Literatura

ZWEIG: ASTRO ERRANTE

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“Mas toda sombra é, no fim das contas, filha da luz e somente quem conheceu a claridade e as trevas, a guerra e a paz, a ascensão e a caída, somente este viveu de verdade”. (Stefan Zweig)

Por Jairo Máximo

MADRI, Espanha ―(Blog do Pícaro)― Este ano faz 75 anos que o célebre novelista, poeta, dramaturgo, biógrafo e tradutor austríaco Stefan Zweig e sua esposa, Charlotte Elisabeth Altmann, se suicidaram em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Zweig é considerado como um dos mais brilhantes e versáteis escritores do século vinte, dono de um estilo inconfundível. Provavelmente, o maior escritor de best sellers do seu século. Era imensamente popular, principalmente porque chegava a todos os estratos sociais. Tinha uma surpreendente habilidade narrativa para aprofundar nas coisas mais ocultas da alma humana.

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 Apaixonado da alta cultura e liberdade, sua obra foi traduzida em mais de cinquenta idiomas. É autor de poemas, contos, relatos, novelas, biografias, ensaios históricos e literários que inspiraram mais de 38 roteiros de cinema, alguns dirigidos por Roberto Rossellini, Max Anderson, Robert Siodmak, Patrice Leconte, Xu Jinglei ou Max Ophüls. Em 1948, Ophüls realizou uma fantástica adaptação do fascinante relato Carta de uma desconhecida, estrelado por Joan Fontaine e Louis Jourdan.

Triunfou entre o público culto da época com os magistrais ensaios biográficos sobre alguns dos seus criadores prediletos: Três mestres: Balzac, Dickens, Dostoievski (1920) e Três poetas de suas vidas: Casanova, Stendhal, Tolstoi (1928); e com as esplêndidas biografias de Joseph Fouché, Erasmo de Rotterdam, Montaigne, Maria Antonieta ou Mary Stuart, que ainda hoje em dia não foram superadas. Também fez traduções de poemas de Baudelaire e de alguns de Verlaine, Keats e William Morris.

“Cada idioma, com seus giros próprios, se resiste a ser recriado em outro e desafia às forças da expressão… Nesta modesta atividade de transmissão de valores artísticos ilustres encontrei pela primeira vez a segurança de estar realizando uma coisa prática e inteligente, uma justificativa para minha existência”.

“Para entusiasmar os demais, tem que ser capaz de se entusiasmar”, dizia o escritor.

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NASCE UMA ESTRELA

Resultado de imagen de capas de livros de stefan zweig em português Stefan Zweig nasceu em 1881, em Viena, na Áustria, no berço de uma família classe média de judeus não religiosos. Apesar da boa situação econômica, a família Zweig não era amiga do luxo e da ostentação.

“Cresci em Viena, metrópole duas vezes milenária e supranacional, de onde tive que fugir como um criminoso antes que fosse rebaixada à condição de cidade de província alemã. Na língua que eu tinha escrito e na mesma terra na qual meus livros conquistaram a amizade de milhões de leitores, minha obra foi reduzida a cinzas. Assim agora sou um ser de nenhuma parte, forasteiro em todas. Hóspede no melhor dos casos… O que um homem, durante a sua infância, assimilou da atmosfera da época e incorporou ao seu sangue, perdura nele e já não se pode eliminar… O desejo propriamente dito do judeu, o seu ideal inerente é ascender ao mundo do espírito, a um estrato superior”.

Durante a sua infância, o “judeu acidental”, Zweig, desenvolveu seu talento para a escrita. Quando chegou à juventude começou a publicar poemas, traduções de poemas e ensaios nos jornais e revistas de Viena.

“Foi aos 13 anos quando começou a me atacar aquela infecção intelectual literária, deixei a patinagem sobre gelo e utilizei na compra de livros o dinheiro que os meus pais me davam para as aulas de dança; aos 18 anos ainda não sabia nadar nem dançar nem jogar tênis”.

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“Cada vez que um jornal qualquer publicava uma poesia de minha autoria, a confiança em mim mesmo, frágil por natureza, recebia um novo impulso. Porém, a grande surpresa e a mais inesperada de todas se produziu quando Max Reger, junto com Richard Strauss, o maior compositor vivo daquela época, me pediu permissão para colocar música em seis poesias. Desde aquele momento, quantas vezes já ouvi em concertos meus próprios versos, que durante muitos anos eu tinha esquecido e, inclusive, negado sua existência, eram levados mais além pela arte fraternal de um maestro”.

