Política

55) LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Metalúrgico e sindicalista

“SOU OTIMISTA E ACREDITO NESTE PAÍS”

por Jairo Máximo

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Lula da Silva em São Paulo / Foto: Jorge Beraldo

Luiz Inácio Lula da Silva (Garanhuns, Pernambuco, Brasil, 1945) Metalúrgico e sindicalista. Em poucas palavras é o líder sindical brasileiro do momento por antonomásia. Tem uma personalidade marcante, palavras bem colocadas, dentro de uma convicção ideológica impressionante. Gosta de discursar. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Minha condenação mostra que não existe abertura política no Brasil”.

Condena a condena
É praticamente impossível que alguém de bom senso possa imaginar que um trabalhador seja julgado pela Justiça Militar pelo simples fato de ter feito uma greve.

Revelação
Sou otimista e acredito neste País. Fui envolvido pela farta publicidade e noticiário sobre a abertura política e entrei decidido a participar ativamente desta nova fase brasileira que foi anunciada. O meu pecado foi ser otimista.

Entretanto
Minha condenação mostra que não existe abertura política no país. Essa decisão, aos olhos do povo brasileiro, e de todo o mundo, prova que a abertura é uma farsa.

Contudo
Estou tranquilo. Os motivos que me levaram a fazer a greve no ano passado estão hoje patentes, pois a classe trabalhadora passa mais fome do que em 1900.

Trabalhador unido jamais será…
Quando a classe for mais unida, quando os que estiverem empregados assumirem a luta dos que não estão; e somente quando eles se recusarem a fazer hora extra e lutarem pela estabilidade do emprego… Mais cedo ou mais tarde os trabalhadores compreenderão o que se tentou fazer com a greve e colocarão em prática aquilo que nós pretendíamos.

Faria tudo outra vez
Se fosse necessário eu faria tudo outra vez, mais procurando, é claro, colocar em pratica métodos mais aperfeiçoado, em função do aprendizado que tive com a greve de 1980. Não tenho nada do que me arrepender, mas quem deve estar neste estado é o Governo, por ter tomado medidas drásticas contra os trabalhadores. Nós precisamos descaracterizar que a demissão no ano passado tenha sido a pior em função da greve, pois de 1978 a 1980, período das paralisações o número de dispensas foi inferior ao registrado este ano, exatamente num período em que nenhuma greve foi registrada.

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Em 19 de abril de 1980 Lula é preso e passa 31 dias na cadeia

Empregado desorganizado vai para rua mais fácil
Em São Bernardo do Campo atualmente existem 30 mil trabalhadores desempregados. Esse quadro crítico não espelha somente o período econômico difícil. Existem interesses maiores dos empregadores. Veja bem, um operador de máquina na indústria automobilística, ganha um salário razoável se o comparamos com um salário mínimo, praticamente insuficiente para se viver, porém quando ele é demitido dessas empresas, fatalmente terá que se submeter a ganhar somente o salário mínimo em outra empresa. Enquanto ele declina o seu padrão de vida e passe a viver grandes problemas sociais e no lar, o patrão teve inúmeras vantagens.

Reorganizar é a missão
Para que os trabalhadores possam reivindicar novamente os seus direitos e buscarem uma vida melhor, a luta deve ter sequencia. Não podemos esquecer que o Sindicato dos Metalúrgicos ficou um ano e meio sob intervenção nas mãos do Governo que tentou desmoralizar e mostrar que os trabalhadores são incapazes de se organizar e lutar.

Interesse internacional

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Propaganda do PT: “Quero Lula presidente”

A nível nacional o PT é bastante conhecido. Nosso partido tem a certeza de que os companheiros dirigentes da Internacional Socialista entendem nosso papel e que se o PT caminha a passos largos para uma proposta socialista, ainda estamos distantes de definir o tipo de socialismo que queremos. O PT não quer copiar e, sim, que definitivamente, que o povo brasileiro, num debate democrático, defina o tipo de sociedade que não interessa.

