os índios do Xingu. Os negros tinham Império na África, o Império Mãe, por exemplo, da língua Orubá. Hoje usamos inúmeras palavras portuguesas, desde axé, até os nomes dos Orixás. Até a palavra Orixá, Iemanjá, que eram verdadeiros impérios na África. com uma estrutura poética complexa, uma economia complexa, com uma agricultura complexa, e até mesmo com a alfabetização. Escreviam em árabe, em alguns desses lugares os negros eram árabes islâmicos e atravessaram escravizados o Atlântico trazendo o Corão traduzidos em linguagem Ioruba, com escrita árabe, e que eram comprados aqui no Brasil pelos Manoéis, Joaquins… que eram analfabetos: portugueses analfabetos.

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Itamar Assumpção durante a entrevista / Foto: Lailson Santos

Na área tecnológica isto também se verificava. Os negros, por exemplo, na África tinham uma longa tradição de mineração quando os bandeirantes e portugueses penetravam no Sertão, por exemplo, eles carregavam consigo escravos africanos de tribos que eram especialistas em identificação de jazidas de minério, quer dizer, os negros eram levados escravizados e conduzidos em bandeiras para serem como portadores de um “novo”, de uma tecnologia mineralógica superior aos dos portugueses, que os Fernões Dias, os Raposos Tavares, que os estavam conduzindo. Então é preciso que conte este dado, por exemplo, digamos que o estoque humano de negros que vieram para o Brasil era de alta categoria, não apenas fisicamente, porque já foram trazidos porque eram espécies físicas -tanto homens quanto mulheres- superior em inúmeros aspectos. Mas eles davam mostra desta sua sobrevivência nas agruras da travessia de um oceano dentro de um navio negreiro e aqui no Brasil o duro trabalho agrícola, que o índio não fazia e não sabia fazer. O índio era uma coisa entre a capivara e o boia-fria em nível mental e intelectual, quer dizer, o negro realmente era o elemento superior. Então é necessário resgatar toda a grandeza, inclusive cultural e física da presença do negro aqui no Brasil. O negro no Brasil é inferior porque é socialmente inferiorizado.

Diferença entre disco independente e comercial
A única diferença é que agora assinei contrato com uma gravadora, onde meu trabalho, que todo já sabe como é que é, vai ser negociado, vai ser divulgado, não vai ser como um disco independente que você não sabe onde tem que ir para comprar. Se tiver um marcado de 50 mil pessoas que compram o disco, já é muito sucesso para mim. Não mereço tanto. Acho demais da conta porque além de ter uma preocupação artística vende. A banda é a mesma que me acompanha há cinco anos: Isca de Polícia. Neste disco pude convidar a Tetê Spindola, a Alzira e a Neusa Pinheiro. Não pretendo ser sucesso com este disco e nem é o disco da minha vida, é o meu quarto disco, mas o primeiro por uma gravadora comercial feito em estúdio de 24 canais, onde os recursos são outros.

Arte em pauta
Fui convidado para fazer o filme Anjo da Noite, de Wilson Barros, e País dos Tenentes, de João Batista de Andrade, mas como eu estava enfiado de música até aqui, eu não pude aceitar. Ou fazia cinema/teatro ou parava com a música. Mas quero fazer uma peça com a Miriam Muniz, é um projeto. Viajo bastante…

Traduzindo para o mundo
Quando estou indo para fora, não vou cantar uma traduçãozinha, vou cantar minhas músicas com uma poesia equivalente. Quem pode fazer isso? Um poeta tradutor que conhece, que é artista e é um compositor. O Leminski não fala isso, mas estou interpretando neste disco uma música dele que se chama Santa Maria. Estou tranquilo quanto à possibilidade de cantar em alemão, inglês…

Pondo pingo nos is
Sou filho de pai de santo. Para você ser pai de santo tem que fazer a cabeça e eu fiz a minha cabeça. Meu pai chegava numa cidade e abria um terreiro. Uma das entidades dele como médium que dava consulta era Zé Pilantra -uma entidade tida como de esquerda. Zé Pilantra -malandro- ele não é Exu no sentido de tranca rua, é um malandro, não é bandido que mata, ele apenas vive numa boa. É tida como uma entidade de esquerda dentro da pomba gira.

Agora entenda
Não sou médium, não virei médium, mas todas as noites eu recebo espírito nos palcos. Todo dia é música de cima em baixo, quer dizer, faço qualquer coisa para a música. Sou o cavalo da música. Sou médium musical, não estou sendo teórico, sou filho de Kariscã, nasci em um terreiro e tenho uma mediunidade.

