Arte

52) MAURÍCIO CHAER: Artista plástico

“CRESÇO DENTRO DO MEU TRABALHO”

por Jairo Máximo

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Maurício Chaer em Mogi das Cruzes / Foto: Nelson Rubens Spada

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Ilustração: Castilho

Maurício Chaer (Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 1957) Artista plástico. Desde menino vive em Mogi das Cruzes, São Paulo. Sempre está com a mão na massa. Sua linguagem é direta e reta, tanto verbalmente como artisticamente. Está em evolução permanente. Resgata do Universo os elementos que se completam para reconstituir sua obra. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Mogi das Cruzes,  afirma: “O sonho é o trabalho diário”.

Busca constante do artista
Tenho uma vida simples. Acordo cedo para encarar meu ateliê que abandono no final da tarde. Considero fundamental para a elaboração do meu trabalho o toque do escultor inglês Henry Moore que assinala: “Embora seja a figura humana o que mais profundamente me interessa, consagrei grande atenção às formas naturais, tais como, ossos, as conchas, os seixos, etc.”.

Alquimia: do barro à Arte

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Vendedor (2005-06), Maurício Chaer / Coleção Willy Damasceno

Para elaborar uma obra, primeiro amasso o barro -mistura de chamote e argila. Depois crio a forma desejada e espero secar para poder passar o esmalte. Na sequencia levo ao forno de alta temperatura -1300 graus- para finalmente ser consumida dentro do restrito mercado brasileiro de arte. Este ciclo de produção é tal quais as estações do ano: primavera, verão, outono e inverno. Ano após ano.

Mania de caderno
Sempre tenho um caderno de anotação onde rascunho desenhos dos futuros trabalhos. Seleciono variadas formas, e as coleciono. Da natureza utilizo a forma de uma folha, de uma mancha, de um tronco de árvore, etc. Das formas mecanizadas revitalizo as já criadas pela sociedade industrial -parafusos, bico de mangueiras, caixas de isopor, etc. Minha obra sai da natureza e desemboca no urbano, como que acompanhando as transformações de paisagem até chegarmos à metrópole.

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Maurício Chaer / Foto: Nelson Rubens Spada

Revelação Um
Sou do Partido dos Trabalhadores, afinal é o último dos partidos.

Revelação Dois
Quando Tancredo Neves morreu fiquei emocionado com a Fafá de Belém cantando o Hino Nacional.

Liberará
Cedo ou tarde a maconha será liberada no Brasil. Porque só a Souza Cruz pode? É como o jogo do bicho e a loteca.

Punks
Os punks são o rococó do pop.

Tesão

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Jardim do artista / Foto: Divulgação

O sexo precisa ser livre.

Papel Molhado
Faculdade é um título, igual à carteirinha de identidade, bilhete de metrô: mas se não tiver não passa.

Centro Cultural de Mogi das Cruzes
O normal para não dizer o certo, seria a construção de um (porque só as outras áreas podem usar essa bonita palavra) no Centro Cívico, mas deixa isso para quando eu for Secretário de Cultura ou, melhor, Prefeito Municipal da cidade. Depois, claro, que me tornar um acadêmico. Assim, enquanto a cidade não conta com um Centro Cultural deveria chamar-se Secretaria do Teatro, ou do Carnaval, ou ainda da Merenda Escolar ou então limitar-se a divulgar para a população mogiana o que passou no programa televisivo Panorama, da TV Cultura de São Paulo, na noite anterior (será que eles assistem!), pois a maioria, como se sabe, está ligada na TV do Silvio Santos, ou no Jornal Nacional da TV Globo ou nas escolas de samba…

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Showrrom do artista / Foto: Divulgação

Trabalhar!
Vivo da arte. Não é fácil, mas acredito que vai dar. Não tenho dia para trabalhar. Todos os dias são iguais. Aumentar a produção é o objetivo. Cresço dentro do meu trabalho.

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Pintura, Maurício Chaer

Sonhos
O sonho é o trabalho diário.

Aforismo próprio Um
Se pintar de novo. Pinta na tela da Globo.

Aforismo própio Dois
Nossos valores [do Pícaro] são outros. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em maio de 1985.

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Maurício Chaer no jornal Pícaro em maio de 1985

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Esporte

51) WALTER CASAGRANDE: Jogador de futebol

“SEMPRE ENTRO PARA JOGAR LIMPO”

por Jairo Máximo

Casagrande / Foto: Divulgação

Walter Casagrande Júnior (São Paulo, Brasil, 1963) Jogador de futebol. Sua chegada seleção brasileira dos anos 80 ofuscou Sócrates, Zico e companhia. É roqueiro convicto,  está filiado ao Partido dos Trabalhadores e não tem papas na língua. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “O atleta depende do seu organismo, é o seu sustento”.

Como você vê as acusações à democracia corintiana responsabilizando-o pelo fracasso no campeonato brasileiro deste ano de 1985?
Acho ridículo este tipo de acusação. Não tem nada a ver a filosofia de trabalho com o que acontece dentro do campo. A equipe não se acertou, a diretoria contratou jogadores pensando que ia dar certo, os jogadores se esforçaram, mas time não se encaixou. Foi isso o que passou.

O que representa no dia-a-dia dos jogadores a democracia corintiana?
O trabalho que a democracia fez dentro do clube foi que o jogador não se constranja a ponto de evitar alguma crítica a um superior dele se alguma coisa estiver errada. Nós jogamos abertos, pelo menos aqueles que usam a democracia e aí está o problema: se existe uma filosofia de trabalho como esta você usa se quiser ninguém tá te obrigando, nós ―Sócrates, Vladimir, Adilson, eu e outros― usufruímos desse projeto, e aí o pessoal falava que era uma democracia de terceira ou de quarta, que nós é que mandávamos, pelo contrário, nós participávamos. Agora, se os outros não querem participar, o que eu posso fazer?

Qual é a sua posição política? Você fecha com algum partido?
Sou filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT). No entanto, estou esperando uma opção, um complemento ao PT. Tenho muitos contatos por aí. Gosto de política e gosto de participar, então eu quero um negócio mais completo, para poder participar, para poder agir.

Na época do caso da cocaína, as torcidas adversárias e mesmo um beque de outro time te chamaram de maconheiro durante o jogo.  Qual era a sua reação?
Bem, até hoje as torcidas enchem o saco, mas eu não ligo. Quanto ao beque na hora eu fiquei invocado, bravo mesmo. Nunca ninguém tinha falado aquilo para mim. Mas só discuti, não houve maiores problemas.

Há torcedores que reclamam do seu comportamento em campo; dizem que você se perde, que facilmente fica nervoso e acaba prejudicando o time com cartões amarelos e vermelhos. O que você pensa disto?
Bem, eu nunca fui expulso por agressão. É que os caras lá fora assistindo fica difícil falar se o cara ta errado ou não, dentro de campo é outro papo. Eu me seguro ao máximo, quando não tem mais jeito eu falo, eu jogo tudo pra cima. Sempre entro pra jogar limpo, até o ponto de acontecer alguma coisa.

