Comunicação

6) CARLOS GALILEA: Crítico musical

“O BRASIL NÃO É CONSCIENTE DO PODER DA SUA MÚSICA”

por Jairo Máximo

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Carlos Galilea em Madri / Foto: Maika Gómez

Carlos Galilea (Barcelona, Espanha, 1958) Crítico musical. Começou a escrever no diário espanhol El País, em janeiro de 1987. Neste mesmo ano e mês passou a apresentar, dirigir e produzir o programa radiofônico Quando os elefantes sonham com a música, dedicado a música brasileira e étnica, transmitido pela R-3 de Rádio Nacional de Espanha. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Sinto-me como um intermediário, um catalisador, uma ponte”.

Nascimento da Paixão…
Sempre lembro que a primeira vez que senti que algo forte se passava entre eu e a música foi quando tinha 14 anos e ganhei de presente dos Reis Magos um pequeno toca-discos e dois LPs: Imagine, do John Lennon, e Led Zepellin IV. Há pouco tempo atrás voltei a ouvi-los. Pareceram-me maravilhosos. A boa música sempre está em play.

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Milton Nascimento em Madri / Foto: Paco Manzano

Encontrando Milton Nascimento
Sempre tive uma forte relação com a França. Estudei em um colégio francês, em Barcelona. Minha avó era francesa. Quando era jovem ia visitá-la muito. Lá eu lia muitas revistas de música. Na Espanha eram tempos da ditadura de Franco (1936-1975), e a música contemporânea não chegava. Os cabeludos ainda eram todos delinquentes… Numa destas revistas francesas de rock/folk encontrei uma reportagem de duas páginas na qual aparecia um senhor negro, de cara redonda, chamado Milton Nascimento. O artigo abordava os discos Minas, Geraes e Milagre dos Peixes. Era o começo dos anos 70. Era um artigo entusiasta. Dizia que o Milton era um músico brasileiro indispensável. O tempo passava e não havia maneira de conseguir um disco do Milton, até que um familiar me trouxe o LP Minas, de Paris. Fiquei impressionado com aquela música. Chegou à minha alma. Mudou minha vida. Milton sabe disso… Então, eu ia pela Avenida Diagonal de Barcelona caminhando e cantando sua música. Não podia evitar. E a partir deste momento que descobri Milton, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e outros músicos brasileiros.

Credo Musical
Sempre existe alguém que te faz ouvir alguma coisa pela primeira vez. Considero que é isto o que faço com meu trabalho nas ondas radiofônicas e na imprensa escrita. Se as pessoas ouvem algo, e se emocionam, o meu trabalho vale à pena. Sinto-me como um intermediário, um catalisador, uma ponte. Se não existir uma ponte, as pessoas nao cruzam o rio.

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Caetano Veloso em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Quando percebeu que a música era seu caminho nesta vida?
(risos) Você quer que eu diga a verdade ou a mentira?

(risos) As duas! (risos) Quando percebeu?
Foram os outros que perceberam muito antes do que eu. Cheguei a este trabalho através da música. A música me apaixona. O que faço hoje é o mesmo que fazia em casa quando era criança e dizia para os familiares e amigos: ouçam esta canção, olha este músico, porém com o privilegio de que hoje vivo deste trabalho. Acho que assim que começou toda a história. Entusiasmo pela música. Entusiasmo de contar coisas. E o mágico desta história é que tive a sorte de acabar trabalhando no jornal que lia ―El País― e na rádio que ouvia ―Rádio3, da Rádio Nacional da Espanha. Mas meu trabalho não é jornalístico, é o de contar para as pessoas aquilo que me apaixona. O diretor de cinema espanhol Fernando Trueba diz: “Dou de presente para meus amigos livros e discos que gosto”. Realizo algo parecido. Mas não é porque não me considere jornalista que não valorizo o trabalho dos bons jornalistas. Tem de tudo… Agora, um dado importante, é que tive a sorte de começar a me dedicar a estas músicas e encontrar um lugar no meio musical, num momento quando não existia muito interesse pela música brasileira, africana e latina. Creio na sorte e na vontade de trabalhar. Em acreditar em algo e fazê-lo bem. A paixão é básica na vida.

