humor

47) GLAUCO: Cartunista e desenhista de HQ

“MEU TRABALHO É ANTROPAFÁGICO”

por Jairo Máximo

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Glauco em São Paulo / Foto: Marisa Uchiyama

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Ilustração: Castilho

Glauco Villas Boas* (Jandaia do Sul, Paraná, Brasil, 1957) Caricaturista e desenhista de HQ. Em 1978 foi o grande premiado do Salão de Humor de Piracicaba. Em 1980 conquistou o troféu Casa das Américas, vinculado ao Salão de Humor de Cuba. Desde 1980 publica na Folha de São Paulo, onde levanta paixão com seus personagens Cruz Credo, Zé do Apocalipse, Casal Neuras, Geraldão e Geraldinho. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Minha vida profissional é um acidente de percurso”.

Quem é você

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Encontro marcado: Glauco e Spacca no jornal Pícaro em junho de 1986

Nasci sob o signo de Peixes. Sou filho de Maria Aparecida e Leon Villas Boas. Não sou católico apostólico romano e, sim católico romano. Sou parente de 2º grau dos famosos sertanistas Orlando e Cláudio Villas Boas. Casamento com papel passado estou devendo, mas tenho dois filhos Raoni (Guerreiro) e Ipojuã (Guerreiro da Dor). Atualmente tenho 29 anos chutados; divididos entre dez de criancice necessária, dez de adolescente punheteiro e os nove restantes dedicados ao humor. Não transo partido político. Entrei e sai da droga, sem perder o humor e a cabeça. Todos têm um pouco de louco.

Danadinho da vida
Na escola sentava nas carteiras do fundão. Na rua empinava papagaio, fazia troca-troca e desenvolvia meus primeiros desenhos em forma de super-heróis. Em Jandaia do Sul eu tinha 22 primos e todo mundo era primo elevado ao quadrado de todo mundo. Todo mundo era gozador. Metade do tempo a molecada estudava e a outra parte do tempo, todos sentavam na sapataria para falar uns dos outros simplesmente para poder rir.

Adolescência sem trauma
Nesta época eu já desenhava procurando formas para expressar minha arte. Até usava creme para fazer desaparecer as espinhas do rosto. Era uma fase difícil. É a pior idade que tem. Você fica no ar. A gente começa a se masturbar pra caralho, os peitos começam a crescer e os amigos tiram um sarro. Lembro que até raspei o pelinho do saco para ver se crescia rápido. Repartia o cabelo no meio, deixava o bigodinho. Estava começando a tomar jeito.

Acidente de percurso
Minha vida profissional é um acidente de percurso. Fui divulgar um show de música, quando tocava numa banda de baile, daquelas antigas, furiosas, e acabei sendo contratado -recebendo e tudo-, pelo jornal Diário da Manhã, de Ribeirão Preto. Neste momento foi quando eu tomei contato com o jornal Pasquim e em seguida o Fradim, do Henfil. Levei um tapa na cabeça legal e mudei o esquema de super-herói para o humor.

Revelando a manha
No primeiro quadro você coloca uma situação normal. No segundo quadro você detona a situação e, em seguida, sobra o quadro para o resultado final, que pode ser qualquer coisa sem graça. Gosto da imagem e pouco texto.

Quirera do artista
Meu trabalho é resultado de muitas coisas que chupei, alimentei -meio antropofagia. Aquilo que a gente ouve desde moleque. Psicologia caseira. Se fizer isto vai apanhar. Bater punheta cresce verruga na mão. Sei lá, qualquer coisa. Fazer humor é como cagar: você filtra tudo e despeja no quadrinho. Entendeu?

Alienado?
Nos anos 70 a ditadura fechou e os humoristas desempenharam um trabalho de resistência, mesmo! Eles viveram na pele a repressão militar. Mas como a gente faz parte da geração dos anos setenta, pois na época da repressão implacável eu estava jogando bola, depois passei a fumar maconha, escutar rock. Era paz e amor.Festival de Iacanga e outras baladas. É aceitar o trabalho dos outros e pedir para falar de suas experiências.

Emoção infantil
É incrível trabalhar para criança, melhor do que para adulto. As crianças de 4/5/6 anos estão com uma esperteza que te deixa besta e também aquela luz que demonstraram ter. As crianças adoram o Geraldinho. O personagem para elas é real.

Nova geração

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Glauco em São Paulo / Foto: Marisa Uchiyama (Arquivo Blog do Pícaro)

É aquela coisa de soma. De repente a gente encontra uma molecada de 15 ou 16 anos, verdadeiramente incrível. Acredito que está se criando uma nova geração musical. Hoje qualquer garoto pega uma guitarra e estraçalha.