PT anda por suas próprias pernas
Não estou mais interessado em ser reboque da elite, pois acho que é a elite que tem que estar a reboque da classe trabalhadora. Se pensarmos dessa forma, jamais a classe trabalhadora irá fazer política e eu vou ter que ficar embaixo da cama escondido, pois sempre que eu tentar fazer alguma coisa surgirá alguém dizendo que estou ajudando este ou aquele partido. E dou um exemplo: suponhamos que o partido da oposição ganhe as próximas eleições. Evidentemente, o Partido Social Democrático não irá se extinguir. E daqui a quatro anos, quando tentarmos uma candidatura, poderão dizer novamente que estou dividindo oposições.

A filosofia de Lula se fosse governador
Governaria usando o dinheiro público para beneficiar a coletividade. Ouviria o povo, saberia os seus desejos, e só a partir desta base o PT elaboraria a meta do governo.

Jânio Quadros no PT?
Não sou eu quem julga se uma pessoa pode ou não entrar no PT. Essa decisão cabe aos membros do diretório que julgam os nomes. O presidente do partido apoia somente o que as bases decidem. E isto serve também para o senhor Jânio da Silva Quadros. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Hora de São Paulo em novembro de 1981.

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Lula da Silva no jornal Hora de São Paulo em novembro de 1981

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Política

54) FRANCO MONTORO: Político, professor universitário e ensaísta

“O PODER ABSOLUTO É O RESPONSÁVEL PELA CORRUPÇÃO”

por Jairo Máximo

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Franco Montoro em São Paulo / Foto: Jorge Beraldo

André Franco Montoro * (São Paulo, Brasil, 1916) Político, professor universitário e ensaísta. Começou sua vida pública como vereador, depois foi deputado estadual, deputado federal, ministro do Trabalho até chegar a ser senador. Desde 1971 representa o Estado de São Paulo no Senado onde se destaca na luta pelos direitos dos trabalhadores, pela implantação da democracia e pelos direitos humanos.  Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Democracia se faz com educação”.Memórias Em Linha Reta . André Franco Montoro

Como o senhor vê o processo de democratização pelo qual atravessa o país?
Há três fatos que a meu ver estão impondo ao país a democratização. Primeiro, são os erros do regime atual, depois de 17 anos de anos de experiência de um modelo autoritário, cujos resultados foram uma elevação do custo de vida de 100% ao ano, desemprego, dívida externa, uma dependência do Brasil, em relação ao capital estrangeiro, abandono dos aposentados, da agricultura, em suma, toda a população sente que chegou a hora de mudar e não é mais possível continuarmos no atual regime. Este é o primeiro ponto.

O segundo, como consequência do primeiro é a tomada de consciência que a sociedade em todos seus setores está tomando que é a necessidade de abertura democrática para que o povo possa influir nas questões que lhe dizem respeito. Todos os setores da sociedade tem se manifestado ― professores, estudantes, OAB, Igreja― há um despertar da sociedade civil exigindo a devolução do poder ao povo brasileiro.

O terceiro fato, que é importante ressaltar, o Governo se mostra sensível a esta reivindicação e o presidente Figueiredo tem reiterado a sua disposição de conduzir o país à democracia, entretanto com dificuldades. Ainda agora este último “pacote”, representa uma tentativa de fazer que o Governo ganhe as eleições, o que confirma a realização das eleições e consulta à população para a necessária mudança de rumo do país.

Numa eventual fusão entre partidos políticos o senhor abriria mão da candidatura ao Governo do Estado de São Paulo?
A união dos partidos é uma necessidade. Nenhum interesse ou ambição pessoal pode prevalecer diante da necessidade maior que é a união das oposições. Meu nome não foi e nunca será um obstáculo num entendimento desta ordem.

O Brasil atravessa uma democracia relativa, democracia passível ou uma futura democracia empaca toda?
Nós estamos em um regime autoritário, centralizado e etilista. O povo esta exigindo a substituição desse regime por um regime de descentralização e participação da comunidade, em soluções de interesses da população e não soluções elitistas que beneficiem pequenos grupos como as multinacionais e as grandes organizações financeiras. Em suma, precisamos caminhar para a democracia.