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Itamar lendo o Pícaro / Foto: Lailson Santos

Paulo Leminski interpreta Itamar II
“O pós-tudo é tudo. Não existem hoje espaços para movimentos fechados como foi à Bossa nova. A própria atomização da sociedade brasileira provoca uma atomização da produção artística brasileira, porque mais de 70% da população brasileira é urbana, ou suburbana. O campo no Brasil hoje não passa de uma sociedade, uma memória. O planeta vai acabar se transformando numa grande cidade. Nós estamos vivendo num mundo de íntimos desconhecidos, esse íntimo desconhecido -o mundo urbano- é um mundo atomizado, quer dizer, somos condenados. Nós estamos num processo de urbanização e esse é um processo de individualização extrema. Estamos reduzidos a sermos nós mesmos. Então, no plano artístico, não há mais lugar para movimentos e sim só há lugares para pessoas, experiências altamente singulares, como é a experiência de Itamar Assumpção.

O que você pensa disto Pícaro?”. ●

N. do A. – Participou nesta entrevista Paulo Leminski, poeta, jornalista e tradutor.

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em julho de 1988.

*Itamar Assumpção morreu em junho de 2003 em São Paulo, Brasil.

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Itamar Assumpção no jornal Pícaro em julho de 1988

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30) ELVIS COSTELLO: Cantor, compositor e músico

“ODEIO CONCEDER ENTREVISTA”

por Jairo Máximo

Elvis Costello (Paddington, Londres, Inglaterra, 1954) Cantor, compositor e músico. Nasceu com o nome Declan Patrick MacManus que trocou em homenagem a Elvis Presley, o rei do rock.Está considerado como um dos compositores mais lúcidos do pop inglês. Sua música admite passeios entre o country ou o jazz, sem perder a qualidade. Já foi qualificado como o rei da new wave, depois rei da América. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Somente faço o que mais gosto de fazer: música”.

Revelação
Odeio conceder entrevista ―tanto entrevista exclusiva como coletiva― como também odeio a imprensa musical, os ingleses e em particular os londrinos. Minha meta é e será sempre a de fazer música.

Primeiros acordes históricos
No final do ano de 1976, Jake Rivera buscava talentos para a Stiff Records, sua nova companhia discográfica independente. Numa típica tarde cinza de Londres recebeu a visita de um jovem de 22 anos chamado Declan Macmanus. Depois de ouvir sua primeira gravação caseira, imediatamente colocou sobre a mesa um contrato de trabalho para o jovem assinar, mas com uma única condição: mudar de nome. E assim nasceu Elvis Costello, a anti estrela do pop, que com seu primeiro compacto simples titulado Less Than Zero, mudou a estrutura musical inglesa. Atualmente conta com mais ou menos 17 LPs gravados, porque dependendo das enciclopédias musicais consultadas.

A Barra de começar
O início da minha carreira musical foi muito difícil. Você quer expressar seu ponto de vista, de uma forma rude, agressiva, mas isto não quer dizer que seu caráter seja agressivo, pois o meu caráter é o mesmo de 10 atrás. A minha meta foi e será a de se sempre fazer música.

Tenho orgulho…
Meus discos tocam como sendo feitos por uma pessoa de 22/23 anos. São músicas que tocam hoje em dia, mas que na verdade têm 10/15 anos. Enfim, os discos estão aí e eu estou muito orgulhoso deles.

Unidade musical
Não vejo unidade, conexão musical entre meus discos. Algumas coisas, às vezes, trabalho de novo. No entanto, não creio que exista uma unidade musical em meu trabalho.

Disco e ao vivo
O disco gravado é uma coisa, quanto que no palco sou eu e mais cinco músicos. Tem gente que gosta mais do disco do que do show. Acredito que minha música é distinta entre o disco e o show. O disco se ouve meses e meses e o show é direto, tête à tête com o público.

Emoção do ao vivo
Para cada concerto que realizo faço uma programação distinta. Mas isso sempre depende cada vez mais do público. Na verdade, traduzo na minha emoção musical a vibração que recebo daquela massa.

Arqueologia musical
Em nenhum momento se deve fazer arqueologia para definir a música. Você pode usar o passado para renovar, sem ter que fazer arqueologia.

Estrangeiro na pátria
Sinto-me estrangeiro na Irlanda e por isso mesmo eu não me sinto afetado pelo conservadorismo inglês. Por outro lado, sou descendente de irlandeses, sendo assim, a coisa do conservadorismo católico irlandês não me afeta. O que eu prefiro ser é ser humano.

Not às Entrevistas
Esta rápida entrevista exclusiva que concedo para você é a primeira nestes últimos 10 anos. Odeio conceder entrevista. Um dia tomei a decisão de não conceder mais entrevista coletiva ou exclusiva em nenhum lugar do mundo. Por quê? Porque tem gente que fala da minha música sem conhecê-la ou mesmo nunca ter ouvido meu trabalho. Isso é lamentável. Foi uma decisão consciente.

Ah, a crítica musical inglesa é…
Na Inglaterra a música é cínica. Os críticos dizem que minha música tem muita nota e poesia. Que pensar? Normalmente, na Inglaterra, um artista tenta fazer carreira difamando outro artista. Este artista sempre está pendente do que a imprensa inglesa tem a dizer. Pessoalmente prefiro não falar de mim mesmo e não quero que minhas declarações sejam mal entendidas. Em síntese, mando para a puta que o pariu a crítica.

