Polícia

32) DIONI: Guarda-costas e ladrão de carro-forte

“NÃO COMETI NENHUM DELITO”

por Jairo Máximo

Dioni

Dioni no Rio de Janeiro / Foto: Jorge Beraldo

Dionísio Rodríguez Martín, Dioni (Madri, Espanha, 1949) Guarda-costas e ladrão. Roubou em Madri, em 1989, um carro-forte que continha mais de dois milhões de dólares sem disparar um só tiro e disfarçado de mulher. Em seguida, fugiu para o Rio de Janeiro, mas foi preso na fronteira do Paraguai com o Brasil acusado de ser traficante de armas. Nesta entrevista exclusiva, concedida no Rio de Janeiro, afirma: “Não tenho nada do dinheiro roubado”.

Quem é o Dioni, o famoso ladrão espanhol?
Nasci no dia 31 de outubro de 1949, no bairro de Salamanca de Madri. Minha família era modesta e estudei no colégio El Pilar, com os irmãos maristas. Estou divorciado e tenho uma filha de 21 anos que me deu um neto. Sempre fui sindicalista e cheguei a ser chefe do grupo do Sindicato Independente de Guarda-Costas Espanhóis.

Tem medo das consequências do roubo que realizaste no dia 28 de julho de 1989?
Eu não cometi nenhum delito. Está fora de mim por uma questão psicológica. Fiz por vingança, por ressentimento. Fiz por força da razão. Por isso, nestas condições, tudo o que nós fazemos o fazemos bem. Na verdade, fiz porque um dia tive um deslize psicológico. A loucura é uma situação pessoal.

Considera que a Polícia espanhola acredita que você fez o roubo sozinho?
Até que a Polícia prove o contrário, o que eu estou falando é a verdade. Tenho provas de que fiz o roubo sozinho e que ninguém trabalhou comigo.

É verdade que você trouxe o dinheiro do roubo para o Brasil? Como fez para trazê-lo, porque é muito dinheiro?
Sim, eu trouxe o dinheiro para o Brasil. Troquei na Espanha as pesetas por dólares. Em Portugal também fiz várias trocas e o resto troquei aqui no Rio de Janeiro.

Quanto dinheiro ainda tem do roubo?
Nada! É a verdade. Uma parte a Policia espanhola encontrou no meu apartamento em Madri, um total de um milhão de dólares. O dinheiro que tenho neste momento, que é muito pouco, é o que recebo da revista espanhola Interviú. Meus objetos pessoais que tinha comigo -vídeo, pulseiras, anéis, um relógio- a Polícia brasileira me confiscou. O primeiro advogado que se prestou a me defender aqui no Rio de Janeiro não era criminalista e me enganou. Logicamente, tive muitos advogados. Tem um que me prometeu que facilitaria minha fuga através de um embaixador sul-americano, que por questões éticas, não vou dizer seu nome, mas ficou com algumas coisas minhas e agora esta me chantageando para me devolver minhas coisas.

Volto a insistir, cometeu o roubo sozinho? Como planejou?
Eu fiz tudo sozinho. As pessoas subestimam muito meu conhecimento.

Mas, cadê o dinheiro?
Se a Polícia afirma que este dinheiro está guardado, que seja ela que procure ele. Eu não tenho nenhum tostão do roubo. Tenho apenas umas calças. Não tenho nada de luxo. Levaram todos os meus bens e o que eu possa ter de agora em diante está relacionado com o valor da minha folha de pagamento. No futuro quero viver somente de meu holerite para que todos vejam que sou capaz de viver do meu salário.

O que você faria com o dinheiro se ele estivesse aqui?
Abriria uma empresa de segurança, onde muitas pessoas pudessem ganhar muito dinheiro e estivessem felizes comigo como seu chefe; que não tivessem problemas sociais, econômicos e de trabalho. Parte dos lucros que obtivesse doaria para trabalhos sociais que gosto muito.

A imprensa espanhola fala que você deixou uma mulher brasileira grávida. É verdade?
Também podem falar que eu sou o Ronald Biggs moderno e que eu poderia deixar alguma mulher grávida e ficar no Brasil. Ofereceram-me de tudo para ficar no Brasil livre. Eu nunca disse que tinha deixado uma mulher grávida aqui, entretanto me ofereceram muito dinheiro para deixar alguma mulher grávida por aqui.

Quem?
Os advogados, a Polícia brasileira… Não, não pensei em Ronald Biggs. Minha companheira brasileira vem todas as quintas-feiras me visitar. Ela me deu de presente uma Bíblia e um rosário para que eu reze e volte logo à Espanha.

Acredita em Deus?
Sim, acredito em Deus, mas sou um mal religioso. Na atualidade rezo muito.

Como é o seu dia-a-dia aqui na cadeia?
Faço ginástica e escrevo cartas para a minha família. Também continuo escrevendo meu livro de memórias.

