Cartaz do filme A candidata perfeita em julho passado durante a quarentena em Madri.

“O feminismo é um assunto tanto de mulheres como de homens”, Haifaa Al Mansour, cineasta saudita

Por Jairo Máximo

Madri, Espanha – (Blog do Pícaro) – Em março passado, dias antes que o Governo espanhol decretasse o estado de emergência para combater a Covid-19, assisti, em Madri, a pré estréia do filme A candidata perfeita, longa-metragem da talentosa cineasta saudita Haifaa Al Mansour. No entanto, uma semana depois, o filme entrou numa inesperada e longa quarentena que durou até final de junho.

Volta ao passado. Em 2012 assisti o filme A bicicleta verde (2012) a primeira obra da cineasta e também o primeiro filme da história de um país sem salas de cinemas até 2018.  Descobrir naquele ano Haifaa Al Mansour foi uma grata surpresa.

Em A bicicleta verde, rodada clandestinamente sem meios e estruturas técnicas, Haifaa conta a história de Wadjda, uma adolescente inteligente e rebelde que participa de um concurso de oração do Corão na sua escola com a única esperança de ganhar suficiente dinheiro para comprar uma bicicleta. Ambos os fatos – mulher ser diretora de cinema e mulher de bicicleta− era considerado pecaminoso em um país ultraconservador dominado pelos homens. Contudo, Wadjda ganhou o concurso de oração, comprou a desejada bicicleta verde e rompeu um tabu histórico em uma monarquia absoluta teocrática, onde a religião impregna tudo. Com este simples, porém revolucionário argumento, A bicicleta verde seduziu Europa e América, e sua ousada diretora Haifaa Al Mansour conquistou o merecido reconhecimento internacional.

La candidata perfecta - Trailer español (HD) - YouTube
Fotograma do filme A candidata perfeita, de Haifaa Al Mansour.

De peito aberto. A candidata perfeita (2019), produzida pela Arábia Saudita e Alemanha, foi rodada integramente na Arábia Saudita, com todas as permissões necessárias. “O mais importante agora mesmo é a legitimidade. Ir pela rua com a minha equipe e poder filmar sem que a polícia interrompa é um prazer que é difícil explicar. Perder o medo é incrível”, declarou a cineasta para o diário espanhol El Mundo.

O filme conta as dificuldades que Maryam, uma jovem médica ambiciosa que trabalha no centro de Saúde de uma pequena cidade da Arábia Saudita, tem que enfrentar diariamente para provar aos colegas e pacientes homens sua evidente competência. Certa vez, indignada pelo descaso da prefeitura, que constantemente adia o asfalto do caminho que dá acesso ao hospital, decide candidatar-se às eleições municipais. Seu pai é músico e está fazendo uma turnê tocando nos primeiros shows permitidos pelo Reino da Arábia Saudita, depois de décadas de proibição. Para tornar realidade sua decisão, Maryam convence suas duas irmãs pequenas para ajudar arrecadar fundos e planejar a campanha eleitoral. Sua inesperada candidatura à prefeita surpreende a família e sacode uma comunidade que não está acostumada com a possibilidadede que uma mulher ocupe o cargo de prefeita de uma cidade.

Cena 2 de la candidata perfecta
Fotograma do filme A candidata perfeita, de Haifaa Al Mansour.

Com essa atitude altruísta, de ajudar ao próximo, uma tendência bastante feminina e política, a médica Maryam se vê obrigada a enfrentar um sistema machista e feudal no qual as mulheres sempre perdem. Na Arábia Saudita as mulheres têm uma dependência total dos homens mais próximos. Vivem à sombra deles. Não servem para serem médicas, professoras, políticas, artistas, advogadas etc. Só servem para servir…ao homem.

A candidata perfeita é uma história cotidiana com essência que se repete em muitos lugares do mundo, principalmente naqueles onde elas estão em segundo plano e devem lutar diariamente por seus direitos, independente da sua classe social, etnia ou ideologia. Na Arábia Saudita os comícios das candidatas devem se realizar por vídeo conferências porque está proibida sua presença em um auditório que conte com a assistência de homens.

“Quero mostrar através do seu percurso que as mulheres podem ter um papel positivo na sociedade saudita e, ao mesmo tempo, contribuir para trilhar seu próprio destino. Quero animar as mulheres sauditas a atrever-se sair do sistema que durante muito tempo nos detêm. As transformações só acontecerão se as pessoas que mais a necessitam lutam por eles em sua vida diária”, afirma a cineasta em um texto divulgado pela Casa Árabe, de Madri.