Odeio inglês de Londres
Mesmo tendo nascido em Londres, odeio todos os ingleses, de uma forma individual. Londres é o lugar mais badalado da Europa, devido ao governo de antes e de agora. Viajo constantemente por toda a Europa e Londres, comparado com o resto da Inglaterra, é o pior lugar.

Rosa fresca
Eu nunca me senti cansado de ser compositor e cantor. Sempre existe gente que está a sua volta, e desta situação a gente encontra a coisa interessante que impulsiona à criatividade. ●

• Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi realizada para a revista Animal de São Paulo em novembro de 1990.

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25) PACO CLAVEL: Show man, cantor e artista plástico

“O MISTÉRIO É CONECTAR COM O PÚBLICO”

por Jairo Máximo

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Paco Clavel em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Francisco Miñarro López, Paco Clavel, (Iznatoraf, Jaén, Espanha, anos 50) Show man, cantor e artista plástico. Seus espetáculos de cabaré revelam ser um entretimento seguro e carregado de uma feroz sátira política e cultural. É um ícone da conhecida movida madrilenha, um movimento contracultural que surgiu em Madri durante os primeiros anos da transição espanhola, que se prolongou até final dos anos oitenta. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Tenho um sentido lúdico e divertido de mim mesmo e daquilo que me rodeia”.

Imaginação
Tento ser imaginativo comigo mesmo e isto me dá espaço para que cada dia seja um pouco diferente e sobre tudo a criar mundos.

Começa o Espetáculo…
Acabo de lançar meu esperado disco Crute-duets. Neste trabalho reúno alguns dos meus melhores amigos, entre Pedro Almodóvar, Carlos Berlanga, Alaska, Susana Estrada e outros artistas para cantar o que eles gostam, e nada mais…

Do seu ponto de vista, quem é quem na Espanha desta breve lista: Mário Conde (banqueiro, ex-presidente do Banesto), Jordi Pujol (político), Narcís Serra (político), Julio Anguita (político), Julio Iglesias (cantor), Lola Flores (cantora), Alaska (cantora), José Ribas (jornalista e editor), Luz Casal (cantora), Pedro Almodóvar (cineasta), Os Berlanga (pai cineasta e filho músico), Antena 3 de Televisão, Televisão Espanhola e Luis Roldán (policial, diretor da Policia Civil, entre 1986-1993).
Mário Conde: um globo cheio de ar, que levou assim por assim, a La chita callando, e agora viu que acontece o que está acontecendo, pois um homem quando trabalha ganha, no mínimo, um salário… O que é impensável é que um senhor, de repente, do dia para a noite, o presidente do Banesto embolse uma fortuna. Aqui tem gato preso, aqui tem gato preso…
Jordi Pujol: político que sempre defende o seu lado.
Narcís Serra: o vice-presidente? Bem… sempre quando o vejo tenho a impressão de que estou vendo um cômico.
Julio Anguita: um intelectual político arabesco.
Julio Iglesias: um triunfador fora da Espanha, mas um homem molinho.
Lola Flores: é a raça e o poderio.
Alaska: foi a renovação de uma etapa da Espanha, que neste momento está mais madura e mais ativa.
José Ribas: a revista Ajo Blanco foi sempre um mito da imprensa marginal e uma alternativa. Considero Ribas um homem de grande validez, mas os tempos mudaram e com os tempos mudaram um pouco as coisas, quem sabe tudo o que tinha esta revista era carne viva. Em minha opinião atualmente está mais light, menos incisiva que antes.
Luis Casal: uma grande profissional e uma grande bolerista.
Pedro Almodóvar: foi também a transformação juntamente com Alaska e mais um monte de gente da Espanha franquista à Espanha democrática. Além disso, Almodóvar é um renovador no mundo do cinema. Sou seu fã.
“Los” Berlanga: parecem-me uma maravilha dentro do cinema espanhol. O pai é todo um mito. Por outro lado, seu filho Carlos Berlanga foi um dos pioneiros do punk espanhol, em companhia de Kaka de Luxe e Los Pegamoides e é um grande compositor.
Antena 3, TVE-1 e Tele-5: a Una é como uma grande senhora que pode ter suas falhas, suas saídas de mãe. Penso que como alternativa agora quem está dando um pouco de malho é Antena-3, pois a Tele-5 é horrível…
Luis Roldán: o ex-diretor da Guarda Civil é o grande ladrão espanhol. Tem muita imaginação para fazer o que fez sem que ninguém percebesse durante oito anos.

Quem você considera que é a mais bela e o mais belo da Espanha?
Creio que pela forma ambígua e por tudo que significou é Bibiana Fernández, que é uma grande beleza. Do mais belo é Manuel Banderas, não o Antonio Banderas e sim o Manuel que fez o filme Las cosas del querer.

