El artista y fotógrafo español José Manuel Ballester en los estudios de RFI en parís
José Manuel Ballester / Fotografia: Jordi Batallé

Madri, Espanha – (Blog do Pícaro) – José Manuel Ballester (Madri, Espanha, 1960) é pintor, fotógrafo e escultor. Já recebeu diversos prêmios e publicou vários livros fotográficos. Atualmente trabalha no projeto artístico “Amazônia”, que surgiu do compromisso de conservar e preservar o meio ambiente. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Considero que a arte é uma atividade imprescindível para a sociedade. Sempre foi assim”.

Quem é José Manuel Ballester? –Deveria ter algumas ideias de quem sou, mas às vezes tenho minhas dúvidas, principalmente naqueles momentos em que se produzem mudanças profundas na minha forma de ver, entender e relacionar-me com a realidade. Estou nestes momentos de mudanças. Talvez seja porque eu quero ser de outra maneira.

Sente inquietude? – Sim. Para mudar é preciso ser consciente de que algo novo te seduz. Essa necessidade de mudança nasceu, entre outros fatores, por causa de um projeto que denomino “Amazônia”. O que estamos fazendo com o planeta? Como cuidamos dele? De alguma maneira a selva amazônica é um território virgem do planeta. É a última esperança. A última oportunidade.

O último cantinho virgem. – Quem somos nós para dizer aos donos da Amazônia o que eles devem fazer? Que não façam justamente aquilo que nós europeus fizemos durante séculos.

Não estão autorizados? –Sim. No entanto podemos lhes perguntar: É a exploração ortodoxa – extração de minérios, agricultura, criação de gado− o caminho certo? O meu projeto “Amazônia” aborda dois aspectos deste tema, o estético e o político, que estão entrelaçados entre si. Através destes dois aspectos pode-se questionar de outra maneira o problema amazônico. Quando desembarquei pela primeira vez no Brasil, encontrei um país moderno, com ânsia de modernidade, que se espelha nos EUA e deixa de lado toda uma riqueza que se encontra na Amazônia. Um patrimônio cultural que o Brasil tem em seu poder, que com certeza está adormecido, e não está incluído nesta ânsia de modernidade. E se está, é do ponto de vista clássico da exploração. Considero os povos indígenas amazônicos como os guardiões desta terra que souberam cuidar com eficácia durante séculos.

Esse território lhes pertence. Nós somos os invasores. –Exatamente. Quem nos autoriza a ir ali e usurpar e explorar esse território? Com qual direito? Essa é a primeira pergunta. A segunda é: se a cultura humana baseia unicamente sua relação com o mundo através da rentabilidade, não existe nenhuma possibilidade de que este território possa ser mais rentável sem a exploração ortodoxa?

O grito de guerra de −ontem e de hoje− é desmatar e queimar. –Sim. Antes desmatavam timidamente; agora desmatam e queimam descaradamente. Brasil tem uma grande arma a seu favor: todo o planeta precisa dele.

A nação não é consciente. –Se os brasileiros fossem capazes de dizer ao mundo: “Senhores, temos outras opções. Vamos implicar o planeta, a ONU, as instituições internacionais na conservação e preservação da Amazônia, onde está abrigada a última esperança do planeta. Do mesmo jeito que existem impostos aduaneiros no comércio internacional, vamos criar um imposto para que esse território, de grande valor ecológico, mantenha-se em pé e nos ofereça o oxigênio que todos necessitamos e que também seja rentável”. Creio que esta rentabilidade interessa muito mais ao Brasil. Melhor preservar do que destruir e queimar. E se funciona?

Ao capital não interessa preservar o pulmão verde do mundo; perde divisas. – Claro. O maior problema é como conseguir um modelo eficiente de administração do patrimônio público. A Amazônia virgem é um bem universal. Vamos imaginar que isto se transforme em um compromisso mundial. Pagamos todos os cidadãos do mundo um imposto universal de defesa e conservação do pulmão verde do mundo. Urge conservar: tem que pagar. Acredito que aqui na Europa e em outros continentes teríamos um grande apoio a favor deste compromisso.

