Esporte

Mundial da Surpresa na Rússia

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Por Jairo Máximo

Madri, Espanha ― (Blog do Pícaro)  ― Depois de acompanhar in loco a vigésima Copa do Mundo de Futebol Brasil 2014, tudo fazia prever que a 21ª edição do torneio, que se realizaria na Rússia, em 2018, não ia ser tão traumática para os russos, como o do Brasil foi para os brasileiros.

Sediar ópio do povo saiu caro demais para a sociedade brasileira. O efeito colateral daquela hedonista aventura ainda é palpável no bolso da nação. A ferida vai demorar em cicatrizar.  Além disso, a derrota e a humilhante goleada da Alemanha foi a gota d’água que transbordou o vaso. Abriu a caixa de pandora da corrupção no país, tanto no meio-campo como na lateral-direita e esquerda.

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Cartaz do filme De Rússia com amor (1963), dirigido por Terence Young.

Da Rússia com Amor. Assistir na TV aos jogos da Copa do Mundo da Rússia, sentado no sofá da sala, foi constatar a sua surpreendente imprevisibilidade. Em termos futebolísticos, uma maravilha. Artisticamente, tatuadíssimos. Fisicamente, estilizados e bem penteados. Informativamente, zero à esquerda, a grande Rússia não apareceu nas notícias. No torneio participaram 32 seleções que disputaram 64 jogos. Colocou-se em evidência que as conhecidas potências do gramado -até ontem- fazem parte do passado. Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália ou Uruguai já não impõem mais aquele medo e desassossego ao rival no terreno de jogo. Os emergentes, bem treinados, deste Mundial são a Bélgica, Croácia, Nigéria, Japão, Suécia, Islândia. A técnica está globalizada e a igualdade impera entre as equipes. Na Rússia levantaram a Copa do Mundo os azuis, da mestiça França, do técnico Didier Deschamps, a segunda seleção mais jovem do campeonato, somente superada pela Nigéria, das águias. Mas também poderiam tê-la levantado os ardentes, da pequena Croácia, o país das mil ilhas, de Luka Modrić -eleito o melhor jogador do torneio-; ou ainda os diabos vermelhos, da bela equipe da Bélgica, um mosaico de identidades, sob as ordens do técnico espanhol Roberto Martínez, com Thibaut Courtois -eleito o melhor goleiro-, e Romelu Lukaku, como uma camisa 9 invisível. No obstante, também poderiam ter levantado a Copa do Mundo os três leões, da Inglaterra. O inglês Harry Kane foi o artilheiro do torneio, com seis gols em seis jogos.

Bola fora. Segundo o prognóstico do diário espanhol El País, as seleções com mais probabilidades de ganhar o Mundial de Futebol da Rússia eram Brasil, Alemanha, Espanha e Portugal. Não acertaram nenhuma. Os metadados enganam. Não prevêem o imprevisível. “Usamos dados de mais 32 mil jogos, 150 seleções, 350 times e 800 jogadores”, explicou o diário.

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Grafite encontrado em Madri. / Foto: Jairo Máximo

Controle antidopagem.  Todos os jogadores participantes da competição passaram por controle antidoping antes do jogo, em dias de jogo e pós-jogo. De janeiro de 2018, até a grande final de julho, foram realizados 2.037 testes. Somente três deles são suspeitos. Entretanto, o amoníaco que os anfitriões cheiraram em público, a FIFA não considera como uma droga. Segundo o técnico russo, Stanislav Cherchésov, seus homens utilizam esta substância para conseguir maior rendimento no campo. “Como tudo mundo”, justifica.

O VAR te vê. A implantação do VAR (árbitro assistente de vídeo) neste Mundial é a comprovação que a modernidade chegou ao gramado. Eram 35 câmeras instaladas em cada um dos 12 estádios. Quando o VAR via um pênalti contra, imediatamente era maldiçoado. Quando era a favor, idolatrado. Simular pênaltis e faltas, como tão mal faz o brasileiro chorão Neymar, ou dar violentas cotoveladas, como tão bem faz o espanhol Sérgio Ramos, já não engana mais ninguém. A partir de agora é cartão amarelo e meme seguro. O VAR te vê de Rússia.

