teatro

48) CACÁ ROSSET & UBÚ REI: Ator e diretor de teatro; apátrida universal

“O TEATRO É UMA ARTE PRIMITIVA”

por Jairo Máximo

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Cacá Rosset em São Paulo / Foto: Jorge Beraldo

Cacá Rosset (São Paulo, Brasil, 1955) Ator e diretor de teatro. Em 1977 fundou o iconoclasta grupo de teatro Ornitorrinco, em companhia de Luiz Roberto Galizia e Maria Alice Vergueiro. Não bebe, não fuma e adora o teatro. Detesta droga e não tem partido político. Mas é um ser engajado em mil coisas. Seus espetáculos teatrais sempre terminam em folia. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Sou uma pessoa bastante simples”.

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Cacá Rosset / Foto: Nelson R. Spada

Intimidade do artista
Não transo partido político. Sou supercareta; detesto droga. Bebo pouco. Nem cigarro eu fumo. Adoro sexo, mais primeiro fico com o teatro depois o sexo. Sou uma pessoa bastante simples.

Galizia vive
O Luiz Roberto Galizia teve uma importância fundamental na formação da linguagem do Ornitorrinco -grupo de teatro fundado em 1977, dentro da Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo, por mim, por ele e Maria Alice Vergueiro. Ele era um ator excelente. Todas suas sacadas eram de importância fundamental para a gente.

Liberdade conquistada
O Ornitorrinco não depende de um produtor para o próximo trabalho. Aliás, nunca dependemos. O espetáculo UBU-Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes, do teatrólogo francês Alfred Jarry (Laval, 1873- Paris, 1907) é muito visual. Você pode ter uma leitura mesmo que não entenda o texto. O essencial o público capta.

Arte primitiva
O teatro depende do público. Ele não é uma atividade privada. O teatro sem público não existe. Teatro não é televisão e é no mínimo tão bom quanto. Acredito quer o teatro não precisa e não depende do avanço tecnológico. Não precisa da informática, do raio laser. O teatro é uma arte primitiva; alquimia.

Teatro brasileiro
Acho que de um modo geral o teatro que é feito hoje em dia, principalmente em Sampa é muito ruim, primário. Mas torço para o teatro dar certo em Sampa e no Brasil. Quanto mais você fortalecer o movimento teatral, melhor para todo mundo.

Tio Sam proibiu
Achei o fim da picada à atitude da Kurt Weill Foundation, dos Estados Unidos, detentora dos direitos da peça proibir o espetáculo Mahagonny-Songspiel. É totalmente contra as ideias que Bertolt Brecht e Kurt Weill defendiam. É uma coisa institucional, censura.

Patafísica
A patafísica é um pouco da junção da matemática com a poesia. Ela vai além do real, além da física e da matemática. Ela é justamente a patafísica, o terceiro nível, que é o estudo das exceções do universo. ●

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Cacá Rosset no jornal Pícaro em abril de 1986

48-B) UBÚ REI: PERSONAGEM UNIVERSAL APÁTRIDA

“MATEI, ROUBEI E NÃO ESCONDO DE NINGUÉM”

por Jairo Máximo

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Ubú Rei recebe o ex-governador Maluf no Palácio / Foto: Ari Brandi

Ubú Rei (França, século XIX) Monarca. Personagem universal apátrida criado pelo teatrólogo francês Alfred Jarry, que neste momento está incorporado em Cacá Rosset. Ubú Rei é o arquétipo do cinismo, do ridículo e da grosseria. Também é autoritário e se sente o dono da verdade. Não tem senso de ridículo. É autêntico! Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Deus salve a folia!”

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Alfred Jarry, teatrólogo, poeta e pai da patafísica.

