Música

41) CLÁUDIA WONDER: Travesti, cantora e compositora

“NÃO QUERO SER HOMEM NEM MULHER”

por Jairo Máximo

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Cláudia Wonder em São Paulo / Foto: Cortesia da artista

Cláudia Wonder* (São Paulo, Brasil, 1955) Travesti, cantora, compositora e atriz. Para fins burocráticos, jurídicos e eleitorais ela é Marco Antônio Cláudio Wonder. Contudo, nos palcos underground da noite paulistana ele é Cláudia Wonder. Canta rock e compõe versos ditos poesia marginal. Suas composições musicais falam do holocausto nuclear, da miséria, violência, poluição e desejos reprimidos. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Envolvo as pessoas mais pelo lado humano do que pelo lado sexual”.

Anota aí! Um
Mas antes de cair na vida artística, rodei bolsinha, mostrei a bundinha nas esquinas da cidade de São Paulo e até usei o pintinho para o consolo dos heterossexuais. Sai deste mundo rapidinho e, em 1978, fui morar na Europa, e residi na Holanda, Suíça e Itália, assimilando a cultura destes países aos que realmente me fizeram mulher. Em 1981, retornei ao Brasil. E aqui vou levando… A vida difícil de artista. Não quero ser homem nem mulher. Quero ser travesti.

Anota aí! Dois!
Quando eu tinha seis anos e estudava numa escola e eu não sei por que a professora me fez ficar horas de pé em frente à lousa, sendo motivo de brincadeira de mau gosto de todos os meninos. Lembro-me disso até hoje. Depois, quando cheguei a casa e falei com o meu pai, ele não entendeu e acabou me dando a maior surra e ainda no outro dia me fez levar umas margaridas que tinha no jardim de casa para a professora. Coisa de um pai militar, autoritário e uma professora louca. Que repressão.

Quem é Você
Uma pessoa solitária. Aprendi a conviver com ela. Sou o pequeno carente da sociedade.

Família/família
Venho de uma família tradicional classe média. Pai militar repressor e mãe protetora. Na infância sentia que era diferente das demais crianças. Isto não me incomodava.

Continue na infância
Quando eu tinha 13 para 14 anos passei a exercer a rebeldia e não aceitava à imposição de ter que ser homem sem ser.

Fez troca-troca
Comigo era assim: eu ficava atrás do menino e contava até dez e pronto. Depois eu virava e o menino colocava e eu contava: um, dois, quinze, trinta, sessenta e nove, até… Ele não querer mais. Era simples, não tinha mistério.

Veio ao mundo pra quê
Meu objetivo é cantar rock. Do mesmo jeito que a Europa tem no rock Sigue Sigue Sputnik, a América do Norte tem Lou Reed e Nova York tem The Doors, o Brasil tem Cláudia Wonder.

Para falar o que
Essencialmente do amor proibido, aquele feito às escondidas, que no fundo são os fatos que cobrem o manto da hipocrisia da sociedade.

Mas Deus castiga
Que nada! Somos todos Deuses Cósmicos nas cidades. Diferentes do Deus cristão.

Travesti dá e come
Geralmente fazemos o papel de uma mulher na relação sexual. Porém, em muitos casos somos a salvação do heterossexual enrustido que gosta de transar o pintinho.

Antigas companheiras de guerra
A Rogéria é o travesti mais antigo do Brasil. Eu dou o maior valor. Os travestis antigos abriram caminho para isto que estou fazendo agora. Não faço meu trabalho apenas pelo consumo e apelo sexual. Transo arte.

Telma Lipp e Roberta Close
É difícil falar delas, pois são públicas e diferentes. Agora, eu digo que já fiz esquina e faço de novo se precisar, daquele jeitinho, de bundinha de fora. A carne é fraca meu bem.

No palanque abraçadinho com político
Já estive uma vez com o Leonel Brizola, por causa do Jorge Mautner. O Brizola e o pessoal do Partido Democrático Trabalhista ficaram passados. Mas o Brizola não é meu coronel.

Votar em quem
O meu candidato é o Eduardo Matarazzo Suplicy. Mas é muito difícil transar um partido. Tanto preconceito! Mas eu estou com o Partido dos Trabalhadores (PT), pois o preconceito independe de partido.

Vida na noite
À noite para mim é o ar que respiro, mas viver de música na noite é barra. Veja os meus músicos, por exemplo, eles precisam trabalhar de dia para tocarem na noite comigo. Tem família para sustentar.

AIDS de vocês
AIDS de mim! Não gosto nem de ouvir esta palavra. Seria hipócrita eu mentir, dizer que não tive medo. Qualquer resfriado era motivo de neurose. No entanto, entre os casos registrados no Brasil, nenhum travesti foi internado ou morreu com AIDS.

Travesti da banheira
Ah, antes, nos meus shows, eu fazia uma performance dentro de uma banheira com groselha. Tinha até um nu artístico. Mas isto é coisa do passado, pois eu não queria ficar conhecida como a travesti da banheira de groselha.

Fotograma do filme Meu amigo Cláudia, dirigido por Dácio Pinheiro

Casa noturna Madame Satã
É um lugar bárbaro de gente bárbara, no bom sentido. Madame Satã é São Paulo.

Juventude transviada
Não sei não… Parece-me que tá chegando uma geração mais quadrada, careta do que a dos anos 60/70.

Vício declarado
Minha droga é o conhaque.

Amada amante
Envolvo as pessoas mais pelo lado humano do que pelo lado sexual.

Literatura e música
Adoro Charles Baudelaire, Jean Genet e Antonin Artaud. Neste momento estou lendo Paramahansa Yogananda, autor autobiográfico de Yoga. Na música, gosto do Inocentes, RPM, The Cure e outros.

Recado às novatas
Sejam naturais. A maioria é extremamente narcisista.

Falta gente como eu. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em outubro de 1986.

* Cláudia Wonder morreu em novembro de 2010 em São Paulo, Brasil.

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Cláudia Wonder no jornal Pícaro em outubro de 1986

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Cláudia Wonder era a musa do jornal Pícaro (1984-1988). Foi cover girl do Pícaro, nº 13, abril de 1987 / Foto: Marisa Uchiyama

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35) ITAMAR ASSUMPÇÃO: Músico e médium

“SOU MÉDIUM MUSICAL”

por Jairo Máximo

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Itamar Assumpção em São Paulo / Foto: Lailson Santos

Francisco José Itamar de Assumpção* (Tietê, São Paulo, Brasil, 1949) Músico. Também é cantor, letrista, arranjador, ator e médium. Não tem partido político e é filho de pai de santo. Não abre mão de sua linguagem musical única. Adora o futebol. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Na cadeia eu fiz o melhor concerto da minha vida para um ouvinte anônimo, na base de modinhas caipiras”.

Dados precisos dele
Com onze anos sua família foi morar em Araponga, interior do Paraná, onde se revelou um pia fissurado & militante de teatro e futebol. Paralelamente gostava de música e tocava um violão maneiro. Mas um belo dia, em Londrina foi preso por engano, acusado de ter roubado um gravador. Na verdade, um lapso policial fatal, pois o gravador era do amigo contista Domingos Pellegrini e custou a Itamar cinco anos de “cana” dura: sem arrego & perdão. Já imaginaram a barra? Mas a figura tirou de letra. Depois veio para Sampa consciente de seus desejos e possibilidades artísticas. Aqui constituiu família e radicalizou sua trajetória profissional. Seu primeiro disco foi Beleléu, Leléu, Eu (1980), o segundo As próprias Custas S/A (1981) e o terceiro Sampa Midnight -isso não vai ficar assim (1983). Acaba de lançar pela o seu quarto disco de autor: Intercontinental! Quem Diria! Era Só o Que Faltava!!!

Revelação precisa
Na cadeia eu fiz o melhor concerto da minha vida para um ouvinte anônimo, na base de modinhas caipiras. Foi ali que percebi minha função musical. Vou assumir que sou artista e tudo bem, porque se o piloto do avião não assumir que ele é piloto, fico louco e falo mal.