Tem o atual Governo legitimidade democrática interna ou externa na sua política?
O Brasil está numa fase de transição e o atual governo não tem a legitimidade do voto popular. O artigo primeiro da Constituição diz: “Todo poder emana do povo, e seu nome é exercido”, mas o presidente da República e os governadores de Estado não têm sido escolhidos. A abertura democrática é que irá dar ao governo a legitimidade estabelecida no próprio artigo primeiro da Constituição.

Na opinião do senhor, atualmente quem não está preparado para a política partidária que se aproxima?
A democracia se faz com educação, com ensaios e erros. É fazendo a democracia que o povo se aperfeiçoa e se desenvolve na prática da democracia, e seu eu não entregar ao povo o direito de votar ele nunca terá adquirido esta formação democrática, necessária à vida pública do país. Hoje, os que não desejam a democracia são os poucos grupos privilegiados (grupos econômicos, financeiros) e alguns grupos que detêm o poder (civis, militares) que querem manter a situação para continuarem usufruindo do poder. A corrupção hoje ta patente aos olhos de toda a nação. Os jornais diariamente noticiam escândalos de bancos, Caixa Econômica, obras públicas, e esta corrupção em grande parte é fruto de centralização e da falta de fiscalização e não participação da sociedade. O grande historiador britânico que foi Acton disse: “O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente”. Sendo assim, o atual poder absoluto é o principal responsável pela corrupção no país.

Pode-se afirmar que os militares não querem a política partidária?

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Franco Montoro / Foto: Jorge Beraldo

Pelo contrário, as Forças Armadas estão demonstrando seu desejo de exercerem sua atividade típica dentro da Segurança Nacional, entregando aos representantes da comunidade a incumbência de resolver como políticos os problemas políticos da Nação. É evidente que existam obstáculos, mas já algum tempo, vem se desenvolvendo esta linha de comportamento.●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Hora de São Paulo em dezembro de 1981.

*André Franco Montoro morreu em julho de 1999 em São Paulo, Brasil.

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Franco Montoro no jornal Hora de São Paulo em dezembro de 1981

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Literatura

53) IGNÁCIO LOYOLA BRANDÃO: Escritor e jornalista

“MEUS LIVROS PARTEM DE UMA IMAGEM”

por Jairo Máximo

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Ignácio de Loyola Brandão, por Cris Eich

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Ilustração: Castilho

Ignácio de Loyola Brandão (Araraquara, São Paulo, Brasil, 1937) Escritor e jornalista. Primeiro começou a escrever como jornalista. Depois foi crítico de cinema. Hoje em dia é escritor de culto. Bem humorado, é cinéfilo compulsivo e colecionador de postais variados. Anota tudo o que vê, sente e faz.  Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Literatura não é atualidade. Literatura é literatura”.

20 anos de orgasmo literário
Em termos literários é uma bostinha. Em termos pessoais são aniversários para a gente comemorar -vou fazer um bolo! Fico contente, 20 anos e 13 livros -boa média. Mas tem gente que escreve um e são geniais. Do sonho de ser escritor, aos dias de hoje, vejo que o caminho não foi desviado -escrever, gozar, delirar, gozar, publicar.

Impulso
Começo sempre de uma imagem. Pode ser um gesto, um olhar, uma criança. Sempre de uma coisa que me grava. Os meus livros são todos construídos assim. Você lê e são roteiros de cinema, são sequencias. O livro Não Verás País Nenhum tá desenvolvido assim -é linear.

Análise
Na verdade acredito que fiz dentro do livro O Verde Violentou o Muro uma viagem por dentro de mim. Devia ter acrescentado um item, um fragmento. De alguma forma ele é um mapa, um guia.

Cultura não é moda
Será que existe atraso em matéria de cultura? Acho que não. Senão, onde estariam os livros de Stendhal, Flaubert e tantos outros. Literatura não é atualidade. Literatura é literatura.