Quem são os mais feios e mais feias da Espanha?
Feios para mim são todos aqueles que se dedicam à política, como pode ser o presidente da generalitat da Catalunha, Jordi Pujol ou Juan Alberto Belloch, o atual ministro da Justiça e do Interior. Existem tantas feias neste país que não sei quem poderia citar, mas acredito que a folclórica Marujita Díaz é um bom exemplo, como também qualquer uma das atuais ministras.

Na noite madrilena de hoje, 1995, quem brilha mais no mundo underground?
Vejo como uma coisa vazia, onde as coisas estão escondidas, mas sempre existe gente que está fazendo coisas interessantes e que não são precisamente os que saem nos meios de comunicação, evidentemente. Sabemos que as coisas que saem nos meios de comunicação estão bastante estudadas e que não te oferecem nenhuma alternativa nem é novo, nem te diz nada. O que está saindo agora à superfície e que está muito off-off são as performances e os teatros alternativos que estão nos lugares pequenos e onde podemos encontrar verdadeiras joias.

Em sua opinião o que acontece de mais novo nas ruas de Madri de hoje em dia?
A miscigenação racial e cultural é o mais interessante e isto é o que mais incomoda o estado implantado… Hoje existe muito racismo, na Europa, inclusive em Madri, Barcelona, Valência, ou seja, na Espanha inteira. Entretanto a mistura enriquece uma sociedade e pode ser uma alternativa de convivência social com gente que pode aportar muitíssimo.

O que tem a dizer às pessoas que não podem desfrutar dos seus shows, mas podem comprar seus discos?
Não sei quem disse uma vez que a Espanha es un gran pueblo [uma grande cidade provinciana]. Acredito que cada vez mais vai se unificando o que é povo e o que é grande cidade, a capital. Já não existem tantas diferenças como antes. As pessoas mais ou menos se vestem igual.

Existe hoje em dia um político espanhol que vale que uma peseta?
O mundo político, ainda que você não queira estar aí, mas eu sou um pouco partidário da ação libertária e da autogestão. De coração sou anarquista, quero dizer que é por este caminho que vão as coisas.Placo Clavel

Todas as vezes que sai em cena consideras que é um momento único?
Em cada sessão você se sente de uma maneira. O mistério é conectar com o público.

Dos antigos cantores espanhóis quais são os que mais te atraem?
Sem dúvida, entre eles e elas fico com Antonio Molina, tanto pelo jeito de cantar como por suas músicas.

E dos modernos quem está fazendo algo interessante?
Gosto muito de umas mulheres que tem um gosto maravilhoso, umas letras fantásticas e que cantam muito bem, mas não são reconhecidas ainda, tal como são elas. Falo de Vainica Doble.

No seu disco Cutre-Duets encontramos reunidos a crème de la crème da música e cultura deste país. Qual é o ponto de conexão entre vocês?
O ponto de conexão é que cada um é tão diferente em seu gênero, sua maneira de ser… mas o que nos une é que artisticamente saímos na mesma época e foi como uma explosão de cor e imaginação. Isso te fazia conectar com cada um deles ainda que as pessoas fossem bastante diferentes e, sobretudo foi à diversão, a vontade de divertir, a vontade de rir e vontade de fazer coisas, ainda que nestes momentos tivéssemos tantas ideias como temos agora mesmo ou que ainda não fossemos profissionais. Tinha esta força que é a de fazer as coisas, estar ativo, mas fazer coisas que divertissem a você mesmo e divertissem também o público. Isto foi a etapa dos anos 80. Não sou nostálgico, mas foi uma época imaginativa e uma etapa de muita cor. A nível pessoal somos antigos amigos, mesmo que a gente se não se veja todos os dias, mas estamos sempre em sintonia.

Se eu te encomendasse a realização de um espetáculo de cabaré com estes personagens públicos: Mariano Rubio (banqueiro), Mário Conde (ex-banqueiro acusado de roubo, estafa e falsificação de documentos) e Luis Roldán (ex-diretor da Policia Civil, acusado de falsificação e roubo), qual seria o nome deste festejado espetáculo?
Três eram as filhas de Helena ou Bons de dia, ladrões de noite.

Se te pedisse para enviar um fax pedindo um presente para a atual ministra da Cultura, Carmen Alborch, o que pediria?
Pediria uma caixa de pinturas de maquiagem…●

• Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi realizada para a Agência Staff de Madri em janeiro em 1995.

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Música

NACHO MASTRETTA: Músico, compositor y productor

“NUESTRA MÚSICA CONMUEVE Y EMOCIONA”

por Jairo Máximo

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Nacho Mastretta en Madrid / Foto: Sebastián Rocotovich

MADRID (Blogdopícaro) – Ignacio Mastretta Rodríguez, más conocido como Nacho Mastretta, es músico, compositor y productor discográfico. Toca el clarinete y el acordeón y es el líder de la Orquesta Mastretta.

