Literatura

Maria-fumaça e caminhoneiros

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Abandonar o transporte ferroviário brasileiro foi um suicídio anunciado. /Foto: Associação Brasileira de Preservação Ferroviária

Por Jairo Máximo

Madri, Espanha – (Blog do Pícaro) – Quando ele era criança seu avô materno Jorge Pereira dos Santos ―negro, alto, forte e culto―, era maquinista na Central do Brasil da histórica maria-fumaça, que fazia o trajeto ferroviário São Paulo―Rio de Janeiro e parava em Mogi das Cruzes, motor econômico do Alto Tietê.

Quantas vezes aquele menino fraco e branquinho, que gostava de vestir calça curta e meia três-quartos, foi com o avô ao Rio e a São Paulo. Para ele, aquelas “viagens” eram um sonho. (Ainda não tinha tomado LSD). Na ingenuidade infantil pensava que era possível chegar a todos os lugares do país e do mundo de trem. Entre uma estação e outra o avô lhe dizia: “quando você crescer o Brasil inteiro estará ligado por ferrovias. É a melhor maneira de transportar gente e mercadoria”.

O avô falava ―nos anos 60 do século XX― com tanta segurança e com palavras tão bonitas que no final das contas aquele menino viajante cresceu pensando assim. E continua pensando identicamente assim… ●

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Arte

52) MAURÍCIO CHAER: Artista plástico

“CRESÇO DENTRO DO MEU TRABALHO”

por Jairo Máximo

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Maurício Chaer em Mogi das Cruzes / Foto: Nelson Rubens Spada

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Ilustração: Castilho

Maurício Chaer (Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 1957) Artista plástico. Desde menino vive em Mogi das Cruzes, São Paulo. Sempre está com a mão na massa. Sua linguagem é direta e reta, tanto verbalmente como artisticamente. Está em evolução permanente. Resgata do Universo os elementos que se completam para reconstituir sua obra. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Mogi das Cruzes,  afirma: “O sonho é o trabalho diário”.

Busca constante do artista
Tenho uma vida simples. Acordo cedo para encarar meu ateliê que abandono no final da tarde. Considero fundamental para a elaboração do meu trabalho o toque do escultor inglês Henry Moore que assinala: “Embora seja a figura humana o que mais profundamente me interessa, consagrei grande atenção às formas naturais, tais como, ossos, as conchas, os seixos, etc.”.

Alquimia: do barro à Arte

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Vendedor (2005-06), Maurício Chaer / Coleção Willy Damasceno

Para elaborar uma obra, primeiro amasso o barro -mistura de chamote e argila. Depois crio a forma desejada e espero secar para poder passar o esmalte. Na sequencia levo ao forno de alta temperatura -1300 graus- para finalmente ser consumida dentro do restrito mercado brasileiro de arte. Este ciclo de produção é tal quais as estações do ano: primavera, verão, outono e inverno. Ano após ano.

Mania de caderno
Sempre tenho um caderno de anotação onde rascunho desenhos dos futuros trabalhos. Seleciono variadas formas, e as coleciono. Da natureza utilizo a forma de uma folha, de uma mancha, de um tronco de árvore, etc. Das formas mecanizadas revitalizo as já criadas pela sociedade industrial -parafusos, bico de mangueiras, caixas de isopor, etc. Minha obra sai da natureza e desemboca no urbano, como que acompanhando as transformações de paisagem até chegarmos à metrópole.

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Maurício Chaer / Foto: Nelson Rubens Spada

Revelação Um
Sou do Partido dos Trabalhadores, afinal é o último dos partidos.

Revelação Dois
Quando Tancredo Neves morreu fiquei emocionado com a Fafá de Belém cantando o Hino Nacional.

Liberará
Cedo ou tarde a maconha será liberada no Brasil. Porque só a Souza Cruz pode? É como o jogo do bicho e a loteca.

Punks
Os punks são o rococó do pop.

Tesão

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Jardim do artista / Foto: Divulgação

O sexo precisa ser livre.

Papel Molhado
Faculdade é um título, igual à carteirinha de identidade, bilhete de metrô: mas se não tiver não passa.

Centro Cultural de Mogi das Cruzes
O normal para não dizer o certo, seria a construção de um (porque só as outras áreas podem usar essa bonita palavra) no Centro Cívico, mas deixa isso para quando eu for Secretário de Cultura ou, melhor, Prefeito Municipal da cidade. Depois, claro, que me tornar um acadêmico. Assim, enquanto a cidade não conta com um Centro Cultural deveria chamar-se Secretaria do Teatro, ou do Carnaval, ou ainda da Merenda Escolar ou então limitar-se a divulgar para a população mogiana o que passou no programa televisivo Panorama, da TV Cultura de São Paulo, na noite anterior (será que eles assistem!), pois a maioria, como se sabe, está ligada na TV do Silvio Santos, ou no Jornal Nacional da TV Globo ou nas escolas de samba…

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Showrrom do artista / Foto: Divulgação

Trabalhar!
Vivo da arte. Não é fácil, mas acredito que vai dar. Não tenho dia para trabalhar. Todos os dias são iguais. Aumentar a produção é o objetivo. Cresço dentro do meu trabalho.