Quando Zweig completou 15 anos ganhou de presente de aniversário do pai um manuscrito de Mozart. Foi o princípio de uma vocação de colecionador de manuscritos, autógrafos e objetos pessoais dos criadores universais que cultivou com grande paixão até seus últimos anos de vida, e no qual investiu grande parte do dinheiro que ganhava, e cuja dispersão a força quando chegaram os nazistas descerebrados, foi um dos mais desgostos da sua vida.

“Quando começou a era de Hitler e tive que abandonar a minha casa, acabou-se o prazer que me proporcionava minha coleção, como também a segurança de poder conservar qualquer coisa para sempre”.

“De todos os meus livros e quadros somente a lâmina de rei João, também conhecido como João Sem-Terra, de William Blake, me acompanhou durante mais de trinta anos e, quantas vezes o olhar magicamente iluminado deste rei louco me contemplou da parede! De todos os meus bens perdidos e distantes, este é o desenho que mais sinto falta na minha peregrinação”.

Em 1904, graduou-se Doutor em Língua e Literatura Românticas.

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“Acordei numa manhã de 1931 e tinha cinquenta anos… De presente de aniversário, a editora Insel editou uma bibliografia dos meus livros publicados em todos os idiomas, que por si já era um livro; não faltava nenhum idioma, nem o búlgaro nem o finlandês, nem o português nem o armênio, nem o chinês nem o marata. Em braile, em taquigrafia, em todos os alfabetos e idiomas, minhas palavras e pensamentos tinham alcançado as pessoas; minha existência tinha se expandido infinitamente mais longe do espaço do meu ser”.

“Hoje por hoje, como escritor ―sou alguém que “caminha vivo atrás do seu próprio cadáver”.

BRASIL ENCANTOS MIL

Stefan Zweig chegou ao Brasil pela primeira vez no dia 21 de agosto de 1936 e foi recebido com honras de Estado pelo governo constitucional de Getúlio Vargas. “Durante esta semana fui Marlene Dietrich”, escreveu para um amigo sobre a calorosa recepção de bem-vindo. A segunda vez foi no mesmo dia, entretanto do ano 1940, com permissão de residência em ordem, porém agora com a ditadura Vargas, ou Estado Novo, instaurada em 1937.

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Em 1941 publicou o ensaio Brasil, um país do futuro, editado em Estocolmo, Suécia, que foi um grande êxito de vendas, inclusive no Brasil. Absurdamente, a esquerda brasileira criticou com fúria o ensaio e ao seu autor. Desaprovavam seus tópicos e censuravam seu apoio― implícito?― à ditadura Vargas. Em seguida, Zweig escreveu uma carta aberta reiterando “sua paixão pelo país e ao povo brasileiro”.

Ao mesmo tempo, no prólogo da obra editada em português, o então ministro de Cultura do Brasil, Afrânio Peixoto, salientou: “Zweig: andou, passeou, viu, viajou, não quis nada, nem condecoração, nem festas, nem recepções, nem discursos, não quis nada”.

A primeira edição do livro Brasil, um país do futuro esteve esgotada durante quarenta anos. Contudo, quando se comemorou o centenário do escritor, em 1981, o livro foi reeditado e colocado à venda na Alemanha e, curiosamente, terminou vendendo dez vezes mais que a primeira. Um fenômeno curioso para um livro desta característica.

“Nunca tinha pensado que com 60 anos me encontraria aposentado numa cidade serrana brasileira, com uma jovem empregada negra descalça a quilômetros e quilômetros de distância de tudo o que antes foi minha vida: livros, concertos, amigos, conversações”, deixou escrito Zweig.Resultado de imagen de capas de livro Partida de xadrez, de Stefan Zweig

No Brasil, ele escreveu Novela de Xadrez (1941), sua novela mais famosa, sobre a neurose obsessiva que um homem desenvolve pelo xadrez durante seu cativeiro nas mãos da Gestapo.