Tiene diez álbumes grabados y ya compuso diversas bandas sonoras cinematográficas, anuncios publicitarios y músicas para desfiles de moda.

En esta entrevista exclusiva realizada en Madrid, Nacho Mastretta (Barcelona, España, 1964) constata: “En tiempos de bonanza se han construido en España centros culturales fastuosos que actualmente están vacios”.

¿Sabe quién es?
Sí. Un músico.

¿Cómo fue su infancia?
Muy feliz. Nací en Barcelona y fui criado en Santander. Éramos una familia numerosa: tres hermanos y tres hermanas. Soy el mediano, por lo cual no tuve la atención directa de mis padres ―como mis hermanos mayores―, y así tuve mucha libertad.

¿Una infancia saludable?
Sí. Pero con el pasar de los años, claro, te vas dando cuenta del tiempo vivido, donde la educación era franquista. Recuerdo muy bien que en el colegio hasta te hacían sangre en la cabeza. Y la música estaba destinada a las señoritas, a las alumnas. Yo era el único chico. La dictadura franquista supuso un atraso educacional y cultural brutal.

¿Cree que las secuelas del franquismo todavía están plenamente vigentes en la vida diaria de la España actual?
Sí. No hay más que ver toda la gente que está ahora gobernando ―los herederos del franquismo― que ocupan puestos de responsabilidad.

¿Por qué es músico?
Ese tipo de decisión tú no la tomas en un momento determinado; es consecuencia de muchos factores. Para mí la música se relaciona con otras disciplinas. El mundo tiende a especializarnos, y nosotros, al revés, tenemos que luchar para evitar eso y poder estar inspirados y cuanto más abiertos mejor. Si te cierras, pierdes.

¿Qué es música para usted?
No me gustan las definiciones porque acotan las cosas. La música está en el centro de mi vida desde cuando era niño. ¿Cómo vas a definir todos los aspectos de tu vida?

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Orquestra Mastretta / Foto: Sebastián Rocotovich

¿De dónde saca las ideas para crear música?
En cada etapa de tu vida la concepción que tienes de la música va cambiando. Te vas enterando de otras cosas más importantes. Actualmente estoy intentando consolidar un grupo estable de músicos―la Orquesta Mastretta― que me motiva y me inspira para hacer música para ellos.

>¿Cómo convive con la Orquesta Mastretta que fundó en 2006?
Una convivencia plena. Se establece una relación que es de muchos años. Hemos hecho muchas cosas juntos, y eso implica muchas horas de convivencia.

¿La música le exige tiempo y soledad?
No es imprescindible. Lo imprescindible es el compromiso personal.

¿Cómo se relaciona con la crítica?
No existe la crítica.

¿Cómo no?
No existe; ni la buena ni la mala. El periodismo de hoy se asemeja al pequeño inquisidor. Son los guardianes del buen gusto. Todos hablan desde el mismo punto de vista. Creo que en estos momentos existen en el mercado tres o cuatro revistas musicales. No tengo ninguna noticia de que hablen de nosotros. Si no estás dentro de los cánones que marca la moda, olvídate.

¿Y cuál es la salida para ustedes?
Nuestra obsesión es encontrar una manera de difundir nuestra música para que la gente se entere de que existimos. Y la mejor manera que hemos encontrado es conseguir conciertos, todo el año, en sitios pequeños, donde podemos tocar y llevar nuestra música sin ningún tipo de barreras. No sonamos en ninguna radio de este país, así de claro.

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Orquestra Mastretta en el café Central de Madrid / Foto: Sebastian Rocotovich

¿Ni en Radio 3 de Radio Nacional de España; un oasis en el desierto musical español?
Es que tú no sabes cómo se trata a los músicos en Radio 3. Un día fuimos allí para grabar un concierto y el responsable del sonido me dijo que iban poner seis micrófonos a la batería. Yo les dije que era imposible porque en la batería solo se ponen dos micrófonos, y nada más. Pero ellos insistían. Entonces les dije, vale: ¿quién es el responsable para hablarle de que quiero utilizar sólo dos micrófonos? Vinieron varios. Y continuaron insistiendo en que tenían que ser seis.

¿Y qué pasó después?
Nos fuimos sin grabar el concierto. En otra ocasión, me invitaron para una entrevista en un programa de música en directo, hace más o menos cinco años. Yo encantado de que me llamaran y tener un momento de difusión de nuestro trabajo. Llegué allí a las 17:00 horas acompañado de los músicos para una pequeña actuación. Cuando eran a las 17:55 nos recibieron para cinco minutos de entrevista. Estaba delante de mí un músico que llama Jarabe de Palo. El programa era de dos horas. Él ocupó su hora y la nuestra. Nos marchamos muy enfadados. De verdad, no puedo decirte nada bueno de la radio pública. A pesar de esto, es cierto que en Radio 3 es el único lugar donde sonamos.

