Literatura

73 dias vagando pelo Brasil

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Manuel Chaves Nogales em Londres nos anos 40 do século passado. / Foto: Arquivo Pilar Chaves.

Por Jairo Máximo

Madri, Espanha ―(Blog do Pícaro)― Quando um dia pela Internet aquele jovem desvairado prometeu para aquela luminosa jovem brasileira que lhe mandaria de presente a biografia do toureiro espanhol Juan Belmonte, matador de toros (1935), escrita pelo jornalista e escritor Manuel Chaves Nogales, não sabia que o livro estava esgotado nas livrarias espanholas. Promessa é dívida; pensa ele.

A última edição que chegou ao mercado editorial espanhol data de 2009, e foi a que ele enviou a ela com alegria, no dia 5 de março de 2018. O exemplar destinado à jovem brasileira tinha sido um presente pessoal de um editor catalão para ajudá-lo a preparar o artigo De peito aberto dedicado a Manuel Chaves Nogales (1857-1944) que ele estava elaborando.

Em uma livraria renomada, que o jovem frequenta em Madri, lhe disseram um dia, com contundência: “A gente te consegue outro exemplar da biografia de Juan Belmonte (1892-1962). Pode enviar seu exemplar para a bela jovem brasileira”.

Dito e feito!

Com uma borracha na mão, ele passou dias apagando as notas que tinha feito nas margens das páginas, por capricho profissional.

O tempo passou… No entanto, sua inquietude aumentava diariamente, porque o livro não chegava à destinatária brasileira, e a livraria espanhola também não encontrava nenhum exemplar da obra. Nem de segunda mão. Tudo esgotado!

Ele deixou de pensar no assunto e começar de zero. Decidiu perdoar o correio brasileiro e a livraria espanhola. Pensava na próxima correspondência e em como conseguir dois novos exemplares da biografia do toureiro Juan Belmonte.

Meses depois, no dia 10 de maio, a livraria lhe chamou e disse: “Jovem, encontramos um exemplar da biografia do Belmonte. Uma edição de 1970, em dois volumes, com uma entrevista “extra” com o toureiro, realizada em 1954, oito anos antes dele se suicidar. Aqui está”.

Exatamente, dez dias depois, no dia 18 de maio, a jovem brasileira informa que a biografia do toureiro escrita por Chaves Nogales chegou ao destino, depois de passar 73 dias vagando pelo Brasil.

A vida é mágica, pensou ele.

E ficou “feliz” por todos. ●

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Comunicação

Desvendando um jornalista de patas

Resultado de imagen de portadas del libro El oficio de contar“Ainda existem pátrias na terra para os homens livres”. (Chaves Nogales)

Por Jairo Máximo

Madri, Espanha  ─ (Blog do Pícaro) – Antes de começar a ler a bem documentada biografia Chaves Nogales – O ofício de contar, de Maria Isabel Cintas Guillén, catedrática de Língua Castelhana e Literatura e doutora em Filologia Hispânica pela Universidade de Sevilha, já tinha lido e ouvido boas críticas referentes a esta obra. Além disso, sabia do esforço que a autora fez ─depois de defender, em 1998, a tese “Manuel Chaves Nogales. Quatro reportagens entre a literatura e o jornalismo”─, para resgatá-lo do ostracismo imposto pelos franquistas e outras forças políticas.

Resgate histórico

Chaves Nogales, O ofício de contar (2011), é um primoroso trabalho de resgate histórico sobre a intensa e surpreendente trajetória profissional do jornalista e escritor espanhol.

“Manuel Jacinto José Domingo Chaves Nogales nasceu no dia 7 de agosto de 1897, na Rua Dueñas, nº 11, “rua triste e silenciosa”, como ele a definiu, no centro histórico de Sevilha”, escreve Cintas Guillén. “Morreu no dia 4 de maio em Londres vítima de uma peritonite. Foi enterrado no cemitério de Fulham (North Shueen y Mostake) em Richamond, Kew, perto de Londres, no dia 11 de maio de 1944. Assim consta no registro. Tumba CR19. A cova é identificável entre dois túmulos”.

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A perseverante Cintas Guillén durante a promoção do livro O ofício de contar.

Em uma fotografia que a autora encontrou em Londres, realizada durante o funeral de Chaves Nogales, estão: A. Sala (advogado catalão refugiado empregado da agência do jornalista), J. Motriz de Aragão, embaixador do Brasil; Mac Ewen, amigo; D. A. Rosenweig Díaz, embaixador do México; J. Jaramillo Araújo, embaixador da Colômbia; Frances Kaye, secretária e colaboradora de administração na empresa; J.M. Bianchi, embaixador do Chile; Márquez Ricaño, da embaixada do México; Paz Castillo, da Venezuela; os ministros de Cuba e da República Dominicana e outros.

Na capital inglesa, o jornalista fundou uma agência, escreveu artigos para jornais latino-americanos e trabalhou como jornalista no frente de guerra, ao lado dos exércitos aliados que lutavam na Europa contra a Alemanha nazista.

Para o escritor basco Pío Baroja (1872-1956), o sevilhano Chaves Nogales era um jornalista de patas, aquele que busca a notícia onde ela está, com eficácia e um ponto de risco.

Chaves Nogales – O ofício de contar é, simplesmente, um compêndio de dados sobre a sua vida profissional que reuni ao longo de um tempo determinado. Durante muitos anos consultei arquivos, bibliotecas e hemerotecas, primeiro em Sevilha e Madri, depois em Paris e Londres e, em seguida, na América Latina, procurando colaborações e informações numa averiguação minuciosa”, explica a autora.

 Boca a Boca

A primeira informação que Cintas Guillén encontrou sobre Manuel Chaves Nogales foi por intermédio do doutor Reyes Cano, da Universidade de Sevilha, em 1990, quando ela lhe pediu que sugerisse um tema para elaborar sua tese de doutorado.

Resultado de imagen de portadas del libro El oficio de contar“Ele disse-me que se tratava de um jornalista sevilhano que tinha escrito uma biografia do toureiro Belmonte, com a qual tinha obtido um relativo êxito: era o autor de outro livro sobre a revolução russa, O mestre Juan Martínez que estava ali, e, logicamente, falou-me do seu livro sobre Sevilha, A cidade, um dos melhores sobre o tema local tão em moda nas primeiras décadas do século XX. Proporcionou-me alguns poucos artigos de imprensa relacionados com o jornalista. Disse-me, também, que de vez em quando, algum intelectual intercedia por ele e lamentava que continuasse sofrendo um injusto ostracismo”, explica Cintas Guillén.Resultado de imagen de portadas del libro Belmonte, de Chaves Nogales

Oito anos depois, em 1998, Cintas Guillén defendeu a tese “Manuel Chaves Nogales. Quatro reportagens entre a literatura e o jornalismo”.

Em seguida, ela continuou averiguando a atividade profissional de Chaves Nogales, autor de uma inspiradora obra literária que inclui esplêndidos artigos jornalísticos, reportagens, biografias, contos e romances.

Na introdução do O ofício de contar, ela conclui que dois temas destacam-se no conjunto de interesses informativos de Chaves Nogales, “que não são outros que as duas grandes forças locomotoras de todas as comoções sofridas pela Europa no século passado: a revolução russa e as suas conseqüências, e a presença no panorama europeu do nazismo e do fascismo, expressões para o jornalista de um mesmo caráter antidemocrático, filhos de um mesmo sentir totalitário, implacável e destruidor. (…) Em um país pouco dado à imparcialidade e em uns momentos de posturas visceral como sinônimo de comprometidas, tentou manter a mente serena e relaxada ao julgar os acontecimentos, realizando contínuos apelos à calma e conciliação quando os gritos da luta impediam o sossego. Pagou com o ostracismo à ousadia deste intento, que se demonstrou inútil. No entanto, o tempo lhe traz de regresso, como uma onda de uma maré que volta a beira de uma Espanha que já conhece muito bem os resultados daquelas aventuras, e está em condições de evitar que se repita a história. Otimista sem trégua foi capaz de declarar, nos piores momentos do êxito que teve que viver em solidão: “Ainda existem pátrias na terra para os homens livres”.

Fragmentos de O ofício de contar

“Chaves Nogales era capaz de estabelecer conexões que atravessavam a mais simples notícia ao âmbito mais atual e denso de conteúdo”.