OUTRA VÍTIMA

Foi um implacável crítico e oponente a 1ª Guerra Mundial (1914-1918), que inclusive acabou lhe levando a vivê-la desde dentro do escritório de Guerra em Viena, depois de ser considerado “inapto para combate”. Viena naquela época era a capital do Império Austro-húngaro, um estado multirracial, um complexo quebra-cabeça que antes da 1ª Guerra Mundial incluía dezessete nacionalidades diferentes e onde o hino nacional era cantado em treze idiomas.

Nos últimos meses do conflito mundial Zweig se mudou para a Suíça e, tempo depois, para Salzburgo, de onde iniciou uma série de diferentes viagens. Em 1934, no auge do nazismo, e com a iminente anexação da Áustria a Alemanha nazista, abandonou a Áustria e iniciou um longo exílio pelo mundo.

Primeiro foi morar em Londres, depois em Paris, Los Angeles, São Francisco, Nova York e, por último, Petrópolis. No exílio inglês começou a sofrer depressão, pois se sentia um homem sem pátria, sem casa e sem nacionalidade.

Resultado de imagen de capas de livros de stefan zweig em portuguêsEntre 1881-1918 Stefan Zweig foi súbdito do Império Austro-húngaro. Depois, de 1918 a 1938, cidadão austríaco e, a partir de 1938, britânico.

Duro crítico do nazismo atravessou um mar atrás de outro, expulsado, perseguido e privado da pátria amada. Suas obras foram queimadas publicamente e seu nome excluído das editoras e publicações alemãs. Sua casa de Salzburgo, antes de ser saqueada, foi vasculhada a procura de armas escondidas.

“Pela primeira vez fui testemunha da peste da obsessão da pureza da raça, que foi mais prejudicial para nosso século do que a verdadeira peste dos anos anteriores”.

“Antes de 1914 a Terra era de todos. Todo mundo ia ao lugar que queria. Não existia visado nem autorização. Diverte-me a surpresa dos jovens toda vez que lhes conto que antes de 1914 viajei a Índia e a América sem passaporte, e que realmente jamais na minha vida tinha visto um. (…) Foi depois da guerra quando o nacional-socialismo começou a transtornar o mundo, e o primeiro fenômeno visível desta epidemia foi a xenofobia: o ódio ou, pelo menos, o medo ao estranho. Em todos os lugares as pessoas defendiam-se dos estrangeiros, em todos os lugares os excluía”.

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VIDA DE FILME

Entre as suas singulares amizades encontravam-se Thomas Mann, James Joyce, Paul Valéry, Ravel, Richard Strauss, Bartók, entre outros. Ao mesmo tempo, manteve uma fiel correspondência com Sigmund Freud, Hermann Hesse e Joseph Roth.

Durante seu longo exílio por Inglaterra, França, Estados Unidos e Brasil, o escritor chegou a ser uma espécie de “instituição de caridade” para os imigrantes centro-europeus.

Zweig renunciou a vida porque não pode suportar a ideia de ver a humanidade submetida aos assaltos destrutivos dos extremismos.

Na noite de 22 de fevereiro de 1942, na serrana Petrópolis, Zweig e Lotte, sua jovem devota segunda esposa e secretária, depois de jantarem juntos e jogar uma partida de xadrez, suicidaram-se com uma overdose de veronal, substância química derivado do ácido barbitúrico que se utiliza como calmante e sonífero. Seu enterro realizado no Rio de Janeiro com honras de Estado foi um ato que contou com uma multidão de participantes, e que surpreendeu a gente por tratar-se de um forasteiro.

Na inquietante carta de despedida que ele deixou escrita com a epígrafe Declaração (o título em português e o texto em alemão) destinada ao juiz, a polícia e, ao mesmo tempo, ao conjunto da humanidade, se lê:Resultado de imagen de fragmento carta de despedida de Stefan Zweig

“Antes de deixar esta vida por vontade própria, com a mente lúcida, me coloco uma última obrigação: dar um afetuoso agradecimento a este maravilhoso país: Brasil, que propiciou, a mim e à minha obra, tão gentil e hospitaleira guarida. Diariamente aprendi a amar este país, mais e mais. Em nenhum outro lugar poderia ter reconstruído minha vida, neste momento em que o mundo da minha língua esta perdido, e a minha espiritual ―Europa― destrói-se a si mesma… Por isso, acho melhor concluir a tempo e com o ânimo sereno uma vida para a qual o trabalho espiritual sempre foi a alegria mais pura e a liberdade pessoal o maior bem sobre a terra. Saudações aos meus amigos. Tomara que possam ver o amanhecer! Eu, impaciente demais, me adianto a eles”.