Nem uns beliscõezinhos?
Não, mas se o cara for nessa eu vou pegar ele para Cristo.

Na seleção brasileira quando todas as expectativas se concentravam nos brasileiros, quem acabou brilhando foi você. Como foi isso?
Na seleção brasileira eu fui um cara a parte, acabava o treino ia pro quarto. Não queria saber o que os outros estavam fazendo, eu tava vendo o meu lado. A seleção brasileira tem uma panela monstro e se lá eu vivesse do modo que eu vivo, olhando tudo, analisando tudo, eu iria explodir e sair. O jogador Serginho já denunciou essa panela.

Homossexualismo e drogas pintam no futebol brasileiro?
Homossexualismo deve existir, mas eu nunca vi. As duas coisas existem em todos os lugares e classes sociais. Quanto às drogas tenho quase certeza que se tiver é uma minoria que usa. Estou falando em termos de tóxico mais forte, maconha eu acho que nem chega a ser tóxico. No caso das drogas mais fortes é quase impossível, tenho quase certeza que afeta o sistema nervoso, modifica completamente o organismo da pessoa. O atleta depende do seu organismo, é o seu sustento.

Você é metaleiro?
Gosto do heavy-metal pra caralho. Gosto do Iron Maiden, Ozzy Osbourne,Whitesnake, Led Zeppelin e outros. Também gosto daquele bluizão: Eric Clapton, Peter Green, Johnny Winter. New wave detesto.

Agora em termos de movimento, prefiro o punk porque tem seu objetivo. Como os hippies queriam paz no mundo, os punks são revoltados com a sociedade, com o meio de vida que eles têm agora. Na new wave não encontro objetivo algum. ●

N. do A. – Participou nesta entrevista Adilson Spíndola, jornalista.

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em agosto de 1985.

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro, nº6, agosto de 1985, realizado por Fernandinho / Arquivo Blog do Pícaro

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Walter Casagrande no jornal Pícaro em agosto de 1985

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Comunicação

50) MARCELO TAS: Repórter e ator

“NÃO TENHO PARTIDO POLÍTICO”

por Jairo Máximo

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Marcelo Tas em São Paulo / Foto: Jorge Beraldo

Marcelo Tas (Ituberava, São Paulo, Brasil, 1960) Repórter e ator. Mas também é ator, pianista -estudou sete anos de música clássica- e ex-engenheiro. Atualmente incorpora o personagem Ernesto Varela, o melhor ator/repórter da TV brasileira que joga com a palavra, a estética e a ética. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Os comunistas brasileiros são uns porcos, são um bando”.

Como foram as origens da coisa?

O repórter Ernesto Varela entrevistando Lula / Foto: Reprodução Blog do Tas

Tudo começou quando o Goulart de Andrade abriu um espaço em seu programa de TV para o Olhar Eletrônico. Ele deu total liberdade para a gente. Neste programa eu era produtor, mas como fazia teatro, comecei a brincar com a câmera, de ficar na frente, fazer gracinhas. Era um dia chuvoso. Peguei os óculos vermelhos do Fernandinho, que é colecionador de óculos, e comecei a brincar de repórter, com as coisas óbvias. Nasceu naturalmente. Demos um nome -Ernesto Varela- e ele começou a entrevistar pessoas reais – políticos, artistas e o público em geral na rua.

O Marcelo Tas perdeu a identidade profissional ao incorporar o emergente personagem Ernesto Varela?
Acho que não. O Varela é uma pessoa que vive dentro de mim. Agora pintou o Bob McJack que é o apresentador do Crig-Rá; diferente do Varela O Bob é mais plástico, mais moderno. Enfim, é um cara modernoso. O Varela é tradicional. O Bob é rock, sanduíche. Personagens que podem aparecer ou não. Vai daí que a gente vai trabalhando.

Na infância você fez troca-troca?
Mas é claro.

Politicamente qual é a sua?
Bem estou trabalhando como a maioria dos brasileiros, com esperança de melhorar o País. Nada de esperar coisas do governo. Os políticos conseguiram chegar ao limite da descrença e agora estão querendo recuperar a profissão desacreditando. Vão ter que provar tudo com trabalho. Agora, com a Nova República, eles têm mais respeito com os brasileiros. Se eu votasse em São Paulo votaria em Fernando Henrique Cardoso.  Mas eu não tenho partido político.

Você usa drogas?
Que tipo? Droga a gente consome o dia inteiro. O ar que respiramos aqui é uma droga. Eu acho.

Estou falando em drogas/drogas: maconha, álcool, haxixe, cocaína?
Olhe, eu acho que isso não tem importância. O importante está em outro lugar. Tudo tem que ser encontrado um ponto justo. As drogas na minha vida não têm importância. Eu não uso ou uso raríssima vezes. Uso pouco.

O repórter Varela era uma brincadeira. Hoje ele está no mundo  -Cuba, Nova Iorque, Moscou. Qual é a emoção desta viagem progressista?
De repente é um susto. Andando em Moscou eu me sentia alucinado, como o feito de uma droga, pois sem usar droga a gente viaja também. O Varela é um trabalho consciente de pesquisa. Na produtora Olhar Eletrônico a gente se reúne bastante. Temos um rigor de trabalho. Aquilo que na TV aparece ser um delírio esta dentro de uma base sólida. Pé na terra. Viajar é bom.

Nenhum comunista comeu a criancinha do Varela em Moscou?
Não, não. Os comunistas preferem agora comer caviar e tomar vodca. Eles estão em outra. Fomos muito bem tratados, de uma maneira especial. A gente fez matérias com certo constrangimento: duas pessoas acompanharam todas as gravações. Eu só não dormia com estes caras. Isso atrapalhou, mas ao mesmo tempo revelou todo este controle que há na União Soviética. Eles são todo um império. São poderosos. Têm tecnologia avançada.

Como a população é servida desta tecnologia?
As pessoas moram direitinho. Recebem um salário que permite uma sobrevivência boa. Para eles o que interessa é servir à média. Quanto aos “privilegiados” eles consideram que tem que ter mesmo, porque são pessoas que têm responsabilidade de tocar o Partido. Mas tem geniais que estão confinados. A rebeldia existe. Às vezes é criativa e é estimulada.

Como o debochado Ernesto Varela pode passar para o público esta visão?
Passei através de uma coisa que ele tem: simplicidade. O Varela estando em Havana, Moscou, Queluz ou Rio Preto, é a mesma coisa. Ele é ingênuo, caipira e tradicional. Inexperiente diante de tudo. Ele é óbvio. Procura sempre o que atrai na rua. É curioso.