Resultado de imagen de capa do livro As ruinas do império russo

“Uma editora portuguesa, a Editorial Enciclopédia Limitada (Lisboa – Rio de Janeiro) começou a publicar em 1935 a sua coleção “As grandes tragédias reais”, (dando à palavra real à acepção de verdadeira), com a reportagem “As ruínas do Império Russo”. A editora justificava a publicação deste trabalho assim:

            Chaves Nogales o narra [refere-se ao panorama da Rússia branca] com aguda e inexorável verdade, com a crueza e serenidade de um grande mestre da reportagem, ouvindo as misérias dos lábios dos próprios miseráveis, pintando uma extensa galeria de quadros ao ar livre, palpitante e surpreendente, sobre um fundo de sangue, ódio e neve, o mesmo telão de fundo que serve para a execução de Nicolau II, do pequeno herdeiro, da Imperatriz e das princesinhas, na grande ratoeira de Ecaterimburgo, sobre a neve implacável…”.

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Lo que ha quedado del imperio de los zares, foi publicado na Espanha em 1931.

“O governo de Franco quis eliminar o vestígio do jornalista condenando-o no dia 16 de maio de 1944 (uma semana após sua morte), e através do Tribunal de Repressão da Maçonaria e o Comunismo,

            (…) a pena de prisão de 12 anos e um dia de prisão de menor, e a proibição perpetua para ocupar qualquer cargo do Estado, Corporações Públicas e Oficiais, Entidades Subvencionadas, Empresas Concessionárias, Gerencias e Conselhos de Direção de empresas privadas, assim como cargos de confiança, chefia ou direção dos mesmos, afastando-o definitivamente dos mencionados cargos, que proceda a busca, captura e prisão do sentenciado. (…)*

*Expediente da condenação de Chaves Nogales por pertencer à Maçonaria. Aproximadamente dois milhões e meio de pessoas foram fichadas como “vermelhos” [comunistas] e inimigos do Estado Novo.Imagen relacionada

O homem que estava ali

Depois de terminar a leitura da biografia O oficio de contar, imagino uma novela ou uma série de TV sobre os 47 anos ─bem vividos?─ de Chaves Nogales, o homem que estava ali, de peito aberto, sem perder o estilo e a ética. Um espanhol inquieto dono de uma pluma privilegiada que desfrutou do êxito do profissional e acabou no ostracismo.

“Talvez alguém algum dia decida novelar a vida de Chaves Nogales, da qual nem tudo está dito e escrito. Não faltará nela fatos de grande interesse. No meu caso foi um atrevimento tentar fazer uma biografia, somente profissional, de quem foi considerado por seu Belmonte o melhor biógrafo do século XX espanhol”, constata Cintas Guillén. •

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Chaves Nogales, em Astúrias, Espanha, com as testemunhas do assassinato do padre de Sama (diário Ahora, 27 de outubro de 1934).

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Arte e Cultura

“O INSTITUTO CERVANTES É UMA CASA ABERTA”

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Juan Manuel Bonet Planes, diretor do espanhol Instituto Cervantes em Madri. / Foto: Instituto Cervantes

por Jairo Máximo

MADRI, Espanha ― (Blog do Pícaro) ― Juan Manuel Bonet Planes (Paris, França, 1953) Escritor, poeta e crítico de arte e literatura. Tem publicados diversos livros de poemas, ensaios e monografias. Foi curador de importantes exposições e organizador de mostras e retrospectivas que sempre levam sua particular marca de identidade. Também foi diretor do Instituto Valenciano de Arte Moderna e do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia de Madri. Atualmente é diretor do espanhol Instituto Cervantes, mas antes disso dirigiu o Cervantes em Paris. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, Bonet afirma: “Chego ao Cervantes para aportar ideias novas”.

Desde criança você vive na vanguarda intelectual?
―Sim. Nasci numa família na qual a arte e a cultura são uma tradição. O meu pai falava que a mãe escrevia, que o seu pai militar pintava e que um familiar de Lugo, na Galícia, Evaristo Correa Calderón (1899-1986), que eu conheci quando ele era idoso, era vanguardista. Correa Calderón era amigo de Jorge Luis Borges, e foi ele quem introduziu a vanguarda em Lugo. No meu livro Dicionário das Vanguardas na Espanha, 1907―1936, que lancei em 1995, falo das vanguardas que conheci. Deste homem de Lugo, Correa Resultado de imagen de portada del libro diccionario de las vanguardias españolasCalderón, meu tio-avô, que na sua juventude madrilenha participou, no Café de Pombo, da tertúlia organizada pelo escritor e jornalista Ramón Gómez de la Serna, emblema da vanguarda espanhola. Ele contava que José Gutiérrez Solana, que imortalizou a tertúlia no quadro A Tertúlia do Café de Pombo (1920),fez um retrato a óleo dele, em 1921, que ele nunca conseguiu comprar porque a obra de Solana era muito cara. Também tinha a sua relação com Borges, porque nas obras completas de Borges, editadas em francês, Correa Calderón aparece como um dos signatários de um poema coletivo. Daí vem a tradição. Meu pai Antonio Bonet Correa ―historiador e catedrático―, primeiro estudou na Universidade de Santiago de Compostella; depois ampliou os estudos em Paris, onde nasci. Na capital francesa ele se relacionou com escritores e pintores. Em 1958 regressou à Espanha e aqui continuou relacionando-se com pintores e escritores. Portanto, desde criança vivi na vanguarda intelectual.

Que luxo!
―Claro! Lembro-me da época quando o meu pai dirigia o Museu de Belas- Artes de Sevilha, além de editar algumas páginas do ativo e crítico jornal El Correo de Andalucía. Foi nestas páginas onde eu comecei a escrever.

Que menino mais precoce…
(risos)- E para que não falassem que era um protegido assinava com outro nome.

Com pseudônimo?
―Sim. Juan de Hix, em referência a Hix, uma pequena cidade da Sardenha francesa, onde nasceu a minha avó materna. Nesta época eu também pintava, mas para sorte da pintura abandonei o intento.

(risos) Mas ganhou à poesia, a crítica artística e literária, a curadoria de arte contemporânea.
―Isso foi dos 13 aos 18 anos, quando comecei a escrever poesia. Depois trabalhei durante duas temporadas de verão no Museu de Arte Abstrato Espanhol de Cuenca. Foi o primeiro museu com o qual me relacionei. A partir deste momento, pouco a pouco, comecei a me dedicar a escrever sobre arte. Em seguida fui o primeiro diretor-artístico da galeria de arte madrilenha Buades. Nesta mesma época colaborei com vários meios de comunicação espanhóis. Atualmente colaboro com o diário espanhol ABC. Durante uma época da minha vida escrevi muitas críticas de arte e literárias, no entanto, hoje em dia não escrevo mais críticas.

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Museu Provincial de Teruel, instituição cultural criada em 1955.

Quando começou sua aproximação -profissional- aos museus contemporâneos mais importantes da Espanha?
―O primeiro museu com o qual eu me vinculei foi o Museu da Província de Teruel, onde realizavam muitas exposições relacionadas com o surrealismo. Foi neste momento quando comecei a estudar as velhas vanguardas pictóricas, o cubismo, o surrealismo, o ultraismo etc. O movimento Ultraismo (1818-1925) é um tema que sempre me interessou muito. Era como o modernismo brasileiro. Na continuação, o escultor canário Martín Chirino, fundador do Centro Atlântico de Arte Moderna, me convidou para pertencer ao conselho assessor da instituição.

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O Centro Atlântico de Arte Moderna, inaugurado em 1974, é o principal museu de arte contemporânea de Canárias.

Lá fui curador de uma bela exposição denominada Surrealismo entre o Velho e o Novo Mundo (1989), que contava como durante a 2ª Guerra Mundial o surrealismo atravessou do Velho para o Novo Mundo ―Cuba, México, Estados Unidos― tendo as Ilhas Canárias como um ponto de encontro, um cruzamento de caminhos entre Europa, África e América. Foi fascinante investigar uma época tão particular. Foi no Centro Atlântico onde aprendi muito como funciona um museu. Em seguida, me convidaram para dirigir o jovem e experimental Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM), que conta com uns aspectos que para mim são fascinantes.

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O Instituto Valenciano de Arte Moderna, fundado em 1989, tem como objetivo a investigação e a difusão da arte moderna e contemporânea.