Paulo Leminski interpreta Itamar I
“Venho acompanhando o processo criativo musical brasileiro como consumidor e também um pouco como produtor a mais de 10 anos. Quanto a minha sensibilidade, desde a Tropicália, desde o surgimento de Caetano/Gil, Chico/Milton, nos final dos anos 60, até esta virada do final dos anos 80 e começo dos anos 90, acho o trabalho de Itamar Assumpção à coisa mais importante que aconteceu na MPB, tanto a nível musical quanto poético. Itamar para mim tem um processo exemplar, porque vindo de três LPs independentes, agora ele é gravado por uma gravadora comercial, mas o percurso dele é um percurso claro, nítido, sem concessões e, sobretudo sem sobressaltos de mudanças de registro. É um processo com uma lógica interna, uma dinâmica interna extraordinária e de uma força poética musical que agora vai chegar àquela viabilidade comercial de ser gravado pela Continental e eu gosto muito. Uma imagem me parece que acompanha o percurso de Itamar, que é para mim a imagem da criminalidade ligada à marginalidade. Crime no sentido de violação da norma, porque o trabalho de Itamar é violador, tanto a nível poético quanto a nível musical. Então, aí seria um ideograma complexo da criminalidade. Agora vamos fazer um trocadilho com o nome dele: Assumpção de assumir. Assumpção da criminalidade poética no sentido da inovação, no sentido de rompimento das normas, com uma coisa de criminalidade associada inclusive à negritude que Itamar Assumpção superiormente representa em nível de Brasil. Então me parece que esta coerência em torno da ideia da invenção é o fio condutor da obra de Itamar, aquele que produz o crime musical, o crime poético, da invenção da mais alta criatividade, do rompimento dos padrões e da violação de todas as normas. Esta é a imagem que eu tenho do Ita”.

Quer saber
Quando eu tinha nove anos queria tocar violão. Com 15 anos efetivamente eu estava começando a tocar. São 23 anos tocando e eu não sei ainda tocar.
Minha música tem um universo próprio.
Às vezes faço 10 arranjos para a mesma música.
Eu curto o universo, as plantas, as orquídeas…
Não quero falar de política, quero falar do meu trabalho porque já está uma confusão danada.
Foi meu pai que falou de maconha pela primeira vez. Eu tinha 15 anos e levei um choque.
Eu resolvi só fazer música e mostrar meu trabalho agora, não quando tiver 70 anos. Isso o Cartola fez e a Clementina também…
Música é uma coisa que ninguém sabe como é porque é som.
A minha música é minha música. Não há escola.
Música eu levo a sério.
Eu trago a novidade. O que eu faço então? Eu canto. Porque o Gil, o Caetano cantam… se eu não cantar o que eu estou fazendo?
O Gil me pediu uma música recentemente. Agora eu sou compositor.
Quando eu trabalho com Arrigo Barnabé é uma terceira coisa. É uma coisa de vida.
Agora o Arrigo está aprendendo fazer música popular como eu também.
A beleza de São Paulo está na sua barra.
A gravadora veio e se não viesse eu iria continuar o meu trabalho.
O ter é consequência do ser.
Eu me deparei com a grandeza da MPB não foi frequentando nenhuma escola, coisa assim: curso, sonho… Foi ouvindo Ismael Silva, Cartola, Roberto Carlos e por aí afora.
Todo técnico de estúdio tem que ser músico. Eles são uma extensão da música.
A música que faço tem que ver com a minha cara. Reflete alguma coisa que aconteceu.
Meu disco é cada um diferente do outro. Vou sempre fazendo diferente até onde der. Acho que Miles Davis é isso. O mundo rola dando cabeçada, mas me parece que tem um fiozinho da moeda que independe de todo esse caos. A música tem essa linguagem.

Chegando junto
Quando eu cheguei a São Paulo, cheguei com um violão e umas músicas assim, assim… Eu já era compositor, mas não queria colocar isto ao público porque eu percebi que era uma coisa aquém do que estes artistas que você tem aí, muitos compositores de MPB -Djavan, Milton, Caetano, Gil, Tom Jobim, etc. Então eu não queria fazer “musiquinhas”, meu negócio não era esse. Eu gostava de cantar e tinha uma coisa com o cantar que era diferente do que eu ouvi dizer. Então daí eu peguei item por item: composição/compositor e passei a ver que eu precisava de algo mais. Eu tinha só um violão e tocava. Aí eu peguei um contrabaixo e aprendi a me virar mesmo com ele. Aí um piano, uma bateria… Aí eu entrei no processo de desenvolver meu ouvido, ele não era desenvolvido. Foi isso que eu descobri, todo este universo.

Cuidando do gogo
Parei de fumar de um dia para outro. Não tomo gelado. Você tem que ter um clima com a garganta… Já bebi muito. Vigê Maria… rodando está terra aqui doido. Quê? Documento aí! Vigê Maria… Cadê? Entra aí caramba e tal. É… a coisa é assim; né? E hoje quando o Leminski fala da criminalidade/marginalidade, não é isso, é que sempre eu estive exposto a isso. Sempre morei na Penha, andei de ônibus. Não tenho carro. Então é uma coisa que realmente faz parte do meu dia a dia.

Apareceu o Itamar
No festival da extinta TV-Tupi, nos anos 70, participei com a música Sabor de Veneno onde eu ganhei melhor arranjo e a Vânia Pinheiro ganhou como melhor intérprete. Foi à primeira coisa que me colocou no cenário musical. Foi ali -naquele momento- onde a gente rompeu com o que então se ouvia, onde tinha a Tetê Spindola, Vânia Bastos e Regina Porto nos vocais. Porque quando estávamos apresentando a música eu perguntava: sabor de quê? As meninas respondiam: tutti-frutti. Sabor de quê? O público: hortelã. Até que um dia o público disse: sabor de merda. Aí eu vi que estava chegando aonde eu queria. Aí foi aquele bafafá porque sabe como é que é festival: é aquela coisa, a gente já sabe quem vai ganhar… Ninguém ouvia nada porque 30 mil pessoas gritando, a Orquestra atravessou, o maestro Arruda Paz… Bom, para nós a resposta foi ótima.

Caindo de boca na música
Aprendi a fazer disco com o Rogério Duprat. Faço música independente porque aprendi e ele me deu uma oportunidade. Ele disse que ia demorar muito para poder gravar um disco por aí. Isso veio de encontro com a ideia de que um disco tenha que ter um produtor. Então todo este universo caótico em termos de você poder criar uma linguagem nova eu tinha botado para baixo. Ou fazia música deste jeito ou senão não ia sair nada. Assim como tinha feito com o futebol. Entrei na música para valer, porque depois de Caetano, Gil, João Gilberto, como é que dá para chegar e falar: Eu faço música. Tenho um “somzinho” aqui novo… A gente se respeita por causa da democracia, mas sem a criatividade não rola nada.

Pra quem não sabe
Um disco é completamente diferente de um show ao vivo. Isso também aprendi porque fiz muito teatro e o palco não tinha nenhuma novidade, mas o microfone sim. O microfone foi uma coisa de pegar e ver como se carrega isto nas mãos.

De suspeito a clean
Os caras me paravam na rua e pediam documento. Se eu não tinha ia preso. Não fiquei pedindo verba isto e aquilo. O Estado eu pago. Pago os impostos, pago o aluguel, tenho as minhas filhas na escola. Batalho para segurar a onda, não fico reclamando. Eu sou artista para os meus botões. O segredo é esse para mim. Uma relação pessoal com a arte. Faço meu trabalho assim. Esse negócio de agora não dá entrevista… Dou as entrevista que quiser, quantas forem possíveis como ser humano. Só porque agora é uma coisa que está em evidência eu vou ter que dar 800 entrevistas por dia para ser bom com todo mundo. Mas e aí? Como é que eu faço música? Como é que desenvolvo meu trabalho? Isto é uma armadilha que eu não vou entrar.

Cantoras massas
Temos Elizeth Cardoso, Gal Costa, Naná Caymmi… é tão loucamente este universo que a gente se dá ao luxo de dizer: eu gosto de fulana, não gosto daquilo, o que é isso? Entende? Todos eles acusam e pronto acabou. Como hoje temos o privilégio de escolher, então pode se dizer: gosto disto e não gosto daquilo, etc. Na verdade o que rola é uma coisa só.

Compositor entendido
Um dia a Naná Caymmi chegou e falou assim para mim. “Não canto suas músicas porque sou intérprete de outra coisa”. Aí eu entendi que tinha que fazer uma música para ela e não ela cantar as minhas músicas, é claro! Aí entra o quesito compositor. Uma hora faço uma música para a Naná.

Vendo política
Ao mesmo tempo em que não existe nenhuma possibilidade para o ser humano; existem todas. E esta é a barra. Já que é assim vou fazendo o meu trabalho.