Transparência informativa

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Ubú Rei corrompendo o Pícaro publicamente / Foto: Jorge Beraldo

SKMBT_C36016042608451Antes de começar nossa entrevista quero lhe dar um forte abraço , uma gorjeta e um vale-emprego número 96.948, série Y, por você ter trabalhado de corpo & alma na minha vitoriosa campanha política manipulando a informação para que eu caísse bem para os leitores/votantes do jornal Pícaro. É deste jornalismo que eu gosto: aquele que beija o santo, passa no caixa e manipula até Deus. Muito obrigado!

Altivo e ativo governador Ubú Rei
Eu -sua excelência o governador de São Paulo- juro por Deus todo poderoso que conto com total apoio das massas e de parcela considerável da imprensa. Também juro que as pesquisas de opinião que, desde o início me favoreciam, não deixei que fossem divulgadas, para não influir nas eleições e nem na noite de reflexão. Eu já sabia, assim que começou a campanha eleitoral, que eu tinha 68% dos votos. E ganhei com 98% dos votos do eleitorado útil. Para mim a voz do povo é a voz de Deus.

Plano de Merdras

Cacá Rosset e Christiane Tricerri em Ubú Rei / Foto: Divulgação

Quero que o honrado povo paulistano, da capital econômica do Brasil, continue guardando no peito a intenção da efetivação do -Plano de Merdras- que será colocado em ação final do ano. Para esta dura tarefa acabo de nominar o Capitão Botoadura para a pasta da Justiça, porque lhe considero como o único homem capaz de diminuir os altos índices criminais dos colarinhos brancos, verdes, amarelos e azuis.

Merdras de Rei
Sou um rei eleito governador de São Paulo e trabalho muito. Suo a cueca. Sou único por sou aquele que fala a verdade: Roubei, matei e não escondo de ninguém.

Impunidade como fim único
Os quatros itens de minha plataforma que me levaram à vitória esperançosa foram: roubar tudo; aumentar os impostos; matar todo mundo; e finalmente, ir embora.

Puta mãe que o pariu
Mas o dinheiro que eu utilizei na minha campanha política consegui na bolsa da minha mãe. Digo isto que é para que todos saibam que jamais tocarei nos cofres públicos. Não sou dado às pequenas coisas.

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Cacá Rosset em Ubú Rei / Foto: Marisa Uchiyama (Arquivo Blog do Pícaro)

Mas católicas e variadas sim
Depois de finalizadas às apurações iniciei uma cansativa campanha política de olho na minha futura candidatura a presidente da República do Brasil. Minha primeira ação foi convocar as senhoras das Ligas Católicas e Variadas para que se engajem de peito aberto na memorável campanha da primeira e única dama -mãe Ubú-, que pretende atuar nas comunidades periféricas, no campo agrário e nos bordéis urbanos com o slogan “Agasalhe seu croquete com a mãe Ubú”.

Ubú Rei recebe ex-governador Maluf
Sim! Ontem recebi sim aqui, no Palácio dos Bandeirantes, o ex-governador Paulo Maluf para um encontro que inicialmente, se supunha ser de confraternização. Na verdade, o candidato vencido nas últimas eleições estava de posse de vale-emprego distribuído por mim durante minha campanha e exigia a secretaria do Planejamento. Não pude atendê-lo, afinal, o cargo foi ocupado pela dupla de palhaços Arrelia e Pimentinha.

Ubú Rei, o justiceiro

Joan Miró tinha uma especial fascinação por Ubú Rei

Antes de terminar nossa entrevista, quero aproveitar a ocasião e agradecer o grafólogo do Pícaro pela sua precisa análise elaborado através de um recado que escrevi de próprio punho antes das eleições para este jornal. Segundo o grafólogo, acertadamente eu -Ubú Rei- tenho um traço firme, profundamente marcante, que demonstra, ao menos, muita força na mão direita. As minhas deficiências nos riscos horizontais só provam que a caneta falhou. A espiral criada por mim significa o destino que me levará a passos largos, ao centro das decisões: o Palácio do Planalto, em Brasília, DF.

Excelente excelência
Não sou materialista. Acredito em Deus, especialmente nos debates públicos pela TV. E você? Deus salve a folia! ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em abril e setembro de 1986.