“Neste momento no qual se abriram cinemas e permite-se que as mulheres possam dirigir no reino saudita, quero mostrar o enorme esforço que requererá uma autêntica transformação. As mulheres terão a oportunidade de contribuir e participar em uma sociedade que lhes manteve à margem durante gerações. O mais difícil para elas será enxergar mais além das defasadas barreiras sociais e dos limitados objetivos que lhes marcaram; deverão romper os tabus que as retêm e procurar abrir novos caminhos para esta e a próxima geração”, sintetiza Haifaa Al Mansour.

Após décadas de isolamento e conservadorismo extremo, em 2018 e em 2019 importantes avanços sociais foram introduzidos na sociedade saudita, entre eles que a mulher não necessita mais de um mahram, um“guardião” (pai, irmão, marido ou parente do sexo masculino) legalmente autorizado a fazer uma série de decisões críticas em nome dela; que já podem viajar sozinhas para o estrangeiro; ser legalmente responsáveis de seus filhos; que possam dirigir um carro, atividade que estava proibida para as mulheres até junho de 2018.

Palavra de mulher. “A lei permite que as mulheres possam dirigir. Mas muitas vezes são as famílias que colocam empecilhos às suas filhas”, explica Haifaa durante a entrevista concedida ao diário espanhol El País. “Até que ponto o governo saudita se intrometeu no filme? pergunta o entrevistador. “Tem que dar luz verde ao roteiro. Sei de onde venho, vou fazer uma história que sei que vão aceitar. Tens que ser lógico, tento contar uma história com respeito, que não agrida sensibilidades. Consegue-se mais com o diálogo que com o enfrentamento”, explica a diretora.

O filme será exibido na Arábia Saudita e recebeu patrocínio governamental através do Conselho de Cinema vinculado ao Conselho Nacional de Cultura.

A candidata perfeita é simplesmente um filme brilhante. “A esperança está em vocês”, confessa um personagem –um cinquentão, “filho” da cultura machista imperante−, ao pé do ouvido da médica que lhe salva a vida.

Cena 1 La candidata perfecta
Fotograma do filme A candidata perfeita, de Haifaa Al Mansour.

Cinema pós-pandemia. Depois de mais de três meses fechados, alguns cinemas da Espanha voltaram a reabrir com o 50% da capacidade. Ver agora A candidata perfeita é perfeito. Literalmente, a menina da bicicleta verde cresceu e hoje em dia é uma corajosa médica que quer ser política e ajudar as pessoas da comunidade.

Sobre A candidata perfeita a crítica cinematográfica escreveu: “Conta como, depois de perder uma pequena batalha, pode-se ganhar a guerra”, afirma a revista de cinema inglesa Little White Lies; “Uma história bastante positiva”, considera a revista de entretenimento norte-americana Hollywood Reporter. “Apaixonante, forte e decidida, ninguém pode resistir”, escreveu o jornal inglês The Guardian.

De meca em meca. Haifaa Al Mansour (Al Zulfi, Arábia Saudita, 1974) nasceu no berço de uma família grande: 12 irmãos, entre homens e mulheres. Seu pai é Abdul Rahman Mansour, um conhecido poeta saudita, quem lhe ensinou a gostar de cinema. Formou-se em Literatura na Universidade Americana do Cairo e cursou um master de Direção e Estudos Cinematográficos na Universidade de Sidney. É considerada como a primeira cineasta da Arábia Saudita e o seu longa-metragem A bicicleta verde foi o primeiro filme rodado totalmente no reino saudita.

Nos Estados Unidos, Haifaa filmou a biografia de Mary Shelley (2017), considerada sua obra mais ambiciosa, tanto comercial como artisticamente, e Nappely Ever After (2018), uma adaptação do best-seller do mesmo nome de Trisha R. Thomas, que propõe que rapamos o cabelo para encontrar nossa identidade. Além disso, Haifaa é a realizadora do premiado documentário Women Without Shadows (2005), um marco no debate gerado em torno à reabertura das salas de cinema na Arábia Saudita, um país onde os cinemas estiveram fechados a sete chaves desde 1983 até 2018.

Directora de cine SAUDI HAIFAA
Haifaa Al Mansour, a primeira cineasta de Arábia Saudita, durante o encontro com mulheres na Casa Árabe em Madri em março passado / Foto Jairo Máximo

Durante a estreia de A candidata perfeita, Haifaa Al Mansour esteve na capital espanhola e participou na Casa Árabe do encontro “Conversação com Haifaa Al Mansour”. No diálogo participaram a diretora do Centro Saudita de Economia e Finanças Islâmicas na Espanha, Celia de Anca, e a jornalista espanhola Begoña Piña. Entre o atento público encontravam-se muitas mulheres e homens interessados em ouvi-las falar livremente de cinema, negócios, costumes sociais e liberdade. Uma construtiva conversa de feministas moderadas.

“O futuro está em vocês”, afirmou o converso paciente de A candidata perfeita. Tem o meu voto! ●