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Marisa Monte em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Como foi seu particular encontro com a MPB?
(silêncio) Como vou te dizer… Sempre gostei da música. Mais que gostar me emociono com a música. Existem pessoas que se emocionam com a música, e outras que gostam da música. Não é a mesma coisa. Considero-me um privilegiado porque ela me apaixona. Considero que é igual aqueles que se apaixonam pela arte. É um dom. É um presente de natureza gostar de algo tão bonito. Posso te contar uma história?

Por favor, conte!
Foi no final de 1982, ano em que morreu a Elis Regina. Fui passar umas férias em Natal, no Rio Grande do Norte, e me hospedei na casa de um amigo que, numa noite, organizou uma festa e convidou alguns intelectuais da cidade. De súbito alguém pronunciou o nome da Elis Regina. Todos, ou quase todos, choraram ao ouvir o nome da Elis. Nunca mais esqueci aquela cena. Marcou-me muito. Chegou ao mais fundo da minha alma. Confesso que era isto mesmo que eu queria: estar com gente assim. Que se emocionam de verdade. Olha, naquela época não trabalhava nisto. No entanto, sentia que o Brasil estava muito próximo a minha pessoa, mas não sabia explicar o porquê. Sentia que existia alguma coisa que me tocava a alma. Era como se eu estivesse encontrando meu lugar neste universo. Não que eu quisesse viver no Brasil, mas tinha algo ali, nesta cultura, nesta gente que tem muito a ver comigo. Tinha alguma coisa no ar. Naquela época já gostava da música, do jazz e adorava a bossa nova. Mas considero que existe um momento chave na música brasileira. Sabemos! Já falamos disto pessoalmente em outras oportunidades…

Chega de saudade!
Foi em maio de 2005, quando tive a imensa honra de entrevistar o Chico Buarque, na sua casa de Paris, quando lançou o livro Budapeste. Naquela ocasião ele me disse: “Me dedico à música possivelmente por Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, interpretada por João Gilberto. Ouvir esta música que começava a tocar nas rádios brasileiras foi o que mudou minha cabeça. Demonstrou que podia pegar uma guitarra e tocar. Isso se passou comigo, com o Caetano, Edu Lobo, Gil, Milton e outros. Se você perguntar para eles hoje – 45 anos depois – onde estavam e o que estavam fazendo quando ouviram pela primeira vez aquela música, todos responderão com precisão. Coisa similar aconteceu comigo, mas com a música do Milton. Ele mudou minha vida. Ele sabe disto, porque lhe contei pessoalmente. O meu primeiro contato com ele é uma coisa curiosa, coisa de energia pura. De coisas bonitas! (silêncio).

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Gal Costa em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Quando e como foi a primeira transmissão do seu programa Quando os elefantes sonham com a música emitido pela Rádio 3, da Rádio Nacional da Espanha (RNE), e que se dedica quase que exclusivamente a programar música brasileira?
No dia 10 de janeiro de 1987, numa manhã de sábado invernal. Há 18 anos atrás não era tão fácil apresentar um programa sobre música brasileira. Hoje em dia sim. Posso te contar como conseguia alguns discos de vinil, num momento que ainda não existia CD e Internet?

É proibido proibir!
(risos) Quando comecei na rádio e no jornal, ainda não havia CD nem Internet. Não tinha dinheiro para chamar por telefone nem para ir ao estrangeiro comprar “malas” de discos. Fazia o que podia. Se alguém ia viajar pedia para que me comprassem discos. Quando meu pai ia para Portugal ou Paris, pedia para me trazer discos brasileiros. Os amigos me gravavam fita cassete, etc. As novidades que saíam no Brasil, eu não ficava sabendo. Aqui na Espanha, quando raramente lançavam um disco brasileiro, ninguém ficava sabendo. Porém, felizmente, tinha um contato no Rio de Janeiro, dono de uma loja de discos de segunda-mão. Ele me pedia para lhe mandar rock espanhol e em troca eu pedia discos brasileiros. Imagina o tempo que demorava isto. Depois descobri outra maneira de me informar. “El hambre agudiza el ingenio”, reza o refrão castelhano. Ia ao escritório da Varig, que ficava na Praça da Espanha, aqui em Madri, e ali me deixavam ler os jornais. Isto não faz tanto tempo assim. Eram os anos 90. Ali me tratavam muito bem. Inclusive cheguei a levar alguns artigos e reportagens e os guardava num arquivo. Levava para casa O Globo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, Jornal de Brasília e outros. Eles só se interessavam pelos cadernos de Economia. Quando eles iam jogar tudo fora eu chegava e fazia um filtro. E assim conseguia informação. Estava desejando chegar Internet. Hoje em dia visito as livrarias e compro tudo o que encontro sobre música brasileira.