Equívocos raciais
Agora eu acho que assim: eu tô aqui no Brasil, com esta coisa de escravidão e tal, então de repente neste momento que faz 100 anos de Abolição e a capacidade desta raça está claro. Embora tenha dificuldades socialmente dizendo. Então, acho que esta parte do mundo, o Brasil, não é igual japonês, que é japonês aqui. Minhas filhas são mestiças, quer dizer, é uma coisa. Claro que há aquela coisa de preconceito, mas o Brasil é uma coisa. Rola muito… Então esta coisa de pele nasceu aqui. É uma questão de lugar, essa possibilidade de ter estas informações. Não sei, sabe? Vou partir para o genético agora? Dizer que… não vejo as coisas assim. O Pelé foi tão importante quanto Santos-Dumont. Acho isso: ambos daqui. Essa coisa transcende a cor da pele. É aquela coisa: Cartola, Clementina de Jesus e eu. Coisa de cor! O negro é isso, aquilo ou é… porque na rua a Polícia já me falou: você é preto na rua e assim é ladrão. Aí eu olhei para ele e falei: que loucura, gente… Como é que uma pessoa pode ficar tão exposta assim? Claro que o ser humano não está com nada porque se fosse legal não teria polícia, não existiria polícia. Mas eu me coloco aí: em nenhum dos dois lados. A minha marginalidade que se falou e tal é no sentido carregar esta cor. Se cada um tem uma cruz para carregar que é ser humano, eu tenho a minha, e não vou ficar reclamando. Quem é que não tem? Mas eu acho que o mais importante nesta coisa de abolição que está acontecendo neste momento, eu espero que o Gilberto Gil se torne prefeito. É complicado, é dificílimo, mas é importante porque isso é a novidade. Isso é fazer política. É um político que todo mundo sabe qual é a dele e de onde ele tira a grana e tal. De repente é um negro. No Brasil está faltando coisas assim. Já faz 100 anos que a Lei Áurea foi assinada, concretamente no dia 13 de maio de 1888.

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“O importante sobre a plataforma do Gil é que ele está dando ênfase cultural para a coisa, partindo do pressuposto que as soluções dos outros problemas decorrerão desta postura. Ele mudou o estilo do jogo. Coisa que em Salvador faz toda uma diferença porque lá se trata de uma população negra que tem uma cultura afro-brasileira integral, inteira. Tem substância. Essa experiência do Gil pode ser uma das coisas revolucionárias que nós vamos ver nesta virada do século”.

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Leminski no Pícaro, nº 17, ano IV, julho/agosto de 1988

Colocando a história nos eixos
Eu só queria acrescentar um dado sobre este papo de negritude, que é muito importante nesse ano em que se comemora 100 anos desta fajuta abolição, que na realidade foi o desemprego de toda uma raça que construiu este país e que de repente foi atirada bruscamente no desemprego, subemprego e na marginalidade. Tanto que a consciência hoje -lúcida- comemora na realidade o Quilombo dos Palmares Zumbi, em outubro, que é o dia da consciência negra, que não coincide com esse desemprego em massa que é a Lei Áurea da princesa Isabel. Mas um dado antropológico, que até uns antropólogos de direita como Gilberto Freyre, teve que admitir em certo momento, que entre as três raças que constituíram o Brasil, basicamente, sem querer fazer nenhum tipo de “flaxflu”, entre os portugueses, índios e negros existem inúmeros aspectos nas quais essas três raças o elemento sob vários aspectos superior é realmente o negro. Inclusive culturalmente, porque os negros atravessaram o Atlântico trazido nos navios negreiros aqui para a América e para o Brasil, eles representavam, vocês não imaginam, eram tipo os índios do Xingu. Os negros tinham Império na África, o Império Mãe, por exemplo, da língua Orubá. Hoje usamos inúmeras palavras portuguesas, desde axé, até os nomes dos Orixás. Até a palavra Orixá, Iemanjá, que eram verdadeiros impérios na África. com uma estrutura poética complexa, uma economia complexa, com uma agricultura complexa, e até mesmo com a alfabetização. Escreviam em árabe, em alguns desses lugares os negros eram árabes islâmicos e atravessaram escravizados o Atlântico trazendo o Corão traduzidos em linguagem Ioruba, com escrita árabe, e que eram comprados aqui no Brasil pelos Manoéis, Joaquins… que eram analfabetos: portugueses analfabetos.

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Itamar Assumpção durante a entrevista / Foto: Lailson Santos

Na área tecnológica isto também se verificava. Os negros, por exemplo, na África tinham uma longa tradição de mineração quando os bandeirantes e portugueses penetravam no Sertão, por exemplo, eles carregavam consigo escravos africanos de tribos que eram especialistas em identificação de jazidas de minério, quer dizer, os negros eram levados escravizados e conduzidos em bandeiras para serem como portadores de um “novo”, de uma tecnologia mineralógica superior aos dos portugueses, que os Fernões Dias, os Raposos Tavares, que os estavam conduzindo. Então é preciso que conte este dado, por exemplo, digamos que o estoque humano de negros que vieram para o Brasil era de alta categoria, não apenas fisicamente, porque já foram trazidos porque eram espécies físicas -tanto homens quanto mulheres- superior em inúmeros aspectos. Mas eles davam mostra desta sua sobrevivência nas agruras da travessia de um oceano dentro de um navio negreiro e aqui no Brasil o duro trabalho agrícola, que o índio não fazia e não sabia fazer. O índio era uma coisa entre a capivara e o boia-fria em nível mental e intelectual, quer dizer, o negro realmente era o elemento superior. Então é necessário resgatar toda a grandeza, inclusive cultural e física da presença do negro aqui no Brasil. O negro no Brasil é inferior porque é socialmente inferiorizado.

Diferença entre disco independente e comercial
A única diferença é que agora assinei contrato com uma gravadora, onde meu trabalho, que todo já sabe como é que é, vai ser negociado, vai ser divulgado, não vai ser como um disco independente que você não sabe onde tem que ir para comprar. Se tiver um marcado de 50 mil pessoas que compram o disco, já é muito sucesso para mim. Não mereço tanto. Acho demais da conta porque além de ter uma preocupação artística vende. A banda é a mesma que me acompanha há cinco anos: Isca de Polícia. Neste disco pude convidar a Tetê Spindola, a Alzira e a Neusa Pinheiro. Não pretendo ser sucesso com este disco e nem é o disco da minha vida, é o meu quarto disco, mas o primeiro por uma gravadora comercial feito em estúdio de 24 canais, onde os recursos são outros.

Arte em pauta
Fui convidado para fazer o filme Anjo da Noite, de Wilson Barros, e País dos Tenentes, de João Batista de Andrade, mas como eu estava enfiado de música até aqui, eu não pude aceitar. Ou fazia cinema/teatro ou parava com a música. Mas quero fazer uma peça com a Miriam Muniz, é um projeto. Viajo bastante…

Traduzindo para o mundo
Quando estou indo para fora, não vou cantar uma traduçãozinha, vou cantar minhas músicas com uma poesia equivalente. Quem pode fazer isso? Um poeta tradutor que conhece, que é artista e é um compositor. O Leminski não fala isso, mas estou interpretando neste disco uma música dele que se chama Santa Maria. Estou tranquilo quanto à possibilidade de cantar em alemão, inglês…

Pondo pingo nos is
Sou filho de pai de santo. Para você ser pai de santo tem que fazer a cabeça e eu fiz a minha cabeça. Meu pai chegava numa cidade e abria um terreiro. Uma das entidades dele como médium que dava consulta era Zé Pilantra -uma entidade tida como de esquerda. Zé Pilantra -malandro- ele não é Exu no sentido de tranca rua, é um malandro, não é bandido que mata, ele apenas vive numa boa. É tida como uma entidade de esquerda dentro da pomba gira.

Agora entenda
Não sou médium, não virei médium, mas todas as noites eu recebo espírito nos palcos. Todo dia é música de cima em baixo, quer dizer, faço qualquer coisa para a música. Sou o cavalo da música. Sou médium musical, não estou sendo teórico, sou filho de Kariscã, nasci em um terreiro e tenho uma mediunidade.

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Itamar lendo o Pícaro / Foto: Lailson Santos

Paulo Leminski interpreta Itamar II
“O pós-tudo é tudo. Não existem hoje espaços para movimentos fechados como foi à Bossa nova. A própria atomização da sociedade brasileira provoca uma atomização da produção artística brasileira, porque mais de 70% da população brasileira é urbana, ou suburbana. O campo no Brasil hoje não passa de uma sociedade, uma memória. O planeta vai acabar se transformando numa grande cidade. Nós estamos vivendo num mundo de íntimos desconhecidos, esse íntimo desconhecido -o mundo urbano- é um mundo atomizado, quer dizer, somos condenados. Nós estamos num processo de urbanização e esse é um processo de individualização extrema. Estamos reduzidos a sermos nós mesmos. Então, no plano artístico, não há mais lugar para movimentos e sim só há lugares para pessoas, experiências altamente singulares, como é a experiência de Itamar Assumpção.

O que você pensa disto Pícaro?”. ●

N. do A. – Participou nesta entrevista Paulo Leminski, poeta, jornalista e tradutor.

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em julho de 1988.

*Itamar Assumpção morreu em junho de 2003 em São Paulo, Brasil.