Trabalhei ali proporcionando minha experiência pessoal, somando uma perspectiva artística interna. Realizamos uma exposição sobre o Ultraismo, que até aquele momento os museus não tinham se fixado muito nele, era um movimento poético que tinha Guillermo de Torre, Salvador Dalí, Rafael Barradas, entre outros, em suas trincheiras. O meu trabalho no IVAM foi um pouco ir espanhalizando, em alguns aspectos; e iberoamericanizando, em outros. Foi uma época na qual também me interessei muito pelas coisas do Novo Mundo. Tenho boas recordações do IVAM. Foi uma ótima aprendizagem. Além disso, foi ali onde coloquei em marcha a grande exposição brasileira Brasil 1920-1950. De la antropofagia a Brasilia. Essa exposição começava na Semana de Arte Moderna de 1922, origem do modernismo brasileiro, e acabava na colocação da primeira pedra da construção de Brasília. Mescle diferentes disciplinas artísticas ―pintura, arquitetura, fotografia, cinema, música, dança, literatura. Expus quadros de Cícero Dias, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti; mostrei planos de jardins de Burle Marx; maquetas de edifícios de Oscar Niemeyer; exemplares da revista Klaxon; manuscritos de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Murilo Mendes; coloquei música ambiental de Heitor Villa-Lobos e, inclusive, exibi a primeira produção cinematográfica brasileira de vanguarda São Paulo ―Sinfonia da Metrópole, 1929, dirigida por Rodolpho Lustig e Adalberto Kemeny, uma visão cotidiana da cidade de São Paulo, e que nunca entrou nos circuitos comerciais. É um tipo de exposição pela qual me apaixonei porque conta um pouco à vida intelectual dos artistas e da cidade como um marco. Quando foi inaugurada a exposição eu já não estava como diretor do IVAM.

Estava no trem-bala de viagem à capital espanhola?

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O Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia é um dos museus mais importantes da Espanha. / Foto: Jairo Máximo

―(risos) Ainda não existia o trem-bala. No Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia de Madri não me esqueci do Brasil. Comprei muita arte brasileira: Tarsila do Amaral, Tunga, Beatriz Milhazes. Solidifiquei muito a coleção do museu Rainha Sofia. Naquela época tínhamos bastante dinheiro para comprar obras de artistas consagrados: Salvador Dalí, Juan Gris, Joan Miró. Fiz exposições de arte contemporânea, de fotografia e de outras disciplinas artísticas que não tinham sido realizadas na Espanha com grandiosidade, como é o caso da mostra do espanhol Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), Homem orquestra das vanguardas; retrospectivas de José Gutiérrez Solana, o pintor das tertúlias do Café de Pombo; do escultor e pintor Alberto Sánchez Pérez; dos pintores Ramón Gaya e Juan Manuel Díaz-Caneja. Fiz todo àquilo que estava ao meu alcance. Naquele momento o Museu Rainha Sofia não tinha tanta autonomia como tem hoje em dia. Tinha uma responsabilidade de um discurso mais institucional.

Depois do Museu Rainha Sofia, no que você trabalhou?

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Antropofagia, 1929, obra da brasileira Tarsila do Amaral.

―Trabalhei em casa, uma coisa que eu gosto muito de fazer. Nesta época recebi uma encomenda da espanhola Fundação Juan March para organizar a primeira grande mostra na Espanha da artista brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973), umas das máximas figuras das vanguardas latino-americanas e símbolo do modernismo brasileiro. A exposição foi inaugurada em 2009 em Madri e, em 2011, foi exposta em São Paulo, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

Até agora este é o meu último projeto brasileiro em um museu. Resultado de imagen de portada del libro fervor de la metrópoli, de juan manuel bonet, Dan Galeria Em seguida, surgiu à possibilidade de realizar uma parceria com a Dan Galeria, de São Paulo. Uma visão de São Paulo realizada por mim e pelo fotógrafo e pintor espanhol José Manuel Ballester. O título da obra que acabamos de publicar é Fervor de Metrópoli, que é una combinação de Fervor de Buenos Aires, primeiro livro de poemas de Borges, de 1923, e o filme São Paulo, Sinfonia da Metrópole, de 1929, que te comentei antes. Esse é o último capítulo da minha historia com o Brasil. Nestes anos no qual passei ―sem museus― realizei trabalhos como esse do Brasil. Contudo, em 2012, apareceu à oportunidade de dirigir o Instituto Cervantes de Paris.

Como você cruzou os montes Pirineus com destino a Paris: de carro, trem, avião, esquiando ou a pé?
―(risos) De repente. A minha mãe Monique estava sempre falando, oh! Juan Manuel, você tem que trabalhar algum dia na França. Então, me apresentei a um concurso público para uma vaga no Instituto Cervantes de Paris e fui escolhido. Estive ali mais de quatro anos. Foi à única vez em que morei de verdade na minha cidade natal, de onde sai quando tinha três anos.

Um reencontro memorável.
―Sim. Morar de verdade em Paris. Com seus problemas. Inclusive em 2015 vivi os atentados jihadistas ao semanário satírico Charlie Hebdo e a sala de espetáculos Bataclan e cafeterias.

Considera que o atentado contra Charlie Hebdo que matou 12 pessoas no dia 7 de janeiro de 2015 evidenciou que o humor mata sem contemplação.
―Sim. Inclusive tivemos que reforçar a segurança das dependências do Instituto Cervantes. Paris reagiu muito bem pós-atentado. O povo francês e o governo deram um exemplo de unidade. Mas mesmo assim criou-se um estado bastante especial. Geraram e causaram muitos problemas. Apareceram gretas. O turismo caiu muito em Paris.

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Sede central do Instituto Cervantes em Madri. / Foto: Jairo Máximo

O que você sentiu quando te avisaram que seria o novo diretor do emblemático Instituto Cervantes, uma instituição criada pela Espanha em 1991 para promover e ensinar o espanhol e para difundir a cultura da Espanha nos cinco continentes?
―Uma mescla de surpresa, honra e responsabilidade. É um desafio. Sou a primeira pessoa que antes de ser diretor da Rede dirigiu uma sede. Considero que isto me proporciona um conhecimento prévio de como é a estrutura da casa. Chego para aportar ideias frescas a uma estrutura que funciona bem. Uma das instituições mais valorizadas espanholas. Quero retornar um pouco a ideia de que a própria central mande coisas de qualidade às suas sedes. Igualmente, considero que quanto às artes plásticas, está um pouco pobre, porque se olhamos bem, muitas vezes, estamos em função do que se pode fazer a escala local. Quando o Instituto Cervantes entrou em funcionamento ele era mais espanhol, entretanto, hoje em dia é um lugar no qual qualquer ibero-americano o sente como um lugar próprio. Em Paris fizemos muitas atividades com os argentinos, peruanos, mexicanos etc. Isso é algo que temos que continuar fazendo. Qualquer diretor do Cervantes sabe isto: o Instituto Cervantes é uma casa aberta para todos.

Posso considerar que a exposição Panóptica (1973-2011), do desenhista de HQ e ilustrador espanhol Max, que foi exposta com êxito em Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Salvador é a linha de trabalho que pretendes seguir?
―Esta exposição era muita boa. É um exemplo de que sim é possível organizar uma exposição que saia daqui da sede central e visite outros centros Cervantes dos cinco continentes. Estamos fortalecendo muito a razão de ser ibero-americana do Cervantes. É uma coisa que está…

No DNA do Cervantes?
―Sim. A primeira exposição da minha gestão é Retorno a Max Aub (1903-1972) dedicado ao novelista, dramaturgo e poeta hispânico-mexicano de origem judeu alemão Max Aub, o eterno judeu errante da nossa literatura.

“Retorno a Max Aub” ofrece un recorrido por la vida y obra creativa del novelista, poeta, cuentista, antólogo, ensayista, crítico y hasta falso pintor.

O que você pensa da arte do grafite?
―Considero que as fronteiras entre a arte popular e arte não são estagnadas. No Instituto Cervantes de Paris eu organizei uma exposição do grafiteiro francês El Tono, que faz uns grafites geométricos que eu gosto muito. O artista plástico Basquiat começou grafitando nos muros de Nova York e hoje em dia suas obras estão supervalorizadas. Nas minhas recentes viagens ao Brasil encontrei belos grafites em São Paulo e no Rio de Janeiro. Alguns deles muito interessantes que mesclam Tarsila do Amaral, com influência pop, com influência indígena.

O que você pensa do populismo em alça na América e aqui na Europa?
―É preciso contemplá-lo com muita preocupação. Seja de um extremo ou de outro.