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Em 2016, a atriz e cineasta alemã Maria Scharader filmou Stefan Zweig -Farewell to Europe, focado em seis momentos do exílio do escritor no Brasil.

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Em 1981, Alberto Dines publicou Morte no Paraíso.

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Em 2002, Sylvio Back filmou Lost Zweig, sobre a última semana do escritor.

Atualmente em Petrópolis está instalada a casa-museu Stefan Zweig, dedicada ao escritor e a todos os exilados europeus no Brasil. Em 1981, Alberto Dines, jornalista e biógrafo do escritor, publicou o livro Morte no Paraíso, que aborda as circunstâncias que envolveram a vida e morte do autor austríaco. Em 2002, o cineasta brasileiro Sylvio Back filmou Lost Zweig, sobre a última semana do escritor. Neste momento, aqui na Europa, está em cartaz o filme Stefan Zweig: adiós a Europa, dirigido pela atriz Maria Scharader, que aborda a vida do autor em seis momentos específicos de seu exílio no Brasil.

PENA CRIATIVA

Da pena criativa e vida de filme de Stefan Zweig muito já foi escrito e, felizmente, muito se escreverá. Sua obra perdura.

“Na minha vida pessoal o mais notável foi a chegada de um hóspede que eu não esperava: o êxito. O êxito não me caiu de repente do céu, chegou pouco a pouco, com cautela, porém durou constante e fiel, até o momento em que Hitler lhe passou a mão e o expulsou com as chicotadas dos seus decretos… Meus relatos curtos Amok e Carta de uma desconhecida foram tão populares como, por regra geral, somente chegam sê-lo as novelas; montaram peças de teatro, foram recitados em público e virou filme, um livrinho, Momentos decisivos da humanidade ―lido em todas as escolas―, em pouco tempo chegou a 250.000 exemplares na Biblioteca Insel; em poucos anos eu tinha criado o que, em minha opinião, significa o êxito mais valioso para um escritor: um público, um grupo fiel de gente que sempre ansiava e comprava meu próximo livro, que me depositavam sua confiança e que eu não podia fraudar. Mas sou sincero quando falo que me fiquei feliz com o êxito no referente aos meus livros e ao meu nome literário e que, em troca, me incomodava quando se traduzia em curiosidade pela minha pessoa física… Para mim o anonimato, em todas suas facetas, é uma necessidade”.

SER DE NENHUMA PARTE

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O seu fascinante livro O mundo de ontem, recordações de um europeu, publicado postumamente em 1944, está estruturado em 16 apaixonantes capítulos que informa e ilustra o leitor: “Não guardo do meu passado mais daquilo do que levo atrás da frente”.

No prefácio da obra Stefan Zweig explica: “Antes da guerra conheci a forma e o grau mais altos da liberdade individual e depois, seu nível mais baixo a tempo. Fui homenageado e marginalizado, livre e privado de liberdade, rico e pobre. Pela minha vida galoparam todos os corcéis amarelentos do Apocalipse, a revolução e a fome, a inflação e o terror, as epidemias e a emigração; vi nascer e expandir diante dos meus próprios olhos as grandes ideologias de massas: o fascismo na Itália, o nacional-socialismo na Alemanha, o bolchevismo na Rússia e, sobretudo, a pior de todas as pestes: o nacionalismo, que envenena a flor de nossa cultura europeia”.

A obra, atualíssima, é uma joia literária realizada para a posteridade. Deveria ser de obrigatório estudo nos colégios e universidades. Grande parte dela foi escrita no calor do trópico sem arquivos e amigos com os quais compartilharem as recordações do passado. É um antídoto aos populismos e um canto a cultura e a liberdade.