Você dormiu com alguma comunista em Moscou?
Não deu tempo. Cheguei a paquerar. As soviéticas são surpreendentemente descaradas. Elas na rua te caçam. Elas vêm em cima de você e ficam falando, falando. Elas são tímidas, mas na rua… Lá durante o verão o dia se põe a meia noite. Vai daí que, quando acabava o dia, que eu ia dormir tranquilamente.

A jornalista Belisa Ribeiro (TV-Bandeirantes) disse que a Rússia é um país de velho e criança. Esperança e experiência. Você endossa isto?
Aqui a juventude é a base. Lá, a primeira pirâmide deles é a Segunda Guerra Mundial, onde morreram 20 milhões de pessoas. Foi um corte na população masculina violento. A visão da juventude soviética para mim é de um grande animal que se movimenta muito lentamente.

O próprio urso seria?
É, talvez. É uma boa imagem. Não tem gestos bruscos. Fiz uma pergunta para eles de quando seria a próxima revolução russa. Não entenderam, não responderam. Para eles só houve uma e não vai existir outra revolução. Os caras falam de produtividade agrícola para o ano 2000. Os planos são em longo prazo. Nós, no Brasil, somos um país primário -lambões. A gente resolve as coisas no chute. Acredito que neste momento estamos nos tornando adolescentes.

Onde pode ocorrer uma revolução dentro da União Soviética?
A falha para mim é na área da informação. Não existe inquietação, que é própria do Ocidente. Não há troca entre outros mundos. Eles têm uma ideia de incrementar, de mudar isto. Não é à toa que fomos lá fazer umas matérias. Tudo estava nos planos quinquenais.

Marcelo Tas reuni frases do presidente Lula em livro

Você acabou de ter contato com estilos diferentes de comunistas -soviético, cubano e brasileiro. Traça um perfilzinho deles pra gente?
O comunista soviético mora na matriz. É competente. Conseguiram dar uma qualidade de vida para as pessoas. Tem o problema da desinformação do mundo. Precisam ocidentalizar a informação! O comunista cubano é um comunista desenvolvido. O país é pobre, mas é um cara bem-humorado, gozador. Bem próximo ao brasileiro. Eles estão vivendo um processo primário em relação à União Soviética. Agora, o comunista brasileiro é aquele que ainda esta anos-luz atrasado em relação a estes outros dois. A maioria da delegação que foi a Moscou era do Partido Comunista Brasileiro. Sabe, na volta, depois de toda aquela maravilha de um povo asseado, as ruas limpas, os brasileiros invadiram as lojas de souvenir do aeroporto e levaram as coisas de bacias. Consumistas pra caralho. Os comunistas brasileiros são uns porcos; são um bando. Nós temos que nos civilizar e crescer muito. Estamos num estado bruto. Às vezes desanima, mas vamos trabalhar. Você me manda um jornal Pícaro quando sair à entrevista?

Mando! Ah, a vida sexual do Varela explodiu depois do sucesso nacional?
Manteve na mesma. Sou um rapaz tímido, contido na minha vida sexual. Como é que você me faz uma pergunta dessas, rapaz…

Qual a reação dos políticos, quando entrevistados pelo Varela?
Às vezes eles chegam extremamente preocupados e saem dando risadas; ou então as vezes chegam dando risada e saem extremamente preocupados.

E o seu projeto de mudar a bandeira nacional está andando?
Ele está aí, em andamento. Somos a única bandeira que tem uma coisa escrita. As bandeiras são símbolos. Se a Nova República é nova, então, não precisa de Ordem e Progresso na bandeira. Concorda Pícaro? Abraços. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em outubro de 1985.

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Marcelo Tas no jornal Pícaro em outubro de 1985

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro, nº7, outubro de 1985, realizado por Cris Eich / Arquivo Blog do Pícaro

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Política

49) FERNANDO GABEIRA: Jornalista, escritor, político e ex-guerrilheiro

“A LIBERDADE É UM PROCESSO CONTÍNUO”

por Jairo Máximo

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Fernando Gabeira, por Cris Eich

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Ilustração: Castilho

Fernando Gabeira (Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, 1941) Jornalista, escritor, político e ex-guerrilheiro. Chegou ao Rio de Janeiro aos 18 anos de idade e de imediato foi ser jornalista. Depois mergulhou de cabeça na política, até cair na luta armada contra a ditadura militar (1964-1984). Em seguida partiu ao exílio europeu. Retornou ao país em 79, logo após a anistia e nunca mais deixou de militar politicamente. Nesta entrevista exclusiva, concedida no Rio de Janeiro, afirma: “Gostaria de voltar à política: fazer direito o que eu não fiz direito com a luta armada”.

Como está sua vida hoje?
A vida está legal, mas economicamente está péssimo, difícil. Trabalho muito. Faço programas de TV, que me consome três dias da semana. Preparo livro, escrevo artigo, faço conferência e, ainda, faço um trabalho político de preparação do movimento ecológico. Atuo no sentido mais amplo, junto aos direitos humanos. Então, tenho três dias da semana para ganhar grana e três dias para trabalhar de graça.

E quanto ao seu trabalho com a Comissão de Direitos Humanos, visa ideias para a Constituinte?
O trabalho é no sentido de denunciar todas as violências das instituições totais -cadeias, manicômios, delegacias, reformatórios de menores. A primeira etapa do trabalho é exatamente esta: denunciar as condições das Instituições, e ao mesmo tempo, lutarmos pelos direitos da mulher e da criança.

A Constituinte não é uma farsa? Ela não está caminhando para o infinito do nada?
Ela vem, mesmo! Mas caminha para ser uma coisa muito limitada.  Acho que o ideal seria que os constituintes só fossem constituintes…

E não apenas uma divisão de cargos políticos. Certo?
Exato. A outra coisa que acho que é também uma coisa importante, é que os caras para serem constituintes não precisassem entrar em partidos. Tem muita gente que quer ser candidato e não quer entrar no partido, então, ele não pode estar representado na Assembleia Constituinte.

Nestas condições, onde fica o Partido Verde (PV)?
A tentativa é de colocar o PV na Constituinte ou no quadro político brasileiro. O PV é uma proposta alternativa de vida -outra vida- que envolve a proteção da natureza, mas também envolve uma série de experiências alternativas no campo da saúde, educação, alimentação, experiências de luta de direitos humanos, solidariedade com os povos. Uma concepção política diferente da que está aí.

Um pseudopartido autodefinido Verde apoiou o Jânio Quadros, em Sampa. Uma força política, o PV, ainda em fase de organização, despertando tanto interesse da direita organizada. Como é que pode isto?
Esta coisa que aconteceu em São Paulo é outra tentativa que o Partido Trabalhista Brasileiro fez de criar o Partido Verde deles. A primeira tentativa foi do PTB de Curitiba. Eles sentiram que estavam naufragando e precisavam de uma legenda para sobreviver. Foi o que aconteceu. Aquelas pessoas não têm nada a haver com o partido. Eles se intitulavam do Partido Verde para efeito das eleições, simplesmente para dar apoio a um candidato reacionário como o Jânio Quadros.