Por que no começo da entrevista você falou: “o Ultraismo era como o Modernismo brasileiro”?
―Porque no Brasil vocês consideram a Semana de Arte Moderna como o início de um movimento, enquanto que aqui na Espanha, como em seguida surgiu à denominada geração de 27 ―Lorca, Luis Cernuda, Vicente Aleixandre, Rafael Alberti, e outros― os ultraistas que eram verdadeiramente vanguardistas foram um pouco marginalizados. Mas eu considero que eles são muito importantes. Inclusive em 2012 publiquei uma antologia de poesia ultraista titulada Las cosas se han roto, que é um verso do poema “Chuva”, do poeta ultraista espanhol Pedro Garfias. Menciono as referências brasileiras porque na grande revista de vanguarda brasileira Klaxon, aparece colaborações do líder do ultraismo Guillermo de Torre. Os ultraistas utilizavam muito a metáfora como expressão de metáforas. Mais ou menos o que faziam os brasileiros Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Luis Aranha. Aliás, em 2012 fiz o prólogo da tradução ao espanhol  do livro de poema Cocktails, do diplomata e poeta Luis Aranha.

Como você descobriu ―intelectualmente― o Brasil?

EPSON MFP image ―No começo da década setenta do século passado na casa dos meus pais lendo com avidez exemplar antigos da Revista do Brasil, que a embaixada brasileira editava aqui na Espanha quando o poeta e escritor João Cabral de Melo Neto era membro do corpo diplomático. Ali apareciam poemas de Mário de Andrade, Raúl Bopp, Murilo Mendes, entre outros. Depois fui descobrindo mais coisas sobre o Brasil a base de encontrar livros antigos. Comecei a comprar livros de João Cabral de Melo Neto, de Oswald de Andrade, de Mário de Andrade, que tinham sido publicados em Barcelona por Cabral de Melo, porque quando ele foi vice-cônsul em Barcelona, nos anos 40, ele tinha uma pequena gráfica na sua casa. Editava livros de sua autoria, de brasileiros ―Manoel Bandeira, Cecília Meirelles, Murilo Mendes― e de espanhóis. Ele era um poeta impressor e mantinha amizade com o pintor Joan Miró e com poeta Joan Brossa. Tenho bastante destes livros. Um deles é Resultado de imagen de joão cabral de melo netouma relíquia de Cabral de Melo com capa de Miró. Cabral de Melo é uma pessoa que teve uma grande importância entre os dois países. Um mensageiro. Dos autores espanhóis que ele publicou está Brossa, Joan Pons ―que emigrou ao Brasil―, como tantos outros vanguardistas espanhóis. Existe um caminho brasileiro na vanguarda espanhola. Quem sabe eu faça uma exposição, desde aqui da sede do Instituto Cervantes, para mostrar esse diálogo. Esse ponto de conexão. Sempre me interessei muito pelo Brasil.

Sei que você está escrevendo um novo livro. Do que se trata?
―Arte brasileira. É uma encomenda de uma editora francesa e vou intitulá-lo Maravilha. Será um livro com o mesmo espírito da exposição que fiz no IVAM sobre arte brasileira: Brasil 1920-1950. De la antropofagia a Brasilia. Mesclar um pouco de tudo: música, fotografia, artes plásticas, literatura, arquitetura etc. Neste livro abordarei coisas do Brasil que fui conhecendo ―direta ou indiretamente― nas doze cidades brasileiras que conheço pessoalmente. Por exemplo, em São Paulo, descobri no restaurante Dalvo e Dita, de Alex Attala, um painel de azulejos fantásticos de autoria do pintor, escultor e arquiteto carioca Athos Bulcão. São coisas assim que vou abordar no livro.

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Azulejos de Athos Bulcão.

Você é um homem feliz?
―Sim, com moderação. Trabalho naquilo que gosto. Tenho uma família, mulher e filhos, com quem sou muito feliz. Também fomos felizes em Paris, porque defender os valores da Espanha e dos países irmãos na França é muito interessante. Neste momento estou feliz de me reencontrar com Madri. Um sempre está dividido: onde estou? de que lugar venho? ●

N. do A. – Entrevista publicada em espanhol na revista El Siglo de Europa.

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No livro Via labirinto: poesia (1978-2015) Juan Manuel Bonet reúne seus poemas, que recopila 37 anos de escrita.

 

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Polícia

32) DIONI: Guarda-costas e ladrão de carro-forte

“NÃO COMETI NENHUM DELITO”

por Jairo Máximo

Dioni

Dioni no Rio de Janeiro / Foto: Jorge Beraldo

Dionísio Rodríguez Martín, Dioni (Madri, Espanha, 1949) Guarda-costas e ladrão. Roubou em Madri, em 1989, um carro-forte que continha mais de dois milhões de dólares sem disparar um só tiro e disfarçado de mulher. Em seguida, fugiu para o Rio de Janeiro, mas foi preso na fronteira do Paraguai com o Brasil acusado de ser traficante de armas. Nesta entrevista exclusiva, concedida no Rio de Janeiro, afirma: “Não tenho nada do dinheiro roubado”.

Quem é o Dioni, o famoso ladrão espanhol?
Nasci no dia 31 de outubro de 1949, no bairro de Salamanca de Madri. Minha família era modesta e estudei no colégio El Pilar, com os irmãos maristas. Estou divorciado e tenho uma filha de 21 anos que me deu um neto. Sempre fui sindicalista e cheguei a ser chefe do grupo do Sindicato Independente de Guarda-Costas Espanhóis.

Tem medo das consequências do roubo que realizaste no dia 28 de julho de 1989?
Eu não cometi nenhum delito. Está fora de mim por uma questão psicológica. Fiz por vingança, por ressentimento. Fiz por força da razão. Por isso, nestas condições, tudo o que nós fazemos o fazemos bem. Na verdade, fiz porque um dia tive um deslize psicológico. A loucura é uma situação pessoal.

Considera que a Polícia espanhola acredita que você fez o roubo sozinho?
Até que a Polícia prove o contrário, o que eu estou falando é a verdade. Tenho provas de que fiz o roubo sozinho e que ninguém trabalhou comigo.

É verdade que você trouxe o dinheiro do roubo para o Brasil? Como fez para trazê-lo, porque é muito dinheiro?
Sim, eu trouxe o dinheiro para o Brasil. Troquei na Espanha as pesetas por dólares. Em Portugal também fiz várias trocas e o resto troquei aqui no Rio de Janeiro.

Quanto dinheiro ainda tem do roubo?
Nada! É a verdade. Uma parte a Policia espanhola encontrou no meu apartamento em Madri, um total de um milhão de dólares. O dinheiro que tenho neste momento, que é muito pouco, é o que recebo da revista espanhola Interviú. Meus objetos pessoais que tinha comigo -vídeo, pulseiras, anéis, um relógio- a Polícia brasileira me confiscou. O primeiro advogado que se prestou a me defender aqui no Rio de Janeiro não era criminalista e me enganou. Logicamente, tive muitos advogados. Tem um que me prometeu que facilitaria minha fuga através de um embaixador sul-americano, que por questões éticas, não vou dizer seu nome, mas ficou com algumas coisas minhas e agora esta me chantageando para me devolver minhas coisas.

Volto a insistir, cometeu o roubo sozinho? Como planejou?
Eu fiz tudo sozinho. As pessoas subestimam muito meu conhecimento.

Mas, cadê o dinheiro?
Se a Polícia afirma que este dinheiro está guardado, que seja ela que procure ele. Eu não tenho nenhum tostão do roubo. Tenho apenas umas calças. Não tenho nada de luxo. Levaram todos os meus bens e o que eu possa ter de agora em diante está relacionado com o valor da minha folha de pagamento. No futuro quero viver somente de meu holerite para que todos vejam que sou capaz de viver do meu salário.

O que você faria com o dinheiro se ele estivesse aqui?
Abriria uma empresa de segurança, onde muitas pessoas pudessem ganhar muito dinheiro e estivessem felizes comigo como seu chefe; que não tivessem problemas sociais, econômicos e de trabalho. Parte dos lucros que obtivesse doaria para trabalhos sociais que gosto muito.

A imprensa espanhola fala que você deixou uma mulher brasileira grávida. É verdade?
Também podem falar que eu sou o Ronald Biggs moderno e que eu poderia deixar alguma mulher grávida e ficar no Brasil. Ofereceram-me de tudo para ficar no Brasil livre. Eu nunca disse que tinha deixado uma mulher grávida aqui, entretanto me ofereceram muito dinheiro para deixar alguma mulher grávida por aqui.

Quem?
Os advogados, a Polícia brasileira… Não, não pensei em Ronald Biggs. Minha companheira brasileira vem todas as quintas-feiras me visitar. Ela me deu de presente uma Bíblia e um rosário para que eu reze e volte logo à Espanha.

Acredita em Deus?
Sim, acredito em Deus, mas sou um mal religioso. Na atualidade rezo muito.

