Comunicação

Cartas em mão

Capacartasbrasileiras

Por Jairo Máximo

Carta para pícaroMadri, Espanha – (Blog do Pícaro) – Ilustríssimo leitor, em janeiro passado encontrei numa livraria de São Paulo uma publicação que imediatamente despertou minha curiosidade: Cartas brasileiras, uma seleção de 80 missivas históricas.

Meu interesse por esta obra relaciona-se com Cartas extraordinárias, do inglês Shaun Usher, uma compilação de 125 epístolas assinadas por pessoas célebres e anônimas do mundo todo e de todas as épocas.

Desejava encontrar o paralelismo entre estes dois trabalhos transatlânticos nos quais o protagonista é A Carta, um apreciado meio de se comunicar ao borde da extinção.

Em Cartas brasileiras (2017), organizado Sérgio Rodrigues, as missivas publicadas vão acompanhadas de breves textos contextualizados e diferentes imagens gráficas: cartas originais, fac-símiles, fotografias e ilustrações.

Encontramos cartas de Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Gomes, Olavo Bilac, Lima Barreto, Machado de Assis, Torquato Neto, Joaquin Silvério dos Reis, Charles Darwin, Jorge Amado, Glauber Rocha, Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Nise da Silveira, Iberê Camargo, Santos Dumont, Paulo Freire, Roberto Marinho, Graciliano Ramos, Oscar Niemeyer, Oswaldo Cruz, Getúlio Vargas, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Chico Buarque de Holanda, Ronald Biggs, Caio Fernando Abreu, Don Pedro I, Cândido Rondon, Padre Antonio Vieira…

Dignas de reflexão. As 80 epístolas brasileiras têm o poder de ajudar a compreender avulsos momentos da história do Brasil. Ao mesmo tempo, evidencia a vinculação de destacados estrangeiros −de ontem e hoje− com o País Tropical.

Antigamente, tanto no inicio como no final de qualquer carta, o profundo respeito do remetente ao destinatário era a tônica.

“Meu querido, meu bem, prezado senhor, prezada amiga, meu filhinho, meu caro pai, queridos, sinceras saudações”, eram alguns dos vocábulos mais utilizados para começar. “Abraços fraternais, com a mais alta estima, muito sinceramente, de seu amigo, um grande abraço, beijos, respeitosamente”, eram os que se usavam para terminar as cartas de ontem.

CartaPeroVazdeCaminha

A carta mais antiga de Cartas brasileiras é de 1º de maio de 1500. Foi escrita por Pero Vaz de Caminha (1450-1500), escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral (1467-1520). O destinatário é D. Manuel I (1469-1521), rei de Portugal. Relata as belezas da terra nova encontrada: Terra da Vera Cruz. É a carta mais famosa do Brasil. Uma referência do encontro de uma nova colônia portuguesa. Por outro lado, a carta mais recente é 7 de dezembro de 2015, escrita pelo vice-presidente Michel Temer, destinada a presidente Dilma Rousseff. “Senhora presidente, Verba volant, scripta manent. Por isso lhe escrevo. (…) Sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção. Respeitosamente”.

No texto de apresentação da obra, Sérgio Rodrigues escreve: “Caro leitor, Espero que esta o encontre bem. (…) O tempo das cartas passou, levado pelo tsunami digital que varreu o mundo, mas a velha correspondência manuscrita ou datilografada conserva seu poder mágico de máquina do tempo. Poucas coisas são tão capazes de nos transportar inteiros, cabeça e coração, para outras eras, outros mundos e mentalidades. (…) Inspirado no belo Cartas extraordinárias, de Shaun Usher, publicado por esta editora, Cartas brasileiras é uma seleção eclética de missivas brasileiras incríveis que se destacam como cápsulas de tempo”.

Sérgio Rodrigues é escritor, crítico literário e jornalista. Mineiro de nascimento e carioca de adoção. Autor do romance O drible (2013), vencedor do prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos) e lançado na Espanha, na França e em Portugal, e do almanaque Viva a língua brasileira!

Cartas alheias

Carta 4 – Escrita no dia 2 de setembro de 1822. Da princesa Leopoldina para D. Pedro I.Princesa Leopoldina

 “Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no Paço há revolucionários. Até portugueses são revolucionários. Até oficiais das tropas são revolucionários. As Cortes portuguesas ordenam a vossa partida imediatamente, ameaçam-vos e humilham-vos. (…) O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio ele fará a sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrecerá. (…) Pedro, o momento é o mais importante de vossa vida. Já dissestes aqui o que ireis fazer em São Paulo. Fazei, pois. Tereis o apoio do Brasil inteiro e, contra a vontade do povo brasileiro, os soldados portugueses que aqui estão nada podem fazer”.