Gestos nobres. Observar os torcedores japoneses -outra vez- limparem o lixo dos estádios russos, depois dos jogos da sua seleção, é confortante. No Mundial de Brasil eles foram notícia por este exemplar gesto. Na Rússia, antes de voltar pra casa, eles fizeram uma faxina em seu vestiário e deixaram uma nota manuscrita, escrita em russo, agradecendo a hospitalidade do povo local, acompanhada de diversos origamis de presente. O saber estar dos torcedores e jogadores ―filhos do Sol Nascente― é de tirar o chapéu. Estes gestos deveriam ser imitados por todos os participantes das próximas Copas do Mundo.

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Vladimir Putin pop arte retrato.

A solidão de Putim. Avistar a solidão do expansionista Vladimir Putin, na tribuna de honra, na abertura oficial do torneio, é uma imagem significativa.  Nenhum líder mundial quis dar a cara ou se sentar ao seu lado. Por deferência diplomática, na grande final, em Moscou, lhe acompanharam Kolinda Grabar-Kitarović, presidenta da Croácia; Emmanuel Macron, presidente da França, e Gianni Infantino, presidente da FIFA. “Todos estamos apaixonados por este país”, declarou Infantino. “Agradecemos os milhões de boas palavras sobre Rússia e ao nosso povo. Estamos felizes que os visitantes nos viram com os seus próprios olhos e que tenham desaparecido mitos e preconceitos”, afirmou Putin, durante um ato cultural no Teatro Bolshói, na véspera da grande final.

Bicos de ouro. Muito obrigado, Mediaset Espanha, por oferecer em TV aberta, em Cuatro TV e Telecinco, todos os jogos da Copa. O que é sofrível é ter que suportar o blá-blá-blá de seus comentaristas partidários, que atuam como empresários futebolísticos. A bola rolando no meio-campo e eles analisando o sexo dos anjos. A grande final disputada entre França e Croácia foi o jogo mais visto na Espanha desde a final da Copa de Mundo no Brasil, em 2014.

Pátrios. Antes de a Espanha ser eliminada em oitava pela Rússia, considerada a seleção mais fraca do torneio segundo o ranking da FIFA, diversos jornalistas espanhóis davam como inevitável que a vermelha, a seleção do “tiki taka”, estaria na grande final em Moscou. Não calcularam as consequências da demissão fulminante do técnico Julen Lopetegui -horas antes da abertura da competição- e a consequente rebelião liderada por alguns jogadores, que teve que ser sufocada na intimidade do vestiário. O mesmo passou com a canarinha, que chegou a Rússia posando de campeã, sem ter jogado nenhuma partida. Contar com as duas pérolas mais caras do mundo, Neymar e Coutinho, não garante a vitória.

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Grafite encontrado em São Paulo durante a Copa do Mundo Brasil 2014. / Foto: Jairo Máximo

Passe da morte. Para o Brasil sonhar em ganhar o próximo mundial de futebol, que se realizará em Catar, em 2022, o técnico Tite deveria aplicar nos seus canários a fórmula mágica: menos egos, menos cabeleireiros + psicólogos= Goleada do Brasil. Ao mesmo tempo, deveria ensinar aos canarinhos cantarem na hora certa. Cantar o Hino Nacional fora de hora ou a grito não ganha a Copa. Nem no Brasil nem na Rússia. No jogo contra o México, a organização do evento abortou esta nacionalista indisciplina coletiva e colocou no máximo volume o Hino Nacional mexicano, no seu justo tempo.

