Tetsuya Ishida 2 para articulo El papel del Otro
Obra do japonês Tetsuya Ishida.

“A predição é muito difícil, especialmente sobre o futuro”. (Neils Bohr, físico dinamarquês)

Por Jairo Máximo (texto e fotografias)

Madri, Espanha – (Blog do Pícaro) – A partir do momento que o Governo espanhol declarou o estado de alarme com o objetivo de combater a covid-19, mais de 47 milhões de espanhóis viram como o seu dia-a-dia transformou-se completamente. Isolamento e distância social é a nova realidade. Vivem tempos de emergência nacional. Salvar vidas é a ordem do dia.

Desde 14 de março até hoje já passaram mais de 40 dias de uma quarentena até agora desconhecida. Os sacrifícios pessoais e mentais são enormes para todos. Isso tudo sem falar das perdas econômicas e as suas conseqüências imprevisíveis.

Como se de uma terapia coletiva tratasse, diariamente, às oito da noite, a maioria da população aplaude os profissionais de saúde e a outros de atividades essenciais que fazem com que a roda da vida continue girando.

“Resistirei, para seguir vivendo, suportarei os golpes e jamais me renderei /e mesmo que os sonhos me rompam em pedaços, resistirei, resistirei”, cantam os espanhóis −durante ou depois− dos aplausos.

Em Londres, até o premiê britânico, Boris Johnson, uniu-se ao aplauso diário, na porta de sua residência oficial, após contrair coronavírus e ser tratado em um hospital público da cidade. Na UTI o premiê foi atendido por dois imigrantes, um português e outro grego.

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Procura, 2001, obra del japonês Tetsuya Ishida (1973-2005)

Luto, dor e esperança. A covid-19 é um vírus invisível e mortal que ronda territórios transatlânticos. Gerou uma pandemia que já levou a vida de milhares de pessoas nos cinco continentes.

Atualmente na Espanha existem mais de 41 mil profissionais de saúde contagiados e 50 já morreram: médicos, enfermeiros, auxiliares e outros. É o país com mais profissionais deste setor contagiados: 20%. Em segundo lugar de contagiados nacionais se encontram os trabalhadores dos correios.

Em Valência, cidade portuária banhada pelo mar mediterrâneo, o governador Ximo Puig, pediu perdão publicamente aos profissionais de saúde pela “falta” de material médico. “Este tsunami superou a todos”, diz ele.

Enfim, o sector foi mandado à guerra com o objetivo de salvar vidas, mas sem fuzil, sem capacete e sem colete à prova de bala.

Loucos do Monte. Nos EUA, o presidente Donald Trump, numa de suas delirantes entrevistas coletivas, falou que a covid-19 poderia ser tratada com “injeção de desinfetante no corpo dos pacientes”. Incrédulos, imediatamente os médicos do país alertaram à nação: “Por favor, não tomem detergente nem injetem desinfetante”.

No Brasil, o presidente Jair Messias Bolsonaro, numa de suas patéticas entrevistas coletivas, disse quando lhe perguntaram sobre o número recorde (474) de mortos, por covid-19 no dia 28 de abril: “E daí? Lamento, quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres”.

Como contê-los?

A covid-19 está condicionando a vida em todo o planeta. É um vírus desconhecido do qual pouco sabemos sobre suas características e como combatê-lo com eficácia.

“Comporta-se de forma estranha. Surpreende-me diariamente. Dá milhares de problemas. Afeta a coagulação sanguínea, a pele, pode causar complicações inflamatórias, neurológicas e cardiovasculares. Também em pacientes jovens e saudáveis”, explica o médico espanhol José Rubio, chefe das UTIs de Madri.

“O coronavírus é um monstro, ataca todo o sistema. Ele tem muitas incógnitas que ainda temos que decifrar”, revela Ranieri Guerra, vice-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), responsável do setor de Iniciativas Estratégicas.

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Supermercado, 1996, obra do japonês Tetsuya Ishida.

O Outro.  No livro Encontro com o Outro (2006), o repórter, historiador e escritor polonês Ryszard Kapuściński (1932-2007) insiste que devemos entender e respeitar o Outro. “O encontro com o Outro, com pessoas diferentes, desde sempre constituiu a experiência básica e universal da nossa espécie”, explicava.

Nestes momentos, nos quais todo o país respeita o isolamento social e os protocolos de prevenção, encontramos pessoas que esquecem as normas. Atitudes irresponsáveis que são uma falta de respeito à nação.

Segundo os dados publicados pela policia espanhola, depois de 42 dias de quarentena, foram multadas mais de 740 mil pessoas em todo o território nacional. Uma média de 18 mil multas diárias. A lei prevê que se multe com um mínimo de 601 euros (aproximadamente 3.000 reais) a todo aquele que este na rua sem motivo justificado e comprovado.

O espertinho que se considera imune. A dona de casa que sai para ir ao supermercado cinco vezes por dia. O dono do cachorro que sai com o animal para que faça xixi dez vezes por dia. A família desvairada que quer passar a Páscoa na casa de campo. O cidadão Mariano Rajoy, ex-primeiro-ministro espanhol, que corre alegremente pelas ruas do seu bairro.

Todos esquecem o lema de alerta máxima: “Fique em casa”.

Comparado com o número de habitantes da Espanha, felizmente são poucos os irresponsáveis.

Algumas vezes a saúde de todos depende do comportamento do Outro.

Recuperação, 1998, obra do japonês Tetsuya Ishida.

Reflexão. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diz que os protestos (por parte dos cidadãos) contra a quarentena em países como EUA e no Brasil, “não ajudam. Eles só irão colocar combustível no surto. (…) O vírus estará conosco por muito tempo”.

Isolamento social, a obrigação de uso de máscaras e lavar as mãos constantemente já são parte do novo cotidiano dos espanhóis, até segunda ordem.

 A vida e a saúde é o primeiro; não existe saída a vista. Só uma vacina salvará todos.

3 de maio de 2020. Parte Médica. O médico ainda não chegou com os dados atualizados de mortos, contagiados e pacientes recuperados. As cifras variam por minutos na Espanha e no mundo.

Resistiremos. ●

Várias ruas do centro de Madri vazias ao meio-dia do domingo 19 de abril.

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A Gran Vía de Madri durante a quatentena.
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A rua Desengaño de Madri durante a quarentena.
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A rua Loreto y Chicote de Madri durante a quarentena.