A culta princesa Maria Leopoldina de Áustria (1797-1826) escreveu esta carta para seu marido D. Pedro I de Brasil e IV de Portugal (1798-1834), que tinha viajado a São Paulo, onde declarou nas margens do rio Ipiranga, no dia 7 de setembro de 1822, a independência do Brasil. Ela nunca deixou de ser fiel ao marido infiel e ao país de adoção: Brasil. Morreu vítima de depressão com 29 anos.

Carta 9 – Escrita em 22 de maio de 1925. De Albert Einstein para o Comitê do Prêmio Nobel.

CartaAlbertEinsteinParte1“Prezado Senhor! Permita-me chamar sua atenção para a atividade do general Rondon, do Rio de Janeiro, porque em minha visita ao Brasil tive a impressão de que este homem seria um digno merecedor do prêmio Nobel da paz. Seu trabalho consiste na integração de tribos indígenas aos meios civilizados sem uso de armas nem qualquer forma de coerção. Minhas informações foram passadas por professores da Universidade Técnica do Rio de Janeiro, que se pronunciaram de forma muito calorosa sobre o homem e seu trabalho. Também me foi mostrada alguma coisa em filme. Não conheci pessoalmente o general Rondon. Sendo de seu interesse, posso fornecer mais detalhes, mas seria melhor se o senhor – por meio de seus enviados noruegueses – buscasse diretamente a informação. Com a mais alta estima”.

Carta 16 – Escrita em 11 de fevereiro de 1938. De Mário de Andrade para Pimentel Redondo.CartadeMariodeAndrade

O poeta, ficcionista, ensaísta e musicólogo Mário de Andrade (1893-1945), autor do clássico Macunaíma (1928) e do poema Minha alma tem pressa, era um prolífico escritor de cartas, tanto para remetentes conhecidos como desconhecidos. Nesta carta responde a um jovem desconhecido poeta que lhe pede sua opinião sobre seus primeiros poemas.

“Há poetas enormes que principiaram com poemas péssimos, muito piores que os de você. Há poetas detestáveis e totalmente medíocres que começaram com poemas muito melhores que os seus. (…) Tendo o  orgulho de jamais aconselhar, só posso lhe dizer o mau exemplo. Hoje, por certo, eu não publicaria mais nem meu primeiro livro de versos, nem muitos dos poemas que mesmo depois disso publiquei. Si vier a São Paulo venha conversar um bocado. Muito sinceramente”.

Carta 22 – Escrita provavelmente em 1979. De Paulo Leminski para Régis Bonvicino.

O multidisciplinar artista Paulo Leminski (1944-1989) dizia: “Vivo para fazer poesia”. Fez muita poesia da boa. E viveu intensamente… A carta que mandou para seu amigo Régis Bonvicino, poeta, tradutor e editor é um poema em si. Oportunamente, um fragmento da sua missiva original é a capa de Cartas brasileiras.

depois que v. se foi daqui 

só fiz UM POEMA

de 3 linhas

o q para mim é uma proeza


CartadeLeminski-Parte1CartaLeminskiParte2

Carta 39 – Escrita em 3 de junho de 1942. De Clarice Lispector para Getúlio Vargas.

Quando tinha 21 anos, a magnífica escritora Clarice Lispector (1920-1977), pediu ao presidente ditador Getúlio Vargas (1882-1954) ajuda no processo de concessão da nacionalidade brasileira. Ela era ucraniana que chegou ao Brasil quando era um bebê. Seu pedido não foi atendido. Atualmente sua obra literária pode ser lida em dezenas de idiomas. É uma das melhores escritoras do século vinte. Em 2011, seu amigo, o poeta Lêdo Ivo (1924-2012), me disse em Madri: “Quiçá Clarice vá a ser a grande contribuição da literatura brasileira do século 20 à literatura universal. Uma figura solitária, sofrida e misteriosa. Um mito. Admirável”.