Você será candidato a um cargo político, nas próximas eleições?
Sem dúvida. Existem duas possibilidades: uma seria eu ser candidato aqui pelo Rio, embora ache que em São Paulo e Belo Horizonte teria possibilidades. Acho que a outra possibilidade seria eu percorrer o Brasil apoiando candidatos verdes. Tentar fazer uma união, um encontro deles depois das eleições, que seria o embrião do Partido Verde.

Quem ganhou as eleições no país? Em Sampa, foi um desastre irreparável ou sucessão de erros táticos. Merecíamos isto?
Acho que existe São Paulo e o resto do país. Acontece que São Paulo é o lugar mais importante do país. Se você considerar por um exame de São Paulo a gente vai ver que quem avançou com isto foi a direita, que se organizou, estruturou e avançou. No resto do país você assiste um crescimento do PT e do PDT, que são os dois partidos de oposição do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, que acabou ficando agora como o partido mais forte no nordeste. Aliás, o mesmo que aconteceu com o Partido Democrático Social, no finalzinho dele.

Nas eleições de Sampa, o PMDB contou com o seu apoio e de grande parte do elenco da novela global Roque Santeiro. Mesmo assim não deu. Por quê?
Olha, é um pouco cedo para a gente dizer o porquê não deu, mas uma coisa é certa: não se pode culpar ninguém. Não é correto você dizer que não deu por causa do PT. Nas minhas análises, eu acho que dava para o PMDB ganhar e o PT ter um crescimento espetacular. O ideal seria isto. Acho que no caso do Fernando Henrique Cardoso, o que pode ter acontecido de negativo para ele é uma certeza muito grande da vitória. Eu acho, talvez, que ele deveria ser mais humilde. Ter mais jogo de cintura.

É… O galo do Fernandinho cantou a vitória, sem que o dia tivesse amanhecido. A maconha foi à culpada? Libera ou não libera?
Vamos a partes. A primeira questão da maconha na eleição municipal foi um pouco mal colocada. Não é atribuição de um prefeito discutir se a maconha é ou não é uma coisa legítima. No momento em o FHC concedeu aquela entrevista, ele nunca tinha pensado em ser prefeito. Aquela entrevista foi desenterrada. Acho é que o povo não condena ninguém porque bebe. Vício por vício, o Jânio é considerado um bêbado, e nem por isso deixaram de votar nele. O que o povo analisa muito é a firmeza com que as pessoas colocam as questões. No caso do FHC havia até certa ambiguidade, ele como uma pessoa progressista, sincera, não era contra: ele é tolerante. Ele mesmo confessou que fumou e não gostou. Com isso ele se colocou que não é de um lado, nem de outro.

Ficou igualzinho ao Zé do Muro. Deixou espaço para a dúvida… É isso?
O povo brasileiro, acredito, considera que o fato de ser maluco não é uma posição que elimine ninguém de uma eleição; nós temos uma longa tradição de eleger malucos. Há até certa preferência. Se o cara está colocando um sapato trocado é porque é louco. Está viajando sem passaporte. A segunda questão, o caso da maconha, eu acho o seguinte: não era na prefeitura que deveria ser discutida e, sim, na Constituinte, quer dizer, a nível nacional. A maconha é um direito. As pessoas têm o direito de dispor do próprio corpo. A liberalização não representa nenhum desastre para o país, porque ela foi liberada na Espanha e o país continua avançando em seu processo democrático. Eu fumo, me responsabilizo por isso e que ninguém se meta com isso. Vou lutar para que as outras pessoas possam fumar também, caso queiram. Sem contar que no Brasil a maconha tem uma série de conotações religiosas, em vários lugares do Brasil, para os índios, em seitas da Amazônia. Não se pode proibir isto. Enfim, ela é um elemento do rito religioso. É um encontro do ser humano com o transcendente. Uma maneira de falar com Deus.  Agora, eu acho que o FHC foi uma pessoa muita sincera, digna, mas que caiu na armadilha, assim como dizer que não acredita em Deus -naquele debate- quando na verdade são fatores ponderáveis, um resquício do pensamento religioso que toda pessoa sempre tem. Ele fez o papel de uma pessoa com visão científica do fato.

Então, você acha que ele não teve um posicionamento objetivo, definido a nível popular?
É claro, mesmo porque a religião tem um peso grande, principalmente para a população da periferia que vem à grande cidade e sobrevive muito na base da crença religiosa.

Em debate político, determinadas questões que violam a individualidade do candidato devem ser levantadas?
Acho que as pessoas têm o direito de não responder alguma. Como no meu caso de luta política, ela passa pelo cotidiano, pela transformação, e sinto responsável para responder cada pergunta que me é colocada a cada momento. Nunca fui candidato a nenhum cargo eletivo. Não estou ganhando ou perdendo voto, estou afirmando minha posição.

O José Sarney aguenta a Nova República? Nova? De onde?
Olha, essa Nova República para mim foi uma grande decepção, em muitos aspectos. Até fiz para eles um plano de combate à violência e eles fizeram deste plano apenas um discurso. Acho que a Nova República se explica assim: acabou a era da opressão, começou a era da mediocridade. Temos mais liberdade, mas é uma mediocridade cuja expressão máxima é o governo de São Paulo. Os paulistas votaram anti-Franco Montoro. Isso é importante levantar. Uma das razões pelas quais eu tomei posição junto ao pleito paulista, foi que estaria sempre em São Paulo. Se eu tivesse de novo na mesma situação, apoiaria o FHC. Precisamos, agora, fazer uma ponte de solidariedade com São Paulo. Estamos sempre presentes, para que a cidade compreenda rapidamente que é preciso dar a volta por cima e, assumir o fato que as forças progressistas são maioria e não deixar que a repressão ganhe corpo.

Somos todos livres, soltos e inúteis no Brasil?

