Política

49) FERNANDO GABEIRA: Jornalista, escritor, político e ex-guerrilheiro

“A LIBERDADE É UM PROCESSO CONTÍNUO”

por Jairo Máximo

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Fernando Gabeira, por Cris Eich

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Ilustração: Castilho

Fernando Gabeira (Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, 1941) Jornalista, escritor, político e ex-guerrilheiro. Chegou ao Rio de Janeiro aos 18 anos de idade e de imediato foi ser jornalista. Depois mergulhou de cabeça na política, até cair na luta armada contra a ditadura militar (1964-1984). Em seguida partiu ao exílio europeu. Retornou ao país em 79, logo após a anistia e nunca mais deixou de militar politicamente. Nesta entrevista exclusiva, concedida no Rio de Janeiro, afirma: “Gostaria de voltar à política: fazer direito o que eu não fiz direito com a luta armada”.

Como está sua vida hoje?
A vida está legal, mas economicamente está péssimo, difícil. Trabalho muito. Faço programas de TV, que me consome três dias da semana. Preparo livro, escrevo artigo, faço conferência e, ainda, faço um trabalho político de preparação do movimento ecológico. Atuo no sentido mais amplo, junto aos direitos humanos. Então, tenho três dias da semana para ganhar grana e três dias para trabalhar de graça.

E quanto ao seu trabalho com a Comissão de Direitos Humanos, visa ideias para a Constituinte?
O trabalho é no sentido de denunciar todas as violências das instituições totais -cadeias, manicômios, delegacias, reformatórios de menores. A primeira etapa do trabalho é exatamente esta: denunciar as condições das Instituições, e ao mesmo tempo, lutarmos pelos direitos da mulher e da criança.

A Constituinte não é uma farsa? Ela não está caminhando para o infinito do nada?
Ela vem, mesmo! Mas caminha para ser uma coisa muito limitada.  Acho que o ideal seria que os constituintes só fossem constituintes…

E não apenas uma divisão de cargos políticos. Certo?
Exato. A outra coisa que acho que é também uma coisa importante, é que os caras para serem constituintes não precisassem entrar em partidos. Tem muita gente que quer ser candidato e não quer entrar no partido, então, ele não pode estar representado na Assembleia Constituinte.

Nestas condições, onde fica o Partido Verde (PV)?
A tentativa é de colocar o PV na Constituinte ou no quadro político brasileiro. O PV é uma proposta alternativa de vida -outra vida- que envolve a proteção da natureza, mas também envolve uma série de experiências alternativas no campo da saúde, educação, alimentação, experiências de luta de direitos humanos, solidariedade com os povos. Uma concepção política diferente da que está aí.

Um pseudopartido autodefinido Verde apoiou o Jânio Quadros, em Sampa. Uma força política, o PV, ainda em fase de organização, despertando tanto interesse da direita organizada. Como é que pode isto?
Esta coisa que aconteceu em São Paulo é outra tentativa que o Partido Trabalhista Brasileiro fez de criar o Partido Verde deles. A primeira tentativa foi do PTB de Curitiba. Eles sentiram que estavam naufragando e precisavam de uma legenda para sobreviver. Foi o que aconteceu. Aquelas pessoas não têm nada a haver com o partido. Eles se intitulavam do Partido Verde para efeito das eleições, simplesmente para dar apoio a um candidato reacionário como o Jânio Quadros.

Você será candidato a um cargo político, nas próximas eleições?
Sem dúvida. Existem duas possibilidades: uma seria eu ser candidato aqui pelo Rio, embora ache que em São Paulo e Belo Horizonte teria possibilidades. Acho que a outra possibilidade seria eu percorrer o Brasil apoiando candidatos verdes. Tentar fazer uma união, um encontro deles depois das eleições, que seria o embrião do Partido Verde.

Quem ganhou as eleições no país? Em Sampa, foi um desastre irreparável ou sucessão de erros táticos. Merecíamos isto?
Acho que existe São Paulo e o resto do país. Acontece que São Paulo é o lugar mais importante do país. Se você considerar por um exame de São Paulo a gente vai ver que quem avançou com isto foi a direita, que se organizou, estruturou e avançou. No resto do país você assiste um crescimento do PT e do PDT, que são os dois partidos de oposição do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, que acabou ficando agora como o partido mais forte no nordeste. Aliás, o mesmo que aconteceu com o Partido Democrático Social, no finalzinho dele.