Você já entrevistou dezenas de artistas brasileiros. Qual deles mais te surpreendeu?
A entrevista com Tom Jobim, na sua casa, no Rio de Janeiro, em 1993, um ano antes da sua morte. Era um ser maravilhoso. Estava fascinado pelo jogo das palavras. Falava o que tinha vontade de falar e respondia minhas perguntas como lhe interessava. Muitas vezes dizia: Pára, pára… Ouça este pássaro. Levava-me para o jardim e dizia o nome do passarinho e a característica do seu canto. Era um amante da natureza. De repente estávamos ali e chegam uns passarinhos, na parte de traz onde se vê o Cristo Redentor de costas ao longe. Naquele momento veio à minha cabeça a música Samba do Avião. Não sei porque lhe disse: Maestro, estou ouvindo esta canção. Ele respondeu: Eu também! Esse é um momento mágico na minha vida.

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Itamar Assumpção em São Paulo / Foto: Lailson Santos

Onde está o novo no Brasil?
(silêncio) Não sei! Considero que houve momentos baixos, não excessivamente criativos. Isto está relacionado com ao tema da indústria, da comunicação. Não estou criticando, porém entendo que encontrar um lugar depois do Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo, Francis Hime e outros, não é fácil. Essas pessoas são monstros. Apesar de tudo, saiu uma enorme quantidade de gente criativa. Vou citar alguns nomes, quem sabe esqueço alguém… Gosto do Lenine como criador antropófago. Gosto do Carlinhos Brown, que é pessoa que não é valorizada no Brasil. Ele é um gênio. Não vou explicar porque. Gosto de como canta Mônica Salmaso. Marisa Monte é uma delícia. Adoro Arnaldo Antunes. Guinga, outro gênio. É difícil ter gerações assim. Falando com Lenine, Paulinho Moska, Arnaldo Antunes,eles me dizem uma coisa que parece interessante. Eles não formam parte de nenhum movimento.

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Luis Melodia em São Paulo / Foto: Nelson R. Spada

Caminham livremente!
Sim! Gosto da comunhão entre eles; do trabalho conjunto. Brasil é um caldeirão de onde sai todos os cozidos. Todos bons. Adoro a mistura que encontramos no Brasil. Por outro lado, considero que a música não tem idade. Não tem tempo. Agora, nomes menos conhecido, que não está no Olimpo, e que gosto muito, é Vinícius Cantuária. Outro dia ele me disse uma coisa interessante: A música brasileira é um triângulo dentro de um quadrado. No triângulo estão: Tom Jobim, João Gilberto e Dorival Caymmi. Nas pontas do quadrado estão: Caetano, Gil, Chico e Milton. Os demais damos voltas ao redor. (risos)

Brasil é uma horta…
De gênios musicais. Há 18 anos a sintonia original do meu programa radiofônico é do Toninho Horta, que no Brasil muita gente não conhece porque é instrumentista. Eles sempre têm menos repercussão.

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Arnaldo Antunes em São Paulo / Foto: Lailson Santos

A música brasileira passo a passo conquistou seu espaço na península Ibérica. E a espanhola lá?
Isto eu não sei não… Não estou no Brasil. O que sei é que, em 1987, quando comecei o programa, encontrar um disco de vinil brasileiro era um milagre. E agora, como bem sabemos, existe nas lojas de CDs, uma seção dedicada à MPB. Existe a importadora Tangará. Também hoje em dia existe mais programa de rádio sobre MPB e, principalmente, que nos últimos 18 anos dezenas de artistas brasileiros vieram fazer seu show na Espanha. Seria mais difícil procurar um grande artista brasileiro que não tenha passado por aqui nos 10-15 anos. Praticamente quase todos passaram por aqui, inclusive muitos repetiram. Continuam criando público. É uma sinergia. São muitas coisas ao mesmo tempo. No entanto, não podemos falar de um fenômeno de massa, já que os meios de comunicação não apoiaram. É um fenômeno minoritário.