Obrigado, Stefan Zweig, astro errante. ●

N.do A. – Texto publicado em espanhol na revista El Siglo de Europa

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Literatura

CON ACUSE DE RECIBO

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Por Jairo Máximo

MADRID, España ― (Blogdopícaro) ― Estimados lectores, cuando empecé la lectura del libro Cartas memorables, de Shaun Usher, que consiste en la recopilación de 125 epístolas firmadas por ―Albert Einstein, Anaïs Nin, Annie Oakley, Benjamin Franklin, Bette Davis, Charles Darwin, Charles Bukowski, Clementine Churchill, Doroty Parker, Elvis Presley, Fidel Castro, Fiódor Dostoievski, Flannery O’Connor, Groucho Marx, Galileo Galilei, Iggy Pop, Jack Kerouac, John F. Kennedy, Louis Armstrong, Ludwig van Beethoven, Mark Twain, Mick Jagger, Nick Cave, Oscar Wilde, Katherine Hepburn, Kurt Vonnegut, Rainer Maria Rilke, Raymond Chandler, Roald Dahl, Ronald Reagan, Zelda Fitzgerald,  entre otros―, no imaginaba que la obra iba afianzar aún más mi adicción por la lectura de una buena carta: “papel escrito, y ordinariamente cerrado, que una persona envía a otra para comunicarse con ella”, como reza en el diccionario de la Real Academia Española (RAE).

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Carta de admiradoras de Elvis Presley dirigida al presidente Eisenhower en 1958.

Entre las misivas incluidas en esta seductora obra, las hay de distinta índole: amorosas, enigmáticas, sarcásticas, reivindicativas, tristes, desesperadas, admirativas, sutiles, lúdicas o desgarradoras. Además, junto a cada carta encontramos un conciso texto informativo donde el autor primero identifica al remitente y destinatario y, después, nos acerca a las circunstancias en las cuales ellas fueron escritas.

Según el autor de Cartas memorables la idea de editar en “papel” esta obra, su primer libro, nació después de que él publicara con éxito en su blog una serie de cartas ajenas. La más antigua es una carta grabada en una tabla de arcilla, que se remonta al siglo XIV a.C, y la más reciente data de octubre de 2008.

“Gracias a la abrumadora acogida de su encarnación on-line, adopta un formato palpable: un museo de cartas en forma de libro de cuidada factura, capaz de fascinar, de transportarnos de una emoción a otra, de instruir en algún caso incluso al más informado y, ojalá, de ilustrar a la perfección la importancia y el encanto incomparable de la correspondencia a la antigua usanza justo cuando el mundo entero se digitaliza y el arte de escribir cartas se desvanece”, aclara Shaun Usher en el prólogo de la obra.

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Carta escrita en corteza de abedul alrededor de 1350.

DELEITE PARA LA MENTE

EPSON MFP imageCarta nº 1 ―Fechada en enero de 1960,  escrita a mano, firmada por la soberana británica Isabel II, va dirigida a Eisenhower, presidente de Estados Unidos. Su contenido es la receta de scones para 16 personas que la soberana preparaba a menudo para sus allegados.

“Palacio de Buckingham / Estimado señor presidente: (…) Creo que es preciso batir la mezcla a conciencia durante la preparación y no dejarla reposar demasiado antes de cocinarla”.

Cinco meses después el presidente estadounidense le contestó enviándole su particular receta de scones.

Carta nº 2 ―Fechada en octubre de 1888, firmada por alguien que decía ser el célebre asesino en serie Jack el Destripador, va dirigida a George Lusk, presidente del Comité de Vigilancia de Whitechapel.

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Carta “Desde el infierno”

“Desde el infierno / Sr Lusk: / Cabayero / Le envio la mitad del rinion que lo saque a una mujer lo he conservado para usted el otro cacho lo frei y me lo comi y estaba mui rico. Puedo mandarle el cuchiyo yeno de sangre con el que lo saque si espera un poco más, firmado, Cojame cuando pueda, sinior Lusk”.

Según se determinó entonces, la cajita enviada al señor Lusk contenía medio riñón humano conservado en vino. Se creyó que el órgano pertenecía a Catherine Eddowes, la cuarta víctima de Jack el Destripador.

EPSON MFP imageCarta nº 4 ―Fechada en febrero de 1587, firmada por María Estuardo, va dirigida a Enrique III de Francia. Fue escrita seis horas antes de que la reina destronada fuera decapitada en presencia de trescientos testigos.