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Itamar Assumpção no jornal Pícaro em julho de 1988

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30) ELVIS COSTELLO: Cantor, compositor e músico

“ODEIO CONCEDER ENTREVISTA”

por Jairo Máximo

Elvis Costello (Paddington, Londres, Inglaterra, 1954) Cantor, compositor e músico. Nasceu com o nome Declan Patrick MacManus que trocou em homenagem a Elvis Presley, o rei do rock.Está considerado como um dos compositores mais lúcidos do pop inglês. Sua música admite passeios entre o country ou o jazz, sem perder a qualidade. Já foi qualificado como o rei da new wave, depois rei da América. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Somente faço o que mais gosto de fazer: música”.

Revelação
Odeio conceder entrevista ―tanto entrevista exclusiva como coletiva― como também odeio a imprensa musical, os ingleses e em particular os londrinos. Minha meta é e será sempre a de fazer música.

Primeiros acordes históricos
No final do ano de 1976, Jake Rivera buscava talentos para a Stiff Records, sua nova companhia discográfica independente. Numa típica tarde cinza de Londres recebeu a visita de um jovem de 22 anos chamado Declan Macmanus. Depois de ouvir sua primeira gravação caseira, imediatamente colocou sobre a mesa um contrato de trabalho para o jovem assinar, mas com uma única condição: mudar de nome. E assim nasceu Elvis Costello, a anti estrela do pop, que com seu primeiro compacto simples titulado Less Than Zero, mudou a estrutura musical inglesa. Atualmente conta com mais ou menos 17 LPs gravados, porque dependendo das enciclopédias musicais consultadas.

A Barra de começar
O início da minha carreira musical foi muito difícil. Você quer expressar seu ponto de vista, de uma forma rude, agressiva, mas isto não quer dizer que seu caráter seja agressivo, pois o meu caráter é o mesmo de 10 atrás. A minha meta foi e será a de se sempre fazer música.

Tenho orgulho…
Meus discos tocam como sendo feitos por uma pessoa de 22/23 anos. São músicas que tocam hoje em dia, mas que na verdade têm 10/15 anos. Enfim, os discos estão aí e eu estou muito orgulhoso deles.

Unidade musical
Não vejo unidade, conexão musical entre meus discos. Algumas coisas, às vezes, trabalho de novo. No entanto, não creio que exista uma unidade musical em meu trabalho.

Disco e ao vivo
O disco gravado é uma coisa, quanto que no palco sou eu e mais cinco músicos. Tem gente que gosta mais do disco do que do show. Acredito que minha música é distinta entre o disco e o show. O disco se ouve meses e meses e o show é direto, tête à tête com o público.

Emoção do ao vivo
Para cada concerto que realizo faço uma programação distinta. Mas isso sempre depende cada vez mais do público. Na verdade, traduzo na minha emoção musical a vibração que recebo daquela massa.

Arqueologia musical
Em nenhum momento se deve fazer arqueologia para definir a música. Você pode usar o passado para renovar, sem ter que fazer arqueologia.

Estrangeiro na pátria
Sinto-me estrangeiro na Irlanda e por isso mesmo eu não me sinto afetado pelo conservadorismo inglês. Por outro lado, sou descendente de irlandeses, sendo assim, a coisa do conservadorismo católico irlandês não me afeta. O que eu prefiro ser é ser humano.

Not às Entrevistas
Esta rápida entrevista exclusiva que concedo para você é a primeira nestes últimos 10 anos. Odeio conceder entrevista. Um dia tomei a decisão de não conceder mais entrevista coletiva ou exclusiva em nenhum lugar do mundo. Por quê? Porque tem gente que fala da minha música sem conhecê-la ou mesmo nunca ter ouvido meu trabalho. Isso é lamentável. Foi uma decisão consciente.

Ah, a crítica musical inglesa é…
Na Inglaterra a música é cínica. Os críticos dizem que minha música tem muita nota e poesia. Que pensar? Normalmente, na Inglaterra, um artista tenta fazer carreira difamando outro artista. Este artista sempre está pendente do que a imprensa inglesa tem a dizer. Pessoalmente prefiro não falar de mim mesmo e não quero que minhas declarações sejam mal entendidas. Em síntese, mando para a puta que o pariu a crítica.

Odeio inglês de Londres
Mesmo tendo nascido em Londres, odeio todos os ingleses, de uma forma individual. Londres é o lugar mais badalado da Europa, devido ao governo de antes e de agora. Viajo constantemente por toda a Europa e Londres, comparado com o resto da Inglaterra, é o pior lugar.

Rosa fresca
Eu nunca me senti cansado de ser compositor e cantor. Sempre existe gente que está a sua volta, e desta situação a gente encontra a coisa interessante que impulsiona à criatividade. ●

• Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi realizada para a revista Animal de São Paulo em novembro de 1990.

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26) CAETANO VELOSO E GILBERTO GIL: Músicos

“NÓS MESMOS LEVAMOS O LEGADO DO TROPICALISMO”

por Jairo Máximo

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Caetano Veloso e Gilberto Gil em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Caetano Veloso (Santo Amaro da Purificação, Salvador, Brasil, 1942) e Gilberto Gil (Salvador, Brasil, 1942) Músicos. Nos anos sesenta do século XX lideram o movimento cultural e libertário denominado Tropicália, que além da música, englobava teatro, cinema, literatura e artes plásticas. Seu lema era Proibido Proibir, tanto na música como na política. Foi a grande ruptura dentro da tradição musical brasileira desde a bossa nova, que era a corrente dominante na Música Popular Brasileira daquele momento. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirman: “Arnaldo Antunes é uma das melhores coisas brasileiras que aconteceu na MPB nas últimas décadas”.

Que pretendem com o disco Tropicália 2?
Em este novo disco conjunto Tropicália 2 ― comemoramos os 25 anos do Tropicalismo, movimento cultural cujo marco foi o disco manifesto Tropicália ou Panis et circenses (1968)―, onde participamos conjuntamente com a vanguarda jovem daquele momento: Gal Costa, Nara Leão, Rogério Duprat, Tom Zé, Torquato Neto e os Mutantes.

Gil e Caetano durante show

Caetano Veloso e Gilberto Gil  em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Para não perder o fio da meada…

Neste disco conjunto Tropicália 2 eles, com maestria, homenageiam a música e a cultura brasileira sem esquecer suas referências universais. Evocam, tanto nas letras como nas melodias, a tradição que fez possível o movimento do tropicalismo, assim como os movimentos artísticos que floresceram junto ao ideal tropicalista e a ampla repercussão que teve este movimento na cultura brasileira. A vinheta Rap Popcreto sintetiza esta tripla homenagem que se faz ouvir por todo o disco. É a música mais arriscada do disco, de uma vigor juvenil. Numa colagem sampleada desfilam as vozes e sonoridades de uma ampla gama de músicos brasileiros, anteriores e posteriores ao tropicalismo. O título e o caráter experimental reivindicam a poesia concreta, projeto vanguardista liderado por Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, que também romperam barreiras nos anos cinquenta e sesenta, e que influiu fortemente Caetano Veloso e tantos outros.

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Gilberto Gil em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Histórico Proibido Proibir
O tropicalismo conseguiu revitalizar a música do Brasil, respeitando as formas tradicionais e autônomas e valorizando suas senhas de identidade cultural, mas assimilando, ao mesmo tempo, a cultura.
internacional contemporânea. Retomando o ideal antropofágico do poeta vanguardista Oswald de Andrade de aceitar o dado estrangeiro, mas sem submissão, devorando-o e misturando-o com o dado nacional, o tropicalismo revisou as bases da MPB e não houve volta atrás. Relacionado com outros movimentos de caráter estético-cultural dos anos 60 como a poesia concreta, o cinema novo, o teatro oficina, a bossa nova e a contracultura, o tropicalismo, em um impulso sem precedentes na MPB, colocaram no mesmo liquidificador dados de diferentes procedências: o popular e o culto, o rural e o urbano, o estrangeiro e o nacional, o lírico e o comprometido socialmente às antigas e novas formas de composição. Respirava-se um clima de vanguarda, mas sem que houvesse uma ruptura radical com a tradição e sim uma reciclagem contemporizadora desta mesma tradição. Prova disto, no disco Tropicália 2 é a reverência à tradição musical brasileira em músicas como Desde que o Samba é Samba, onde Caetano canta:

O samba é pai do prazer,
o samba é filho da dor,
o grande poder transformador.