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Pintura, Maurício Chaer

Sonhos
O sonho é o trabalho diário.

Aforismo próprio Um
Se pintar de novo. Pinta na tela da Globo.

Aforismo própio Dois
Nossos valores [do Pícaro] são outros. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em maio de 1985.

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Maurício Chaer no jornal Pícaro em maio de 1985

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Arte

46) AKINORI NAKATANI: Ceramista

“MAS EU SOU UM JOVEM ARTISTA BRASILEIRO”

por Jairo Máximo

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Akinori Nakatani em Mogi das Cruzes / Foto: Nelson Rubens Spada

Akinori Nakatani (Osaka, Japão, 1943) Ceramista. Em 1966 formou-se em Artes Plásticas pela Faculdade Pedagógica de Kyoto.  Em 1971 aceitou o convite do corpo de Voluntários do Japão e veio para a América do Sul. Aportou primeiramente em El Salvador e foi lecionar arte cerâmica no Centro Nacional de Arte. Em 1974 chegou ao Brasil. Em 1978 veio para Mogi das Cruzes. Aqui continua sua produção artística sem concessões ao mercado artístico. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Mogi das Cruzes, afirma: “Quero conseguir com o trabalho de barro ser único”.

Primeiros passos no Oriente
Depois de terminar meus estudos de Artes Plásticas, em Kyoto, fui viver em Osaka e trabalhei como decorador. Em 1968 atraído pela cerâmica, tornei-me discípulo do professor Mitsuo Kanno, de Kyoto, assimilando a técnica tradicional japonesa em alta temperatura e outras técnicas modernas. Em 1969 fiz minha primeira exposição (coletiva) no Salão Kansai-ten, no Museu de Arte de Osaka, sendo que no ano seguinte me interessei pelo artesanato popular e fui viver num pequeno povoado rural de Fukuoka-ken entre artesões de cerâmica. Pra ser artista precisa ter curiosidade.

Primeiros passos no Ocidente

Sem título, Akinori Nakatani

Em 1979 realizei uma exposição no Museu de Arte de São Paulo (MASP), que segundo a crítica especializada definiu a linguagem Nakatânica. Em 1980 participei da Bienal Internacional de Cerâmica de Arte, Vallauris, França, e da exposição Cerâmica Hoje, realizada na Fundação Cultural de Brasília, DF, além de ter recebido o prêmio Medalha do Presidente da República, do Concurso Internacional de Arte, Faenza, na Itália. Em 81 retornei ao Japão e realizei várias exposições: Kyoto, Tókio, Osaka, etc. Em 83 realizei uma retrospectiva de minhas obras no Museu da Imagem e do Som, de São Paulo.

Sina do Homem
Eu -Akinori Nakatani- tenho cinco filhos e não é por acaso. É bom fazer filho. Se não existir filho o homem não existe. Uma pessoa nasceu de sua mãe por isso ela existe. Precisamos reproduzir.

Vitalidade do artista
Minha atitude diante da cerâmica é a de ultrapassar os limites da técnica, mas aprendendo uma a uma, praticando-se no sentido de extrair de cada uma delas a ampliação da criação através do barro.

Filosofia sim
Não tenho religião. Não sou budista. Acho que se falar assim brasileiro vai pensar que é muito esquisito. Mas tenho uma filosofia de vida, mas religião acho que não tenho.

Arte maior
Todo ceramista é concorrente meu, do meu trabalho. Acho que um artista deve pensar numa peça que não existe.

“Instrumento religioso”, obra de Akinori Nakatani

Não sei por que tem que gostar. Se for muito bom eu preciso concorrer com ele. Esse pensamento dá energia.

Vestindo camisa
Mas eu sou um jovem brasileiro. Para mim depois que termino de fazer a peça o objetivo termina. A relação com a venda não é bom, mas para sustentar a vida é preciso. Vender entristece.

Cultura em Mogi das Cruzes
Eu acho bem fraco. Só isto. Eu acho fraca a cultura em Mogi das Cruzes.

Criticar é necessário
Para o artista é bom ouvir crítica do crítico. Mas pouco crítico de arte sabe falar da obra. Eles não falam mal. Só falam bem. Às vezes nem interessa falar…

Política brasileira
É preciso suprir o gasto público. Se gasta muito com isso no Brasil. As coisas são de cima para baixo. Uma coisa imposta. A situação atual não está mudando nada.

