Literatura

43) PAULO LEMINSKI: Poeta, escritor e tradutor

“MINHA ALEGRIA É UMA ALEGRIA GUERREIRA”

por Jairo Máximo

Paulo Leminski em Curitiba / Foto: Jorge Beraldo

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Ilustração: Castilho

Paulo Leminski* (Curitiba, Paraná, Brasil, 1945) Poeta, escritor e tradutor. É um personagem cândido, alegre e teatral, que quando fala exibe um bonito casamento do gesto e a palavra. Sua obra literária cativa diferente leitores e cria uma legião de admiradores. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Curitiba, afirma: “A cultura não cabe dentro da política e sim a política cabe dentro da cultura”.

Infância, adolescência e educação
Existem algumas coisas na vida que não dá para melhorar. Ninguém consegue melhorar a forma do ovo e nem o gosto da água.

Movimento poético no BrasilAcredito que o único movimento é o movimento dos poetas indo de lá para cá, de cá pra lá. A gente está mais parecida com os Estados Unidos do que com a França. Esta coisa de movimento poético é uma coisa muito francesa. A literatura americana não tem movimento, só tem indivíduos -Edgar Alan Poe, Walt Whitman, John Fante, Jack Kerouac, Jack London, Ernest Hemingway. Você vai enquadrá-los em que lugar, de que jeito… Assim a literatura brasileira está deixando de ser uma literatura de movimento para ser uma literatura de indivíduos.

Editora Brasiliense é o canal
Quando eu e a Brasiliense nos descobrimos, aí por volta de 1982/83, a Brasiliense já existia e eu também. Então, nem eu inventei a Brasiliense nem ela me inventou. Houve um lugar onde a gente se encontrou e as coisas rolaram legal. Como continuam rolando. A Brasiliense me mima. Ela me trata bem.

Literatura beat foi golpe
Acho que a coisa da literatura beatnik é uma coisa que a gente merecia saber, conhecer e tal. Quando alguém faz isso, como a Brasiliense fez, pintam uns imbecis da Folha de São Paulo e dizem assim: É, tão botando Jack Kerouac, William Burroughs, Lawrence Ferlinghetti -20 anos depois. Mas que merda! E se eu quero conhecer agora. Não importa se ela não chegava. Porém, quando chega que seja bem-vinda. Chega de antiamericanismo primário.

Vestes a camisa do PCB
Sou do Partido Comunista Brasileiro.  Inclusive até sai na TV, no horário político do Tribunal Regional Eleitoral, apoiando candidatos comunistas. Eu não quero que o Brasil seja igual à União Soviética, mas eu sou comunista. O PCB é oportunista. Não é utópico. Os comunistas acreditam que a história está trabalhando a seu favor. Achamos que a história tem um destino. Então, você não tem pressa. O PMDB tem uma pressa. O PDT tem outra pressa. O meu partido tem uma proposta geral da sociedade. Enquanto comunista eu tenho uma proposta para a sociedade.

Não gostas do PT
O Partido dos Trabalhadores dá certo na medida em que ele é partido em crescimento. Gosto do PT é o segundo no meu coração. Gosto do PT porque fala em nome do trabalhador, do assalariado. Mas o PT não tem proposta geral para a sociedade. O PT é sindicalista e o sindicalismo não vai além da força do sindicato, da reivindicação de vantagens mais imediatas para o trabalhador.

A proposta anarquista
Eu sei e conheço e respeito à proposta anarquista, que é a mais difícil de todas. É a proposta em que a parte tem autonomia. Eu vejo a validade do anarquismo no sentido que ele conteste permanentemente a ditadura da nação em todos os sentidos. Ninguém mora na Nação. A Nação é ditadura suprema. Enquanto proposta de sociedade o anarquismo tem uma coisa de recuperação, utopia, coisa da idade de hoje, primitivo, meio tribal. Sabe, um lugar onde existe um Estado anarquista seria numa tribo Yanamoni, lá no Xingu, quer dizer, o anarquismo tem uma nostalgia, mas esta nostalgia não pode morrer. Não pode ser como Vladimir Lênin e Leon Trotsky que liquidaram com os anarquistas fisicamente. O anarquismo é uma coisa de esquerda, não é um movimento de direita.

América
A América para mim é um mal porque ela é fruto do capitalismo e foi feita pelo capitalismo, sob o cadáver de milhões de índios, de milhares de civilizações e um desequilíbrio ecológico inacreditável. Este mal feito eu falo num certo sentido até teológico, no sentido assim: na Alma da América está o mal. Ela foi gerada pelo mal, pela crueldade, maldade, destruição do império dos incas, astecas, dos índios brasileiros. Tudo, tudo…

É o elefante contra a formiga
Tem o cerco a Nicarágua e tem o cerco a Cuba que não permite que possam ter uma sociedade mais liberal. Então, a América é muito mal feita e o Brasil está dentro da América. O Brasil faz parte dessas coisas mal feitas. No Brasil aconteceu a anomalia da gente ter um Estado antes de ter um povo. O Estado brasileiro veio pronto de Portugal na forma de navegação, com o governador geral, subsecretário, assessor.