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Ubú Rei no jornal Pícaro em setembro de 1986

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Ilustração: Castilho, setembro de 1986 / Arquivo Blog do Pícaro

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Arte

28) BARRY FLANAGAN: Escultor

“ODEIO CONCEDER ENTREVISTA”

por Jairo Máximo

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Barry Flanagan em Madri / Foto: Marisa Perles

Barry Flanagan* (Prestalyn, Flintshire, Gales do Norte, Inglaterra, 1942) Escultor. Sua obra é polifacética, camaleônica, individualista, excepcional e memorável. Suas esculturas ocupam uns lugares privilegiados nas principais coleções públicas e privados do mundo. Realiza um trabalho poético, nada conceptual. Sua religião é a Patafísica e seus heróis Alfred Jarry, Auguste Rodin y Joan Miró. Bebe de todas as fontes… E copos. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Sou operário da arte”.

Prefácio
Barry Flanagan nunca interpreta suas obras e foge dos discursos teóricos. Está considerado como um dos grandes da escultura, tendo incorporado a tradição escultórica que compreende a Constantin Brâncusi, Joan Miró e Henry Moore. Muitos teóricos constatam a relação da obra de Miró e Flanagan, ambos admiradores de Jarry. No final da década de sessenta converteu-se em uma importante referência dentro do panorama da revolução escultórica que aconteceu no eixo Estado Unidos/Europa, quando os pos-minimalistas, incorporado em distintas correntes artísticas -process-art, arte povera, anti-form, funk-art, arte conceptual e land-art-, revisaram as práticas artísticas tradicionais, e passaram a utilizar novos materiais e processos criativos, em um momento de grande agitação cultural e social.

Dados patafísicos ao vento
O espírito iconoclasta do escritor francês Alfred Jarry é parecidíssimo com o de Flanagan. Os traços de Jarry aparecem inclusive na forma de falar e viver do artista. Batizou seu filho de Alfred, em homenagem ao escritor predileto. No entanto, a ironia não é a única característica das esculturas de Flanagan, porém é necessário recordar está divida com o autor de Ubú Rei na hora de interpretar sua obra. Antes de cair na vida artística Flanagan estudou arquitetura, mas não concluiu. Em 1958 chega a Londres e trabalha de cozinheiro, pintor de parede, jardineiro… enquanto estuda na St. Martin’s School of Art, e inicia sua carreira artística. Sua linguagem mais original surge nos oitenta, como um todo, quando cria uma série de monumentais lebres de bronze, irônicas e pessoais, em posição e atividades antropomórficas, que traduz em si a mais pura tradição humorística britânica e a patafísica. Algumas esculturas chegam a pesar uma tonelada e medem entre três e quatro metros de altura. Estão bem cotizadas no mercado, sempre para mais. Também é executor de outra grande família animal em bronze integrado por unicórnios e cavalos. O unicórnio é o símbolo da fertilidade; o cavalo da virilidade, que ao mesmo tempo é o arquétipo da escultura clássica.

Revelações do artista
Em 1964 através da revista The Evergreen (número 13, 1960) conheci a Patafísica -Ciência das Soluções Imaginárias- e passei a ser discípulo desta imaginativa ciência. Neste mesmo ano aluguei um smoking e fui beijar a mão de Joan Miró, durante a retrospectiva do artista espanhol na Tate Gallery de Londres. No ano seguinte, pronunciei um poema silencioso com os lábios na II Mostra Internacional de Poesia Experimental, no St. Catherine’s College, Oxford. Em 66 realizei minha primeira exposição individual, no Rowan Art Gallery de Londres. Em 69 a Tate Gallery adquiriu minha obra aa ing! gni aa, de 65, considerada como a mais ambiciosa e de melhor resolução, entre as minhas primeiras obras. Em 1976 filiei-me a Zoological Society of London. Em 78 importei três toneladas de pedra de Pietrasanta (Itália). Em 1980 iniciei um estudo para produzir uma série de cavalos de bronze, de tamanho natural, em homenagem aos cavalos de São Marcos. Em 82 doei um grupo de esculturas cerâmicas para um leilão público organizado em prol da Anistia Internacional. Em 1990 chamei o bailarino Merce Cunninghan em cena seis vezes, ao menos recorda que foram seis, para que Merce sentisse minha apreciação.

