A solidão da Gran Via madrilenha, a avenida mais comercial da Espanha em setembro passado.

Por Jairo Máximo (texto e fotos)

“Não fui ao enterro dele, mas mandei um bilhete simpático dizendo que deve ter sido um sucesso.” (Mark Twain)

Madri, Espanha – (Blog do Pícaro) − O maldito vírus global Sars-CoV-2 (aquele que causa a Covid-19), detectado em 2019 na China e em fevereiro de 2020 na Espanha, entrou de mansinho na minha vida pessoal e familiar. Entre março e junho passamos quase 100 dias confinados na capital espanhola e sobrevivemos. Mas durante a segunda onda de contágios registrada em agosto, após a realização de uma PCR familiar, testamos positivo para a Covid-19. Estávamos infectados e assintomáticos. Em seguida iniciamos uma rigorosa quarentena: 14 dias sem sair de casa. Zero contato com o exterior. Resultado: saímos ilesos fisicamente do “combate”. O reaparecimento da doença em muitas partes do território nacional é uma realidade que aterroriza a sociedade. O número de contágios e óbitos na capital espanhola aumenta gradualmente. Os profissionais de saúde de Madri denunciam que a precariedade que enfrentam no trabalho é a mesma de antes da primeira onda da pandemia. Faltam médicos, enfermeiros, rastreadores, testes. O aprendido anteriormente não foi aproveitado pelo governo local para se preparar diante daquilo que estava para chegar. A trégua que o maldito vírus da Covid-19 proporcionou à Espanha depois da primeira onda não foi aproveitada pelo governo de direita madrilenho para destinar recursos humanos e materiais para enfrentar a previsível segunda onda de contágios. As sirenes de alarmes médicas e sociais soam fortes na cidade. Toda a região de Madri está confinada parcialmente. Help! Novo confinamento total é possível? “Vamos ter pela frente semanas muito duras em Madri”. “A saúde é o primeiro”. “A saúde de Madri é a saúde de Espanha”, disse Salvador Illa, ministro da Saúde espanhol.

Sem olfato, paladar e febre. Os dias passam e a vida não tem aroma nem paladar. Somente incertezas. Perder o olfato, o paladar e ter febre alta são alguns dos sintomas perceptíveis que o corpo experimenta quando a Covid-19 está dentro. Acordar e não sentir o cheiro de cândida ou de terra molhada é desesperante. No entanto, se a temperatura do corpo não alcança os 37º graus, revela que a situação está sob controle. E assim foi entre nós. Os sintomas mais graves que a infecção ocasiona – febre persistente, falta de ar, cansaço extremo, dor de barriga, vômitos− o meu corpo não experimentou. Ler e ouvir em primeira pessoa os relatos daqueles que sobreviveram para contar, depois de sair da UTIs, é apavorante.

Manifestação dos negacionistas em Madri em julho passado.

ET ambulantes. Tem muita gente louca solta na rua. Os negacionistas da Covid-19, quem sabe sejam as primeiras vítimas mentais do confinamento global que perderam o sentido da realidade. Vivem em outro mundo. Não querer aceitar a chegada de um novo coronavírus, que não tem classe social, raça, nacionalidade e ideologia, pode ser uma das causas desta anomalia universal. Todos são vulneráveis. Sabem. Não sabem…

Saiba. O coronavírus Sars-CoV-2 é um diminuto vírus que mede 0,1 micras. Por exemplo, um cabelo humano tem um diâmetro de aproximadamente 80 micras. Vale lembrar sempre que uma conversa normal pode espalhar gotículas a até 2 metros de distância.

Para tomar nota. Viver uma quarentena familiar é como ser o dono do tempo. Sobra tempo para reflexionar e ler pausadamente. Também serve para aprender valorizar a importância dos pequenos (grandes) detalhes da vida.

Flor de Cacto. Não lembrava que os cactos florescem. Denomina-se “Flor de um dia”. Nasce ao alvorecer e morre ao anoitecer. Tenho plantado um no terraço e o encontrei florido numa tarde de quarentena.

Notas registradas. Javier Sampedro, cientista e jornalista, escreveu no diário El País: “O que esperamos de uma vacina é que, uma vez injetada em mil pessoas saudáveis, lhes protejam do contágio em comparação com outras mil que receberam placebo. Isto vai demorar”. Tedros Adhanom, diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), avisou em agosto: “A emergência internacional por causa do coronavírus continua e seus efeitos durarão décadas”. Margarita del Val, virologista e diretora da plataforma Saúde Global, que reúne mais de 200 grupos que investigam o novo coronavírus, afirmou em setembro: “Os jovens não são um grupo de risco de saúde, mas econômico sim. São eles que vão sofrer um futuro duríssimo se isto não for interrompido”.

Li. Atualmente existem 182 vacinas experimentais contra a Covid-19 e que 36 delas já estão sendo provadas em milhares de voluntários, mas até agora nenhuma delas demonstrou ser eficaz.

A estação de metrô Porta de Toledo vazia em setembro passado.

Pensei. Quando o governo espanhol decretou o estado de emergência nacional no dia 14 de março conseguiu frear a expansão da primeira onda de contágios e salvou milhões de vidas. Estamos em setembro e novos contágios e óbitos aumentam em diversos lugares da geografia espanhola, principalmente em Madri, onde a segunda onda ataca com força. Precipitar o afrouxamento das regras também foi uma das causas do reaparecimento da doença. Aqui a vida de ontem é uma quimera. Falta vida!

A turística Praça Maior em setembro passado.

É fato. Mil dias após a OMS declarar que o novo coronavírus era uma pandemia global, atualmente o mundo ultrapassa a barreira de um milhão de mortos e mais de 33 milhões de contagiados. A Espanha é um dos países europeus mais atingidos pela pandemia de Covid-19.

Entendi. A vacina é a única esperança.

Antes de morrer… Quero recordar que Espanha tem mais de 31 mil mortes vítimas da Covid-19. Quero lembrar que Brasil tem mais de 145 mil mortes vítimas da Covid-19. Quero recordar que o direitista presidente Jair Bolsonaro disse sobre a Covid-19: “Se morrer; morreu”. E, finalmente, quero divulgar o magnífico poema “Poema da mente”, de Alfonso Romano de Sant’Anna, publicado em diversos jornais brasileiros em 1980.

Mentem, sobretudo, impune/mente.

               Não mentem tristes. Alegremente

               mentem. Mentem tão nacional/mente

               que acham que mentindo história afora

               vão enganar a morte eterna/mente.

http://www.releituras.com/arsant_implosao.asp

Grafite encontrado em Madri em junho passado pós-confinamento.