Contestar é sacrilégio
Todos os movimentos contra o poder no Brasil -Cangaço, Canudos, Antônio Conselheiro, Lampião- são tratados com extremo rigor de quem estivesse lutando contra cachorros e não pessoas. Veja a ferocidade com que foram tratados os subversivos na época do Emílio Garrastazu Médici. Porra, você vê o pai do Marcelo Paiva, Rubens Paiva. Então, qualquer movimento, se você fizer uma tradução em nível freudiana, é um movimento contra o pai, contra aquele que levantou a mão. Sabe, é aquele papo, cai à mão se você levantá-la contra o pai. E isto passa pela crítica aos costumes, à repressão social, as drogas, ao homossexualismo, ao aborto, à liberdade sexual. A repressão é a Constituinte nossa. Ela está embutida.

Felicidade foi se embora
A minha alegria é uma alegria guerreira, lutadora. A minha vida está justificada tanto quanto em sofrimento, como em estado de beatitude. Felicidade para mim é sinônimo de beatitude nirvânica.

José Sarney e Roberto Marinho juntinhos
A classe dominante brasileira é muito coesa. As diferenças entre um José Sarney e Roberto Marinho são insignificantes. Elas são de detalhes… “Detalhes tão pequenos de nós dois… São tão bacanas e sacanas”.

Pauta da Paixão1
Algumas coisas são maiores do que o quadro que elas pintam. Eu acho legal que a Fundação Nacional da Arte tenha este tipo de iniciativa, pois foi uma exposição da contradição que estão aí e chamam de Nova República. Foi um grande evento no Rio de Janeiro e Sampa. Isto é inegável. Este seminário não precisa de justificativas. Rolou legal e pronto.

Merda…
Merda para os rótulos. A gente não deve se embriagar com rótulos. O que embriaga é o que está dentro da garrafa. Por exemplo, uma candidatura como a do Fernando Gabeira, com a plataforma dele que veio com a legalização da maconha, aborto, liberdade sexual, partido verde, homossexualismo e mais o fato do cara ter sido viável. Realmente ele concorreu e a polícia não o prendeu. Fez o comício e tudo.

Valeu
E ele teve mais de 500 mil votos. Porra! Quer dizer, diante disso que gente está vivendo num momento complexo e, assim, o Estado entra em contradições como esta, como o seminário da Paixão.

Pauta da Paixão2
Repugna-nos a ideia de que o Estado patrocine um curso da paixão, porque me parece que não existe nada sem paixão do que a atividade do Estado, do Governo, que é uma monstruosidade. Aliás, o governo deve ter gasto a maior grana, infraestrutura total.

Maconha dá barato e cana
Além de não poder “dar uma bola” também não pode sair defendendo, porque defender o uso também é crime. Comparada a esta porra de bebida que estamos bebendo aqui em casa neste momento, não é nada. No caso da maconha você não pode sequer juntar uma moçada e levar este papo. Está no direito do livre uso do ser corpo. Isso faz limite também com o aborto, pois se o corpo é meu e eu não quero ter um filho, por que não? A repressão às drogas é o resquício mais antigo e retrógrado que possa existir dentro da nossa situação jurídica, constitucional de um modo geral. É uma coisa católica, feudal, medieval mesmo! É uma coisa de 1400, em que você queimava bruxa em praça pública; hoje quando você prende um garoto porque ele acendeu um baseado, está repetindo o mesmo gesto. É uma humilhação.

Ministério da Cultura dá futuro
Todo e qualquer Ministério da Cultura, onde quer que ele exista, é um órgão fascista, necessariamente. A cultura enquanto tal não é administrável, ela é maior do que o Estado vem antes dele e vai continuar existindo se ele desaparecer. A cultura não cabe dentro da política e sim a política cabe dentro da cultura. É o inverso.

Tá todo mundo mamando
Não é bem assim. Quer dizer, até certo ponto ela consegue seus efeitos, pois o Estado nunca deixará de tentar administrar a cultura. Você não pode impedir o Estado de interferir, mas o nosso papel enquanto intelectuais independentes, enquanto Pícaros -e eu gostaria que você colocasse aí que eu também sou Pícaro- é o de continuar produzindo cultura, picarescamente. E o papel do seu/nosso jornal Pícaro é veicular coisa em um nível mais genérico, mais teórico, mas cheio de curtição.

Poesia russa e Mayakovsky
O povo russo é um dos povos mais talentosos da terra. A poesia deles é uma coisa extraordinária. Vladimir Mayakovsky é um dos maiores poetas do século XX e deu a sorte de ser o porta-voz da revolução. Você não pode querer ser um poeta da estatura dele porque nós não estamos vivendo aquelas circunstâncias históricas. Não sei se você compartilha com a minha ideia. Os momentos são irrepetíveis.

Mil facetas: poeta, escritor, tradutor…
Inicialmente sou poeta. Acontece que não existe nenhum artista -poeta, cineasta, artista-plástico- que não atinja um momento em que se vê obrigado a fazer uma reflexão sobre a sua arte, os valores dela, o padrão estético, o que é melhor fazer, o que é pior fazer, além de umas tiragens de modelo, de clássicos para você, de um paradigma. Isto é um esforço. Poesia e crítica são duas coisas complementares. Quem faz acaba tendo que pensar sobre o que faz. Aí se cria um circuito fecundo e rico entre a reflexão e a produção.