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Fernando Gabeira em março de 1988 em Mogi das Cruzes / Foto: Lailson Santos

Acho que a liberdade é um processo contínuo. Se você examinar com relação ao passado, estamos mais livres do que antes. Tanto homens e mulheres desfrutam de mais liberdade. Temos um caminho muito grande para percorrer no campo das liberdades individuais: a primeira é a maconha, que no fundo é uma questão de você usar seu corpo como você quiser. A outra questão fundamental é a questão do aborto, ou seja, que as pessoas tenham possibilidades de interromper a gravidez no momento em que julguem necessárias. Acho que as questões ligadas às liberdades individuais progressivamente vão tomando corpo no Brasil. Vamos lutar com resistência da direita, da religião. Hoje, já não se mata mais mulher impunemente, como matavam no final da década. Avançamos nisto. Da mesma maneira, as mulheres estão se incorporando muito ao mercado de trabalho e, com esta incorporação, elas ganham uma fatia de liberdade maior, não automaticamente, mas ganham condições de ter esta fatia de liberdade. Ao mesmo tempo em que isto ocorre, os homens são forçados a rever seu ponto de vista. Assim, eles também ganham uma fatia de liberdade quando eles começam a se desfazer dos mecanismos de opressão, que são às vezes educados a adotar, enquanto homem. Caminha-se, mas se caminha lentamente.

O Rio dita moda. Quem será a musa do verão-86. Quem sabe Leonel Brizola; Jânio Quadros ou o Cristo Redentor?
Isto é um problema da imprensa. Não sei quem possa ser este ano. Eles que trabalham com este calendário. Temo que a moda seja o PV. Seria péssimo o PV virar moda, porque depois ele desaparece. Agora, este é um verão muito especial, em que os anos 60 estão voltando como perspectiva, fragmentos do mundo inteiro -psicodelismo, engajamento popular.  Aqui no Brasil, por acúmulo do azar, os líderes dos anos 60 voltam -Jânio Quadros, Leonel Brizola. Dá uma sensação dos anos 60, não como moda e, sim como volta na máquina do tempo. Os jornais todos falam sobre isso hoje: o medo dos anos 60 voltarem.

E o governo Brizola, vai bem?
O Brizola tem a aprovação da maioria da população, ao contrário do Franco Montoro em São Paulo. Ele tem a preferência de quase 50% do eleitorado. A política que ele está fazendo aqui no Rio é muito destinada ao setor mais pobre da população e, assim, ele se desgasta muito com a classe média. Como quem decide eleição é esta área mais pobre, ele continua firme.

Como candidato a presidente da República, o Brizola encontra respaldo?
Acho que ele encontra, considerando as condições de hoje no Brasil. Agora, ele é uma pessoa com traços do passado muito fortes, tendências autoritárias, caudilhistas que mantêm o partido sob a vontade dele. Mas com todas estas características, ele ainda é a pessoa que consegue reunir condições para tocar o barco, considerando que o Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e Ulysses Guimarães foram destroçados.

O que você gostaria de fazer e ainda não fez?
Olha, em tese, gostaria de fazer tudo ainda que não fiz e algumas coisas gostaria de refazê-las melhor. No caso dos livros, eu gostaria de ter um trabalho mais dedicado, um trabalho mais preciso. Acho que isto é uma coisa fundamental. Os vídeos que eu faço os faço sem grana, gostaria de fazer um trabalho em vídeo com todas as condições técnicas. Gostaria de viajar mais. Faz falta, sei lá. Gostaria de voltar à política, fazer direito o que eu não fiz direito com a luta armada. Gostaria de fazer uma série de coisas.

No que consiste especificamente seu no novo livro?

É um bate papo com o líder francês Daniel Cohn-Bendit, que veio fazer um filme, sobre o pessoal que destacou em 1968. Primeiro fiz uma entrevista com ele para TV. O projeto dele chama-se “Nós que Amávamos Tanto a Revolução” que é a tentativa de ir a todos os lugares em que em 1968 havia coisas. É saber onde estão todas as pessoas que aquela época era revolucionária. Que relação se mantém ainda com aquele tempo. Assim surgiu este novo livro. É isto… ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em dezembro de 1985.

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro, nº8, dezembro de 1985, realizado por Castilho / Arquivo Blog do Pícaro

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Fernando Gabeira no jornal Pícaro em dezembro de 1985

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teatro

48) CACÁ ROSSET & UBÚ REI: Ator e diretor de teatro; apátrida universal

“O TEATRO É UMA ARTE PRIMITIVA”

por Jairo Máximo

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Cacá Rosset em São Paulo / Foto: Jorge Beraldo

Cacá Rosset (São Paulo, Brasil, 1955) Ator e diretor de teatro. Em 1977 fundou o iconoclasta grupo de teatro Ornitorrinco, em companhia de Luiz Roberto Galizia e Maria Alice Vergueiro. Não bebe, não fuma e adora o teatro. Detesta droga e não tem partido político. Mas é um ser engajado em mil coisas. Seus espetáculos teatrais sempre terminam em folia. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Sou uma pessoa bastante simples”.

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Cacá Rosset / Foto: Nelson R. Spada

Intimidade do artista
Não transo partido político. Sou supercareta; detesto droga. Bebo pouco. Nem cigarro eu fumo. Adoro sexo, mais primeiro fico com o teatro depois o sexo. Sou uma pessoa bastante simples.

Galizia vive
O Luiz Roberto Galizia teve uma importância fundamental na formação da linguagem do Ornitorrinco -grupo de teatro fundado em 1977, dentro da Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo, por mim, por ele e Maria Alice Vergueiro. Ele era um ator excelente. Todas suas sacadas eram de importância fundamental para a gente.

Liberdade conquistada
O Ornitorrinco não depende de um produtor para o próximo trabalho. Aliás, nunca dependemos. O espetáculo UBU-Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes, do teatrólogo francês Alfred Jarry (Laval, 1873- Paris, 1907) é muito visual. Você pode ter uma leitura mesmo que não entenda o texto. O essencial o público capta.

Arte primitiva
O teatro depende do público. Ele não é uma atividade privada. O teatro sem público não existe. Teatro não é televisão e é no mínimo tão bom quanto. Acredito quer o teatro não precisa e não depende do avanço tecnológico. Não precisa da informática, do raio laser. O teatro é uma arte primitiva; alquimia.

Teatro brasileiro
Acho que de um modo geral o teatro que é feito hoje em dia, principalmente em Sampa é muito ruim, primário. Mas torço para o teatro dar certo em Sampa e no Brasil. Quanto mais você fortalecer o movimento teatral, melhor para todo mundo.

Tio Sam proibiu
Achei o fim da picada à atitude da Kurt Weill Foundation, dos Estados Unidos, detentora dos direitos da peça proibir o espetáculo Mahagonny-Songspiel. É totalmente contra as ideias que Bertolt Brecht e Kurt Weill defendiam. É uma coisa institucional, censura.

Patafísica
A patafísica é um pouco da junção da matemática com a poesia. Ela vai além do real, além da física e da matemática. Ela é justamente a patafísica, o terceiro nível, que é o estudo das exceções do universo. ●

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Cacá Rosset no jornal Pícaro em abril de 1986

48-B) UBÚ REI: PERSONAGEM UNIVERSAL APÁTRIDA

“MATEI, ROUBEI E NÃO ESCONDO DE NINGUÉM”

por Jairo Máximo

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Ubú Rei recebe o ex-governador Maluf no Palácio / Foto: Ari Brandi

Ubú Rei (França, século XIX) Monarca. Personagem universal apátrida criado pelo teatrólogo francês Alfred Jarry, que neste momento está incorporado em Cacá Rosset. Ubú Rei é o arquétipo do cinismo, do ridículo e da grosseria. Também é autoritário e se sente o dono da verdade. Não tem senso de ridículo. É autêntico! Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Deus salve a folia!”