E progressivo?
Não! Chegamos a um importante momento intermediário. Hoje em dia muitos artistas brasileiros têm seu particular público espanhol, com altos e baixo, mas o mercado é como é. Agora, Paulinho da Viola faz anos que não vem aqui. É injusto. Ele continua sendo um dos melhores sambistas. Moacyr Luz, por exemplo, me parece o melhor compositor, ainda não veio. Porém, Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Chico César, Daniela Mercury, Elza Soares, Gal Costa, Gilberto Gil, Lenine, Maria Bethânia, Marisa Monte, Milton Nascimento, Mônica Salmaso, Moreno Veloso, Ná Ozzetti, Toninho Horta, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Tom Zé e outros tantos já passaram por aqui. Até o Chico Buarque já veio… faz tempo. Mas como ele não gosta de cantar direto… Ficamos na saudade.

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Gilberto Gil em Madri / Foto: Gonzalo Quitral

Nos últimos quinze anos ambos conhecemos aqui em Madri diversos embaixadores do Brasil. Alguns deles te marcou?
Nunca tive relações pessoais com os embaixadores do Brasil. Relações diplomáticas sim, já que alguns me convidaram para a Festa da Independência do Brasil. Com o último, o diplomata Osmar Chohfi, tive um pouco mais de relação porque foi ele quem me colocou a Ordem do cavalheiro do Rio Branco. Mas se o que você quer saber é qual é a minha relação oficial com eles, é inexistente. No princípio, quando estava começando, sentia uma falta de interesse generalizado pelo Brasil e seu universo cultural. Era ausente. Mas não sei se isto é o papel de uma embaixada. Se ela tem capacidade para organizar coisas. Porém, fique claro que sou independente. Não me vendo. Digo e escrevo o que penso, dentro de uns limites formais. Não sou jornalista de corte… Um jornalista não pode receber de uma empresa que não seja a sua. Não pode estar esperando recompensa do estado porque se transforma em um lacaio. O jornalista tem que ter uma parte crítica. Como já disse Chico Buarque: Os artistas estão aqui para incomodar. E os jornalistas também…

Onde hoje se faz uma boa música étnica ainda não globalizada?
Com a comunicação que temos hoje em dia, com as indústrias discográficas procurando desesperadamente em qualquer lugar do mundo, considero que está todo pendurado na Rede. Mas é preciso ter curiosidade intelectual e um pouco de conhecimento. Existe muita fusão, comunicação e confusão. Mas não existe um caminho predeterminado.

Têm muitos livros sobre MPB editados no Brasil?
O que tenho acesso compro. Estou agradecido ao Brasil por sua música, porque não sei o que estaria fazendo na vida sem ela. No meu trabalho falo da música brasileira, da cultura brasileira. Muitas vezes falo aos brasileiros que chegam aqui: Não entendo como o Brasil não é consciente do poder que tem sua música. É a melhor imagem que pode vender.

Quantos mil discos têm?
Não sei! Milhares… Dos brasileiros tenho uma grande quantidade: o melhor da MPB, o mais importante… Além disso, também tenho muitos discos de raridade. Trabalho nisto há 19 anos. Comecei a comprar há mais de 23 anos atrás. Tenho tudo catalogado.

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Que mundo gostaria de viver?
Numa sociedade que respeita os direitos humanos. Antes de ter uma bandeira, sempre perigosa, prefiro os direitos humanos.

Como viveu o atentado terrorista do 11 de março de 2004 em Madri?
Com tristeza! Não sei como chegamos a esta situação. É um passo mais da loucura demente do terror. Quando acontecem coisas como a de Guantánamo, Chechênia, Ruanda, e existem pessoas como Augusto Pinochet, sinto vergonha de ser um ser humano. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista eletrônica Metapress (São Paulo, Brasil) e no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) em janeiro de 2006.