Qual é a relação de sua obra com a Patafísica -a ciência das soluções imaginárias?
O trabalho é uma ocupação, mas não estou preocupado com ele, porém ajuda a ter umas ideias. É bonito trabalhar e receber. Que mais posso desejar… Mas eu não estou preocupado com ele, porque tenho uma bicicleta. Quanto mais trabalho mais tempo tenho para retrabalhar. É vital trabalhar. Sou um operário da arte. A Patafísica é a ciência que não propõe remédios, nem oferece solução de tipo nenhum. Tudo é indiferentemente válido, sem preconceitos sobre a matéria, as ideias e as intenções. A arma é o absurdo. Os colecionadores de arte necessitam de carinho, de cafuné… O nome traciona a escultura inclusive se não pudesse ter outro nome… O nome é uma piada, como é sua descrição… A existência é Patafísica, o espírito escapa… O mistério é soberbo pata físico.

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Barry Flanagan em Madri / Foto: Marisa Perles (Arquivo Blog do Pícaro)

De que toca (lugar-escondido) saiu sua lebre?
A lebre representa o indivíduo mais que o grupo, preocupação atual do Ocidente. Sou o caçador e a lebre. A lebre como animal do campo, do norte da Europa, e especialmente da Inglaterra, forma parte de um ritual. A caça da lebre com cachorros continua jogando com a moral do esporte. Um homem e o cachorro, ou um grupo de pessoas, caçam. O objetivo do esporte não é somente a perseguição. Emblematicamente a figura da lebre representa a liberdade de perseguir. É um modelo bastante rico e expressivo. Outorgar atributos humanos no mundo animal é um recurso habitual na literatura, no cinema, etc.…, que realmente é comovedor.

Por que ainda hoje em dia a cerâmica não está devidamente cotizada?
A fotografia hoje está cotizada. Falta pouco para a cerâmica ocupar seu lugar de arte nobre. Na cerâmica entrega seu trabalho a sorte e ordem: o mistério do fogo. Tenho que gostar de ser fotografado porque cada um tem que fazer seu trabalho.

Ibiza é Espanha, porém Espanha não é Ibiza…

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Convite da exposição de Flanagan em Madri em 1993

Ibiza tem uma posição similar a Manhattan na América do Norte. Geograficamente tem uma relação com a Península, da mesma forma que Manhattan nos Estados Unidos. Ibiza não é Espanha. Manhattan não é América. Ambas estrangeiras!

Arte é alquimia?
E se te disseres que não é… Posso não responder? Você tem bicicleta?

Somos livres… Depois de concluída uma obra você tem orgasmo?
Orgasmo é algo… A ideia representa a finalização como um estado físico de concentração; é a gratificação alcançada… mantida! O orgasmo assim como a alquimia é uma ideia naif, uma ingênua ideia de o simples conseguir. Eu prefiro ser, mas usual. Poderia até te dizer natural.

Onde está o novo?
A ideia do novo é também uma ideia ingênua. O novo é uma ideia contemporânea, a que compartimos o meio artístico. Neste momento o mundo está mudando, melhor dizendo, esta mesa de ideias que você contribuir, sem descontar a ideia de revolução envolvida no futuro. Nós também temos ideias ingênuas a respeito da revolução no mundo das artes, por exemplo, e é a de fazer algo novo. Este é um desafio normal. Bem, aqui estamos ambos, com nossas aspirações presentes na mente e que costumam serem necessidades. Aí estão alguns sonhos e que no caso da arte é talvez a primeira forma legítima de trabalho. Talvez…

Como deve definir a trajetória do artista Barry Flanagan?
A maneira mais fácil de definir minha trajetória é pela via do sensorial, e pelo visual, naturalmente. A visão é o principal para mim, e isso inclui a percepção do espaço através dos meus olhos. Odeio conceder entrevista. Vem comigo!