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Alfred Jarry, teatrólogo, poeta e pai da patafísica.

Transparência informativa

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Ubú Rei corrompendo o Pícaro publicamente / Foto: Jorge Beraldo

SKMBT_C36016042608451Antes de começar nossa entrevista quero lhe dar um forte abraço , uma gorjeta e um vale-emprego número 96.948, série Y, por você ter trabalhado de corpo & alma na minha vitoriosa campanha política manipulando a informação para que eu caísse bem para os leitores/votantes do jornal Pícaro. É deste jornalismo que eu gosto: aquele que beija o santo, passa no caixa e manipula até Deus. Muito obrigado!

Altivo e ativo governador Ubú Rei
Eu -sua excelência o governador de São Paulo- juro por Deus todo poderoso que conto com total apoio das massas e de parcela considerável da imprensa. Também juro que as pesquisas de opinião que, desde o início me favoreciam, não deixei que fossem divulgadas, para não influir nas eleições e nem na noite de reflexão. Eu já sabia, assim que começou a campanha eleitoral, que eu tinha 68% dos votos. E ganhei com 98% dos votos do eleitorado útil. Para mim a voz do povo é a voz de Deus.

Plano de Merdras

Cacá Rosset e Christiane Tricerri em Ubú Rei / Foto: Divulgação

Quero que o honrado povo paulistano, da capital econômica do Brasil, continue guardando no peito a intenção da efetivação do -Plano de Merdras- que será colocado em ação final do ano. Para esta dura tarefa acabo de nominar o Capitão Botoadura para a pasta da Justiça, porque lhe considero como o único homem capaz de diminuir os altos índices criminais dos colarinhos brancos, verdes, amarelos e azuis.

Merdras de Rei
Sou um rei eleito governador de São Paulo e trabalho muito. Suo a cueca. Sou único por sou aquele que fala a verdade: Roubei, matei e não escondo de ninguém.

Impunidade como fim único
Os quatros itens de minha plataforma que me levaram à vitória esperançosa foram: roubar tudo; aumentar os impostos; matar todo mundo; e finalmente, ir embora.

Puta mãe que o pariu
Mas o dinheiro que eu utilizei na minha campanha política consegui na bolsa da minha mãe. Digo isto que é para que todos saibam que jamais tocarei nos cofres públicos. Não sou dado às pequenas coisas.

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Cacá Rosset em Ubú Rei / Foto: Marisa Uchiyama (Arquivo Blog do Pícaro)

Mas católicas e variadas sim
Depois de finalizadas às apurações iniciei uma cansativa campanha política de olho na minha futura candidatura a presidente da República do Brasil. Minha primeira ação foi convocar as senhoras das Ligas Católicas e Variadas para que se engajem de peito aberto na memorável campanha da primeira e única dama -mãe Ubú-, que pretende atuar nas comunidades periféricas, no campo agrário e nos bordéis urbanos com o slogan “Agasalhe seu croquete com a mãe Ubú”.

Ubú Rei recebe ex-governador Maluf
Sim! Ontem recebi sim aqui, no Palácio dos Bandeirantes, o ex-governador Paulo Maluf para um encontro que inicialmente, se supunha ser de confraternização. Na verdade, o candidato vencido nas últimas eleições estava de posse de vale-emprego distribuído por mim durante minha campanha e exigia a secretaria do Planejamento. Não pude atendê-lo, afinal, o cargo foi ocupado pela dupla de palhaços Arrelia e Pimentinha.

Ubú Rei, o justiceiro

Joan Miró tinha uma especial fascinação por Ubú Rei

Antes de terminar nossa entrevista, quero aproveitar a ocasião e agradecer o grafólogo do Pícaro pela sua precisa análise elaborado através de um recado que escrevi de próprio punho antes das eleições para este jornal. Segundo o grafólogo, acertadamente eu -Ubú Rei- tenho um traço firme, profundamente marcante, que demonstra, ao menos, muita força na mão direita. As minhas deficiências nos riscos horizontais só provam que a caneta falhou. A espiral criada por mim significa o destino que me levará a passos largos, ao centro das decisões: o Palácio do Planalto, em Brasília, DF.

Excelente excelência
Não sou materialista. Acredito em Deus, especialmente nos debates públicos pela TV. E você? Deus salve a folia! ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em abril e setembro de 1986.

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Ubú Rei no jornal Pícaro em setembro de 1986

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Ilustração: Castilho, setembro de 1986 / Arquivo Blog do Pícaro

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humor

47) GLAUCO: Cartunista e desenhista de HQ

“MEU TRABALHO É ANTROPAFÁGICO”

por Jairo Máximo

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Glauco em São Paulo / Foto: Marisa Uchiyama

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Ilustração: Castilho

Glauco Villas Boas* (Jandaia do Sul, Paraná, Brasil, 1957) Caricaturista e desenhista de HQ. Em 1978 foi o grande premiado do Salão de Humor de Piracicaba. Em 1980 conquistou o troféu Casa das Américas, vinculado ao Salão de Humor de Cuba. Desde 1980 publica na Folha de São Paulo, onde levanta paixão com seus personagens Cruz Credo, Zé do Apocalipse, Casal Neuras, Geraldão e Geraldinho. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Minha vida profissional é um acidente de percurso”.

Quem é você

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Encontro marcado: Glauco e Spacca no jornal Pícaro em junho de 1986

Nasci sob o signo de Peixes. Sou filho de Maria Aparecida e Leon Villas Boas. Não sou católico apostólico romano e, sim católico romano. Sou parente de 2º grau dos famosos sertanistas Orlando e Cláudio Villas Boas. Casamento com papel passado estou devendo, mas tenho dois filhos Raoni (Guerreiro) e Ipojuã (Guerreiro da Dor). Atualmente tenho 29 anos chutados; divididos entre dez de criancice necessária, dez de adolescente punheteiro e os nove restantes dedicados ao humor. Não transo partido político. Entrei e sai da droga, sem perder o humor e a cabeça. Todos têm um pouco de louco.

Danadinho da vida
Na escola sentava nas carteiras do fundão. Na rua empinava papagaio, fazia troca-troca e desenvolvia meus primeiros desenhos em forma de super-heróis. Em Jandaia do Sul eu tinha 22 primos e todo mundo era primo elevado ao quadrado de todo mundo. Todo mundo era gozador. Metade do tempo a molecada estudava e a outra parte do tempo, todos sentavam na sapataria para falar uns dos outros simplesmente para poder rir.