Brasileiro em todas
O povo brasileiro tem a capacidade de não dividir nada, nem vivência, pois tudo o que faz se expressa e manifesta da maneira dele. Isto está explícito no futebol que é uma cabala pura. São 22 arcanos, onde o campo de futebol é cabalístico. A gente tem essas manhas que eu acho incrível que nenhum outro povo tem. Quem é o brasileiro?

Amantes sem Crises
O trabalho do Angeli tem uma afinidade muito grande com o meu trabalho. A gente tem uma troca de energia muito louca. Temos uma identificação de cabeça e ideologia.

Patrão, patrão, patrão…
Censura não existe, pelo contrário. A Folha de São Paulo já abriu espaço para mim fazer coisas do Geraldão que eu não fiz em nenhum outro veículo. Masturbar não pode. É certo compromisso, um bom senso que você tem que ter.

Infuso perturbado
O personagem Geraldão pintou em 1981. Depois passei a desenvolver a tira. Ele foi feito para ficar na minha gaveta. É aquela coisa mais escrota que você faz quando está sozinho consigo mesmo. Aquilo era um autorretrato para mim. Eu podia me expandir sozinho, numa época em que não tinha amigos, pois morava em Sampa há pouco tempo. O Geraldão reflete a incapacidade de você viver numa realidade mágica e ao mesmo tempo no tédio. Essa incapacidade de viver cada minuto de maneira plena, inteiro, que faz com que a gente canalize isto para esta parte do Geraldão, que seria fumar um cigarro atrás do outro, masturbar-se compulsivamente e tomar todas. Ele até mora com a mãe.

Por outro lado, a mãe não permite que ele torne independente. O Geraldão é a tentativa de certa pessoa se realizar e ser aceita como é. No início eu comecei a querer mostrar a tristeza em volta de minha pessoa, no entanto, eu mostrei uma puta criatividade tomando todas, dançando pelado na frente do espelho. É ridículo pra caralho, mas também é emocionante. Pícaro, você nunca dançou pelado na frente do espelho? ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em junho de 1986.

*Glauco Villas Boas morreu em março de 2010 em Osasco, São Paulo, Brasil.

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Glauco no jornal Pícaro em junho de 1986

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro nº 10, junho de 1986, realizado por JAM / Arquivo Blog do Pícaro

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44) SPACCA: Cartunista, desenhista e roteirista de HQ

“NÃO SEI SE VOU DAR CERTO”

por Jairo Máximo

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Spacca, por Cris Eich

João Spacca de Oliveira, Spacca (São Paulo, Brasil, 1964) Cartunista, desenhista e roteirista de HQ. Mas também é compositor, vocalista, gaitista e astrólogo. Seu humor é refinado e certeiro, leva ao desconhecido leitor variadas reflexões do cotidiano político, econômico e social brasileiro. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Sempre usei o desenho para ganhar as pessoas. É chantagem pura”.

É bom saber
Sou do signo de câncer, com ascendente em escorpião. Tive uma infância normal, sem maiores problemas. Menino precoce, não fui coroinha de Igreja, no entanto, recebi a contragosto a injeção da filosofia cristã da família brasileira. Desde os quatro anos de idade utilizo meus dotes artísticos para conquistar as notonas nas escolas, às atenções dos familiares e, inegavelmente, o amor das gatas. Sou desenhista. Sempre usei o desenho para ganhar as pessoas. É chantagem pura.

Aparece o Spacca
Na flor da adolescência arrumei meu primeiro emprego na agência de publicidade propaganda Young & Rubicam, onde fiquei durante quatro anos aprendendo os macetes profissionais, fazendo story board, layout e filmes vinculados ao humor. Ali fiz muitos amigos.

Safadinho consciente
Na infância fui muito ligado em televisão, escola, e ganhei muitos amigos com desenhos de sacanagem e caricaturas de professores. Acredito que faltou alguma coisa. Usei muito o desenho como arma e esqueci-me de desenvolver o resto.

Rabos de saia
As mulheres são importantes. Nossa! Gosto muito, gosto pra caralho.

Marx ou Cristo
Sinto uma grande pena deles por não terem seguidores decentes. Acho que deixaram o recado e falaram: Agora se virem. Fodam-se. Acredito em Deus porque me ensinaram. Mas para mim tanto faz se existe ou não! Mas que o Papa me dá nojo, como qualquer político, isso dá!

Autorreconhecimento
Gosto de música. Durante dois anos transei uma banda chamada Dalissensa. Fazia as letras, e era também o vocalista. Outro dia fui ouvir uma fita demo da época e… Meu, que bosta! Gosto de astrologia e tenho uma tendência de ficar revendo o passado. Agora, quanto ao meu trabalho, a minha pessoa, tá tudo para ser refeito… A não ser aquilo que ficou bom por descuido.

