Esporte

51) WALTER CASAGRANDE: Jogador de futebol

“SEMPRE ENTRO PARA JOGAR LIMPO”

por Jairo Máximo

Casagrande / Foto: Divulgação

Walter Casagrande Júnior (São Paulo, Brasil, 1963) Jogador de futebol. Sua chegada seleção brasileira dos anos 80 ofuscou Sócrates, Zico e companhia. É roqueiro convicto,  está filiado ao Partido dos Trabalhadores e não tem papas na língua. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “O atleta depende do seu organismo, é o seu sustento”.

Como você vê as acusações à democracia corintiana responsabilizando-o pelo fracasso no campeonato brasileiro deste ano de 1985?
Acho ridículo este tipo de acusação. Não tem nada a ver a filosofia de trabalho com o que acontece dentro do campo. A equipe não se acertou, a diretoria contratou jogadores pensando que ia dar certo, os jogadores se esforçaram, mas time não se encaixou. Foi isso o que passou.

O que representa no dia-a-dia dos jogadores a democracia corintiana?
O trabalho que a democracia fez dentro do clube foi que o jogador não se constranja a ponto de evitar alguma crítica a um superior dele se alguma coisa estiver errada. Nós jogamos abertos, pelo menos aqueles que usam a democracia e aí está o problema: se existe uma filosofia de trabalho como esta você usa se quiser ninguém tá te obrigando, nós ―Sócrates, Vladimir, Adilson, eu e outros― usufruímos desse projeto, e aí o pessoal falava que era uma democracia de terceira ou de quarta, que nós é que mandávamos, pelo contrário, nós participávamos. Agora, se os outros não querem participar, o que eu posso fazer?

Qual é a sua posição política? Você fecha com algum partido?
Sou filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT). No entanto, estou esperando uma opção, um complemento ao PT. Tenho muitos contatos por aí. Gosto de política e gosto de participar, então eu quero um negócio mais completo, para poder participar, para poder agir.

Na época do caso da cocaína, as torcidas adversárias e mesmo um beque de outro time te chamaram de maconheiro durante o jogo.  Qual era a sua reação?
Bem, até hoje as torcidas enchem o saco, mas eu não ligo. Quanto ao beque na hora eu fiquei invocado, bravo mesmo. Nunca ninguém tinha falado aquilo para mim. Mas só discuti, não houve maiores problemas.

Há torcedores que reclamam do seu comportamento em campo; dizem que você se perde, que facilmente fica nervoso e acaba prejudicando o time com cartões amarelos e vermelhos. O que você pensa disto?
Bem, eu nunca fui expulso por agressão. É que os caras lá fora assistindo fica difícil falar se o cara ta errado ou não, dentro de campo é outro papo. Eu me seguro ao máximo, quando não tem mais jeito eu falo, eu jogo tudo pra cima. Sempre entro pra jogar limpo, até o ponto de acontecer alguma coisa.

Nem uns beliscõezinhos?
Não, mas se o cara for nessa eu vou pegar ele para Cristo.

Na seleção brasileira quando todas as expectativas se concentravam nos brasileiros, quem acabou brilhando foi você. Como foi isso?
Na seleção brasileira eu fui um cara a parte, acabava o treino ia pro quarto. Não queria saber o que os outros estavam fazendo, eu tava vendo o meu lado. A seleção brasileira tem uma panela monstro e se lá eu vivesse do modo que eu vivo, olhando tudo, analisando tudo, eu iria explodir e sair. O jogador Serginho já denunciou essa panela.

Homossexualismo e drogas pintam no futebol brasileiro?
Homossexualismo deve existir, mas eu nunca vi. As duas coisas existem em todos os lugares e classes sociais. Quanto às drogas tenho quase certeza que se tiver é uma minoria que usa. Estou falando em termos de tóxico mais forte, maconha eu acho que nem chega a ser tóxico. No caso das drogas mais fortes é quase impossível, tenho quase certeza que afeta o sistema nervoso, modifica completamente o organismo da pessoa. O atleta depende do seu organismo, é o seu sustento.

Você é metaleiro?
Gosto do heavy-metal pra caralho. Gosto do Iron Maiden, Ozzy Osbourne,Whitesnake, Led Zeppelin e outros. Também gosto daquele bluizão: Eric Clapton, Peter Green, Johnny Winter. New wave detesto.

Agora em termos de movimento, prefiro o punk porque tem seu objetivo. Como os hippies queriam paz no mundo, os punks são revoltados com a sociedade, com o meio de vida que eles têm agora. Na new wave não encontro objetivo algum. ●

N. do A. – Participou nesta entrevista Adilson Spíndola, jornalista.

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em agosto de 1985.

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro, nº6, agosto de 1985, realizado por Fernandinho / Arquivo Blog do Pícaro

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Walter Casagrande no jornal Pícaro em agosto de 1985

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