Como é o seu dia-a-dia aqui na cadeia?
Faço ginástica e escrevo cartas para a minha família. Também continuo escrevendo meu livro de memórias.

O que você fala no seu livro de memórias?
Falo de como fiz a desapropriação indevida, com luxo de detalhes. Já tenho editores em Barcelona e Madri que estão interessados em publicar estas confissões.

Está sozinho ou acompanhado na sua cela?
Estou com outro preso. Estou à vontade porque ele não me deixa cair em depressão. Não me trata como um delinquente, senão como uma boa pessoa. Sua mulher está presa no presídio feminino de Bangu, aqui no Rio. Ele é da máfia de Marselha e trabalha para o Cartel de Medellín, no Amazonas. Tem um nível cultural elevadíssimo.

Afirma que realizaste o roubo sozinho, mas a Polícia constata que outras pessoas estiveram envolvidas? Quem é?
Quando eu era guarda-costas conhecia uma secretária e seu marido. Eu tinha uma relação intensa com esta senhora e a convidei a vir ao Rio de Janeiro e vieram. Mas isto não quer dizer que ela tenha quer ser cúmplice da desapropriação indevida. A Polícia fala de que eles viviam comigo e estão envolvidos no caso. Quero que fique claro que eles não têm culpa de nada em absoluto.

Por que roubou?
As pessoas que eu roubei são mais ladronas que eu. O que roubei deles em 40 anos, eles roubam todo o ano. São pessoas que andam pela sociedade e ainda que com a cabeça baixa, são aceitas pela sociedade burguesa. Eu trabalhava 17 horas diárias. Trabalhei para o diretor geral da Organização Nacional de Cegos, para o ex-presidente Adolfo Suarez, para o presidente do Banco Central da Espanha e seus conselheiros e para muitos outros peixes gordos espanhóis.

Atualmente você é um ídolo popular na Espanha, como se sente com toda esta popularidade?
Bem… não tem mais solução e, além disso, não é possível interpelar. Não tenho nem mulher nem filhos no Brasil. Entre o mês de janeiro e fevereiro já voltarei para a Espanha e responderei o processo que tenho sobre minhas costas. A extradição é um processo lento. Nestes momentos considero que estou de férias com respeito ao que me espera na Espanha.

O que significa ser um preso brasileiro?
Olha, eu já tive aproximadamente uns dez advogados, primeiro um e mais tarde mais três… Todos me recordaram que eles não sabem quem roubou meus objetos pessoais do apartamento em que eu estava hospedado, antes de ser preso. Eu quero receber cartas. Há pouco tempo atrás recebi uma carta de uma pessoa de Saragoza que me fez chorar. A carta era de um senhor que dizia que me compreende e compreendia minha atitude e, portanto, sabia quanto eu estava sofrendo nestes momentos.

Dioni, mas realmente por que roubaste?
Fiz por vingança. Eu sofri muitos desaforos em meu trabalho, depois de trabalhar dez anos no mesmo lugar onde desenvolvia uma atividade bastante arriscada. Eu era guarda-costas e não segurança. Nunca tive o pensamento de cometer um roubo. Tenho chalé nos arredores de Madri e tenho carro. Na realidade não necessitava realizar o roubo, mas hoje o que sinto é que se tivesse comprado algumas coisas e tivesse colocado no nome da minha filha ou de meu neto não teria tido tantos problemas.

Foi torturado aqui na cadeia do Rio de Janeiro?
Sim, porém mais que a tortura física é a tortura psicológica que eu atravesso nestes momentos.

Mas Dioni, realmente não consigo compreender porque roubaste o que não era seu…
Roubei para me vingar da grande humilhação que padeci no trabalho e pela falta de respeito que demonstraram por minha pessoa meus patrões. Roubei dois milhões de dólares. É um delito e sei disso e cumprirei a pena que me colocarem que pode estar entre um mês e seis meses de cadeia.

Com quem está o dinheiro que a Polícia não encontrou?
Amigos, advogados e policiais. A metade do roubo está com os sul-americanos. Quando entrei na cadeia tinha como tenho hoje, somente uma camisa, uma calça e um tênis. Tudo o que tinha ficou no hotel. Desde então não vi nem minhas roupas, nem minhas joias nem sequer meu dinheiro.

Onde e como você conseguiu o passaporte falso que utilizou para fugir da Espanha?
Como guarda-costas conheço muitos políticos, banqueiros e industriais. Tenho estudos e sou detetive e guarda de segurança e tenho também relações com policiais. Tinha que saber quem era o inimigo e onde estavam as drogas, e depois tinha imediatamente o passaporte falso. Utilizei meus conhecimentos e arrumei a situação com um passaporte brasileiro falsificado.

Como pensa que será tratado pela Polícia espanhola?
Eu não sei de nada…

Voltarei à Espanha e serei o mesmo trabalhador que era antes. Quando regressar espero que exista menos desemprego e menos terrorismo. Espero também que a Justiça cumpra com seu dever. A Espanha é um Estado democrático, onde cada profissional cumpre com seu dever como mantém as leis. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no suplemento El Dominical de Madri em janeiro de 1990.

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“Dioni” no suplemento El Dominical de Madri em janeiro de 1990

 

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Música

25) PACO CLAVEL: Show man, cantor e artista plástico

“O MISTÉRIO É CONECTAR COM O PÚBLICO”

por Jairo Máximo

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Paco Clavel em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Francisco Miñarro López, Paco Clavel, (Iznatoraf, Jaén, Espanha, anos 50) Show man, cantor e artista plástico. Seus espetáculos de cabaré revelam ser um entretimento seguro e carregado de uma feroz sátira política e cultural. É um ícone da conhecida movida madrilenha, um movimento contracultural que surgiu em Madri durante os primeiros anos da transição espanhola, que se prolongou até final dos anos oitenta. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Tenho um sentido lúdico e divertido de mim mesmo e daquilo que me rodeia”.

Imaginação
Tento ser imaginativo comigo mesmo e isto me dá espaço para que cada dia seja um pouco diferente e sobre tudo a criar mundos.

Começa o Espetáculo…
Acabo de lançar meu esperado disco Crute-duets. Neste trabalho reúno alguns dos meus melhores amigos, entre Pedro Almodóvar, Carlos Berlanga, Alaska, Susana Estrada e outros artistas para cantar o que eles gostam, e nada mais…

Do seu ponto de vista, quem é quem na Espanha desta breve lista: Mário Conde (banqueiro, ex-presidente do Banesto), Jordi Pujol (político), Narcís Serra (político), Julio Anguita (político), Julio Iglesias (cantor), Lola Flores (cantora), Alaska (cantora), José Ribas (jornalista e editor), Luz Casal (cantora), Pedro Almodóvar (cineasta), Os Berlanga (pai cineasta e filho músico), Antena 3 de Televisão, Televisão Espanhola e Luis Roldán (policial, diretor da Policia Civil, entre 1986-1993).
Mário Conde: um globo cheio de ar, que levou assim por assim, a La chita callando, e agora viu que acontece o que está acontecendo, pois um homem quando trabalha ganha, no mínimo, um salário… O que é impensável é que um senhor, de repente, do dia para a noite, o presidente do Banesto embolse uma fortuna. Aqui tem gato preso, aqui tem gato preso…
Jordi Pujol: político que sempre defende o seu lado.
Narcís Serra: o vice-presidente? Bem… sempre quando o vejo tenho a impressão de que estou vendo um cômico.
Julio Anguita: um intelectual político arabesco.
Julio Iglesias: um triunfador fora da Espanha, mas um homem molinho.
Lola Flores: é a raça e o poderio.
Alaska: foi a renovação de uma etapa da Espanha, que neste momento está mais madura e mais ativa.
José Ribas: a revista Ajo Blanco foi sempre um mito da imprensa marginal e uma alternativa. Considero Ribas um homem de grande validez, mas os tempos mudaram e com os tempos mudaram um pouco as coisas, quem sabe tudo o que tinha esta revista era carne viva. Em minha opinião atualmente está mais light, menos incisiva que antes.
Luis Casal: uma grande profissional e uma grande bolerista.
Pedro Almodóvar: foi também a transformação juntamente com Alaska e mais um monte de gente da Espanha franquista à Espanha democrática. Além disso, Almodóvar é um renovador no mundo do cinema. Sou seu fã.
“Los” Berlanga: parecem-me uma maravilha dentro do cinema espanhol. O pai é todo um mito. Por outro lado, seu filho Carlos Berlanga foi um dos pioneiros do punk espanhol, em companhia de Kaka de Luxe e Los Pegamoides e é um grande compositor.
Antena 3, TVE-1 e Tele-5: a Una é como uma grande senhora que pode ter suas falhas, suas saídas de mãe. Penso que como alternativa agora quem está dando um pouco de malho é Antena-3, pois a Tele-5 é horrível…
Luis Roldán: o ex-diretor da Guarda Civil é o grande ladrão espanhol. Tem muita imaginação para fazer o que fez sem que ninguém percebesse durante oito anos.

