Dança

8) BLANCA LI: Bailarina, coreógrafa, diretora de teatro, cineasta e atriz

“A DANÇA É UMA LINGUAGEM UNIVERSAL”

por Jairo Máximo

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Blanca Li em Paris / Foto: Ali Mahadvi

Blanca Li (Granada, Espanha, 1964) Bailarina, coreógrafa, diretora de teatro, cineasta, atriz e produtora. Estudou balé e coreografia na Escola de Dança de Martha Graham em Nova Iorque, depois de abandonar a ginástica rítmica. Retornou à Espanha e fundou a Companhia Blanca Li. Em 1992 mudou-se para a França. Em 98 inaugurou em Paris o Centre Choréographique Blanca Li, constituído de vários espaços para o trabalho da companhia e para outros profissionais do teatro e da dança. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “A dança me atraiu desde quando tenho uso da razão”.

Parte da sua família dedica-se a cultura: seu irmão Tao Gutiérrez é músico, sua irmã Chus Gutiérrez é cineasta… Considera que a infância é um manancial perene?
A infância é um momento único e importante no qual se pode fomentar a veia artística. Quando éramos pequenos para nos divertir, meus pais e tios nos disfarçavam e montavam peças de teatro para a gente interpretar. Em seguida, se divertiam muito nos vendo. Quando fomos crescendo eles nos colocavam num quarto e diziam: Vamos, montem algo. Então, a gente escrevia canções, poesias, peças de teatro, coreografias e interpretávamos para a família.

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Blanca Li em Madri / Foto Gonzalo Quitral

Que papel jogou a família na sua veia artística?
Um papel fundamental, além de incentivar a veia artística, o importante realmente vem depois, na adolescência, quando fala aos seus pais que ser bailarina. O problema é, que muitas vezes, os pais, neste momento, se assustam e tentam convencer os filhos de que ser artista não é nenhuma profissão, e que é impossível viver disto. Tratam de que mude de ideia para que estudem alguma coisa que lhes dê segurança. Estou de acordo que é difícil viver da arte, mas é maravilhoso levantar cada manhã e perceber que todo o dia vai trabalhar em algo que te apaixona. Meus pais me ensinaram desde jovem a ideia de liberdade e de fazer o que a gente gostasse. Deixaram-me ir à Nova Iorque aos 17 anos estudar dança. Logicamente que lhes dava medo, mas confiaram em mim e me ajudaram. Isto foi decisivo para a minha carreira, já que se neste momento eles não me tivessem estimulado, eu nunca teria ido pra frente no mundo dança. Os anos que passei em NY foram decisivos na minha formação como coreógrafa e bailarina. Eu sabia que eles tinham dado sua confiança e de um dia para outro, me tornei adulta, aprendi a ser responsável e a cuidar de mim mesma e, principalmente, nunca esqueci que estava em NY, e aproveitei até o último minuto de cada aula de balé. O bom de NY também foi que lá encontrei muitos jovens como eu atrás de um sonho. Penso que na adolescência ajuda muito ter uma paixão, faz você distanciar-se de muitas coisas perigosas nesta idade, te dá uma razão de viver.

Qual foi o momento da vida que você percebeu que a cultura ia ser a essência do seu viver?
Não sei te responder com precisão, mas acredito que desde muito jovem, conscientemente, em qualquer caso, desde doze anos. Mas a dança me atraiu desde quando tenho uso da razão.

Como se dá o encontro do gesto, da imagem, da interpretação e do som na sua obra artística?
Uma das coisas que eu mais gosto da criação é o encontro com outras disciplinas e, principalmente, o encontro com outros artistas. Isto vem desde NY, onde conheci diferentes artistas de distintas disciplinas e trabalhávamos juntos em projetos. Adoro descobrir coisas novas e gosto do risco. Tenho pavor de me copiar ou de me repetir e, por isso, trabalhar com outros artistas, sempre traz coisas novas. Com os músicos me dou muito bem e me diverte lhes enviar ideias ou coreografias, para ver como eles interpretam musicalmente. Ao contrário do que muita gente pensa, a coreografia nem sempre vem depois da música. No meu caso sempre escrevo a coreografia e depois filmo, em seguida dou a um músico para que escreva a música inspirando-se no que vê. Se eu decido mudar a coreografia depois que eles tenham concluído a parte musical, fazemos as mudanças por telefone ou por e-mail. Adoro os novos meios de comunicação. Já trabalhei com muitos músicos, mas tem um com quem sempre trabalho, é o meu irmão Tao, eu e ele nos entendemos com a palavra, é fantástico.