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Caetano Veloso em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

No começo houve uma forte negação da crítica paulista, que se ofendeu com o uso de instrumentos eletrônicos na renovação dos ritmos tradicionais e com o questionamento a fundo da realidade nacional nas letras e músicas e nas declarações de Caetano, Gil e demais companheiros. Mas esta negação elitista ficou desacreditada pelo grande acolhida popular que teve o tropicalismo e as suas conquistas que, hoje em dia, já estão assimiladas e incorporadas ao acervo musical brasileiro e internacional. Mas, na verdade, nem tudo foram flores, pois o país atravessava o momento mais duro da ditadura militar vigente desde 1964. Divulgar os ideais da cultura mestiça custou a Caetano e Gilberto Gil o silêncio oficial sobre suas obras, a cadeia e um breve exílio em Londres a partir de 1969, deixando uma grande quantidade de músicas, entre elas Divino Maravilhoso, Alegria, Alegria e Soy Loco por ti América, hinos de toda uma geração. Na cadeia Caetano Veloso compôs Terra, uma declaração de amor a nosso planeta motivado pelas primeiras fotos de sua musa desde o espaço sideral. Deste tema, fez uma versão seu amigo o espanhol Santiago Auserón, que gravou junto à Rádio Futura com o título de Tierra. Antes de se mudar para Londres,

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Caetano Veloso em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Gilberto Gil compôs o samba Aquele Abraço, já naquela época um clássico, onde se despede com alegria do Rio de Janeiro, sua cidade de adoção. Em sua estância londrina estes jovens brasileiros aproveitaram para conhecer a fundo o cenário musical inglês, pelo qual se deixaram influir. Caetano gravou dois discos, nos quais se incluem letras em inglês e versões dos Beatles e colaborou regularmente com o semanário Pasquim, a mais combativa publicação independente que havia naquele momento no Brasil. Enquanto isso, Gil depurou a técnica do violão, gravou um disco em inglês e se apaixonou pela música de Jimy Hendrix, de quem, 25 anos depois, faria a versão de Wait Until Tomorrow no disco Tropicália 2, com Caetano Veloso.

Ainda que ausentes do seu país ali já estavam criadas a lenda em torno deles e as músicas, textos e declarações polêmicas divulgadas principalmente pela imprensa independente brasileira. Em 1972 retornaram ao Brasil, quando Caetano, referindo-se ao fim da fase heroica do movimento tropicalista, declara sem remorso: O tropicalismo foi uma árvore de mil frutas. Esta década abriu caminho para que eles e outros novos cultivassem os campos tremendamente férteis, ainda não esgotados, criados por este movimento. O jovem músico Arnaldo Antunes é um bom exemplo disto, uma autêntica promessa. Atualmente, Caetano Veloso é reconhecido como um poeta que, com sua música, cumpre uma função social no Brasil, sempre esteve na linha de frente lutando, tocando e criando. Gilberto Gil domina todos os ritmos do Brasil e todos os estilos que lhe interessam: rock, reggae, funk, salsa, africanidades e outros.

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Gilberto Gil em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Realidade atual em foco
No Tropicália 2 Caetano e Gil não se esquecem da dura realidade atual. Haiti, por exemplo, não faz concessões na sua crítica direta de alguns acontecimentos recentes:

E o venerado cardeal que vê muito espírito no feto e nenhum no marginal (…) E quando for dar uma volta pelo Caribe
E trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente
no bloqueio a Cuba, pense no Haiti, reze pelo Haiti.

Na música Cada Macaco no seu Galho, um tema clássico com uma inovadora versão, e com ironia, dão uma leitura contemporânea:

Cada macaco no seu galho
Não me canso de dizer.
Meu galho está na Bahia, o seu em outro lugar.

Ao regravar esta música eles fazem uma sutil crítica a alguns músicos estrangeiros, como Paul Simon, que vão ao Brasil se embebedar de suas sonoridades e seus ritmos para depois lançarem seus discos com matizes e colaborações locais, mas muitas vezes de uma maneira estereotipada e com embalagens medíocres, onde o dado brasileiro não passa de algo exótico, sem transcendência. A atual MPB, neste começo dos anos 90, conta com o aval de figuras do cenário musical como Peter Gabriel, Ryuichi Sakamoto, Quincy Jones, Arto Lindsay, John Zorn, Jon Anderson, James Taylor, Paco de Lucia, Santiago Auserón, e Pat Metheny, que chegou a dizer que: “O Brasil é o único lugar do mundo onde a música pop de todos os dias é harmônica e ritmicamente sofisticada”.

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Gilberto Gil em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Outros nomes da Tropicália
Outros nomes de vital importância do tropicalismo e dos movimentos que girava em torno deles foram: o poeta Torquato Neto, o artista plástico Hélio Oiticica e o cineasta Glauber Rocha. O poeta Torquato Neto era também letrista e jornalista. Foi coautor com Gilberto Gil de músicas de grandes êxitos como Geleia Geral, Soy Loco por ti América e Deus nos Salve esta Casa Santa. Geleia Geral era também o nome de uma polêmica coluna jornalística dirigida por Torquato, que defendia tanto o tropicalismo como a poesia concreta, propunha uma poesia total, que valorizasse por igual os aspectos verbais, auditivos e visuais da linguagem. A poética de Torquato tinha um matiz experimental no que se refere ao conteúdo. Estava muito influenciada por Ezra Pound e também evidenciava uma grande preocupação social com seu tempo. Legítimo poeta maldito, seu espírito inquieto lhe levou ao suicídio ainda jovem. “Os Últimos Dias de Paupéria” é o seu único livro de poemas, de edição póstuma, cuja introdução é do poeta concreto Augusto de Campos. Deixou para a posteridade uma obra pequena e incompleta, mas de grande talento e de muita influência posteriormente. É reconhecido como o pai da chamada poesia marginal dos anos 70. Outro ativista desta época foi o artista plástico Hélio Oiticica, uma figura praticamente desconhecida no cenário artístico ocidental, cuja maior atividade criativa se desenvolveu no Rio de Janeiro, salvo esporádicas estâncias em Nova York e Londres, onde expôs na famosa galeria Whitechapel em 1969. Suas obras estavam carregadas de efeitos estéticos, da realidade mais próxima ao subdesenvolvimento brasileiro, da interação de diferentes artes, do conceito de liberdade e uma visão global mais existencialista. A máxima deste homossexual e cocainômano declarado era: seja marginal, seja herói. Oiticica acreditava que o Brasil é um país condenado à modernidade: só nos resta à invenção e que, todo esforço de um criador tem seu lado marginal. É uma coisa que nunca está do lado do status quo. No começo dos anos 90, a Fundação Antoni Tàpies, de Barcelona, lhe dedicou uma exposição.

Cinema Novo pra vocês
Paralelamente ao tropicalismo se desenvolveu o cinema novo liderado pelo polêmico cineasta Glauber Rocha, que deixou importantes filmes, atualmente considerado de culto no Brasil e além-fronteiras: Barravento (1962), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967, prêmio da crítica de Cannes e prêmio Luis Buñuel concedido pela crítica espanhola), O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969, prêmio de melhor direção em Cannes e prêmio Luiz Buñuel), Cabeças Cortadas (1970, produção hispano-brasileira filmada em Barcelona) são alguns deles. Glauber fazia um cinema hiper-lúcido, vital e comprometido com a realidade social brasileira. O tropicalismo deve seu pensamento à obra cinematográfica de Glauber e de seus companheiros, tanto que, Caetano e Gil em Tropicália 2 gravaram um tema chamado Cinema Novo onde declaram: “As imagens deste cinema entraram nas palavras das canções”.

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Caetano Veloso e Gilberto Gil em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

E AGORA QUEM?

Tarde de verão em Madri. Muralha Árabe. Caetano Veloso e o Gilberto Gil me falam do futuro da MPB. E a estrela é… Arnaldo Antunes, em boa parte um filho do tropicalismo, de quem eles gravaram a música, As Coisas, em Tropicália 2.

Quem vai pegar o legado do tropicalismo, 25 anos depois?
Caetano: Nós mesmos. Eu, o Gil, a Gal Costa e o Tom Zé que está de volta.

E o Arnaldo Antunes chegará dentro de 10 anos a ter a mesma notoriedade que vocês conquistaram?
Caetano: Arnaldo Antunes é uma das melhores coisas brasileiras que aconteceu na MPB nas últimas décadas.

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Arnaldo Antunes em São Paulo / Foto: Lailson Santos

E ele traz incorporados a poesia concreta e o tropicalismo em seu trabalho…
Caetano: Sim. E também traz seu próprio dado pessoal.

Gil, o que você pensa do Arnaldo Antunes?
Gil: Ele traz consigo a poesia concreta, o tropicalismo e o rock brasileiro. Além disso, é uma inteligência que somente se encontra nos melhores momentos dos grandes movimentos intelectuais, literários e artísticos do Brasil. Seu trabalho é profundo, fundamentado e prometedor.