O que você fala no seu livro de memórias?
Falo de como fiz a desapropriação indevida, com luxo de detalhes. Já tenho editores em Barcelona e Madri que estão interessados em publicar estas confissões.

Está sozinho ou acompanhado na sua cela?
Estou com outro preso. Estou à vontade porque ele não me deixa cair em depressão. Não me trata como um delinquente, senão como uma boa pessoa. Sua mulher está presa no presídio feminino de Bangu, aqui no Rio. Ele é da máfia de Marselha e trabalha para o Cartel de Medellín, no Amazonas. Tem um nível cultural elevadíssimo.

Afirma que realizaste o roubo sozinho, mas a Polícia constata que outras pessoas estiveram envolvidas? Quem é?
Quando eu era guarda-costas conhecia uma secretária e seu marido. Eu tinha uma relação intensa com esta senhora e a convidei a vir ao Rio de Janeiro e vieram. Mas isto não quer dizer que ela tenha quer ser cúmplice da desapropriação indevida. A Polícia fala de que eles viviam comigo e estão envolvidos no caso. Quero que fique claro que eles não têm culpa de nada em absoluto.

Por que roubou?
As pessoas que eu roubei são mais ladronas que eu. O que roubei deles em 40 anos, eles roubam todo o ano. São pessoas que andam pela sociedade e ainda que com a cabeça baixa, são aceitas pela sociedade burguesa. Eu trabalhava 17 horas diárias. Trabalhei para o diretor geral da Organização Nacional de Cegos, para o ex-presidente Adolfo Suarez, para o presidente do Banco Central da Espanha e seus conselheiros e para muitos outros peixes gordos espanhóis.

Atualmente você é um ídolo popular na Espanha, como se sente com toda esta popularidade?
Bem… não tem mais solução e, além disso, não é possível interpelar. Não tenho nem mulher nem filhos no Brasil. Entre o mês de janeiro e fevereiro já voltarei para a Espanha e responderei o processo que tenho sobre minhas costas. A extradição é um processo lento. Nestes momentos considero que estou de férias com respeito ao que me espera na Espanha.

O que significa ser um preso brasileiro?
Olha, eu já tive aproximadamente uns dez advogados, primeiro um e mais tarde mais três… Todos me recordaram que eles não sabem quem roubou meus objetos pessoais do apartamento em que eu estava hospedado, antes de ser preso. Eu quero receber cartas. Há pouco tempo atrás recebi uma carta de uma pessoa de Saragoza que me fez chorar. A carta era de um senhor que dizia que me compreende e compreendia minha atitude e, portanto, sabia quanto eu estava sofrendo nestes momentos.

Dioni, mas realmente por que roubaste?
Fiz por vingança. Eu sofri muitos desaforos em meu trabalho, depois de trabalhar dez anos no mesmo lugar onde desenvolvia uma atividade bastante arriscada. Eu era guarda-costas e não segurança. Nunca tive o pensamento de cometer um roubo. Tenho chalé nos arredores de Madri e tenho carro. Na realidade não necessitava realizar o roubo, mas hoje o que sinto é que se tivesse comprado algumas coisas e tivesse colocado no nome da minha filha ou de meu neto não teria tido tantos problemas.

Foi torturado aqui na cadeia do Rio de Janeiro?
Sim, porém mais que a tortura física é a tortura psicológica que eu atravesso nestes momentos.

Mas Dioni, realmente não consigo compreender porque roubaste o que não era seu…
Roubei para me vingar da grande humilhação que padeci no trabalho e pela falta de respeito que demonstraram por minha pessoa meus patrões. Roubei dois milhões de dólares. É um delito e sei disso e cumprirei a pena que me colocarem que pode estar entre um mês e seis meses de cadeia.

Com quem está o dinheiro que a Polícia não encontrou?
Amigos, advogados e policiais. A metade do roubo está com os sul-americanos. Quando entrei na cadeia tinha como tenho hoje, somente uma camisa, uma calça e um tênis. Tudo o que tinha ficou no hotel. Desde então não vi nem minhas roupas, nem minhas joias nem sequer meu dinheiro.

Onde e como você conseguiu o passaporte falso que utilizou para fugir da Espanha?
Como guarda-costas conheço muitos políticos, banqueiros e industriais. Tenho estudos e sou detetive e guarda de segurança e tenho também relações com policiais. Tinha que saber quem era o inimigo e onde estavam as drogas, e depois tinha imediatamente o passaporte falso. Utilizei meus conhecimentos e arrumei a situação com um passaporte brasileiro falsificado.

Como pensa que será tratado pela Polícia espanhola?
Eu não sei de nada…

Voltarei à Espanha e serei o mesmo trabalhador que era antes. Quando regressar espero que exista menos desemprego e menos terrorismo. Espero também que a Justiça cumpra com seu dever. A Espanha é um Estado democrático, onde cada profissional cumpre com seu dever como mantém as leis. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no suplemento El Dominical de Madri em janeiro de 1990.

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“Dioni” no suplemento El Dominical de Madri em janeiro de 1990

 

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