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Blanca Li / Foto: Gonzalo Quitral

Como se desenvolve seu processo artístico?
Cada vez é diferente. Não tenho uma rotina que se repete. Em alguns casos, a ideia vem de um livro, de uma notícia no jornal, de uma exposição, de um sonho, de uma música, de alguma situação que vejo no metrô… Logo começa o processo de criação, às vezes com os bailarinos improvisando, às vezes com desenhos ou imagens que coloco num caderno… O que, sim, sempre faço é filmar com a minha câmera de vídeo o que vou selecionando, o que interessa, e com isso volto aos bailarinos e trabalhamos a partir de imagens filmadas nos ensaios. Para eles também é importante se verem, ajuda muito a corrigir e melhorar o que já está feito.

Você é bailarina, coreógrafa, cineasta e atriz. Em qual destas atividades se sente mais identificada?
Não sei te dizer… É uma coisa que vai mudando segundo o momento da minha vida. Quando era jovem sentia-me essencialmente bailarina e o ser coreógrafa era principalmente para dançar o que eu gostava, pois preferia dançar minhas coreografias do que a de outros. Dancei em todas as minhas obras até este ano (2004) que fiquei grávida, e tive que fazer a última coreografia sem estar dentro. É a primeira vez que não dancei com a minha companhia. Porém, muitas vezes trabalhei somente como coreógrafa, como na Ópera de Paris ou na Ópera de Berlim. Também cada vez mais gosto ser somente coreógrafa. Qualquer dia destes me retiro da dança e seguirei somente como coreógrafa. O ser cineasta é uma coisa que chegou não faz muito tempo e cada vez gosto mais, acredito que vai ocupar cada vez mais espaço na minha vida e quem sabe, talvez acabe fazendo mais cinema que balé.

Considera-se uma boa diretora?
Sim, acho que se alguém que dirige não se considera bom deve parar de dirigir. Dirigir quer dizer ser capaz de transmitir uma paixão para uma equipe, montá-los num barco e levá-los a um porto seguro. A equipe deve confiar no diretor e para isso ele deve sempre saber transmitir suas intenções, deixando ao mesmo tempo um espírito de liberdade criativa da sua equipe. Isso é difícil, muitas vezes é necessário dizer “sim” ou “não”, mas nunca “não sei”, é preciso saber o que se quer, é fundamental. Logicamente os anos à frente de uma equipe ajudam muito. Para mim cada vez é mais fácil dirigir, porque sigo fazendo isso desde os 12 anos e a experiência ajuda muito. Quando dirigi meu primeiro filme, percebi que todos os anos que vinha dirigindo equipes eram fundamentais para saber dirigir uma equipe de cinema. Não me senti diferente, curiosamente estava como um peixe dentro da água. As pessoas confiavam em mim.

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Blanca Li / Foto: Gonzalo Quitral

Em que país o público mais se identifica com a sua dança?
Em nenhum especificamente. O que eu gosto da dança é que é uma linguagem universal. O que, sim, é diferente em cada país é a crítica e os profissionais da categoria, que, além disso, costumam ser o público das estreias. Eles são mais “experts” no tema e estão mais atualizados com as modas e sobre o que acontece dentro do mundo da dança, além de julgarem segundo seus critérios profissionais. Eles sim reagem de uma maneira diferente segundo o país, mas curiosamente, o público não. Quando vejo uma sala cheia e aplaudindo emocionada, sei que se repetirá cada vez e é maravilhoso. Pelo menos esta é a minha experiência pessoal, mas talvez não seja para todo o mundo.