Quem você considera que é a mais bela e o mais belo da Espanha?
Creio que pela forma ambígua e por tudo que significou é Bibiana Fernández, que é uma grande beleza. Do mais belo é Manuel Banderas, não o Antonio Banderas e sim o Manuel que fez o filme Las cosas del querer.

Quem são os mais feios e mais feias da Espanha?
Feios para mim são todos aqueles que se dedicam à política, como pode ser o presidente da generalitat da Catalunha, Jordi Pujol ou Juan Alberto Belloch, o atual ministro da Justiça e do Interior. Existem tantas feias neste país que não sei quem poderia citar, mas acredito que a folclórica Marujita Díaz é um bom exemplo, como também qualquer uma das atuais ministras.

Na noite madrilena de hoje, 1995, quem brilha mais no mundo underground?
Vejo como uma coisa vazia, onde as coisas estão escondidas, mas sempre existe gente que está fazendo coisas interessantes e que não são precisamente os que saem nos meios de comunicação, evidentemente. Sabemos que as coisas que saem nos meios de comunicação estão bastante estudadas e que não te oferecem nenhuma alternativa nem é novo, nem te diz nada. O que está saindo agora à superfície e que está muito off-off são as performances e os teatros alternativos que estão nos lugares pequenos e onde podemos encontrar verdadeiras joias.

Em sua opinião o que acontece de mais novo nas ruas de Madri de hoje em dia?
A miscigenação racial e cultural é o mais interessante e isto é o que mais incomoda o estado implantado… Hoje existe muito racismo, na Europa, inclusive em Madri, Barcelona, Valência, ou seja, na Espanha inteira. Entretanto a mistura enriquece uma sociedade e pode ser uma alternativa de convivência social com gente que pode aportar muitíssimo.

O que tem a dizer às pessoas que não podem desfrutar dos seus shows, mas podem comprar seus discos?
Não sei quem disse uma vez que a Espanha es un gran pueblo [uma grande cidade provinciana]. Acredito que cada vez mais vai se unificando o que é povo e o que é grande cidade, a capital. Já não existem tantas diferenças como antes. As pessoas mais ou menos se vestem igual.

Existe hoje em dia um político espanhol que vale que uma peseta?
O mundo político, ainda que você não queira estar aí, mas eu sou um pouco partidário da ação libertária e da autogestão. De coração sou anarquista, quero dizer que é por este caminho que vão as coisas.Placo Clavel

Todas as vezes que sai em cena consideras que é um momento único?
Em cada sessão você se sente de uma maneira. O mistério é conectar com o público.

Dos antigos cantores espanhóis quais são os que mais te atraem?
Sem dúvida, entre eles e elas fico com Antonio Molina, tanto pelo jeito de cantar como por suas músicas.

E dos modernos quem está fazendo algo interessante?
Gosto muito de umas mulheres que tem um gosto maravilhoso, umas letras fantásticas e que cantam muito bem, mas não são reconhecidas ainda, tal como são elas. Falo de Vainica Doble.

No seu disco Cutre-Duets encontramos reunidos a crème de la crème da música e cultura deste país. Qual é o ponto de conexão entre vocês?
O ponto de conexão é que cada um é tão diferente em seu gênero, sua maneira de ser… mas o que nos une é que artisticamente saímos na mesma época e foi como uma explosão de cor e imaginação. Isso te fazia conectar com cada um deles ainda que as pessoas fossem bastante diferentes e, sobretudo foi à diversão, a vontade de divertir, a vontade de rir e vontade de fazer coisas, ainda que nestes momentos tivéssemos tantas ideias como temos agora mesmo ou que ainda não fossemos profissionais. Tinha esta força que é a de fazer as coisas, estar ativo, mas fazer coisas que divertissem a você mesmo e divertissem também o público. Isto foi a etapa dos anos 80. Não sou nostálgico, mas foi uma época imaginativa e uma etapa de muita cor. A nível pessoal somos antigos amigos, mesmo que a gente se não se veja todos os dias, mas estamos sempre em sintonia.

Se eu te encomendasse a realização de um espetáculo de cabaré com estes personagens públicos: Mariano Rubio (banqueiro), Mário Conde (ex-banqueiro acusado de roubo, estafa e falsificação de documentos) e Luis Roldán (ex-diretor da Policia Civil, acusado de falsificação e roubo), qual seria o nome deste festejado espetáculo?
Três eram as filhas de Helena ou Bons de dia, ladrões de noite.

Se te pedisse para enviar um fax pedindo um presente para a atual ministra da Cultura, Carmen Alborch, o que pediria?
Pediria uma caixa de pinturas de maquiagem…●

• Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi realizada para a Agência Staff de Madri em janeiro em 1995.

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Saúde

23) JOSÉ CABRERA: Psiquiatra e forense

“A SAÚDE PÚBLICA É UM BEM SUPREMO”

por Jairo Máximo

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José Cabrera Forneiro em Madri / Foto: Divulgação

José Cabrera Forneiro (Madri, Espanha, 1956) Psiquiatra e forense. Autor de diversos estudos sobre as drogas, atualmente é o diretor da Agência Antidroga de Madri, responsável pela abertura do primeiro dispositivo assistencial de venopunção mundial, popularmente conhecido como narcosala, com um único objetivo: salvar vidas. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Os dependentes de drogas são indivíduos doentes, não criminosos”.

Por que nasceu a narcosala?
A narcosala nasceu para oferecer um lugar ao dependente de drogas, principalmente a cocaína e a heroína injetada, onde possa consumi-la em condições higiênicas e com cuidados médicos, informar e assessorar sobre programas de desintoxicação com metadona [substituto gratuito da heroína] que o serviço de assistência sanitária municipal dispõe, dar e intercambiar seringas, atender em caso de overdose e analisar as papelinas [pequena quantidade de droga apara uso privado] para determinar que substâncias elas contêm. Quando o usuário o chega recebe uma seringa, água destilada e toalhas desinfetadas.

Por que ela nasce em Las Barranquillas, área marginal da capital espanhola?
Porque hoje em dia aproximadamente quatro mil jovens dirigem-se diariamente a Las Barranquillas -o principal supermercado de venda de drogas da cidade, para se abastecer de heroína, cocaína e outras substâncias-. Nesta área do bairro popular Villa de Vallecas, os viciados chegam de todos os pontos da região, porque sabem que ali se pode adquirir qualquer droga com mais facilidade, a qualquer hora do dia e da noite, e por um preço menor do que no centro da cidade. Por isso, o local foi estrategicamente escolhido para instalação da primeira narcosala espanhola. Somente na região metropolitana de Madri, em 1998, morreram 153 jovens, entre 20 e 30 anos, de overdose de heroína.

Quais são seus benefícios primordiais que a narcosala oferece?
Entre os incontáveis benefícios que ela oferece, um deles é pretender evitar situações desesperadoras como a que descreveu ao diário El País [28/05/2000], Antônio, 36 anos, que injetou heroína pela primeira vez aos 13 anos e há nove anos está submetido a um tratamento substitutivo de metadona, durante o qual sofreu três recaídas e duas prisões. “Para picar [injetar] eu já cheguei a pegar água dos para-brisas dos carros, das folhas das árvores ou de uma poça d água. Depois entrava num bueiro para chutarme [me aplicar]. Quando levas tanto tempo assim você fica até sem veia. Tem que abaixar as calças e aplicar nas pernas. Todo um espetáculo. Dizem que os ratos, nos bueiros, chegam a se viciar no caballo [heroína] de tanto comer as gotas de sangue que ficam nas chutas [seringas].