Faculdade é piada
Não tem boa faculdade no Brasil. No caso das Artes Plásticas quem está ensinando em curso de cerâmica não sabe cerâmica. Este problema é o maior de tudo.

Dados anexos
Eu preciso dormir muito, quase dez horas por dia. Não ouço música, não vou ao teatro, cinema e não assisto TV. Tenho poucos amigos. Trabalho muito.

Didática pessoal
Quando faço os meus trabalhos, às vezes, faço o desenho antes, outras vezes, faço primeiro a miniatura e depois passo a execução da obra, ou ainda, vou fazendo sem planejamento e a forma vai surgindo à medida que vou trabalhando. O que fazer? Que forma dar a argila? São questões impossíveis de discorrer em poucas palavras, pois depende da filosofia da vida, da relação entre vida e cerâmica e do treinamento artístico de cada um.

Esclarecimento público
Apesar de fazer esculturas, considero-me antes de um escultor, um ceramista. Comecei a fazer cerâmica atraído pelas amplas possibilidades que o material oferece. E é com essa atitude de ceramista, de explorar as possibilidades de criação através do barro, que faço minhas esculturas. Às vezes faço também um cinzeiro, pratos ou xícaras para minha casa.

Ruínas fascinantes

Mary Noriko Nakatani, mulher de Nakatani, também é ceramista

Quando eu cheguei à América do Sul fui bastante influenciado pelas Ruínas Mayas, Incas e Astecas. Senti algo muito grande e forte visitando as ruínas astecas. Isso é difícil de te explicar.

Peroração
Quando eu trabalho com barro penso que para apresentar uma característica no barro, por exemplo, coloco a marca de um dos meus dedos… Quero conseguir com o trabalho de barro ser o único. As técnicas da cerâmica são aquelas que procuram extrair do material utilizado toda a beleza que lhe é própria e, por outro lado, nos auxiliam na realização de obras sem imperfeição.

Texto exclusivo para o Pícaro:

OBJETOS RITUAIS
(Akinori Nakatani)

Sem título, obra de Akinori Nakatani – Estação Metrô Tiradentes, São Paulo, Brasil

Ao examinarmos o processo histórico que conduz a humanidade, podemos constatar que nos últimos 200 anos a civilização europeia vem ocupando uma posição dominante, por vezes sobrepondo-se a outras civilizações. A maioria dos cientistas ocidentais pós-renascimento são europeus, assim como as bases do pensamento científico atual tem suas raízes europeias.

A ciência evoluiu a tal ponto que através dela podemos imaginar o futuro da civilização e dentro de que limite ela fará seu avanço. O efeito colateral dos medicamentos, os danos causados pelos agrotóxicos, pelas armas modernas ou pelos acidentes de trânsito, são contradições criadas pela civilização moderna. Para solucionar radicalmente esses problemas é preciso eliminar as conquistadas dessa civilização. Mas o avanço histórico é irreversível e a humanidade caminha implacavelmente apesar das pessoas que tomam consciência dessas contradições, apesar dos indivíduos que a querem modificar.

Atelier da família Nakatani em Mogi das Cruzes, São Paulo

Dos tempos primitivos aos dias atuais a humanidade passou por uma transformação completa em termos de complexidade, devido ao desenvolvimento do pensamento humano ou do cérebro humano. Entretanto o homem conservou não só a forma do seu corpo, mas também os seus instintos. O fenômeno de eclipse solar, por exemplo, nos provoca um sentimento de insegurança apesar de conhecermos cientificamente as causas do fenômeno; o conhecimento sobre a morte não aboliu o medo dela. Tais sentimentos, semelhantes ao sentimento de temor dos fenômenos da Natureza do homem primitivo, nos permitem constatar que os instintos humanos não mudaram desde os tempos primitivos.

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Akinori Nakatani / Foto: Nelson R. Spada

O meu trabalho tem o seu lado primitivo, justamente porque tem suas origens na ideia de que mesmo que os fenômenos da Natureza tenham sido esclarecidos pela ciência, os sentimentos ligados aos instintos humanos não foram alterados. O meu trabalho é, pois, a manifestação desses sentimentos. Tem a mesma função dos objetos utilizados nos rituais religiosos. O homem primitivo criou objetos para através de rituais -mágicos- afastar os temores dos fenômenos da Natureza. Participando da civilização moderna, procurando dar o meu trabalho uma função semelhante. Nesse sentido, o meu trabalho é sobre “objeto ritual religioso dos dias atuais”.●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em junho de 1986.

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Akinori Nakatani no jornal Pícaro em junho de 1986

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