Mas o Brasil adora se espelhar nos EUA; um modelo inconveniente. –Sim. Aceitar este modelo é estar a serviço do chefe do modelo. Contudo, imaginemos que o Brasil descobre que pode dar à luz a outro modelo que funcione. Seria fantástico! Não é o caminho mais curto. Exige ter ilusão e persuasão. Se entrasse na cabeça dos responsáveis políticos esta dinâmica, teríamos uma opção. Todo o planeta estaria pendente. Somos os atores principais da obra de teatro do mundo. Pretendamos ou não, neste momento, somos os protagonistas. Temos essa responsabilidade.

Natureza Morta 2
Natureza Morta 2

Como foi sua infância e adolescência? –Teve um momento bastante cruel na minha vida que foi a partir dos 8 anos quando entrei num orfanato religioso. Um ambiente difícil que serviu para amadurecer antes do tempo. Lá tive a oportunidade por intermédio de uma freira, que era pintora, de ter um primeiro contato com a arte, com o qual se fechava uma via e abria-se outra. A arte como refúgio. A arte como uma opção de vida. Hoje, olhando para trás, vejo que foi um momento importante. Quanto à adolescência, houve uma continuação. Encontrei professores que valorizaram minha capacidade ou interesse pela arte. A fotografia apareceu justo quando entrei na universidade e coincidiu com um presente que me deu o meu tio Ángel: uma câmera fotográfica Minolta.

Há mais de uma década você tem uma intensa relação artística com o Brasil. Por que o Brasil? –Porque é um país apaixonante. Ele te contagia de um vitalismo estético e cultural liberalizante.

Interior Pinacoteca, 2007.
Ibirapuera 1, 2007.
Favela, 2010.
Centro Cultural Brasília 1, 2010.
Restaurante Coatí, Salvador, 2018.

Em 2010, você expôs na Pinacoteca do Estado de São Paulo, a exposição fotográfica “Fervor de Metrópolis”, sobre a cidade de São Paulo. Recentemente, expôs na Casa de América de Madri, a exposição “Fervor do Brasil”, que retrata São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Salvador. Surpreendentemente, nas três primeiras cidades, sem a presença humana. Como conseguiu esvaziar as urbes? – Uma parte é a paciência. Esperar os momentos adequados. As cidades têm seu ritmo de movimento. Umas condutas. Quando o Brasil esvazia? Durante os jogos da seleção canarinha nas Copas do Mundo de futebol. Aproveitando uma viagem que fiz ao país durante a realização da Copa de 2014 me dediquei a fotografar São Paulo. Tinha toda a urbe para mim. Tive essa oportunidade, que encaixa perfeitamente com o meu trabalho habitual. Por exemplo, na China tive que encontrar outro recurso para esvaziar as cidades. São estes momentos de reflexão quando a cidade descansa. A cidade necessita um descanso, um despejo, um respiro, para poder vê-la de outra maneira. Cada cidade tem seu momento. Quando ela se esvazia, ganham sentido muitas coisas, e perdem outras tantas. Desvanecem-se todos os códigos de comportamento. Por uns momentos a cidade deixa de ser cidade e transforma-se em outro espaço. As normas diluem-se e entramos num cenário diferente. É a oportunidade de vê-las de outra forma, que é basicamente o que pretendi.

Jose Manuel Ballester-PEKIN 4-2004 178,8x263,2 cm
Pequim 4, 2005.

Você se atreve a fazer um trabalho semelhante na Amazônia, a maior selva tropical do mundo? −Não. A Amazônia me supera. Estruturei o projeto “Amazônia” de uma maneira tal que não necessito estar fisicamente no lugar. Realizá-lo de longe com a imaginação e toda a informação sobre Amazônia que está ao alcance de todos.

Fale mais sobre o projeto “Amazônia”. –Ele tem vários capítulos. A minha primeira intenção foi me informar como vivem os povos indígenas na floresta amazônica, essas etnias que tem sua cultura, sua forma de expressar, sua arte, sua estética… Quando conecto com essa Arte descubro com grande surpresa a íntima conexão com a arte contemporânea ocidental, principalmente a arte abstrata. Elas estão conectadas direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente. Por que se dá um valor excepcional à arte contemporânea? Por que não valorizamos uma arte mais pura que nasce de uma necessidade milenar de sobrevivência?