Campeão do meme. Ver Neymar da Silva Santos Júnior (1992, Mogi das Cruzes, São Paulo) chorando como uma Maria Madalena, pouco depois da seleção ganhar, com dificuldade, da seleção da Costa Rica, na fase de classificação, era um mau presságio nacional globalizado. Muito choro e pouco futebol. “Eu vim aqui para ganhar, não para outra coisa”, declarou Neymar Júnior, pós-jogo. Em seguida, em jogo das quartas de final, os diabos vermelhos devoraram os canarinhos, sem esforço. Cair perto da trave do inimigo dando voltas desnecessárias desfaz o penteado de qualquer um. A corte -cabeleireiros, estilistas, especialistas em jogos de azar, músicos- a serviço de Neymar que o digam.

Outro meme. Neymar acaba de gravar um spot publicitário de autoajuda -e ganhar uma fortuna com ele- para tentar limpar sua imagem, depois das críticas que recebeu por sua atuação no Mundial da Rússia. No spot – artificial com ar evangélico-, o menino mimado redime-se dos seus pecados e pede ajuda ao povo brasileiro. “Às vezes eu exagero mesmo. (…) Você pode continuar jogando pedra, ou pode jogar essas pedras fora e me ajudar a ficar de pé. E quando eu fico de pé, parça, o Brasil inteiro levanta comigo”. Que cara dura, patrício!

Para a revista alemã Der Spiegel o spot é “patético” por tentar transformar o jogador em uma pobre vítima. Ao mesmo tempo, Neymar não está na lista dos 10 melhores jogadores da temporada 2017-2018, candidatos ao prêmio The Best. Quem sabe pratique o esporte errado. Deveria patinar com o japonês The Best, Yuzuru Hanyu, campeão do mundo de patinagem artística sobre gelo. O Mundial da Rússia era para Neymar encontrar a glória, contudo, encontrou a perdição.

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Torcedores brasileiros “seguram” Neymar Júnior, pouco antes da abertura da Copa do Mundo Brasil 2014, em São Paulo. / Foto: Jairo Máximo

Sangue novo. As novas estrelas do firmamento futebolístico atual são o garoto prodígio francês Kylian Mbappé, os belgas Eden Hazard e Romelu Lukaku, o inglês Harry Kane, o iraniano Mohamed Salah, o croata Luka Modrić, o francês Antoine Griezmann, o francês descendente de angolanos Blaise Matuidi, entre outras.

Imposto é para todos. O egocêntrico português Cristiano Ronaldo e o argentino Leo Messi vão perdendo fôlego no terreno de jogo. A idade não perdoa. Seus problemas com a Justiça espanhola são dolorosos. Fraudaram, declaram-se culpados, fizeram um pacto com a justiça e pagaram multas astronômicas. Logicamente que não estão sozinhos. Na seleção de fraudadores internacionais encontramos James Rodríguez, Falcao, Dani Alves, Di María, Alexis Sánchez, Luka Modrić, Mascherano, entre outros jogadores de futebol. Messi e CR7 foram condenados a dois anos de cadeia, que não cumpriram. Se a sentença tivesse sido de dois anos e um dia, outro cantar seria. Quem sabe, neste momento, estariam ambos organizando a Liga da Cadeia, Espanha 2018.

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Rumo a Catar 2022. Foi surpreendente observar as centenas de torcedoras iranianas entrar nos estádios russos para animar a sua seleção nacional  e o craque Mohamed Salah. Esperamos que na Copa do Mundo de Catar 2022, encontremos mais mulheres nos estádios, em particular árabes. ●

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51) WALTER CASAGRANDE: Jogador de futebol

“SEMPRE ENTRO PARA JOGAR LIMPO”

por Jairo Máximo

Casagrande / Foto: Divulgação

Walter Casagrande Júnior (São Paulo, Brasil, 1963) Jogador de futebol. Sua chegada seleção brasileira dos anos 80 ofuscou Sócrates, Zico e companhia. É roqueiro convicto,  está filiado ao Partido dos Trabalhadores e não tem papas na língua. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “O atleta depende do seu organismo, é o seu sustento”.

Como você vê as acusações à democracia corintiana responsabilizando-o pelo fracasso no campeonato brasileiro deste ano de 1985?
Acho ridículo este tipo de acusação. Não tem nada a ver a filosofia de trabalho com o que acontece dentro do campo. A equipe não se acertou, a diretoria contratou jogadores pensando que ia dar certo, os jogadores se esforçaram, mas time não se encaixou. Foi isso o que passou.