Free lance sem INPS
Na realidade, esse é o jeito que eu vivo. Só valeu ser empregado pra pagar os macetes necessários para ser free lance. Comparando com o cartum, como free numa agência, se ganha muita grana em pouco tempo. Mas o cartum dá mais excitação. Sei lá, acho uma linguagem forte.

Mídia e eleições
É um belo casal… Candidato é um produto que se vende. As técnicas de venda são as mais eficientes, as mesmas utilizadas com qualquer produto. Propaganda eleitoral é careta em função do público. Não dá prá sentir firmeza (como diz o cartunista Glauco) em nenhum partido político.

Cadê um líder
Tem só o Lula, mas ele tá meio queimado. O Partido dos Trabalhadores é uma zona… Não sei até que ponto um líder, um puto líder nacional poderá lutar contra os Meios de Comunicação de Massas. Num dá, num tem jeito. Acho, sei lá.

Miséria congelada e blefe
Não mudou nada. As pessoas passam fome há tantos anos…

Nova República?
Piada. Na Constituinte serão os mesmos (in) competentes que vão decidir.

Rádio pirata e desobediência
O lance independente é mais barato, mas seu alcance é reduzido. É tanto ruído, interferência que a gente sintoniza as rádios que pegam bem, as mesmas de sempre. Nenhuma preferência. Antes ouvia a 89 FM, mas ela também acabou ficando repetitiva e também não pára de tocar os seus próprios sucessos.

Rock candango
Não gosto desse rock de Brasília, é tudo igual. Todos imitam seus ídolos ingleses, sabe, tudo bem você protestar contra a guerra, mas não precisa fazer pose de revoltado irlandês! Sou chegado em blues, Janis Joplin, Paralamas do Sucesso, Eduardo Duzek, Camisa de Vênus, Chico Buarque de Holanda.

Dançando na prancheta da FSP
A Folha de São Paulo não é tribuna livre. Lá você toca a Voz do Dono… O que é publicado é opinião do jornal, não é do cartunista. Eu aprendi a fazer só cartuns publicáveis pra que sejam aceitos, pra ir embora cedo pra casa… Em troca, eles me dão prestígio. É meio cínico admitir isso… Mas é melhor que trabalhar num jornal e achar que o seu cartum vai mudar o mundo, vai mudar a cabeça de alguém. Isso é besteira.

Metodologia de trabalho
Basicamente é um trabalho cerebral. É ler os jornais, associar fatos, símbolos, e de repente surge à ideia. Aí entra a técnica de como a piada fica mais bem contada, bola balão pra cá, personagem pra lá, um quadrinho, dois quadrinhos. Mas às vezes mesmo assim alguns acabam ficando uma bosta. São esses que o editor exclama “genial”.

Diferença entre jornalismo e propaganda
É tudo igual. Só que jornalista jura que o que divulga é verdade. E publicitário não tem tanta cara de pau.

Dobradinha com Gougon
Muito bom. Eu nem conheço o Gougon pessoalmente, apenas por telefone (ele é de Brasília). Os textos dele são ótimos. No início eu pensei que não fosse gostar de fazer, mas as piadas dele me ganharam. Gostei, quero mais parceiros.

Maconha dá barato e cana
Cada um tem o direito de se intoxicar como bem entender. Com maconha, cocaína, café, açúcar, TV, vida sedentária, etc. Por que uísque não dá cana? Prejudica mais o corpo que maconha. A primeira vez que eu dei uma bola foi para ver se eu tinha preconceito ou era tão liberal como parecia. Foi uma decepção, não virei nem marginal nem nada.

O Humor está em alta
O que significa o humor estar em alta? Que o humor tá vendendo mais, ou que as pessoas estão mais bem humoradas? Acho que isso, nesse caso, o mau-humor é que está em alta. Mas é legal ver o jornal Planeta Diário e a revista o Chiclete (quem sabe o Circo?) darem certo, isso significa que estão sendo bem feitos, bem lançados. Estou em dúvida se as pessoas estão comprando humor mesmo ou se se trata de suas publicações que souberam conquistar um público. Acho que foi assim, na marra.

O sucesso subiu na cabeça?
Subiu, porra se subiu. O normal é subir mesmo.

Mas o problema de ser supervalorizado (afinal as pessoas são cúmplices) é que te concedem poderes que a gente nem tem. É besteira isso. Não, não gosto muito disto não.

Dúvida cruel
Meu trabalho é fazer piada. Trabalho bastante, mas não sei se vou dar certo. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em dezembro de 1986.

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Spacca no jornal Pícaro em dezembro de 1986

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