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Carlos Galilea na revista eletrônica  brasileira Metapress em janeiro de 2006

 

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Política

5) EDUARDO MATARAZZO SUPLICY: Economista e político

“LULA TEM UMA EXTRAORDINÁRIA COMUNICAÇÃO COM O POVO”

por Jairo Máximo

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Eduardo Matarazzo Suplicy em Brasília / Foto: Cortesia do político

Eduardo Matarazzo Suplicy (São Paulo, Brasil, 1941) Economista e político. É um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e autor de muitos livros nos quais expôs suas ideias econômicas e sociais. Algumas delas já foram colocadas em prática em muitas cidades brasileiras. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Desenvolvimento deve significar a expressão do grau de liberdade do ser humano”.

Senador, quem é o senhor?
Nasci no dia 21 de julho de 1941, aqui em São Paulo. Meu pai era corretor de café e a minha mãe bisneta do Francisco Matarazzo, o pioneiro da indústria brasileira, que veio para o Brasil em 1888, aproximadamente, e se tornou nos anos vinte e trinta o maior empresário da América Latina. Desde minha mocidade tenho procurado saber quais seriam os instrumentos importantes para a realização de justiça. E este tem sido o tema principal do meu trabalho como senador, economista e professor de economia.

Quando encontrou a política?
Foi entre os anos de 1976-1977, quando diversos amigos vieram a mim e disseram: é muito importante que você pudesse defender as ideias que está escrevendo, que estão sendo muito lidas no Parlamento. “Por que você não se candidata a deputado?”. Em 1978, pelo extinto MDB (Movimento Democrático Brasileiro) fui candidato a deputado estadual. Fui o quarto mais votado para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Ainda não existia o Partido dos Trabalhadores (PT). Neste período eu já interagia com o movimento sindical. Fazia muitas palestras para os trabalhadores, para os estudantes, para os sindicatos em geral. E pela afinidade ideológica eles me convidaram para ser um dos fundadores do PT, que nasceu no dia 10 de fevereiro de 1980, em São Paulo. Isso faz exatamente 26 anos.

E desde então…
As principais proposições e ideias que tenho defendido dentro do PT, que acredito que são os marcos principais da história do partido nestes últimos vinte seis anos, é a luta pela democracia, a defesa da ética na política e a luta pela realização da justiça. Infelizmente, o Brasil é um dos países com maior desigualdade do mundo e com problema sério de persistência nisto.

Urge uma solução.
Sim. Em 1991, como senador, apresentei pela primeira vez ao Senado uma proposição de lei para instituir um programa de garantia de renda mínima que foi aprovado, porém por desgraça permaneceu na Comissão da Finança da Câmara, sem que tivesse sido votado. Entretanto, o debate sobre o tema fortificou muito e, em 1995, no DF, em Campinas e num número crescente de cidades se instituíram diversos programas de garantia de renda mínima associado à possibilidade de educação a famílias carentes, seja na forma de programa Bolsa-Escola, ou do programa de renda mínima associada à educação. Estes diversos programas acabaram mais tarde sendo aplicados, num programa que hoje se denomina Bolsa-Família, que unificou quatro diferentes programas, em outubro de 2003, por um ato do presidente Lula.

O que é Bolsa-Família?
Toda família, com rendimento mensal de até 100 reais aproximadamente, passa a ter o direito de receber uma modesta quantia que hoje é de 50 reais mais 15-30 ou 45, totalizando até 95 reais, dependendo do número de filhos. Além do requisito da renda, existem outros, tais como: as famílias com crianças de zero a seis anos devem mostrar que elas estão sendo vacinadas e têm um equilibrado desenvolvimento nutricional. E com respeito às crianças de 7 a 10 anos, os pais precisam demonstrar elas estejam frequentando as escolas, 85% das aulas. Portanto, o programa Bolsa-Família pode ser visto como o começo do dia em que teremos instituído uma renda básica de cidadania no Brasil. Em 2003, quando foi instituído o Bolsa-Família, havia dois milhões e 300 mil beneficiados. Em dezembro de 2005, havia oito milhões e 700 mil famílias beneficiadas e, em julho deste ano, serão 11 milhões e 200 mil famílias beneficiadas, aproximadamente 1/4 da população brasileira estimada em 185 milhões de brasileiros. Mas foi em 2001, quando apresentei um novo projeto de Lei que foi aprovada no Senado, em 2002, na Câmara dos Deputados, em 2003, e sancionada pelo presidente Lula em 8 de janeiro de 2004, para instituir no Brasil, a partir de 2005, uma renda mínima de cidadania para todos os brasileiros, começando pelos mais pobres até a totalidade dos brasileiros e residentes estrangeiros legais. Este é um direito de todos, o compartilhar a riqueza da nossa terra. Até mesmo para o Pelé, para a Xuxa ou para Antônio Ermínio de Moraes, o mais bem sucedido empresário brasileiro. Ou ainda para os jogadores de futebol Ronaldo, Ronaldinho ou até mesmo o para o presidente Lula e o senador Suplicy. O objetivo é pagar para todos uma renda básica. O programa Bolsa-Família é um passo na direção da instituição da renda básica de cidadania.