Não estamos falando aqui do valor econômico e sim do valor artístico tal qual. – Exato. O mercado não pode valorizar porque não entra no jogo. Minha primeira ambição foi inserir essa realidade estética no mercado. Quando inseres detecta que ela está no mesmo nível do mais contemporâneo de nossa cultura. Não existe diferença: mais avançado ou menos avançado. Está por cima. Não existe nenhuma intenção de difusão a grande escala. Nasce de uma de expressão vital coletiva. Além disso, não é um trabalho de autor, é um trabalho coletivo, que brota dessa necessidade expressiva de compreender a vida de um coletivo.

A base do projeto. –O gérmen. Quando nasce esse gérmen se vê que o abecedário visual da Amazônia tem uma interconexão com territórios diferentes. Existe um encontro; uma surpresa. Meia-dúzia de nativos de uma aldeia amazônica, que vivem nus e desprotegidos, se manifestam, se expressam, com a mesma qualidade de um grande mestre que temos em nossos museus.

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Jovem indígena da etnia caiapó.

Para eles é mais uma manifestação (com) arte. –Exatamente. Um acontecimento expressivo de circunstâncias que aparecem e desaparecem. Diluem-se. É tinta natural… A originalidade que pretendemos atribuir não existe como tal. Tudo isso faz com que a nossa visão estética se modifique totalmente, especialmente o orgulho de artista contemporâneo. Esse é o primeiro capítulo. O segundo é reproduzir seus rituais – com a terra, com os rios, com a cosmologia− através dos bonecos de madeira que eles esculpem e pintam.  Não são objetos para decorar nossa sala de jantar. E o terceiro capítulo é a relação entre as diferentes culturas, porque existe um risco enorme de que uma se imponha sobre a outra.

O pequeno quase sempre perde a identidade. –Neste caso estruturei a idéia inversamente. Imagino que eles vieram a minha casa, ao meu mundo, a minha cultura, e de algum jeito desenvolveram aqui sua criatividade. Imagine se vem uma família indígena da etnia caiapó, que vive na Amazônia, e passa uma semana hospedada na minha casa. O que aconteceria? Se eles atuam como são no dia a dia, rapidamente vão me influenciar com sua expressividade, hábitos, rituais. Ao invés de decorar uma tigela decora o computador, a televisão, a geladeira. Criei essa ficção. Fiz uma inversão da colonização.

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Grafismos da “Hora Caiapó” de José Manuel Ballester / Foto: Jairo Máximo

Acho que você conseguiu. As pinturas são hipnóticas. –Estou trabalhando para conseguir. Toda noite, antes de dormir, faço dois ou três grafismos. É o que denomino Hora Caiapó… Entro em contato com eles através desse grafismo que tem um caráter mágico, que transmite uma forte energia. Não sei te explicar com palavras. Vou procurando, encontrando e ampliando o repertório iconográfico. É como um ritual que adquiri.

O Museu do Prado comemora 200 anos de existência. Indique duas obras primas que é preciso ver in situ. – O Museu do Prado possui muitas obras primas. É um vergel de arte. Indicarei duas obras (dois retratos) que não estão entre as mais vistas. A primeira é um auto-retrato de Tziano Vecellio; a segunda é um retrato de Martin Rychaert, de Anton van Dyck.

20.Tiziano.Autorretrato
Auto-retrato Tziano Vecellio
Ver las imágenes de origen
Retrato de Martin Rychaert, de Anton van Dyck.

Finalizando, + Arte. – Considero que a arte é uma atividade imprescindível para a sociedade. Sempre foi assim. Atualmente vive um momento de transformação profunda. Tem que enfrentar os novos desafios que determinam as circunstâncias e encontrar seu papel. Sinto-me comprometido como artista em procurar descobrir este papel. Subministrar através da estética, do pensamento artístico, soluções que sejam úteis e nos ofereça luz. De alguma maneira volto aos povos indígenas amazônicos que se expressam para se proteger, sobreviver e viver. A Arte é imprescindível. Creio que encontrará seu caminho. ●

Pintura. Porta de Europa (Madri), 1992.