Tem bicicleta? Sabe montar?
Sim, tempo uma bicicleta e também sei montar. Mas não uso. Sou susceptível e nunca cai dela. Tchau! Vou embora. Vem comigo? Mas não esqueça que a escultura tem a capacidade de conectar diretamente com o impulso de todos os homens a pensar, estruturar e organizar sua existência; e que no comércio das artes as soluções imaginárias podem-se transformar em praticas.

Viva a liberdade!
A única ação útil que pode realizar um escultor é auto afirmar-se com o dobro de energia de uma forma negativa.
Comecei com materiais informais e pouco a pouco adquiri a técnica necessária para fazer peças em cerâmica, pedra e bronze.
Miró chega as suas formas mediante processos intelectuais, que não é o meu caso.
A escultura tem a capacidade de responder diretamente o impulso de todos os homens de pensar, estruturar e organizar sua existência.
No comércio, as soluções imaginárias podem converter-se em práticas.
A mitologia china considera que a lebre é o único habitante da Lua, e ao mesmo tempo, representa a imortalidade. Os japoneses dizem que os deuses ordenaram a que todos os animais trouxessem presentes para eles. Enquanto que todos os outros animais enviaram coisas variadas, a lebre se auto- apresentou, e ainda assada. Está identificada com o talento.
A liberdade de eleição não quer dizer preconceito de algo.
Good bye. Vem comigo? ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi realizada para a agência Radial Press de Madri e revista Animal de São Paulo em novembro de 1993.

* Barry Flanagan morreu em agosto de 2009 em Ibiza, Espanha.

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cultura

A TUMBA ABERTA: 55 entrevistas transatlânticas 1981―2008

 por Jairo Máximo

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Ilustração: Castilho / Arquivo Blog do Pícaro

55 PUNHALADAS PATAFÍSICAS DE PÍCARO

 Por Fernando Castelló*

Jairo Máximo, jornalista e/ou pícaro brasileiro radicado no pátio do Monipodio** madrilenho nos oferece neste livro uma série substanciosa de até 55 entrevistas “patafísicas”.

Esclareçamos rápido que pícaro significa em espanhol pessoa não isenta de simpatia que nos engana com habilidade e destreza. E que a patafísica, inventada pelo dramaturgo francês Alfred Jarry na sua obra satírica Ubu Rei, é a ciência matemático/poética das soluções surrealistas para problemas imaginários.

Sim. Ao Jairo, o termo pícaro, no bom sentido humorístico da palavra, lhe cai bem, além de ter sido o fundador e animador, já faz um quarto de século, do jornal humorístico Pícaro [1984-1988], que levantou ventos de humor negro em São Paulo. E o de patafísico, melhor, porque ele é um poeta ubuesco que vai mais além do realismo habitual nas suas penetrantes entrevistas, nas quais suas perguntas lancinantes, nunca cruéis, são como um ferrão de uma vespa acupunturista que provocam às vezes respostas irritadas, ainda que nunca estúpidas.

Jairo, humilde, faz perguntas breves, quase em “off”, e sai de cena, deixando todo o espaço às respostas, como deve ser e nem sempre é, pois muitas vezes e frequentemente o jornalista entrevistador esmaga com seu ego ao do entrevistado e aparece como se entrevistasse a si mesmo pela boca de outro.

Jairo, não. Atua como um simples saca-rolhas para tirar a rolha/língua de seu entrevistado e lhe forçar, como a um líquido de grande reserva, a despejar toda a potencialidade embriagadora que guardava a sete chaves dentro.