Adolescência sem trauma
Nesta época eu já desenhava procurando formas para expressar minha arte. Até usava creme para fazer desaparecer as espinhas do rosto. Era uma fase difícil. É a pior idade que tem. Você fica no ar. A gente começa a se masturbar pra caralho, os peitos começam a crescer e os amigos tiram um sarro. Lembro que até raspei o pelinho do saco para ver se crescia rápido. Repartia o cabelo no meio, deixava o bigodinho. Estava começando a tomar jeito.

Acidente de percurso
Minha vida profissional é um acidente de percurso. Fui divulgar um show de música, quando tocava numa banda de baile, daquelas antigas, furiosas, e acabei sendo contratado -recebendo e tudo-, pelo jornal Diário da Manhã, de Ribeirão Preto. Neste momento foi quando eu tomei contato com o jornal Pasquim e em seguida o Fradim, do Henfil. Levei um tapa na cabeça legal e mudei o esquema de super-herói para o humor.

Revelando a manha
No primeiro quadro você coloca uma situação normal. No segundo quadro você detona a situação e, em seguida, sobra o quadro para o resultado final, que pode ser qualquer coisa sem graça. Gosto da imagem e pouco texto.

Quirera do artista
Meu trabalho é resultado de muitas coisas que chupei, alimentei -meio antropofagia. Aquilo que a gente ouve desde moleque. Psicologia caseira. Se fizer isto vai apanhar. Bater punheta cresce verruga na mão. Sei lá, qualquer coisa. Fazer humor é como cagar: você filtra tudo e despeja no quadrinho. Entendeu?

Alienado?
Nos anos 70 a ditadura fechou e os humoristas desempenharam um trabalho de resistência, mesmo! Eles viveram na pele a repressão militar. Mas como a gente faz parte da geração dos anos setenta, pois na época da repressão implacável eu estava jogando bola, depois passei a fumar maconha, escutar rock. Era paz e amor.Festival de Iacanga e outras baladas. É aceitar o trabalho dos outros e pedir para falar de suas experiências.

Emoção infantil
É incrível trabalhar para criança, melhor do que para adulto. As crianças de 4/5/6 anos estão com uma esperteza que te deixa besta e também aquela luz que demonstraram ter. As crianças adoram o Geraldinho. O personagem para elas é real.

Nova geração

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Glauco em São Paulo / Foto: Marisa Uchiyama (Arquivo Blog do Pícaro)

É aquela coisa de soma. De repente a gente encontra uma molecada de 15 ou 16 anos, verdadeiramente incrível. Acredito que está se criando uma nova geração musical. Hoje qualquer garoto pega uma guitarra e estraçalha.

Brasileiro em todas
O povo brasileiro tem a capacidade de não dividir nada, nem vivência, pois tudo o que faz se expressa e manifesta da maneira dele. Isto está explícito no futebol que é uma cabala pura. São 22 arcanos, onde o campo de futebol é cabalístico. A gente tem essas manhas que eu acho incrível que nenhum outro povo tem. Quem é o brasileiro?

Amantes sem Crises
O trabalho do Angeli tem uma afinidade muito grande com o meu trabalho. A gente tem uma troca de energia muito louca. Temos uma identificação de cabeça e ideologia.

Patrão, patrão, patrão…
Censura não existe, pelo contrário. A Folha de São Paulo já abriu espaço para mim fazer coisas do Geraldão que eu não fiz em nenhum outro veículo. Masturbar não pode. É certo compromisso, um bom senso que você tem que ter.

Infuso perturbado
O personagem Geraldão pintou em 1981. Depois passei a desenvolver a tira. Ele foi feito para ficar na minha gaveta. É aquela coisa mais escrota que você faz quando está sozinho consigo mesmo. Aquilo era um autorretrato para mim. Eu podia me expandir sozinho, numa época em que não tinha amigos, pois morava em Sampa há pouco tempo. O Geraldão reflete a incapacidade de você viver numa realidade mágica e ao mesmo tempo no tédio. Essa incapacidade de viver cada minuto de maneira plena, inteiro, que faz com que a gente canalize isto para esta parte do Geraldão, que seria fumar um cigarro atrás do outro, masturbar-se compulsivamente e tomar todas. Ele até mora com a mãe.

Por outro lado, a mãe não permite que ele torne independente. O Geraldão é a tentativa de certa pessoa se realizar e ser aceita como é. No início eu comecei a querer mostrar a tristeza em volta de minha pessoa, no entanto, eu mostrei uma puta criatividade tomando todas, dançando pelado na frente do espelho. É ridículo pra caralho, mas também é emocionante. Pícaro, você nunca dançou pelado na frente do espelho? ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em junho de 1986.

*Glauco Villas Boas morreu em março de 2010 em Osasco, São Paulo, Brasil.

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Glauco no jornal Pícaro em junho de 1986

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Cartaz publicitário do jornal Pícaro nº 10, junho de 1986, realizado por JAM / Arquivo Blog do Pícaro

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Arte

46) AKINORI NAKATANI: Ceramista

“MAS EU SOU UM JOVEM ARTISTA BRASILEIRO”

por Jairo Máximo

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Akinori Nakatani em Mogi das Cruzes / Foto: Nelson Rubens Spada

Akinori Nakatani (Osaka, Japão, 1943) Ceramista. Em 1966 formou-se em Artes Plásticas pela Faculdade Pedagógica de Kyoto.  Em 1971 aceitou o convite do corpo de Voluntários do Japão e veio para a América do Sul. Aportou primeiramente em El Salvador e foi lecionar arte cerâmica no Centro Nacional de Arte. Em 1974 chegou ao Brasil. Em 1978 veio para Mogi das Cruzes. Aqui continua sua produção artística sem concessões ao mercado artístico. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Mogi das Cruzes, afirma: “Quero conseguir com o trabalho de barro ser único”.

Primeiros passos no Oriente
Depois de terminar meus estudos de Artes Plásticas, em Kyoto, fui viver em Osaka e trabalhei como decorador. Em 1968 atraído pela cerâmica, tornei-me discípulo do professor Mitsuo Kanno, de Kyoto, assimilando a técnica tradicional japonesa em alta temperatura e outras técnicas modernas. Em 1969 fiz minha primeira exposição (coletiva) no Salão Kansai-ten, no Museu de Arte de Osaka, sendo que no ano seguinte me interessei pelo artesanato popular e fui viver num pequeno povoado rural de Fukuoka-ken entre artesões de cerâmica. Pra ser artista precisa ter curiosidade.