Pirataria no ar
Vamos fazer uma distinção, não é acadêmica, é científica. Você tem que falar do plano sintático, que é a linguagem, e do plano pragmático, que é plano de consumo desta mensagem. As rádios e TVs piratas se passam no pragmático, no plano do consumo de mensagem. Vamos supor que a gente pedisse para o Júlio Plaza programar Olavo Bilac no videotexto, verso X verso, alexandrino X alexandrino, daria um exemplo perfeito no qual o plano pragmático é avançado, é tecnologia de ponta, mas no plano sintático é retrógrado, coisa de poesia alternativa dos nos 70, que tem que ser pensada sob a luz dessa dialética.

Mas Poesia Alternativa também…
Nos anos 70 a coisa passou para outro foco. Passou para o plano da distribuição, que é o treco que está ligado com a noite da ditadura. A moçada teve que improvisar; além disso, a poesia dos anos 70 expressa o homem industrial que estava surgindo. É uma coisa da geração que cresceu com a TV, rádio, revista. É a poesia da cidade, por isso ela é tão a fim de grafite, uma coisa de essência urbana. Para se fazer nas paredes ou muros das casas e transformar a cidade em página de livro. Vai daí que nos anos 70 a cidade se transformou em livro. O Brasil hoje é uma nação urbana.

Livro é Literatura
A literatura é a arte da palavra. O livro é o suporte. Livro não é sinônimo de literatura.

Hoje
A gente já admite que a literatura esteja fora como suporte. Caetano Veloso, o maior poeta da minha geração, faz poesia oral que é gravada em fita. Ele é um poeta provençal onde a palavra e a música se encontra numa batalha só. A qualidade de inspiração lírica de Caetano não tem igual.

Rock na cabeça
Gosto de algumas coisas do Herbert Viana, Lobão, RPM e Ultraje a Rigor. As letras das músicas do rock brasileiro são boas porque tem uma alta qualidade poética. A coisa vem dos anos 30, de Noel Rosa. A MPB tem uma qualidade poética de tradição, coisa que não se explica, ela vem acumulada desde Ismael Silva, Lamartine Babo, Ataulfo Alves. Atualmente gosto muito de algumas coisas do Antônio Cícero, que consegue fazer aquelas letras de Oi cara, de uma simplicidade natural, fina e requintada.

Como está o novo
O novo não deve ser buscado automaticamente, artificialmente. O novo ocorre quando você tem alguma coisa nova para dizer, como também já pode ter ocorrido e a gente não sabe. Hoje a sociedade está vivendo a era da recuperação do lixo, porque assim que acabar os recursos naturais do planeta, e eles são esgotáveis, o homem vai viver só do lixo. A arte hoje é neoexpressionista, tudo é neo como nada é neo. A humanidade está vivendo a contemporaneidade e o símbolo disso tudo é o computador, porque ele resume em si todos os tempos, engloba o passado enquanto memória e é o presente, e futuro enquanto programa na medida em que o computador está na minha frente e tem memória. Então, com o computador acabou o tempo. Não há mais tempo. O computador aboliu o tempo. Então não há mais novo, de que jeito? Você não acha Pícaro?

Exílio linguística
A grande desgraça cultural nossa a nível planetário é a Língua Portuguesa, que é um exílio, um beco, um dialeto guarani que ninguém saca. Nós estamos num buraco linguístico. O português é uma miniprovíncia do espanhol. Você enquanto artista, escritor, é prisioneiro de sua língua e é prisioneiro inclusive do destino histórico, que é o que acontece com a gente. No total somos 180 milhões de falantes da língua portuguesa que está em 11º lugar entre as línguas faladas em quantidade de gente, mas não tem peso algum. Você escrever em português ou ficar calado é mais ou menos a mesma coisa. As línguas não são transponíveis. Cada uma é um absoluto. Luís de Camões teve a sorte de escrever num momento em que Portugal estava vivendo um momento imperial, um boom histórico. Ele fez os Lusíadas e fez a obra dele. Daí Fernando Pessoa fez uma poesia em língua portuguesa extraordinária, num momento em que Portugal não é mais nada, apenas a sombra de um passado que houve.

Não acredito!
Tenho um poema em português para você Jairo. Nem sabia o que fazer com ele. Este é para nós -picarescos. Este poema é igual onça que vai beber a água no lugar certo. Vai cair direitinho no jornal seu/nosso. Sem dúvida, é perfeito Merda e Ouro publicado no Pícaro.●

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Paulo Leminski durante a entrevista / Foto: Jorge Beraldo

MERDA E OURO
(por Paulo Leminski)

Merda é veneno.
No entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam padres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro  A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em dezembro de 1986.

* Paulo Leminski morreu em junho de 1989 em Curitiba, Paraná, Brasil.

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Merda e Ouro, publicado no jornal Pícaro em dezembro de 1986

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Paulo Leminski no jornal Pícaro em dezembro de 1986

 

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