Suas 55 entrevistas transatlânticas de tumba aberta (nunca melhor dito, pois alguns dos entrevistados já estão mortos) estendem-se, como uma grande ponte entre Brasil e Espanha, desde 1981 aos dias de hoje. Uma ponte verbal que se inicia em São Paulo com um jovem sindicalista recém-saído da cadeia por incitar greve e chamado Luiz Inácio Lula da Silva (conhecem?) e desemboca em Madri com Gervasio Sánchez, o grande fotógrafo e jornalista espanhol do conflito humano.

Seus pilares de sustentação passam pelo Ubu Rei brasileiro, uma prostituta respeitosa sartriana, um ex-guerrilheiro que amou tanto a revolução; o ladrão Dioni, os jornalistas espanhóis Juan Luis Cebrián, Maruja Torres, Carmen Gurruchaga; os italianos Leo Bassi e Antonio Tabucchi; músicos, filósofos, mambembes, políticos (esses cômicos da língua), humoristas de ambos os lados do brejo…

Contradizendo a seu entrevistado Paulo Leminski, quando este lhe disse que “ninguém consegue melhorar a forma do ovo e nem o gosto da água”, Jairo, picarista e “picareta” intensional, em suas entrevistas patafísicas transforma a forma do ovo, cortando-a pela sua base e plantando-o como o de Colón, melhora o sabor da água das declarações, às vezes sem gosto e deprimente, enriquecendo-a com o uísque de suas anotações de rodapé. E já se sabe que, contra a deprê vital, nada melhor que o áureo elemento euforizante. Etiqueta neura, claro, como esta que nos oferece Jairo em seus 55 tragos. ●

 *Fernando Castelló (Valência, 1937 – Madrid, 2013) jornalista, escritor e presidente internacional da Repórteres sem Fronteiras (RSF). Escreveu este texto em Madri no dia 29 de maio de 2008 para a publicação do (gorado) livro A Tumba Aberta.

**Pátio de Monipodio é uma expressão usada pelo romancista, dramaturgo e poeta espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) que o situou em Sevilha, na novela Rinconete y Cortadillo. Era o lugar onde pessoas em situação de miséria criavam estratégias para sobreviver, inclusive pequenos roubos.

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Ilustração: Castilho / Arquivo Blog do Pícaro

ENTREVISTADOS                                                            

01) Gervasio Sánchez 

02) Max

03) Leo Bassi

04) Bruna Surfistinha

05) Eduardo Matarazzo Suplicy

06) Carlos Galilea

07) Amancio Prada

08) Blanca Li

09) Edu Lobo

10) Maruja Torres

11) Katsuyuki Tanaka

12) Tito Drago

13) Alí Lmrabet

14) Arnaldo Antunes

15) Robert Menárd

16) Antonio Tabucchi

17) Fernando Castelló

18) Juan Arias

19) Isabel San Sebastián

20) Carmen Gurruchaga

21) Raul Jungmann

22) João Pedro Stédile

23) José Cabrera Forneiro

24) Juan Luis Cebrián

25) Paco Clavel

26) Caetano Veloso e Gilberto Gil

27) Gilberto Dimenstein

28) Barry Flanagan

29) Felipe Hernández Cava

30) Elvis Costelo

31) Daniel Torres

32) Dionisio Rodríguez Martín (El Dioni)

33) Maitê Proença

34) Loredano

35) Itamar Assumpção

36) Denise Stoklos

37) Carlito Maia

38) Tarso de Castro

39) Antônio Cícero

40) Antonio Bivar

41) Cláudia Wonder

42) Pietro María Bardi

43) Paulo Leminski

44) Spacca

45) Wilde Weber

46) Akinori Nakatani

47) Glauco

48) Cacá Rosset e Ubú Rei

49) Fernando Gabeira

50) Marcelo Tas

51) Walter Casagrande

52) Maurício Chaer

53) Ignácio Loyola de Brandão

54) Franco Montoro

55) Luiz Inácio Lula da Silva

Texto en español: 55 Puñaladas Patafísicas de Pícaro

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