Primeiros passos no Ocidente

Sem título, Akinori Nakatani

Em 1979 realizei uma exposição no Museu de Arte de São Paulo (MASP), que segundo a crítica especializada definiu a linguagem Nakatânica. Em 1980 participei da Bienal Internacional de Cerâmica de Arte, Vallauris, França, e da exposição Cerâmica Hoje, realizada na Fundação Cultural de Brasília, DF, além de ter recebido o prêmio Medalha do Presidente da República, do Concurso Internacional de Arte, Faenza, na Itália. Em 81 retornei ao Japão e realizei várias exposições: Kyoto, Tókio, Osaka, etc. Em 83 realizei uma retrospectiva de minhas obras no Museu da Imagem e do Som, de São Paulo.

Sina do Homem
Eu -Akinori Nakatani- tenho cinco filhos e não é por acaso. É bom fazer filho. Se não existir filho o homem não existe. Uma pessoa nasceu de sua mãe por isso ela existe. Precisamos reproduzir.

Vitalidade do artista
Minha atitude diante da cerâmica é a de ultrapassar os limites da técnica, mas aprendendo uma a uma, praticando-se no sentido de extrair de cada uma delas a ampliação da criação através do barro.

Filosofia sim
Não tenho religião. Não sou budista. Acho que se falar assim brasileiro vai pensar que é muito esquisito. Mas tenho uma filosofia de vida, mas religião acho que não tenho.

Arte maior
Todo ceramista é concorrente meu, do meu trabalho. Acho que um artista deve pensar numa peça que não existe.

“Instrumento religioso”, obra de Akinori Nakatani

Não sei por que tem que gostar. Se for muito bom eu preciso concorrer com ele. Esse pensamento dá energia.

Vestindo camisa
Mas eu sou um jovem brasileiro. Para mim depois que termino de fazer a peça o objetivo termina. A relação com a venda não é bom, mas para sustentar a vida é preciso. Vender entristece.

Cultura em Mogi das Cruzes
Eu acho bem fraco. Só isto. Eu acho fraca a cultura em Mogi das Cruzes.

Criticar é necessário
Para o artista é bom ouvir crítica do crítico. Mas pouco crítico de arte sabe falar da obra. Eles não falam mal. Só falam bem. Às vezes nem interessa falar…

Política brasileira
É preciso suprir o gasto público. Se gasta muito com isso no Brasil. As coisas são de cima para baixo. Uma coisa imposta. A situação atual não está mudando nada.

Faculdade é piada
Não tem boa faculdade no Brasil. No caso das Artes Plásticas quem está ensinando em curso de cerâmica não sabe cerâmica. Este problema é o maior de tudo.

Dados anexos
Eu preciso dormir muito, quase dez horas por dia. Não ouço música, não vou ao teatro, cinema e não assisto TV. Tenho poucos amigos. Trabalho muito.

Didática pessoal
Quando faço os meus trabalhos, às vezes, faço o desenho antes, outras vezes, faço primeiro a miniatura e depois passo a execução da obra, ou ainda, vou fazendo sem planejamento e a forma vai surgindo à medida que vou trabalhando. O que fazer? Que forma dar a argila? São questões impossíveis de discorrer em poucas palavras, pois depende da filosofia da vida, da relação entre vida e cerâmica e do treinamento artístico de cada um.

Esclarecimento público
Apesar de fazer esculturas, considero-me antes de um escultor, um ceramista. Comecei a fazer cerâmica atraído pelas amplas possibilidades que o material oferece. E é com essa atitude de ceramista, de explorar as possibilidades de criação através do barro, que faço minhas esculturas. Às vezes faço também um cinzeiro, pratos ou xícaras para minha casa.

Ruínas fascinantes

Mary Noriko Nakatani, mulher de Nakatani, também é ceramista

Quando eu cheguei à América do Sul fui bastante influenciado pelas Ruínas Mayas, Incas e Astecas. Senti algo muito grande e forte visitando as ruínas astecas. Isso é difícil de te explicar.

Peroração
Quando eu trabalho com barro penso que para apresentar uma característica no barro, por exemplo, coloco a marca de um dos meus dedos… Quero conseguir com o trabalho de barro ser o único. As técnicas da cerâmica são aquelas que procuram extrair do material utilizado toda a beleza que lhe é própria e, por outro lado, nos auxiliam na realização de obras sem imperfeição.

Texto exclusivo para o Pícaro:

OBJETOS RITUAIS
(Akinori Nakatani)

Sem título, obra de Akinori Nakatani – Estação Metrô Tiradentes, São Paulo, Brasil

Ao examinarmos o processo histórico que conduz a humanidade, podemos constatar que nos últimos 200 anos a civilização europeia vem ocupando uma posição dominante, por vezes sobrepondo-se a outras civilizações. A maioria dos cientistas ocidentais pós-renascimento são europeus, assim como as bases do pensamento científico atual tem suas raízes europeias.

A ciência evoluiu a tal ponto que através dela podemos imaginar o futuro da civilização e dentro de que limite ela fará seu avanço. O efeito colateral dos medicamentos, os danos causados pelos agrotóxicos, pelas armas modernas ou pelos acidentes de trânsito, são contradições criadas pela civilização moderna. Para solucionar radicalmente esses problemas é preciso eliminar as conquistadas dessa civilização. Mas o avanço histórico é irreversível e a humanidade caminha implacavelmente apesar das pessoas que tomam consciência dessas contradições, apesar dos indivíduos que a querem modificar.

Atelier da família Nakatani em Mogi das Cruzes, São Paulo

Dos tempos primitivos aos dias atuais a humanidade passou por uma transformação completa em termos de complexidade, devido ao desenvolvimento do pensamento humano ou do cérebro humano. Entretanto o homem conservou não só a forma do seu corpo, mas também os seus instintos. O fenômeno de eclipse solar, por exemplo, nos provoca um sentimento de insegurança apesar de conhecermos cientificamente as causas do fenômeno; o conhecimento sobre a morte não aboliu o medo dela. Tais sentimentos, semelhantes ao sentimento de temor dos fenômenos da Natureza do homem primitivo, nos permitem constatar que os instintos humanos não mudaram desde os tempos primitivos.

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Akinori Nakatani / Foto: Nelson R. Spada

O meu trabalho tem o seu lado primitivo, justamente porque tem suas origens na ideia de que mesmo que os fenômenos da Natureza tenham sido esclarecidos pela ciência, os sentimentos ligados aos instintos humanos não foram alterados. O meu trabalho é, pois, a manifestação desses sentimentos. Tem a mesma função dos objetos utilizados nos rituais religiosos. O homem primitivo criou objetos para através de rituais -mágicos- afastar os temores dos fenômenos da Natureza. Participando da civilização moderna, procurando dar o meu trabalho uma função semelhante. Nesse sentido, o meu trabalho é sobre “objeto ritual religioso dos dias atuais”.●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada no jornal Pícaro de Mogi das Cruzes em junho de 1986.

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Akinori Nakatani no jornal Pícaro em junho de 1986

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