Nas eleições de Sampa, o PMDB contou com o seu apoio e de grande parte do elenco da novela global Roque Santeiro. Mesmo assim não deu. Por quê?
Olha, é um pouco cedo para a gente dizer o porquê não deu, mas uma coisa é certa: não se pode culpar ninguém. Não é correto você dizer que não deu por causa do PT. Nas minhas análises, eu acho que dava para o PMDB ganhar e o PT ter um crescimento espetacular. O ideal seria isto. Acho que no caso do Fernando Henrique Cardoso, o que pode ter acontecido de negativo para ele é uma certeza muito grande da vitória. Eu acho, talvez, que ele deveria ser mais humilde. Ter mais jogo de cintura.

É… O galo do Fernandinho cantou a vitória, sem que o dia tivesse amanhecido. A maconha foi à culpada? Libera ou não libera?
Vamos a partes. A primeira questão da maconha na eleição municipal foi um pouco mal colocada. Não é atribuição de um prefeito discutir se a maconha é ou não é uma coisa legítima. No momento em o FHC concedeu aquela entrevista, ele nunca tinha pensado em ser prefeito. Aquela entrevista foi desenterrada. Acho é que o povo não condena ninguém porque bebe. Vício por vício, o Jânio é considerado um bêbado, e nem por isso deixaram de votar nele. O que o povo analisa muito é a firmeza com que as pessoas colocam as questões. No caso do FHC havia até certa ambiguidade, ele como uma pessoa progressista, sincera, não era contra: ele é tolerante. Ele mesmo confessou que fumou e não gostou. Com isso ele se colocou que não é de um lado, nem de outro.

Ficou igualzinho ao Zé do Muro. Deixou espaço para a dúvida… É isso?
O povo brasileiro, acredito, considera que o fato de ser maluco não é uma posição que elimine ninguém de uma eleição; nós temos uma longa tradição de eleger malucos. Há até certa preferência. Se o cara está colocando um sapato trocado é porque é louco. Está viajando sem passaporte. A segunda questão, o caso da maconha, eu acho o seguinte: não era na prefeitura que deveria ser discutida e, sim, na Constituinte, quer dizer, a nível nacional. A maconha é um direito. As pessoas têm o direito de dispor do próprio corpo. A liberalização não representa nenhum desastre para o país, porque ela foi liberada na Espanha e o país continua avançando em seu processo democrático. Eu fumo, me responsabilizo por isso e que ninguém se meta com isso. Vou lutar para que as outras pessoas possam fumar também, caso queiram. Sem contar que no Brasil a maconha tem uma série de conotações religiosas, em vários lugares do Brasil, para os índios, em seitas da Amazônia. Não se pode proibir isto. Enfim, ela é um elemento do rito religioso. É um encontro do ser humano com o transcendente. Uma maneira de falar com Deus.  Agora, eu acho que o FHC foi uma pessoa muita sincera, digna, mas que caiu na armadilha, assim como dizer que não acredita em Deus -naquele debate- quando na verdade são fatores ponderáveis, um resquício do pensamento religioso que toda pessoa sempre tem. Ele fez o papel de uma pessoa com visão científica do fato.

Então, você acha que ele não teve um posicionamento objetivo, definido a nível popular?
É claro, mesmo porque a religião tem um peso grande, principalmente para a população da periferia que vem à grande cidade e sobrevive muito na base da crença religiosa.

Em debate político, determinadas questões que violam a individualidade do candidato devem ser levantadas?
Acho que as pessoas têm o direito de não responder alguma. Como no meu caso de luta política, ela passa pelo cotidiano, pela transformação, e sinto responsável para responder cada pergunta que me é colocada a cada momento. Nunca fui candidato a nenhum cargo eletivo. Não estou ganhando ou perdendo voto, estou afirmando minha posição.

O José Sarney aguenta a Nova República? Nova? De onde?
Olha, essa Nova República para mim foi uma grande decepção, em muitos aspectos. Até fiz para eles um plano de combate à violência e eles fizeram deste plano apenas um discurso. Acho que a Nova República se explica assim: acabou a era da opressão, começou a era da mediocridade. Temos mais liberdade, mas é uma mediocridade cuja expressão máxima é o governo de São Paulo. Os paulistas votaram anti-Franco Montoro. Isso é importante levantar. Uma das razões pelas quais eu tomei posição junto ao pleito paulista, foi que estaria sempre em São Paulo. Se eu tivesse de novo na mesma situação, apoiaria o FHC. Precisamos, agora, fazer uma ponte de solidariedade com São Paulo. Estamos sempre presentes, para que a cidade compreenda rapidamente que é preciso dar a volta por cima e, assumir o fato que as forças progressistas são maioria e não deixar que a repressão ganhe corpo.