Quem hoje em dia é imprescindível para a dança contemporânea?
Todos somos imprescindíveis, desde o maior ao menor. Cada um escreve a dança da sua maneira e todos fazem que ela evolua e, sobretudo sobreviva. A dança é, penso, um dos campos artísticos mais difíceis por causa da falta de recursos com que tem que trabalhar. E é por isso que cada pessoa que se dedica à dança o faz, unicamente, pela paixão à dança e sua contribuição é verdadeiramente artística. Eu daria uma medalha a cada coreógrafo que consegue ir para frente, ainda que seja com um pequeno espetáculo. É tão difícil.

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Blanca Li / Foto: Ali Mahadvi

Qual é a grande diferença do valor cultural entre Espanha e França?
Na França existe uma verdadeira política cultural, incomparável à que existe na Espanha, que em certos períodos foi inexistente. A cultura não é o mesmo que a educação, mas sim forma parte da educação. Na Espanha às vezes se mistura tudo. Além disso, na França a política cultural não entende de raças nem nacionalismos. Adotam os artistas estrangeiros sem problemas, coisa que na Espanha não acontece da mesma maneira.

Você considera que a Espanha te reconhece artisticamente?
Sim, cada vez mais e isso me faz sentir melhor toda vez que regresso. O que me dá pena é que o meu filme nunca estreou. Penso que haveria despertado o interesse do público, mas os distribuidores não consideraram que um filme de hip-hop pudesse emplacar na Espanha. Nota-se que não estão nas ruas vendo o que está acontecendo.

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Espetáculo Alarme criado em 2004 por Blanca Li / Foto: Divulgação

Você acaba de ser mãe. Muda alguma coisa?
Muda tudo e nada. Minha vida é completamente diferente e, ao mesmo tempo, continuo trabalhando e fazendo o mesmo que fazia antes. O que realmente é diferente é que agora tenho este ser maravilhoso ao meu lado a cada minuto. Ele vai comigo às turnês, as filmagens, aos ensaios. Tudo o que faço ele olha e me olha. É maravilhoso. No entanto, muda o olhar que eu tenho do mundo, agora mais do que nunca, me sinto responsável pelo que acontece ao meu lado e, pela primeira vez, tenho medo, um medo animal que acredito que somente as mães têm.

O que você pode-me dizer sobre sua nova obra Alarme?
É uma peça que, diferentemente das outras, não segue um tema concreto. Não tinha vontade de falar somente de um tema, nem de profundar, nem dar lição nem de nada. Tinha vontade jogar e me divertir com ideias acumuladas que não podiam dar espaço a um espetáculo completo. Queria trabalhar nessas ideias sem ter que sentir a pressão da duração de cada quadro. É como um curto metragem, quando chega a montagem, editas e o que fica permanece. Cada quadro tem um tema e parte de uma ideia completamente diferente das outras, com um começo e fim. Algumas tratam de temas sociais, outras são divertidas, outras poéticas… cada um tem seu universo estético e musical.

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Blanca Li / Foto: Gonzalo Quitral

De onde você tira tanta energia para desenvolver sua frenética e inovadora atividade artística?
Do trabalho, quanto mais trabalho mais quero trabalhar. Às vezes enquanto estou criando uma peça tenho outra ideia. A criatividade é um músculo, quanto mais crias mais vontade de criar tens. Uma ideia te leva a outra, um encontro a outro. Nem sempre se tem êxito naquilo que se faz, umas coisas saem bem e outras mal, muitos projetos nunca veem a luz, mas tudo bem. Eu sempre digo, todos os artistas, até os melhores fazem coisas boas e coisas ruins, mas o risco é parte de nossa profissão, e se a gente não se arrisca, tem medo de errar, nunca vai fazer nada. Inclusive quando alguma coisa sai mal, sempre ficará alguma coisa positiva, que te faz melhorar e te faz crescer.

Quem manda mais hoje em dia no mundo?
Por desgraça, as grandes empresas. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista El Siglo de Europa e no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) em maio de 2005.

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Blanca Li na revista espanhola El Siglo de Europa em maio de 2005

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