E quais as vantagens de se pagar esta renda a todas as pessoas incondicionalmente?
Primeiro, para eliminar inteiramente a enorme burocracia envolvida em se ter que saber quanto ganha cada um no mercado formal e informal. Segundo, para eliminar qualquer sentimento ou de vergonha ao investigar quanto ganha cada pessoa. Terceiro, para eliminar o chamado programa de dependência que causa os denominados fenômenos da armadilha do desemprego e da pobreza. Desenvolvimento deve significar a expressão do grau de liberdade do ser humano. Obviamente, se você institui uma renda básica como um direito de cidadania, amplia-se sobremaneira o grau de liberdade. Isto é de bom senso. Em algum lugar do mundo foi instituída uma renda básica de cidadania. Você saberia me dizer qual?

Não, senador.Compromisso - Eduardo M. Suplicy - Autografado
No Alasca, um dos 50 Estados norte-americanos. No início dos anos 50, Jay Hammond (1922-2005), prefeito de Bristol Bay, uma pequena vila de pescadores no Alasca, observou que de lá saia uma grande riqueza na forma da pesca. Mas boa parte da sua população ainda continuava pobre. Então, ele disse, “vamos criar um imposto de 3% do valor da pesca, para instituir um fundo que a todos pertencerá”. Evidentemente sua ideia teve enorme resistência. Demorou cinco anos para persuadir a todos. E deu tão certo que dez anos depois ele se tornou governador do Estado do Alasca. Além disso, nos anos sessenta, o Alasca havia descoberto enorme reserva petrolífera. E então ele disse aos 300 mil concidadãos. “Nós precisamos pensar na geração presente, mas também nas gerações vindouras. Vamos separar 50% da arrecadação decorrente da exploração de recursos naturais, como o petróleo, para instituir um fundo comum”. Essa ideia foi aprovada não apenas pela Assembleia Legislativa como emenda da Constituição, como também aprovada em referendo popular. Cada residente no Alasca recebe anualmente, desde 1980, primeiro 300 dólares, depois 400 e assim por diante. Hoje em dia cada residente legal ali recebe cerca de mil dólares, independentemente da sua origem, sexo, raça, estado civil ou condição socioeconômica.

Qual foi a consequência para o Alasca deste sistema?
Que nos anos noventa distribuíram igualmente a seus setecentos mil habitantes de hoje, 6% do PIB do Alasca. E isso fez do Alasca o mais igualitário dos 50 Estados norte-americanos.

Um exemplo a seguir!
Sem dúvida. Nos Estados Unidos durante os anos noventa houve progresso. As vinte famílias mais ricas tiveram crescimento na sua renda média de 26%. As famílias 20% mais pobres tiveram um crescimento de 12%. Portanto, houve concentração de riqueza. Mas no Alasca, graças ao Found Division Sistem, as famílias 20% mais pobres, tiveram crescimento da sua renda média de 28%, quatro vezes maior. Portanto, para um país como o Brasil que deseja melhorar significativamente a sua distribuição da renda, ao lado de outros instrumentos que são importantes, como a realização da Reforma Agrária que se está fazendo, mas precisa fazer num ritmo mais acelerado a instituição de uma renda básica de cidadania constitui um dos instrumentos de maior eficácia e racionalidade para ao menos se garantir democracia, dignidade e liberdade real para todos.

Sua obra mais recente é Renda de Cidadania ―a saída é pela porta. O que significa?
É um tributo contra a inércia e o privilégio, tanto no Brasil como em todo o mundo.