Ele traduz, ao mesmo tempo, a faceta urbana de São Paulo e a do Brasil mais remoto?
Gil: Sim. São Paulo é tudo isto e mais. Todas as manifestações culturais de São Paulo, principalmente nos últimos anos, são provas do poder de aglutinação que exerce esta cidade com relação ao Brasil. E Arnaldo Antunes é como é São Paulo. O melhor do Brasil -o samba, Dorival Caymmi, Bahia etc.- está na sua cabeça. E também a poesia concreta, os irmãos Campos, todas as experiências do saudoso Paulo Leminski e seus seguidores, as correntes neo-moderrnistas, João Cabral de Melo Neto, a tradição etc. Ele está realizando um trabalho inédito no Brasil, de multimídia, misturando música e poesia visual em diferentes suportes: disco, vídeo e livro. ●

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Caetano Veloso  e Gilberto Gil durante a entrevista / Foto: Gonzalo Quitral

• Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi realizada para a agência Radial Press e Staff de Madri em agosto de 1994.

 

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Música

25) PACO CLAVEL: Show man, cantor e artista plástico

“O MISTÉRIO É CONECTAR COM O PÚBLICO”

por Jairo Máximo

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Paco Clavel em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Francisco Miñarro López, Paco Clavel, (Iznatoraf, Jaén, Espanha, anos 50) Show man, cantor e artista plástico. Seus espetáculos de cabaré revelam ser um entretimento seguro e carregado de uma feroz sátira política e cultural. É um ícone da conhecida movida madrilenha, um movimento contracultural que surgiu em Madri durante os primeiros anos da transição espanhola, que se prolongou até final dos anos oitenta. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Tenho um sentido lúdico e divertido de mim mesmo e daquilo que me rodeia”.

Imaginação
Tento ser imaginativo comigo mesmo e isto me dá espaço para que cada dia seja um pouco diferente e sobre tudo a criar mundos.

Começa o Espetáculo…
Acabo de lançar meu esperado disco Crute-duets. Neste trabalho reúno alguns dos meus melhores amigos, entre Pedro Almodóvar, Carlos Berlanga, Alaska, Susana Estrada e outros artistas para cantar o que eles gostam, e nada mais…

Do seu ponto de vista, quem é quem na Espanha desta breve lista: Mário Conde (banqueiro, ex-presidente do Banesto), Jordi Pujol (político), Narcís Serra (político), Julio Anguita (político), Julio Iglesias (cantor), Lola Flores (cantora), Alaska (cantora), José Ribas (jornalista e editor), Luz Casal (cantora), Pedro Almodóvar (cineasta), Os Berlanga (pai cineasta e filho músico), Antena 3 de Televisão, Televisão Espanhola e Luis Roldán (policial, diretor da Policia Civil, entre 1986-1993).
Mário Conde: um globo cheio de ar, que levou assim por assim, a La chita callando, e agora viu que acontece o que está acontecendo, pois um homem quando trabalha ganha, no mínimo, um salário… O que é impensável é que um senhor, de repente, do dia para a noite, o presidente do Banesto embolse uma fortuna. Aqui tem gato preso, aqui tem gato preso…
Jordi Pujol: político que sempre defende o seu lado.
Narcís Serra: o vice-presidente? Bem… sempre quando o vejo tenho a impressão de que estou vendo um cômico.
Julio Anguita: um intelectual político arabesco.
Julio Iglesias: um triunfador fora da Espanha, mas um homem molinho.
Lola Flores: é a raça e o poderio.
Alaska: foi a renovação de uma etapa da Espanha, que neste momento está mais madura e mais ativa.
José Ribas: a revista Ajo Blanco foi sempre um mito da imprensa marginal e uma alternativa. Considero Ribas um homem de grande validez, mas os tempos mudaram e com os tempos mudaram um pouco as coisas, quem sabe tudo o que tinha esta revista era carne viva. Em minha opinião atualmente está mais light, menos incisiva que antes.
Luis Casal: uma grande profissional e uma grande bolerista.
Pedro Almodóvar: foi também a transformação juntamente com Alaska e mais um monte de gente da Espanha franquista à Espanha democrática. Além disso, Almodóvar é um renovador no mundo do cinema. Sou seu fã.
“Los” Berlanga: parecem-me uma maravilha dentro do cinema espanhol. O pai é todo um mito. Por outro lado, seu filho Carlos Berlanga foi um dos pioneiros do punk espanhol, em companhia de Kaka de Luxe e Los Pegamoides e é um grande compositor.
Antena 3, TVE-1 e Tele-5: a Una é como uma grande senhora que pode ter suas falhas, suas saídas de mãe. Penso que como alternativa agora quem está dando um pouco de malho é Antena-3, pois a Tele-5 é horrível…
Luis Roldán: o ex-diretor da Guarda Civil é o grande ladrão espanhol. Tem muita imaginação para fazer o que fez sem que ninguém percebesse durante oito anos.

Quem você considera que é a mais bela e o mais belo da Espanha?
Creio que pela forma ambígua e por tudo que significou é Bibiana Fernández, que é uma grande beleza. Do mais belo é Manuel Banderas, não o Antonio Banderas e sim o Manuel que fez o filme Las cosas del querer.

Quem são os mais feios e mais feias da Espanha?
Feios para mim são todos aqueles que se dedicam à política, como pode ser o presidente da generalitat da Catalunha, Jordi Pujol ou Juan Alberto Belloch, o atual ministro da Justiça e do Interior. Existem tantas feias neste país que não sei quem poderia citar, mas acredito que a folclórica Marujita Díaz é um bom exemplo, como também qualquer uma das atuais ministras.

Na noite madrilena de hoje, 1995, quem brilha mais no mundo underground?
Vejo como uma coisa vazia, onde as coisas estão escondidas, mas sempre existe gente que está fazendo coisas interessantes e que não são precisamente os que saem nos meios de comunicação, evidentemente. Sabemos que as coisas que saem nos meios de comunicação estão bastante estudadas e que não te oferecem nenhuma alternativa nem é novo, nem te diz nada. O que está saindo agora à superfície e que está muito off-off são as performances e os teatros alternativos que estão nos lugares pequenos e onde podemos encontrar verdadeiras joias.

Em sua opinião o que acontece de mais novo nas ruas de Madri de hoje em dia?
A miscigenação racial e cultural é o mais interessante e isto é o que mais incomoda o estado implantado… Hoje existe muito racismo, na Europa, inclusive em Madri, Barcelona, Valência, ou seja, na Espanha inteira. Entretanto a mistura enriquece uma sociedade e pode ser uma alternativa de convivência social com gente que pode aportar muitíssimo.

O que tem a dizer às pessoas que não podem desfrutar dos seus shows, mas podem comprar seus discos?
Não sei quem disse uma vez que a Espanha es un gran pueblo [uma grande cidade provinciana]. Acredito que cada vez mais vai se unificando o que é povo e o que é grande cidade, a capital. Já não existem tantas diferenças como antes. As pessoas mais ou menos se vestem igual.

Existe hoje em dia um político espanhol que vale que uma peseta?
O mundo político, ainda que você não queira estar aí, mas eu sou um pouco partidário da ação libertária e da autogestão. De coração sou anarquista, quero dizer que é por este caminho que vão as coisas.Placo Clavel

Todas as vezes que sai em cena consideras que é um momento único?
Em cada sessão você se sente de uma maneira. O mistério é conectar com o público.

Dos antigos cantores espanhóis quais são os que mais te atraem?
Sem dúvida, entre eles e elas fico com Antonio Molina, tanto pelo jeito de cantar como por suas músicas.

E dos modernos quem está fazendo algo interessante?
Gosto muito de umas mulheres que tem um gosto maravilhoso, umas letras fantásticas e que cantam muito bem, mas não são reconhecidas ainda, tal como são elas. Falo de Vainica Doble.

No seu disco Cutre-Duets encontramos reunidos a crème de la crème da música e cultura deste país. Qual é o ponto de conexão entre vocês?
O ponto de conexão é que cada um é tão diferente em seu gênero, sua maneira de ser… mas o que nos une é que artisticamente saímos na mesma época e foi como uma explosão de cor e imaginação. Isso te fazia conectar com cada um deles ainda que as pessoas fossem bastante diferentes e, sobretudo foi à diversão, a vontade de divertir, a vontade de rir e vontade de fazer coisas, ainda que nestes momentos tivéssemos tantas ideias como temos agora mesmo ou que ainda não fossemos profissionais. Tinha esta força que é a de fazer as coisas, estar ativo, mas fazer coisas que divertissem a você mesmo e divertissem também o público. Isto foi a etapa dos anos 80. Não sou nostálgico, mas foi uma época imaginativa e uma etapa de muita cor. A nível pessoal somos antigos amigos, mesmo que a gente se não se veja todos os dias, mas estamos sempre em sintonia.

Se eu te encomendasse a realização de um espetáculo de cabaré com estes personagens públicos: Mariano Rubio (banqueiro), Mário Conde (ex-banqueiro acusado de roubo, estafa e falsificação de documentos) e Luis Roldán (ex-diretor da Policia Civil, acusado de falsificação e roubo), qual seria o nome deste festejado espetáculo?
Três eram as filhas de Helena ou Bons de dia, ladrões de noite.