Somos todos livres, soltos e inúteis no Brasil?

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Fernando Gabeira em março de 1988 em Mogi das Cruzes / Foto: Lailson Santos

Acho que a liberdade é um processo contínuo. Se você examinar com relação ao passado, estamos mais livres do que antes. Tanto homens e mulheres desfrutam de mais liberdade. Temos um caminho muito grande para percorrer no campo das liberdades individuais: a primeira é a maconha, que no fundo é uma questão de você usar seu corpo como você quiser. A outra questão fundamental é a questão do aborto, ou seja, que as pessoas tenham possibilidades de interromper a gravidez no momento em que julguem necessárias. Acho que as questões ligadas às liberdades individuais progressivamente vão tomando corpo no Brasil. Vamos lutar com resistência da direita, da religião. Hoje, já não se mata mais mulher impunemente, como matavam no final da década. Avançamos nisto. Da mesma maneira, as mulheres estão se incorporando muito ao mercado de trabalho e, com esta incorporação, elas ganham uma fatia de liberdade maior, não automaticamente, mas ganham condições de ter esta fatia de liberdade. Ao mesmo tempo em que isto ocorre, os homens são forçados a rever seu ponto de vista. Assim, eles também ganham uma fatia de liberdade quando eles começam a se desfazer dos mecanismos de opressão, que são às vezes educados a adotar, enquanto homem. Caminha-se, mas se caminha lentamente.

O Rio dita moda. Quem será a musa do verão-86. Quem sabe Leonel Brizola; Jânio Quadros ou o Cristo Redentor?
Isto é um problema da imprensa. Não sei quem possa ser este ano. Eles que trabalham com este calendário. Temo que a moda seja o PV. Seria péssimo o PV virar moda, porque depois ele desaparece. Agora, este é um verão muito especial, em que os anos 60 estão voltando como perspectiva, fragmentos do mundo inteiro -psicodelismo, engajamento popular.  Aqui no Brasil, por acúmulo do azar, os líderes dos anos 60 voltam -Jânio Quadros, Leonel Brizola. Dá uma sensação dos anos 60, não como moda e, sim como volta na máquina do tempo. Os jornais todos falam sobre isso hoje: o medo dos anos 60 voltarem.

E o governo Brizola, vai bem?
O Brizola tem a aprovação da maioria da população, ao contrário do Franco Montoro em São Paulo. Ele tem a preferência de quase 50% do eleitorado. A política que ele está fazendo aqui no Rio é muito destinada ao setor mais pobre da população e, assim, ele se desgasta muito com a classe média. Como quem decide eleição é esta área mais pobre, ele continua firme.

Como candidato a presidente da República, o Brizola encontra respaldo?
Acho que ele encontra, considerando as condições de hoje no Brasil. Agora, ele é uma pessoa com traços do passado muito fortes, tendências autoritárias, caudilhistas que mantêm o partido sob a vontade dele. Mas com todas estas características, ele ainda é a pessoa que consegue reunir condições para tocar o barco, considerando que o Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e Ulysses Guimarães foram destroçados.

O que você gostaria de fazer e ainda não fez?
Olha, em tese, gostaria de fazer tudo ainda que não fiz e algumas coisas gostaria de refazê-las melhor. No caso dos livros, eu gostaria de ter um trabalho mais dedicado, um trabalho mais preciso. Acho que isto é uma coisa fundamental. Os vídeos que eu faço os faço sem grana, gostaria de fazer um trabalho em vídeo com todas as condições técnicas. Gostaria de viajar mais. Faz falta, sei lá. Gostaria de voltar à política, fazer direito o que eu não fiz direito com a luta armada. Gostaria de fazer uma série de coisas.

No que consiste especificamente seu no novo livro?

É um bate papo com o líder francês Daniel Cohn-Bendit, que veio fazer um filme, sobre o pessoal que destacou em 1968. Primeiro fiz uma entrevista com ele para TV. O projeto dele chama-se “Nós que Amávamos Tanto a Revolução” que é a tentativa de ir a todos os lugares em que em 1968 havia coisas. É saber onde estão todas as pessoas que aquela época era revolucionária. Que relação se mantém ainda com aquele tempo. Assim surgiu este novo livro. É isto… ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em dezembro de 1985.

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro, nº8, dezembro de 1985, realizado por Castilho / Arquivo Blog do Pícaro

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Fernando Gabeira no jornal Pícaro em dezembro de 1985

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