O senhor poderia dizer quais foram os maiores problemas encontrados para instalar em Madri o dispositivo assistencial de venopunção, popularmente denominado narcosala, ainda mais tendo o primeiro ministro José María Aznar, do direitista Partido Popular (PP), questionando a necessidade e a eficácia deste experimento?
O maior problema que encontramos para abrir a narcosala -que é um termo jornalístico- porque nós denominamos de dispositivo assistencial de venopunção, porque senão eu seria um narco-gerente (risos), coisa que logicamente não sou… Mas o maior problema foi a incompreensão de uma sociedade que, diante da questão das drogas, banca avestruz: enfia a cabeça na areia. Agora, como conseguimos solucionar este problema? Primeiro, convencendo os meios de comunicação, que foram nossos principais e fundamentais aliados nesse processo. A continuação, convencendo os responsáveis políticos de diferentes instituições: Prefeitura de Madri, governo da Comunidade de Madri e o próprio Estado espanhol. Em seguida, a implantação como tal, antes superado um terceiro problema, que é o problema jurídico, porque juridicamente no Estado espanhol não está penalizado o consumo, porém existem sanções administrativas para o consumo em lugares públicos, quer dizer, este terceiro problema solucionamos através de uma pergunta que fizemos ao Tribunal Supremo de Espanha, que disse que não existia nenhum problema em instalar esse dispositivo assistencial, porque o bem era a saúde, e a saúde pública é um bem supremo. Sem saúde não vale para nada a liberdade. Essa foi um pouco a nossa luta inicial.

Com a abertura desta narcosala podemos considerar que a administração pública espanhola começa a tratar a dependência de drogas como sendo um problema de saúde pública por cima dos critérios morais e repressivos?
Sim e foi uma mudança de mentalidade tão importante que é uma revolução na concepção do tratamento da dependência de drogas. Finalmente, todas as instituições perceberam que viciado é um enfermo, não um criminoso. Na realidade, é um doente que às vezes comete delito. Quer dizer, chegamos aonde a Organização Mundial da Saúde já chegou bem antes, que define a dependência de drogas como uma doença. Portanto, a mudança de mentalidade é a de repressora a reabilitadora. Esta é a grande mudança.

O senhor está de acordo que esta mudança social é consequência do aprendizado direto da sociedade espanhola com este problema?
Isso é um passo que não tem volta atrás. Já não existe retrocesso nesse processo de entender o dependente de drogas como um homem doente, que necessita ajuda. Quanto às demais questão, de tipo moral, criminal, já verá mais tarde, pois o primeiro é a saúde pública que é um bem constitucional supremo.

Atualmente existem cidades espanholas interessadas nesse projeto?
Aqui na Espanha existem diversas autonomias, principalmente as mais industrializadas, como a Catalunha, o País Basco, a Andaluzia etc., que estão interessadas neste projeto, porém vão esperar um pouco para ver como funciona o nosso aqui. No entanto, na Catalunha, onde se tentou abrir um dispositivo assistencial similar, não foi possível em função da forte pressão social contrária a sua instalação. Sabemos que quando os políticos têm uma forte pressão dos votantes, eles têm medo de perder o voto, o cargo etc. Entretanto, o político que não fundamenta as suas decisões em elementos técnicos, tem uma política em curto prazo. Se você quer fazer uma política do longo prazo, as suas decisões políticas estratégicas têm que se fundamentar em questões científicas, que são as duradouras.

O senhor é partidário da despenalização ou da liberação irrestrita das drogas?
Um salto abismal é colocar em funcionamento um dispositivo assistencial de venopunção, que é o que fizemos, e isto já é um passo porque assim a administração compreende que existe um problema e, se não existe outra maneira de controlar esse problema sócio-sanitário, instala-se um dispositivo. Mas o passo seguinte, que é o da despenalização, é um passo que nenhum país pode dar, somente pode dá-lo uma instituição como a Organização das Nações Unidas. Nenhum país sozinho vai poder dar esse passo. Primeiro porque não tem competência legal para isso, porque existe um tratado que o impede e, segundo, porque seria um suicídio político. Imagine que um país do mundo legalize ou despenalize as drogas… Sem dúvida seria um suicídio político. Além disso, existe uma questão técnica, que é se se despenaliza as drogas, que droga você vai despenalizar, porque a cada quinze dias Na Europa de hoje é lançada uma nova droga. E o que estaríamos fazendo se despenalizamos às drogas? Estaríamos despenalizando o futuro, quer dizer, este é o aspecto técnico. Por outro lado, que preço pagaria a sociedade para uma despenalização assim, porque quando na Espanha se despenalizou as revistas pornográficas, ninguém morreu por ver uma mulher nua. No entanto, se como Estado despenalizamos o uso dessas substâncias, quantas pessoas, que por medo delas não experimentaram, e que anteriormente em nenhuma circunstância teria tido acesso a ela. Logicamente, esta é uma interpretação do meu ponto de vista de psiquiatra. Enfim, este é um tema complexo e aqui na Espanha existe um ditado popular que diz assim: Cada pallo aguenta su vela [cada pau aguenta a sua vela]. E a minha vela é a Comunidade de Madri. Não tenho competência, além disso. E, sinceramente, o que fizemos já foi além das minhas possibilidades.

Recentemente a associação basca de consumidores de maconha denominada Kalamudia, que desde a sua fundação em 1997 pede a legalização de todas as drogas sem exceção, organizou uma análise pública de drogas na cidade de Bilbao, no País Basco, norte do país. O que o senhor pensa desta iniciativa?
Na Espanha existe outro ditado popular que diz que quando se descobre algo que não é um descobrimento, ou se faz algo novo que não é novo, diz-se que se descobriu a pólvora. Eles descobriram a pólvora. Na Comunidade de Madri a droga é analisada já faz anos. Eu tenho publicado uma memória de 1998 denominada “Estudo sobre o consumo de drogas na Comunidade de Madri”, onde analiso todas as drogas que nesta cidade. Eu sei que pureza tem, que adulterantes contém, e esta informação eu passo para todos os responsáveis da Rede de Assistência de Drogas, quer dizer, não é nova a análise das drogas, porém a diferença desta iniciativa particular é que nós, em Madri, analisamos aproximadamente 40 mil amostras ao ano -heroína, cocaína, haxixe, maconha-,  e nestas mostras constatamos todas as substâncias adulterantes que elas contêm. Por exemplo, os adulterantes mais frequentes da heroína são a cafeína, paracetamol e piracetam; da cocaína são picacetam, analgésicos e cafeína.

O senhor não considera que isso, além de ser um perigo para o consumidor é um engano, ou seja, vender merda?
Sim, mas estas merdas não matam, são substâncias médicas. O que mata é a droga.

Mas quem deve ganhar com isso são os grandes traficantes.
Sim, mas aqui temos que bater na porta de Billy Clinton, da Organização das Nações Unidas. No entanto, no nosso dispositivo assistencial de venopunção analisamos a droga que o viciado utiliza, além de recebermos amostras das que se consome nas ruas, e assim vou constatando as variações que ela atravessa.

Mas este não seria o papel do Estado, que tem que controlar as drogas que seus cidadãos consomem?
Exatamente. Entretanto, particularmente, este problema me supera. Estou aqui em Madri e faço o que está ao meu alcance.

Podemos considerar que os três grandes problemas que a Europa enfrentará no século XXI serão terrorismo, droga e imigração?
Primeiro, é preciso fazer uma análise: os problemas da Europa são uns para os governantes e outros para as pessoas. E quando você fala de problemas da Europa, eu penso na percepção pública, quer dizer, quais são os problemas que as pessoas percebem. Na Espanha os problemas mais graves, por esta ordem, são terrorismo, desemprego, droga e imigração. E a imigração vai ser um grave problema.

O maior deles, talvez?
É um problema tremendo, e ainda por cima imigração/desemprego estão implicados e consequentemente, a droga. Agora, se eu fosse político que estivesse no Conselho da Europa, para mim um problema tão grave como este seria os grandes desequilíbrios entre Estados, isso como político. Porém, como percepção pública de cidadão, pai de família, te diria que a imigração vai ser um grande problema.

Por um acaso, a narcosala madrilena está inspirada no trabalho realizado na cidade de Berna, na Suíça, onde existe um espaço público para os dependentes de heroína e cocaína injetaram-se?
Não… Uma coisa é um “injetódromo” e outra coisa é um dispositivo assistencial socio-sanitário de captação, salvar vidas e encaminhar livremente os jovens que ali se aproxima à rede de assistência contra a dependência das drogas. ●

• Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi realizada em 2001.

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Comunicação

19) ISABEL SAN SEBASTIÁN: Jornalista e escritora

“O MEDO É LIVRE MAS É INDIGNO”

por Jairo Máximo

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Isabel San Sebastián em Madri  / Foto: Cortesia da jornalista

Isabel San Sebastián (San Sebastián, País Basco, Espanha, 1959) Jornalista, escritora e comentarista de TV. Ameaçada de morte pelo grupo terrorista ETA -País Basco e Liberdade- vive exilada na capital espanhola acompanhada 24 horas por dois guarda-costas oficiais. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Sou uma jornalista carente de liberdade de movimento, em troca da liberdade de consciência”.