Beat -chegou quando devia chegar
Os beat tiveram importância dentro da sociedade americana, mas não tiveram repercussão fora porque é um movimento tipicamente americano. Falam de uma sociedade superdesenvolvida, enquanto nós somos uma sociedade subdesenvolvida. O importante é que cedo ou tarde a gente conheceu este movimento literário de contestação dos anos 50. No Brasil não conheço nenhum movimento correspondente.

Gosto, mas discuto
Charles Bukowisk é uma personalidade curiosa, mas meio chato. Está sempre reescrevendo a mesma coisa, igual ao Dalton Trevisan. Retrata uma sociedade mecanizada, brutal e grotesca. É aquela coisa carcar nela e trepar nela. Falta emoção, carinho e afeto.

Cadê o novo
Não vi nenhuma Nova República. O novo não é o Tancredo Neves e nem o José Sarney. A crítica mostra que você está sempre vigilante. Na verdade, esta Nova República é a retomada do poder pelo PDS e UDN que tiveram seus elementos na Arena, MDB e depois PDS e PMDB. Quem está mandando são as classes conservadores, as mesmas famílias do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Bahia e as antigas oligarquias.

PT-não se encontra
Vi o Partidos dos Trabalhadores como uma proposta nova. Hoje ele está perdido. Cadê o PT? Sou petista e estou discutindo a participação de qualquer escritor dentro de um partido e acho que não deve participar -fica tendencioso. O PT foi uma coisa nova que apareceu nestes últimos vinte anos catatônicos, mas o próprio Lula precisa se definir. Qual é a dele? Não é cobrança. Ele não é líder?

Não vejo, mas deve ter
Acho que a juventude tem que estar participando -vivendo. Esta classe, categoria, conjunto ou grupo denominado jovem quer descobrir seu próprio caminho, o que caracteriza a Nova República é o espaço.

Trabalho na imprensa
Quero estar ausente. Faço algumas crônicas. Perdi o tesão jornalístico.

A Massa foi a Bienal do Livro
Foi ótimo. Agitou o pedaço e o livro foi noticiado na grande imprensa, igual à cobertura jornalística a morte do Tancredo Neves. Teremos até Bienal nas grandes cidades do interior do país.

Leituras públicas
Sempre fiz e continuo a fazer. Apenas estão ausentes alguns medalhões.

Não temos outra saída
Num país de grande quantidade de analfabetos, não podemos dizer que o brasileiro não lê. Os professores, por uma série de razões –econômicas- não acompanham os lançamentos editoriais. Temos que mudar o sistema social e adiantar culturalmente o país.

O Homem é uma coisa fraca
Nós homens somos muito complicados. Os homens inventaram o machismo, o preconceito, status, posição, eficiência e não têm condições de sustentar, segurar a barra…

Quer ver?
Não me preocupo com o título. Trabalho o livro inteiro com um título de trabalho e no fim foda-se o resto. Uma noite, conversando com uma amiga, ela falou que o beijo não vem da boca. Esta frase para mim definia o amor e, consequentemente, o livro. No primeiro beijo você se liga ou não na pessoa. Tem gente que discorda.

Trama do O beijo não vem da boca
Aí então pensei: vou escrever uma história de amor. Parti evidentemente de um ato pessoal -uma separação- e outras de amigos meus. Tem muita ironia, humor, sarcasmo, receita de bolo e até ensino como passar roupa. Estou no suspense. Pode ser um grande livro ou uma grande cagada.

Trama do O Beijo não vem da boca

É a história de um homem que se separa, vai para a Alemanha e lá tem um caso com uma mulher alemã. Aí você tem uma relação de mundo desenvolvido e subdesenvolvido. Ela é uma mulher autônoma, liberada, independente, enfim, tem uma segurança. É lógico que este relacionamento não dá certo e ele reencontra outra pessoa por quem fora apaixonado aos 15/16 anos. Acho que temos uma discussão em cima disto -amor, sexo e educação. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em maio de 1985.

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Ignácio de Loyola Brandão no jornal Pícaro em maio de 1985

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro nº5, maio de 1985, realizado por Castilho / Arquivo Blog do Pícaro

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