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“Senhor presidente Getúlio Vargas, quem lhe escreve é uma jornalista, ex-redatora da Agência Nacional (Departamento de Imprensa e Propaganda), atualmente n’A Noite, acadêmica da Faculdade Nacional de Direito e, casualmente, russa também. (…) Que não conhece uma só palavra de russo, mas que pensa, fala, escreve e age em português, fazendo disso sua profissão e nisso pousando todos os projetos do seu futuro, próximo ou longínquo. (…) Que deseja casar-se com brasileiro e ter filhos brasileiros. Que, se fosse obrigada a voltar à Rússia, lá se sentiria irremediavelmente estrangeira, sem amigos, sem profissão, sem esperanças. (…) Como jornalista, tomei parte em comemorações das grandes datas nacionais, participei da inauguração de inúmeras obras iniciadas por Vossa Excelência, e estive mesmo ao lado de Vossa Excelência mais de uma vez, sendo que a última em 1º de maio de 1941, Dia o Trabalho. Se trago a Vossa Excelência o resumo dos meus trabalhos jornalísticos não é para pedir-lhe, como recompensa, o direito de ser brasileira. Prestei esses serviços espontânea e naturalmente, e nem poderia deixar de executá-los. Se neles falo é para atestar que já sou brasileira. (…) Senhor presidente. Tomo a liberdade de solicitar a Vossa Excelência a dispensa do prazo de um ano, que se deve seguir o processo que atualmente tramita pelo Ministério da Justiça, com todos os requisitos satisfeitos. Poderei, trabalhar, formar-me, fazer os indispensáveis projetos para o futuro, com segurança e estabilidade. A assinatura de Vossa Excelência tornará de direito uma situação de fato. Creia-me, senhor presidente, ela alargará minha vida. E um dia saberei provar que não a usei inutilmente”.

Carta 46 – Escrita em 22 de fevereiro de 1942. De Stefan Zweig para o Povo Brasileiro e ao Mundo.

Stefan Zweig (1881-1942) é considerado como um dos mais brilhantes e versáteis escritores do século 20. Em 1934, no auge do nazismo, abandonou a Áustria e iniciou um longo exílio. Na noite de 22 de fevereiro de 1942, na serrana Petrópolis, ele e Charlotte Altmann, sua jovem segunda esposa e secretária, suicidaram-se com uma overdose de barbitúricos. De despedida deixou escrito uma carta com a epígrafe “Declaração”, destinada as autoridades brasileiras e, ao mesmo tempo, ao conjunto da humanidade. 

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“Antes de deixar a vida, de livre vontade e juízo perfeito, uma última obrigação se me impõe: agradecer do mais íntimo a este maravilhoso país, o Brasil, que propiciou a mim e à minha obra tão boa e hospitaleira guarida. A cada dia fui aprendendo a amar mais e mais este país, e em nenhum outro lugar eu poderia ter reconstruído por completo s minha vida, justo quando o mundo de minha própria língua se acabou para mim e meu lar espiritual, a Europa, se auto-aniquila. Mas depois dos sessenta anos precisa-se de forças descomunais para começar tudo de novo. E as minhas se exauriram nestes longos anos de errância sem pátria. Assim, achei melhor encerrar, no devido tempo e de cabeça erguida, uma vida que sempre teve no trabalho intelectual a mais pura alegria, e na liberdade pessoal, o bem mais precioso sobre a terra. Saúdo a todos os meus amigos! Que ainda possam ver a aurora após a longa noite. Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes”.

No Brasil, Stefan Zweig escreveu Novela de Xadrez (1941), sua novela mais famosa, sobre a neurose obsessiva que um homem desenvolve pelo xadrez durante seu cativeiro nas mãos da Gestapo. Atualmente em Petrópolis está instalada a Casa-museu Stefan Zweig, dedicada ao escritor e a todos os exilados europeus no Brasil.

img014Carta 64 – Escrita em 16 de novembro de 1889. De D. Pedro II para o Povo Brasileiro.

Pedro II (1825-1891) foi imperador do Brasil. Reinou durante 48 anos (desde sua coroação, aos dez anos de idade). Recusou todos os apelos dos monarquistas para que liderasse a repressão à revolta republicana. Morreu em Paris como um pobre mais.

“À vista da representação escrita que me foi entregue hoje, às três horas da tarde, resolvo, cedendo ao império das circunstâncias, partir, com toda a minha família, para a Europa, deixando esta pátria, de nós tão estremecida, à qual me esforcei por dar constantes testemunhos de entranhado amor e dedicação durante quase meio século em que desempenhei o cargo de chefe de Estado. Ausentando-me, pois, com todas as pessoas de minha família, conservarei do Brasil a mais saudosa lembrança, fazendo os mais ardentes votos por sua grandeza e prosperidade”.

Epilogando. Cartas brasileiras conta com um projeto gráfico e estilo de apresentação dos textos contextualizados idêntico ao de Cartas extraordinárias. Também é uma obra digna de ler lida e contemplada.

Os saúda respeitosamente seu fiel escrevente. ●

Lampiaobueno

De  Lampião para Rodolfo Fernandes.

PadreVieira

Do Padre Antônio Vieira para D. João IV.

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