Prólogo
“Outro dia, quando concedi uma entrevista à sucursal do diário El Mundo, em Andaluzia, jornal para o qual trabalho em Madri, a repórter me confidenciou: Você não sabe como foi difícil chegar até aqui. Meu namorado, meus pais e meus amigos não queriam que eu fizesse uma entrevista com você ou com a jornalista e escritora Carmen Gurruchaga, porque são autoras do livro A árvore e as nozes. Todos diziam que eu não deveria me envolver com vocês, já que o simples fato de entrevistá-las poderia complicar minha vida. É perigoso! Como se vê, muitos companheiros de profissão e da própria empresa nos tratam como pestilentas. Ouvir isso de gente da própria casa é duro…”.

Última Hora
“Jornalista que tem medo, não é jornalista, porque está incapacitado para exercer o ofício”.

De onde você e a jornalista basca Carmen Gurruchaga obtiveram tanta informação para escrever o polêmico livro A árvore e as nozes. Afinal, a obra registra, um preciso repasso histórico do ETA, envolvendo terroristas, políticos, empresários, jornalistas, policiais e outros personagens.
Isso é resultado de toda uma vida de trabalho. Falamos com muita gente e distintos setores sociais. Esse tema sempre me preocupou. Sou basca e tenho os dois lados na minha família: um assassinado e um terrorista. Cada palavra e informação que publicamos no livro estão documentadas.

Como é ser uma jornalista ameaçada pelo ETA?
É ser uma jornalista carente de liberdade de movimento, em troca da liberdade de consciência. Tenho medo, mas não deixei de pensar como penso. Nunca deixei de informar e me expressar com liberdade, tanto pessoalmente, como na TV, no diário El Mundo e no livro. Contudo, para exercer a liberdade pessoal, profissional e de expressão, renunciei minha liberdade de movimento. Tiraram-me, me roubaram essa mobilidade. Sou obrigada a viver com dois guarda-costas permanentemente. Tudo começou no dia 27 de março de 2000, quando a Polícia desativou uma carta-bomba camuflada numa caixa de charuto, enviada pelo ETA a Carlos Herrera, locutor da Rádio Nacional da Espanha. Naquela tarde, o ministro do Interior me chamou e perguntou se eu tinha guarda-costas. Respondi que não e ele disse: A partir desta tarde terá, porque nos documentos encontrados em poder de um comando do ETA, você aparece junto com Carlos Herrera. A partir daquele dia minha liberdade acabou.

Hoje por hoje, na comunidade europeia, estar autoexilado dentro do próprio país só acontece na Espanha?
Sim. E existem muitas formas de exílio. Os jornalistas Carmen Gurruchaga, também redatora do El Mundo e José María Calleja, diretor e apresentador do programa O debate, da CNN+, viviam no País Basco e tiveram de sair correndo depois de serem ameaçados de morte. Mesmo tendo nascido lá, eu nunca vivi no País Basco. Casei com um basco, meus filhos são bascos e sempre passamos férias lá. Minhas raízes são bascas, mas já não posso ir tranquilamente ao país. Quando vou, tenho de levar os guarda-costas. Meus amigos não se atrevem a sair comigo e quando o fazem, só vão a locais privados. No final, você se autoexila. Não deixo de ir ao País Basco porque me rebelo contra o exílio que querem me impor. Não é agradável. Mesmo que meus filhos me peçam para não ir, quando vou, é como um ato de boa vontade, de sacrifício.

Como esta situação afetou seu dia-a-dia?
Vou ao cinema com guarda-costas. Vou ao supermercado com guarda-costas. Vou passear com guarda-costas. E tenho dois filhos adolescentes…

E eles compreendem o que está acontecendo?
Sentem medo… (silêncio). Sentem medo por mim. Sofrem de alguma maneira as consequências, porque tenho mais medo por eles. Num primeiro momento, enfrentei uma fase difícil com eles tentando me persuadir. Diziam que antes de ser jornalista, era mãe deles, por isso, não queriam que eu corresse perigo. Estou separada do meu marido, em grande parte por culpa disso também. Esse período passou e hoje atravessamos um momento de solidariedade, admiração e proteção mútua. Porém, impor a um adolescente a obrigação de proteger a mãe de um bando de pistoleiros é injusto. Em contrapartida, penso que é bastante ilustrativo, do ponto de vista humano, que um jovem europeu que tem tudo, usufrui de toda a liberdade do mundo, veja que, às vezes para se manter a liberdade paga-se com sacrifício pessoal. Neste caso, com o princípio da liberdade de expressão e da vida.

Por que os jovens bascos acabam entrando nas trincheiras do ETA?
Porque o mundo nacionalista moderado ou chamado moderado envenena suas mentes com um discurso radical. Voltemos ao começo: o mundo nacionalista alimenta uma ideia de que a Espanha é uma potência invasora e que o povo basco é oprimido pelos espanhóis. Quando se transmite esta mensagem com frequência, desde instâncias institucionais, muitos jovens acabam cedendo ao discurso e pensam: vou defender a liberdade do meu povo empunhando uma pistola.

Deve-se ou não dialogar com o ETA?
(silencio) Considero que a única coisa que podemos fazer é ganhar.

Com a saída policial?
(silêncio) Saída policial não… Os conflitos você não pode situar ano zero, hora zero. Isso vem de muito tempo. Nos últimos 30 anos foram realizadas inumeráveis concessões, sempre pelo diálogo. Existe no País Basco um estatuto de autonomia, transferências de competência, soberania fiscal, sistema próprio de educação. Tivemos as conversas de Argel, as conversas de Washington e outras. O País Basco tem tudo e você diz: dialoguem! Mas até onde cedemos? Porque eles sempre colocarão a pistola em cima da mesa. Creio que a única coisa que se pode fazer é acabar com o ETA, com os pistoleiros. Uma vez que pudemos viver cinco anos sem terrorismo, as instituições bascas poderão decidir qualquer coisa. No entanto, é imprescindível passar cinco anos sem violência, em igualdade de condições. Por quê? Porque hoje em dia os partidos políticos do país Basco não competem em igualdade de condições. Os partidos políticos nacionalistas competem com toda a liberdade, os nãos nacionalistas competem com guarda-costas, ameaças, dezenas de vereadores assassinados. Nestas condições o que você pode fazer? Dialogar? O que vai negociar? Penso que é indispensável que se passem cinco anos sem violência. A partir daí poderemos negociar o que seja, com igualdade de condições.

Qual é a sua opinião sobre a imprensa espanhola?
É uma imprensa plural, profissional. Existem representantes de todas as ideologias. Diante do terrorismo, nos últimos dois anos aumentou o nível de compromisso diante de muitos setores ideológicos -direita, centro, esquerda- e isso é um consolo. Um triste consolo! Ainda bem que somos cada vez mais. Por outro lado, na Espanha existem poucos jornalistas veteranos. O jornalismo espanhol é constituído por jovens com idade entre 25 e 30 anos que não tiveram de lutar por nada. Nasceram na democracia, com todos os direitos, liberdades, garantias e não sentem que a liberdade de expressão é algo que merece luta. A maioria não conheceu a ditadura e considera que a liberdade de expressão é um direito adquirido; não uma conquista.

O que você sente quando parte da imprensa mundial noticia um atentado do ETA e denomina o grupo como sendo separatista? Por exemplo, no Brasil alguns editores me revelam que quem utiliza este termo são as agências de notícias France Press, Reuters e outras. Eles simplesmente retransmitem o que é passado pelo velho Continente.
Mas não podemos confiar cegamente nas agências. Por exemplo, recentemente dei uma entrevista para o correspondente do The Daily Telegraphic, um dos mais importantes diários ingleses e tive que lhe explicar qual era a diferença entre o Partido Nacionalista Basco (de índole nacionalista e independentista) e Batasuna (o braço político do ETA). Seria o mesmo que se eu fosse cobrir as eleições na Inglaterra e não soubesse qual é a diferença entre o Partido Trabalhista Inglês e o Sinn Fein (do galês; nós sozinhos, partido da Irlanda do Norte considerado o braço político do IRA -Exército Republicano Irlandês). Supõe-se que um profissional tem que ter um mínimo de conhecimento. E muito mais… Muitos estão despreparados. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no site Legenda (Mogi das Cruzes, São Paulo) e no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) em setembro de 2002.

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