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Orquestra Mastretta / Foto: Sebastián Rocotovich

Durante su concierto “¡Vivan los músicos!”, en Madrid, oí al público gritar, entre música y música: “Esto es música”; “Qué bueno sois”; “Qué a gusto estoy aquí”; “¡Bravo!”.¿Siempre os metéis al público en el bolsillo?
Sí. Al público le gusta nuestra música. Le sorprende. Le conmueve. Se emociona. Es por eso que estamos tan contentos: el público viene y los conciertos se resuelven felizmente. Aunque luego en la vida no sea así.

El gobierno de la Comunidad de Madrid pretende instalar el macrocasino Eurovegas. Al mismo tiempo, cierran bibliotecas, escuelas de música, instalaciones deportivas y otros servicios públicos. ¿Qué le parecen estos hechos?
Una vergüenza. En tiempos de bonanza han construido centros culturales fastuosos con unas dotaciones espectaculares que actualmente no tienen programación y están vacíos.

¿Cerrar bibliotecas es cómo parir analfabetos?
Analfabetos embrutecidos. Gente más insolidaria y más violenta. No es nada saludable para un país crear gente así. El país debería ser una gran indignación porque están recortando en todo. Están recortando las pensiones. Están recortando las libertades. Están recortando en Salud. Están recortando en Educación. Están recortando en Cultura.

“La cultura es beneficiosa económicamente”, ha dicho Manuel Borja-Villel, actual director del Museo de Arte Reina Sofía de Madrid. ¿Está de acuerdo?
Sí, por supuesto. Ahora, ya que tú hablas del Museo Reina Sofía, te cuento que yo estuve trabajando en su Departamento de Educación con la bailarina Patrizia Ruiz. Creamos un espectáculo infantil precioso. Íbamos enseñando a los niños diferentes cuadros con la espectacularidad de la danza y la música. No obstante, nos obligaron a hacernos autónomos porque no querían darnos de alta en la Seguridad Social. Eso nos costaba más de doscientos euros a cada uno al mes. El primer sueldo del curso cobramos en agosto. No tenían el dinero para financiar la actividad. Los propios artistas que estábamos haciendo la actividad para los niños teníamos que financiarla.  Así es como era, y así es como funciona el Museo Reina Sofía. Una cosa desastrosa. Y mira que el Patronato del museo es el Ministerio de Educación, Cultura y Deporte.

¡Qué sorpresa!
Parece que a lo largo de la entrevista estoy quejándome todo el rato. Pero no. Lo que pasa es que me enfrento a eso con lo que hago. No soy una persona quejica.

En una manifestación en Madrid contra la subida del IVA al 21% encontré esta pancarta: “Rajoy: atacar a la cultura será tu sepultura”. ¿Y entonces?
Lo trágico es que una ley así salga adelante y sea aprobada con aplausos en el Congreso.

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Nacho Mastretta en Madrid / Foto: Sebastián Rocotovich

Recientemente el Ayuntamiento de Madrid colocó en marcha la denominada “Prueba de idoneidad” para los músicos que quieren tocar en las calles de la ciudad. ¿Qué le parece este casting?
Un despropósito. Pertenezco a una asociación de músicos que tocan en la calle. Me encanta tocar en las calles; de cualquier ciudad. Lo único que se puede imponer en este tipo de cuestiones es el sentido común. La actividad musical en las calles es una riqueza para el país. ¿Cuál es el problema? Buscan una normativa que es imposible de aplicar porque es poner puertas al campo. No se puede aplicar el mismo parámetro para todos.

¿Cree  que este casting para músicos callejeros lo aprueba?
(risas) Vete tu a saber. Ahora, cuando estás en la calle, ves cómo el público respeta la música y la atención que le presta. Sobre todo ves la atracción que tiene la música. Y a los niños la música les resulta particularmente atractiva: siempre te escuchan y te miran. Incluso algunas veces ves las mamás sacándoles del ambiente, y el niño queriendo quedarse escuchándote. Ellos son los que más atención prestan a la música y a los que más curiosidad les despierta. Ya he tocado mucho en la calle y sé del qué te hablo.

El Papa Francisco dijo: “Un joven que no protesta no me agrada”.
Es curiosa y sensata esta frase. Lo que no puede ser es una juventud obediente como la que estamos acostumbrados a ver ahora. Protestan por cauces ya asimilados por la industria. Las marcas de ropas. Las actitudes superficiales. Cuando eres adolescente tienes que pelear. ¿Vas a esperar a tener 50 años cuándo la rebeldía ya ha pasado para protestar?

Además, Francisco también dijo: “La corte es la lepra del Papado”.
Soy muy escéptico con eso. Mira el hambre que hay en el mundo, y el dineral que hay en el Vaticano. ¿Dónde quieren llegar con todo eso?

¿Cuáles son las cosas de la vida que le interesa?
El amor; en el sentido más amplio de la palabra.

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Nacho Mastretta / Foto: Sebastián Rocotovich

¿Cuánto tiempo habla consigo mismo diariamente?
―Mucho. Antes de hacer alguna cosa reflexiono mucho para poder avanzar en la música.