“El portador de esta carta & sus acompañantes, en su mayoría súbditos vuestros, darán testimonio de mi conducta en esta última hora. Sólo me resta pediros, cristianísima majestad, cuñado mío & viejo aliado que tanto amor habéis proferido por mí, que deis prueba de vuestra bondad aliviándome por caridad de un cargo de conciencia que sin vuestra ayuda no podría afrontar y que es el pago de los salarios que se deben a mis desventurados sirvientes. (…) En cuanto a mi hijo, os lo encomiendo a vos en tanto así lo merezca, pues no puedo responder por él”.

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Carta nº 8 ―Fechada en diciembre de 1886, firmada por FC Carr-Gomm, presidente del London Hospital, va dirigida al periódico The Times con el objetivo de solicitar ayuda pública para un entrañable paciente: “el hombre elefante”.

“En este momento, en una pequeña habitación de uno de nuestros desvanes, se encuentra recluido un hombre llamado Joseph Merrick, de unos 27 años de edad, oriundo de Leicester, cuyo aspecto es tan terrible que ni siquiera se ve capaz de salir al jardín a la luz del día.  Lo llaman “el hombre elefante” debido a esta espantosa deformidad. (…) Por terrible que sea su apariencia, hasta el extremo de que las mujeres y las personas nerviosas huyen aterrorizadas al verlo y se le impide ganarse la vida de manera normal y corriente, Merrick tiene una inteligencia superior, sabe leer y escribir, es tranquillo, amable, por no decir incluso de pensamiento refinado. (…) ¿Me podría sugerir alguno de sus lectores un lugar apropiado donde puedan acogerlo? (…) Alrededor de 76.000 pacientes al año cruzan las puertas de nuestro hospital, pero nunca antes se me ha autorizado a llamar la atención sobre ningún caso concreto, de donde podrá deducirse que el que nos ocupa es excepcional”.

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Joseph Merrick, el “hombre elefante”.

Cuatro años después, y tras la muerte del “hombre elefante”, el presidente del London Hospital, escribió otra carta al The Times. Agradecía la publicación de su carta anterior, y notificaba al director la abrumadora solidaridad que tuvo de los ciudadanos para ofrecer el bienestar al señor Joseph Merrick hasta sus últimos días.

EPSON MFP imageCarta 10 ― Fechada en marzo de 1941, firmada por Virginia Woolf, poco antes de suicidarse, va dirigida a su marido Leonard Woolf.

“Tengo la certeza de que voy a enloquecer de nuevo. Siento que no podemos volver a pasar por una de esas fases terribles. Y esta vez no me voy a recuperar. Empiezo a oír voces y no puedo concentrarme. Así que voy a hacer lo que me parece la mejor opción”.

Carta nº 13 ―Fechada en noviembre de 1849, firmada por Charles Dickens, va dirigida al periEPSON MFP imageódico The Times.

“(…) Estoy solemnemente convencido de que ni el más ingenioso podría inventar para esta ciudad un suceso que, en el mismo plazo de tiempo, pudiera generar tanta ruina como una  ejecución pública, y me quedo estupefacto y horrorizado al comprobar la crueldad que se despliega en su entorno”.

Carta nº 19 ―Fechada en agosto de 1865, firmada por Jourdon Anderson, ex esclavo estadounidense, va dirigida a su antiguo amo que le pedía que volviera a trabajar para él.

“Señor: recibí su carta y me alegró que no había olvidado a Jourdon (…) A menudo me he preocupado por usted. (…) Me gustaría saber en concreto cuál esa buena oportunidad que pretende ofrecerme. (…) Aquí me va razonablemente bien. (…) Muchos negros hubieran estado orgullosos, como lo estaba yo, de llamarlo amo. Si me escribe y me dice qué salario me daría, estaré en mejores condiciones de decidir si me conviene volver. (…) Mandy dice que le daría miedo volver sin alguna prueba de su predisposición a darnos un trato bueno y justo, y hemos decidido comprobar su sinceridad pidiendo que nos envíe el salario correspondiente al tiempo que estuvimos a su servicio. Esto nos haría olvidar y perdonar cuentas pendientes y confiar en su justicia y amistad en el futuro. Yo lo serví con lealtad treinta y dos años, y Mandy veinte. A razón de veinticinco dólares al mes para mí y dos dólares a la semana para Mandy, la suma ascendería a once mil seiscientos ochenta dólares. Añada los intereses correspondientes al tiempo durante el que se nos retuvo el salario y descuente lo que pagó por nuestra ropa, las tres veces que me visitó el médico y el diente que le sacaron a Mandy, y la cantidad resultante equivaldrá a lo que en justicia nos corresponde. Por favor, envíe el dinero por Adams’s Express, a nombre del señor don V. Winters, Dayton Ohio. (…) Su antiguo servidor”.