O que representa no dia-a-dia dos jogadores a democracia corintiana?
O trabalho que a democracia fez dentro do clube foi que o jogador não se constranja a ponto de evitar alguma crítica a um superior dele se alguma coisa estiver errada. Nós jogamos abertos, pelo menos aqueles que usam a democracia e aí está o problema: se existe uma filosofia de trabalho como esta você usa se quiser ninguém tá te obrigando, nós ―Sócrates, Vladimir, Adilson, eu e outros― usufruímos desse projeto, e aí o pessoal falava que era uma democracia de terceira ou de quarta, que nós é que mandávamos, pelo contrário, nós participávamos. Agora, se os outros não querem participar, o que eu posso fazer?

Qual é a sua posição política? Você fecha com algum partido?
Sou filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT). No entanto, estou esperando uma opção, um complemento ao PT. Tenho muitos contatos por aí. Gosto de política e gosto de participar, então eu quero um negócio mais completo, para poder participar, para poder agir.

Na época do caso da cocaína, as torcidas adversárias e mesmo um beque de outro time te chamaram de maconheiro durante o jogo.  Qual era a sua reação?
Bem, até hoje as torcidas enchem o saco, mas eu não ligo. Quanto ao beque na hora eu fiquei invocado, bravo mesmo. Nunca ninguém tinha falado aquilo para mim. Mas só discuti, não houve maiores problemas.

Há torcedores que reclamam do seu comportamento em campo; dizem que você se perde, que facilmente fica nervoso e acaba prejudicando o time com cartões amarelos e vermelhos. O que você pensa disto?
Bem, eu nunca fui expulso por agressão. É que os caras lá fora assistindo fica difícil falar se o cara ta errado ou não, dentro de campo é outro papo. Eu me seguro ao máximo, quando não tem mais jeito eu falo, eu jogo tudo pra cima. Sempre entro pra jogar limpo, até o ponto de acontecer alguma coisa.

Nem uns beliscõezinhos?
Não, mas se o cara for nessa eu vou pegar ele para Cristo.

Na seleção brasileira quando todas as expectativas se concentravam nos brasileiros, quem acabou brilhando foi você. Como foi isso?
Na seleção brasileira eu fui um cara a parte, acabava o treino ia pro quarto. Não queria saber o que os outros estavam fazendo, eu tava vendo o meu lado. A seleção brasileira tem uma panela monstro e se lá eu vivesse do modo que eu vivo, olhando tudo, analisando tudo, eu iria explodir e sair. O jogador Serginho já denunciou essa panela.

Homossexualismo e drogas pintam no futebol brasileiro?
Homossexualismo deve existir, mas eu nunca vi. As duas coisas existem em todos os lugares e classes sociais. Quanto às drogas tenho quase certeza que se tiver é uma minoria que usa. Estou falando em termos de tóxico mais forte, maconha eu acho que nem chega a ser tóxico. No caso das drogas mais fortes é quase impossível, tenho quase certeza que afeta o sistema nervoso, modifica completamente o organismo da pessoa. O atleta depende do seu organismo, é o seu sustento.

Você é metaleiro?
Gosto do heavy-metal pra caralho. Gosto do Iron Maiden, Ozzy Osbourne,Whitesnake, Led Zeppelin e outros. Também gosto daquele bluizão: Eric Clapton, Peter Green, Johnny Winter. New wave detesto.

Agora em termos de movimento, prefiro o punk porque tem seu objetivo. Como os hippies queriam paz no mundo, os punks são revoltados com a sociedade, com o meio de vida que eles têm agora. Na new wave não encontro objetivo algum. ●

N. do A. – Participou nesta entrevista Adilson Spíndola, jornalista.

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em agosto de 1985.

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro, nº6, agosto de 1985, realizado por Fernandinho / Arquivo Blog do Pícaro

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Walter Casagrande no jornal Pícaro em agosto de 1985

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