¿Qué se preguntaría a sí mismo?
―¿De dónde va a salir el impulso que me llene de expectativas para lo que voy a hacer después?

 

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Música

ALBERT PLA:“ESTAMOS AL BORDE DEL PRECIPICIO”

por Jairo Máximo

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Cartel del espectáculo Manifestación encontrado en la madrileña Plaza de Santa Ana en Madrid / Foto: Jairo Máximo

MADRID (Blogdopícaro) – El músico y actor catalán Albert Pla estrenó recientemente en Madrid su espectáculo Manifestación bajo el lema “Tu vida es una puta mierda y lo sabes”, acompañado de las consignas “basta, más, contra, según, sí, no”, y los cánticos “todo es mentira” y “todo es verdad”.

En su reivindicativo espectáculo el artista perroflauta de malos pensamientos vierte agrias críticas a los banqueros, políticos, antidisturbios, monarquía, e incluso al desacreditado manifestante.

En esta entrevista exclusiva concedida en el Círculo de Bellas Artes de Madrid, Albert Pla (Sabadell, Barcelona, 1966) revela: “Soy una buena persona”.

¿Qué sientes antes de entrar en escena?
-Absolutamente nada.

¿Y después de ser ovacionado por el público?
-También nada.

¡Enhorabuena!
-No le entiendo… Enhorabuena, ¿por qué?

Es que al llegar al Círculo de Bellas Artes de Madrid para reventar la Manifestación convocada por ti y, de paso, intentar entrevistarte, leo en la entrada del recinto: “Agotadas las localidades de Albert Pla para hoy”.
No lo sabía. Gracias por la información. Te concedo la entrevista. Empecemos. ¿Tienes papel de fumar?

No. Tengo en casa. ¿Por qué el espectáculo Manifestación: tu vida es una puta mierda y lo sabes?
Por una cosa y por otra y por un texto escrito por el gran Josep María Benet i Jornet , dramaturgo y director de teatro, Premio Nacional de Teatro 1995  y Premio de Honor de las Letras Catalanas 2013. Hice con él mi primera obra de teatro. Fue él quien me enseño a ser actor. Todo lo que sé se lo debo a él.

¿De dónde has sacado el lema “Tu vida es una puta mierda y lo sabes”?
De una pintada que encontré en la pared de una fábrica en Manresa, provincia de Barcelona, Cataluña.

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Acampada en Madrid / Foto: Jairo Máximo

¿Qué te parece que sólo en Madrid en 2012 se registrasen 3.419 manifestaciones  autorizadas, sin contar las espontáneas, las ilegales y los flasmob (concentración instantánea)?
¿Tantas? No lo sabía.

Sí. Una media de diez manifestaciones al día. Hubo dos días trepidantes, concretamente los días 23 y 30 de noviembre, con 58 manifestaciones cada uno de estos días. Además, en todo el país fueron registradas 42.600 manifestaciones.
Parece mi espectáculo. En la Puerta del Sol de Madrid podemos encontrar los ultra-pacifistas y el pro guerra.

Por otra parte, de mayo de 2011 a febrero de 2013, entre lemas, pancartas,  cánticos, consignas, gritos y pintadas, tengo recopiladas más de 2 mil de ellas. ¿A qué huelen los sobres?, Un elefante nunca olvida, Que se jodan ellos, El miedo nunca conquistó derechos,  Sus cuellos huelen a guillotina, Desahucio real ya, Nos roban por encima de nuestras posibilidades, Dinero gratis ya, Libertad de protestar. ¿Con cuál de ellas te quedarías?
(Risas) Con todas.

Después de Manifestación, ¿qué?
Nada.

¿Cómo nada?
Sí, nada. El vacío. El precipicio. El abismo. Estamos al borde del precipicio y hemos dado un paso adelante.

¿Cuándo encuentras el arte?
A trancas  y barrancas… Cuando a los 22 años gané un concurso musical decidí colocar todo dentro de las canciones. Y en 1989 grabé mi disco, Ho sento molt.

¿Consideras que tienes un papel social como artista?
No. ¿Hay que tenerlo?

¿Qué pretendes aportar al arte con tu obra?
No pretendo aportar nada y nunca he pensado en esto. Sencillamente me siento en el sofá y me pongo a pensar cosas y pronto. No me requiere ningún esfuerzo. Ninguna premeditación. Es una cosa que no puedo evitar.

¿Eres un ser antropófago?
Sí. Cojo una cosa de aquí. Otra de ahí. Otra de allí. Acto seguido la vomito en arte. Ahora, lo que es cierto es que cuando tienes un espectáculo concreto, aprovechas esas cosas de alguna manera en la concepción del espectáculo.

¿De dónde extraes las ideas para montar tus austeros, originales y sorprendentes espectáculos?
Me vienen naturalmente.