Se te pedisse para enviar um fax pedindo um presente para a atual ministra da Cultura, Carmen Alborch, o que pediria?
Pediria uma caixa de pinturas de maquiagem…●

• Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi realizada para a Agência Staff de Madri em janeiro em 1995.

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Música

14) ARNALDO ANTUNES: Músico, poeta e video-artista

“CRIAR UM TERRITÓRIO ARTÍSTICO COMUM É ENRIQUECEDOR”

por Jairo Máximo

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Arnaldo Antunes em São Paulo / Foto: Lailson Santos

Arnaldo Antunes (São Paulo, Brasil, 1960) Músico, poeta e video-artista. Em 1983 lançou seu primeiro livro Ou é. Em 92 se afastou da mais importante banda de rock brasileira, Titãs, à qual pertenceu desde sua fundação, e começou sua carreira solitária. Em 93 lança seu primeiro disco, Nome, acompanhado de um vídeo e um livro que compõem um projeto multimídia de poesia, música e animação. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “A música popular brasileira é uma das importantes referências da cultura brasileira”.

Quais são suas influências artísticas?
Muitas! O degrau entre as linguagens artísticas também se dá quanto à influência. Nunca fui sectário. Procuro os artistas mais especiais dentro de cada modalidade, sem me preocupar muito com a modalidade em si.

Em 1999 você participou na Casa da América de Madri de um ciclo de conferências que tinham o objetivo de aproximar diversos artistas ibero-americanos de diversas modalidades. Entre os participantes estavam José Saramago, Gabriel García Márquez e o músico espanhol Kiko Veneno. Que conclusão tirou daqueles encontros?
Sempre é enriquecedor saber que se pode criar um território comum de afinidades artísticas.

Considera que seu primeiro concerto na Espanha em 2000, no festival La Mar de Músicas, de Cartagena, abriu uma porta para que conheçam sua obra neste país?
Foi uma semente que plantamos. Além disso, o público gostou do nosso show, e a crítica especializada espanhola foi bastante positiva. Minha prioridade é fazer show.

Chico César declarou em 1998 para o diário El País, em Madri que: A música brasileira não é só diversão. Funciona como a embaixadora oficial do povo. É assim?
A música popular brasileira é uma das importantes referências da cultura brasileira. Ela é poderosa, tanto dentro como fora do país. Atualmente podemos constatar sua intensa penetração no mundo.

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Arnaldo Antunes em São Paulo / Foto: Lailson Santos

Que pensa da Tropicália, ainda não assimilada no mundo?
Que foi um movimento importante que deixou seus frutos, entrou na corrente sanguínea da cultura brasileira, e que está sendo reconhecida com atraso no mundo. Mas hoje em dia a ideia de movimento é pouco provável. Não existe possibilidade nem cultural nem social.

O cantor norte-americano Beck, gravou, em 1998, o disco Mutations, inspirado na Tropicália. E inclusive fez uma música chamada Tropicália. A Tropicália merece?
Conheço o Beck e acredito que entre os novos talentos de rock que surgiram nos últimos anos, ele é uma das coisas mais interessantes. Penso que tem uma paixão pela música popular brasileira, e isto se reflete como um dos elementos sugestivos da sua música. Diversos artistas do mundo acabam incorporando muitos elementos da música brasileira em seus trabalhos.

Em 1999 você compôs e gravou a trilha sonora do espetáculo de dança O Corpo, do grupo brasileiro Corpo. Aceitaria este desafio de uma companhia europeia?
Foi um prazer realizar este trabalho. Gostaria de fazer outros. É um terreno de experimentação fértil. Evidentemente que é um trabalho que ocupa muito tempo. Espero tê-lo.

Gostaria de trabalhar em parceria com algum músico ou artista espanhol?
Isso pode acontecer, mas atualmente não está em andamento. Nas últimas visitas que fiz a Espanha comprei discos de Camarón de la Isla, Enrique Morente, Kiko Veneno e outros que me parecem interessantes.

Fale um pouco do movimento poético denominado Poesia Concreta que nasceu no Brasil nos anos cinquenta, que depois se expandiu pelo mundo todo.
A poesia concreta estava centralizada no grupo Noigrandes, formado basicamente por Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Buscava uma interação material da palavra na sua dimensão visual e sonora. Foi um momento bastante especial dentro da tradição literária brasileira, e não somente literária, mas também das artes visuais e da música no Brasil, que contaminou outras áreas. Tenho grande afinidade com as obras dos poetas concretos.

No disco de Marisa Monte Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, de 2000, você recita no meio da música Amor I Love You, um fragmento do texto da novela Primo Basílio*, do português Eça de Queiroz, escrito em 1878. Fale desta associação música+literatura declamada.
Gosto muito de trabalhar com Marisa Monte. E com relação à música Amor I love you, que é uma coautoria da Marisa e Carlinhos Brown, ela me convidou para fazer uma colaboração especial recitando este texto que entrou na música como uma referência, um discurso falado, como se em vez de colocar um solo de guitarra, se colocasse um solo verbal. E o resultado foi satisfatório. Quando ouço que uma rádio comercial programa esta música, com o Eça de Queiroz lido desta maneira, considero que tem um trânsito entre repertórios -entre o alto e o baixo repertório, entre o popular e o intelectual. Essa música foi um grande êxito sonoro no Brasil. Muitas pessoas sabem de memória este texto.

Gosta da palavra?
Em tudo o que faço existe um eixo comum que é o trabalho com a palavra em si, seja a palavra cantada, falada, associada à materialidade gráfica, seja a palavra transformada em uma instalação, seja a palavra emitida em um vídeo com movimentos. Este trânsito entre as linguagens se dá pela utilização mesma da palavra.

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Arnaldo Antunes em São Paulo / Foto: Lailson Santos

Você é um artista brasileiro que escreve poesia, declama, compõe músicas, canta e escreve. Como é ser assim no Brasil, onde a cultura é setorizada, além de estar controlada pelo mercado?
Isto é complicado em qualquer país, mas no Brasil é mais ainda. Esta cobrança constante da especialização é um resquício da mentalidade do século passado, que persiste apesar de todos os sintomas de modernidade e interação dos sentidos que vem ocorrendo no mundo. Isto tem sempre aquele olhar: música para ouvir, artes plásticas para ver, poesia para ler… E as pessoas querem misturar. Considero que atualmente podemos constatar que esta interação é possível.

Tradição não é criação, ou sim?
(risos) Nós criamos nossa tradição por meio das eleições que fazemos com a renovação do nosso olhar sobre as coisas. ●

*PRIMO BASÍLIO
(Eça de Queiróz)

(…)Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista El Siglo de Europa e no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) em julho de 2003.

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Arnaldo Antunes na revista espanhola El Siglo de Europa em julho de 2003

 

 

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Música

9) EDU LOBO: Cantor e compositor

“VOU ATRÁS DA MINHA MÚSICA”

por Jairo Máximo

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Edu Lobo em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Edu Lobo (Rio de Janeiro, Brasil, 1944) Cantor e compositor. Gravou seu primeiro disco em 1965. Suas composições são interpretadas e gravadas pelos mais importantes músicos brasileiros. Também toca, escreve e compõe trilha sonora para cinema e balé. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Quase tudo que penso na minha vida é compor”.

Um LáSiDó para Ler
Lá: Sou um carioca atípico; sou carioca pernambucano. Meus pais eram do Pernambuco. Eu nasci no Rio de Janeiro por acaso. Tenho o Nordeste no sangue, na alma e na música. Passei todas as minhas férias -infantis e juvenis- no Recife. Praticamente morei no Recife. Aquela terra era o paraíso.

Si: Comecei a trabalhar no início dos anos 60 e o meu primeiro disco saiu em 1965. Esta geração, que é a minha, do Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Chico Buarque, Milton Nascimento e de tantos outros, tinha acesso mais fácil… Bastava você fazer alguma coisa interessante que tinha um cara na gravadora que contratava. Eu tenho um filho de 30 anos que é músico. Sei o que ele procura e o que tem que fazer. Mas é tudo diferente. Mudou tudo!

Dó: Teve um momento determinado -antes das eleições de 2002- em que o Lula começou a ser endeusado. Estava virando Padre Cícero, o milagreiro. E ele não é um santo…

Por que você faz música?
Necessito fazer música! Vou atrás da minha música. E você por que escreve?