Por supuesto el amo no contestó al señor Jourdon Anderson.

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La familia del señor Jourdon Anderson.

Carta nº 55 ―Fechada hacia 1483, firmada por Leonardo da Vinci, va dirigida a Ludovico Sforza, solicitando trabajo y poniendo en relieve sus dotes como ingeniero y sus habilidades mediante la redacción de una lista de diez puntos con todas sus habilidades.

EPSON MFP image“2. En el transcurso del asedio de un territorio, conozco el modo de retirar el agua de los fosos y de construir una cantidad infinita de puentes, manteletes, escalas y otros instrumentos necesarios para tal propósito”.  “10. En tiempos de paz, puedo ofrecer tan completa satisfacción como cualquiera en el terreno de la ingeniería y de la construcción de edificios, bien sean públicos o privados, así como en el desplazamiento de agua de un lugar a otro”. Además, puedo hacer esculturas en mármol, bronce y arcilla. También en la pintura soy capaz de hacerlo todo tan bien como cualquier otro artista, sea éste quien fuere”.

Carta nº 117 ―Fechada en julio de 1939, firmada por el pacifista Mahatma Gandhi, va dirigida al líder de la Alemania nazi, Adolf Hitler, solicitando que evitara la Segunda Guerra Mundial, “por el bien de la humanidad”.

“Estimado amigo: Mis amigos me instan a escribirle por el bien de la humanidad. Sin embargo, me he resistido a sus peticiones por tener la sensación de que cualquier carta que pudiera mandarle sería una impertinencia. Algo me dice que no debo especular y que será mejor que le dirija mi súplica por si sirviera de algo. Está del todo claro que usted es la única persona del mundo que puede evitar una guerra que podría reducir a la humanidad al salvajismo. ¿Ha de pagar tan alto precio por un objeto, por muy valioso que se le antoje? ¿Va a escuchar la súplica de alguien que ha renunciado de modo deliberado al método de la guerra con un considerable éxito? En cualquier caso, cuento con que sabrá disculparme si he cometido un error al escribirle. Cuente con mi sincera amistad”.EPSON MFP image

La carta enviada por Gandhi nunca llegó a su pretendido destinatario por culpa de una interferencia del gobierno británico. Al cabo de poco más de un mes, el mundo contempló con horror cómo Alemania invadía Polonia, dando inicio así a la II Guerra Mundial.

Bien, resumiendo, Cartas memorables, es una perla. Está magníficamente editado. En sus páginas hay una profusión de imágenes gráficas ―cartas originales, facsímiles, fotografías, dibujos e ilustraciones―, que son un regalo para los ojos y un deleite para la mente. Una celebración del poder de la correspondencia de ayer. Sacia la adicción de los lectores a las cartas escritas por otros.

Les saluda respetuosamente su fiel escribiente.●

Artículo publicado en Acpe

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Carta escrita en inglés por el adolescente cubano Fidel Castro dirigida al presidente de Estados Unidos, Franklin Roosevelt, pedindo un billete de diez dólares.

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Carta del escritor Charles Bukowski dirigida al periodista Han Van den Broek sobre lo que piensa de la retirada de su obra  de una biblioteca holandesa.

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Carta de Galileo Galilei escrita en 1609 dirigida a Leonardo Donato, dogo de Venecia.

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Carta de Nick Cave dirigida a la MTV rechazando una nominación del mejor artista masculino.

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Carta de Annie Oakley (la tiradora de América) dirigida al presidente Mckinley.

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Carta de Alfred D. Wintle dirigida al director de The Times sobre las cartas que él escribía al periódico, pero las tiraba a la papelera.

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