Su Majestad el Rey Juan Carlos dijo en la tele en la Navidad de 2011: “La Justicia es igual para todos”. ¿Es así?
No tengo pruebas. ¿Y tú?

En el disco No sólo de rumba vive el hombre, de 1992, en la canción Carta al Rey Melchor, cantas: “Mi majestad: Espero no ofenderlo ni irritarlo, majestad / Pero mi deseo es casarme con su hija (…) No quiero ser duque o tener chambelanes, no deseo aprovecharme ni robarle nada  / (…) Yo por amor soy capaz de mandar a la mierda mis firmes principios de republicano”. ¿Continúas enamorado?
Soy una buena persona.

“No me consta, todo es falso− salvo alguna cosa―”, afirmó el popular presidente del gobierno, Mariano Rajoy, sobre los papeles de Luis Bárcenas, que plasman la contabilidad secreta o B del extesorero nacional del Partido Popular. ¿Qué piensas sobre dichos papeles?
No he seguido mucho el caso Bárcenas. Pero me sorprende  mucho que la gente crea ahora que los políticos roban y engañan. Lo han hecho siempre. Y cuando ese caso sale a la luz la gente se sorprende y se escandaliza. Es de risa.

“Vivimos faltos de moral y ética”, me ha dicho el fotoperiodista cordobés Gervasio Sánchez. ¿Estás de acuerdo?
(silencio) Sí.

Veo que España camina a pasos de gigante a un tercermundismo social. ¿Y tú?
De hecho, España nunca ha tenido mentalidad de Primer Mundo. Los españoles nunca han tenido la democracia, la educación y el trabajo como los ciudadanos de los  países centroeuropeos o nórdicos.

¿A quién te gustaría interpretar en la gran pantalla: al difunto caudillo venezolano Hugo Rafael Chávez Frías (1954-2013) o al indignado universal germano-francés Stéphane Frédéric Hessel (1917-2013), autor del libro ¡Indignaos!, que movilizó a la juventud europea?
(risas) El que me paguen mejor.

España rescata bancos y no a las personas. ¿Por qué será?
Nunca entendí por qué la gente tiene dinero en el banco. El que tiene dinero en el banco es por una opción personal. Es él el que tiene que irse a un banco e hipotecarse y quedarse en sus manos de por vida. ¡Avisados están! Creo que los bancos hacen esto porque quieren la gente a crédito y porque la gente lo ha querido. Podrían gastar su dinero efectivo en comprar ropas, cenar fuera, comprar libros, ir al teatro…

El músico y poeta brasileño Arnaldo Antunes canta: “Un trozo de papel es un trozo de papel / Dinero no se lleva para el cielo”. ¿Y entonces?
Conozco a Arnaldo Antunes y me ha gustado mucho una performance que él hizo con el artista plástico catalán Frederic Amat i Noguera, que es un fenómeno. Todo lo que pasa ahora creo que es por el dinero  porque esta temporada toca hablar de eso. Antes tocaba hablar de la crisis. Ahora ya no se habla más de la crisis, pero de dinero, sí. Creo que son los mismos mecanismos del poder que crean eso. Uno ya no puede más estar enfermo porque se ha quedado sin dinero. Uno ya no puede estar una semana en la cama curándose de una gripe de caballo porque se quedará sin dinero. La importancia de convertir la gente en pobre.

De ti ya han escrito: “Polemista irredento que no se casa con nada ni con nadie” y “artista inquieto y ecléctico de mente diferente que cuenta con un legión de fieles admiradores sin fronteras”. ¿Qué te parecen estas palabras?
(risas) Yo, de verdad, de verdad, no me fijo en eso. No leo lo que escriben de mí. Ah, por cierto, ¿para dónde es esta entrevista?

Para el mejor postor.
(risas) Te invito a un porro…

Ya era hora… Con tantos casos del espionaje político y mercadeo de información en Cataluña, y en otras latitudes españolas, ¿te sientes espiado?
Sí. Sólo cuando me fumo un porro.

(risas) ¡Mentira!
¡Verdad!

En qué quedamos, ¿mentira o verdad?
Bueno… Existe una cosa todavía peor que ser espiado. El Gobierno catalán es un buen tipo… Tú sabes lo que hay que hacer para estar con ellos: dar codazos y jugar sucio. Pero, yo nunca he pensado en esto…

En esto, ¿qué?
Que me espíen.

¿Qué epitafio te gustaría que colocasen en tu tumba?
Ninguno. No me interesa eso porque tendría que llevar este peso toda mi vida de muerto.

Pero, ¿ni ésta?: “Mi vida fue una puta mierda”.
(risas) Te invito a Manifestación. •

Espectáculo Manifestación de Albert Pla / Foto: Jairo Máximo

– Entrevista publicada en Eurolatinnews , en la revista El Siglo de EuropaACPE.
– Lea aquí otra  entrevista realizada con Albert Pla, en 2008 y también publicada en la revista El Siglo de Europa y en Eurolatinnews.

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