Escrevo para informar com precisão. É visceral! Por que?
E você pensa em quem vai ler? Olha, recentemente li um livro de ensaio maravilhoso do Jorge Luis Borges que dizia uma coisa genial: Eu prefiro ser leitor a ser escritor. Como leitor tenho todo o poder do mundo. Leio a quem quero. Como escritor me torturo porque só posso escrever da minha maneira e estou sempre auto-exigindo. Isso faz parte da vida artística. É o sofrimento de fazer o que é preciso fazer.

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Edu Lobo em Madri / Foto: Gonzalo Quittral

Por que a Cultura espanhola, e em particular a música espanhola, não desembarca de vez no Brasil?
Porque não existe público. Para criá-lo é preciso que toque nas rádios. Este problema existe também com a música portuguesa e com as músicas da Argentina, Bolívia, Colômbia e dos outros países que têm fronteiras físicas com o Brasil.

Mas se pensarmos que as multinacionais espanholas -BBVA, Grupo Prisa, Telefônica, Repsol YPF, Santander Central Hispano e outras- já estão instaladas no Brasil e ganham tanto dinheiro… E estão felizes… E outras muitas já estão preparadas para desembarcar… E que a Espanha já é o segundo maior investidor no país… E que o Instituto Cervantes, que já funciona nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, e brevemente estará em Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Recife e Salvador. Então, quem sabe, este seria o momento ideal para se impulsionar um sólido e diversificado intercâmbio cultural entre ambos os países, capitaneado por ambos ministérios de Cultura, com o apoio das empresas espanholas e outras?
Sim.

Então, qual é o recado que você enviaria para o músico e atual ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, para impulsar este intercâmbio made in Spain?
Não sei que condições ele teria de transformar isto. É um assunto complexo. Depende de toda uma estrutura. Não sei se uma pessoa só, por mais que queria – mesmo sendo ministro- tem este poder. O que você acha?

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Caetano Veloso e Gilberto Gil em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Que eles -Carmen Calvo, atual ministra de Cultura da Espanha, e o Gilberto Gil- podem fazer coisas consistentes pensando no futuro. Por exemplo, desde os anos 90 do século passado diversos artistas brasileiros, que de vez em quando tocam nas rádios espanholas, entre eles Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhoto, Bebel Gilberto, Caetano Veloso, Chico César, Djavan, Gal Costa, Gilberto Gil, Ivan Lins, Lenine, Maria Bethânia, Margareth Menezes, Milton Nascimento, Mônica Salmaso, Naná Vasconcelos, Tom Zé e outros foram convidados para fazer shows na Espanha. Todos encontraram com surpresa seu público. E com críticos musicais interessados e informados. Seria um exemplo a seguir?

Enquanto você falava eu estava rememorando algumas coisas… Quando era jovem e tinha entre 18 e 19 anos, assistia muitos filmes do neorrealismo, da nouvelle vague. E também muitos filmes espanhóis, japoneses, russos e os melhores made in Hollywood. Mas hoje em dia isso acabou no Brasil. O que a juventude vê, agora, é o que vem dos Estados Unidos e o que encontra nos Blockbusters.

Considera que a globalização emburreceu a sociedade?
Acho que ela não emburreceu. Recebe menos cultura do que deveria receber. Ela não tem acesso. Nem muita escolha com relação ao que vem para ela das rádios, do cinema, da televisão, do teatro… De todas as maneiras, é um pacote encomendado e ela vai se habituando com isso. Quando era jovem, eu tinha acesso ao cinema do Alfred Hitchcocck, Akira Kurosawa, Charles Chaplin, Federico Fellini, Fritz Lang, Luis Buñuel, Pier Paolo Pasolini, Roberto Rosselini, Vittorio de Sica, Serguéi M. Eisentein, Jean Luc Godard e outros. Tive acesso a essas coisas. Porém, vejo que hoje em dia tudo se reduz as coisas do Blockbuster.

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Edu Lobo em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

De filmes que não tem identidade?
Sim. Hoje a identidade artística é a do produtor. É ele quem manda. Antes a gente sabia quem era o diretor de um filme assim que se abria a tela. Era o estilo Buñuel, Chaplin, Eisentein, Godard, Hitchcock, Pasolini… Entende?

Sim. Tinha a mão do artista.
Perfeito. Para onde foi à mão do artista? Pasteurizada pela mão do produtor.

Ah, você ainda tem ainda identidade artística própria?
Sim! Eu não tenho como mudar isso. É uma decisão pessoal.

É a liberdade?
Sim. Mas se um sujeito gosta do mercado, sente a necessidade de estar no mercado, precisa estar no mercado, examina o mercado, trabalha para o mercado, e está feliz… Tudo bem! Mas eu não estaria feliz.

Por que?
Tenho que ter prazer neste trabalho. E se não toca no rádio eu faço outras coisas, como por exemplo, compor para balé, cinema, teatro, orquestra… Agora, eu pago um preço: todo mundo paga um preço… Mas quando me contratam sabem como é a minha música. E desta maneira eu consigo uma das coisas que mais prezo na minha vida, que á a minha liberdade. Faço o que quero! Sou 89% compositor; o restante fica para cantar, tocar, escrever e coisa e tal. Quase tudo que penso na minha vida é compor.

Quem hoje no Brasil traz incorporado em seu trabalho artístico à tradição musical brasileira?
Arnaldo Antunes é um deles. O Lenine é outro. O Lenine é um compositor que gosto muito, e que passou 20 anos, desde que chegou do Recife, tentando entrar no mercado. E só pouco tempo atrás entrou. Uma cantora nova que adoro é a Mônica Salmaso. Interessa-me muito o jeito que ela canta. Ela não se parece com ninguém. Tem um repertório absolutamente particular. Não imita ninguém. É uma novidade.

Aqui na Espanha muitos dizem com furor: Com Lula o Brasil mudará já. É assim?
Ninguém pode cobrar essa rapidez porque não seria justo. Porém, teve um momento determinado antes das eleições de 2002, em que o Lula começou a ser endeusado. Estava virando o Padre Cícero, o milagreiro. E ele não é um santo… (risos).

(risos) E nem Prometeu, aquele personagem mitológico, filho do Titã Jápeto e de Clímine ou de Ásia, que segundo uma conhecida versão foi ele quem, inclusive, criou o gênero humano, moldando com barro. Mas o Lula, atual presidente da República Federativa do Brasil, prometeu criar 10 milhões de empregos. Mas não revelou como, quando e onde o milagre seria realidade. Lembra desta promessa?
Como? Quando? E onde? E agora as pessoas começam a dizer: “Bem, cadê o milagre do santo Lula”. Por outro lado, temos que dar crédito ao seu governo, mesmo que ainda esteja confuso. Por culpa de quem e de quê está confuso é difícil de saber. As entranhas do poder são tão complexas. Mas tenho esperança…

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Carlos Galilea em Madri / Foto: Maika Gómez

Conhece o crítico musical do diário El País, Carlos Galilea, que apresenta, produz e dirige o programa Quando os elefantes sonham com a música, emitido quatro dias por semana na Rádio Nacional de Espanha, e que se dedica a difundir o melhor da música brasileira?
Eu o conheci ontem. E me disse coisas da música brasileira que não podia imaginar que um crítico musical espanhol soubesse.

Considero que ele sabe muito… Mais que muitos jovens críticos que publicam na imprensa “séria” brasileira. E…
Uma coisa mais grave que eu vou te dizer, já que você falou dos críticos musicais da imprensa brasileira, é que hoje vejo que estes jovens críticos criticam música da maneira mais pobre possível.

Trivial?
Não! É pior que trivial… Porque é o seguinte: é o sujeito escrever: o disco não é bom. Isso qualquer pessoa pode dizer. Um crítico tem que explicar o porquê não é bom. Tem que ter condições de analisar. Se você pega os textos de Mário de Andrade, analisando a música de Heitor Villa-Lobos, e vai ver que ele falava de coisas que não gostava e porque não gostava, numa linguagem técnica musical. Não gosto desta modulação, por isto; não gosto deste tipo de orquestração, por aquilo. Mas se você tem uma coluna numa revista ou num jornal para dizer que o disco é bom ou ruim e dar estrelinhas… Então, eu também posso ser crítico de qualquer coisa: de culinária, de teatro, de cinema…

O que você sentiu ao regressar a Madri, depois dos atentados terroristas de 11 de março de 2004?
Não senti medo nas pessoas e sim que elas estão mais serias.

O que aconteceu nos Estados Unidos, especificamente em Nova York, Pensilvânia e Washington no dia 11 de setembro de 2001?
Essa é a grande pergunta que continua sem resposta. E a outra é: onde estão as Armas de Destruição de Massa do Iraque? O que está acontecendo? Você pode me explicar? ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista eletrônica brasileira Metapress (São Paulo, Brasil) e no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) em fevereiro de 2005.

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Edu Lobo na revista eletrônica brasileira Metapress em fevereiro de 2005

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Edu Lobo durante a entrevista no Palácio Langoria em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

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