O senhor esteve investigando por conta própria as circunstâncias do sequestro do prefeito de Santo André, Celso Daniel, que posteriormente foi assassinado, em janeiro de 2002. Como vai a investigação?
É que algumas pessoas disseram que de alguma forma estranharam que quando o carro do Celso Daniel foi cercado e ele foi retirado do automóvel, o grupo de sequestradores de 6 a 8 pessoas ou de 8 a 10 pessoas que fossem se preocupou em levar o Celso Daniel e não também o empresário Sérgio Gomes da Silva que lhe acompanhava. Isto está sendo objeto de averiguação. O que eu sinto como responsabilidade sendo senador do PT é procurar ajudar na investigação.

Sinto que os brasileiros querem a verdade!
Calma! É muito importante para o próprio presidente Lula, que tinha em Celso Daniel um dos seus maiores amigos, a pessoa que ele tinha convidado para ser coordenador do programa de governo e que certamente seria um ministro seu. E também para todas as pessoas no PT que tinham no Celso Daniel…

Simpatia! Respeito! Admiração! Esperança!
Simpatia! E ele era um dos grandes valores. Era meu colega de magistério na Fundação Getúlio Vargas e foi um excepcional prefeito de Santo André. Mas a investigação sobre o caso ainda está em andamento, não foi concluída. Eu próprio ainda não tenho uma conclusão. O importante é a averiguação.

O caso “Celso Daniel” pode prejudicar o Lula na hora de se fazer uma avaliação histórica deste governo?
(silêncio) Não houve até o presente momento qualquer alusão de responsabilidade de pessoas do governo do PT ao sequestro e morte do prefeito Daniel. É preciso deixar isto bastante claro. Estamos diante de uma situação de grande complexidade para averiguar. O que avalio é que é nossa responsabilidade, do PT, apurar isso com todo o equilíbrio e isenção necessária.

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Carlito Maia em Madri em 1989 / Arquivo Blog do Pícaro

O senhor era amigo do Carlito Maia legendário filósofo popular brasileiro, disfarçado de publicitário, e criador dasantológicas consignas criativas “Lula-lá”, “oPTei” entre outras. É amigo do presidente Lula, ex-sindicalista, um dos fundadores do PT e presidente do “emergente” Brasil. E do José Dirceu, ex-guerrilheiro, ex-ministro da Casa Civil, amigo do presidente Lula e hoje em dia deputado cassado do PT. Em poucas palavras, como o senhor definiria estas três personalidades?

Carlito Maia foi um grande amigo e irmão. Uma das pessoas que mais me estimulou participar da vida política. No PT ele foi o criador de muitos slogans, inclusive dos que utilizei nas minhas próprias campanhas, como por exemplo, quando fui candidato a prefeito de São Paulo ou quando fui candidato ao Senado pela primeira vez. Hoje ele estaria muito entristecido com muitos dos fatos que causaram preocupação e tristeza para nós do PT nestes últimos anos, com respeito sobretudo aos problemas de natureza ética.

O presidente Lula é uma pessoa de excepcionais qualidades. Tem uma extraordinária comunicação com o povo brasileiro e soube se tornar assim um símbolo dos grandes anseios de realização de justiça que estão constansubiados em programas como Fome Zero, programas para a erradicação da pobreza absoluta e da construção de um Brasil mais justo, de muito progresso e de afirmação de soberania nacional.

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Manifestação do movimento Diretas Já em São Paulo em 1984 / Foto: Jorge Beraldo

José Dirceu foi uma das pessoas que, ao longo da história do Brasil, nos últimos 40 anos, se distinguiram na luta contra a ditadura e a favor da democracia. Foi uma das pessoas dentro do PT que mais se distinguia como organizador, por exemplo, da luta pelas diretas-já, na luta por ética na política e um dos principais, como presidente do PT, pela coordenação da campanha vitoriosa do presidente Lula. Sem dúvida, é uma pessoa de muitas qualidades de organização política.

Sobre as denúncias que surgiram em 2004, sobretudo por parte do deputado Roberto Jefferson, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que indicou José Dirceu como sendo um dos principais responsáveis da coordenação do “mensalão” (compra de parlamentares para estarem votando de acordo com o governo) e “caixa-2” (geração de recursos não contabilizados destinados ao PT) não foi claramente comprovado que ele, enquanto ministro da Casa Civil, conhecia e coordenava estas ações. E daí o sentimento de muitas pessoas de que o José Dirceu acabou sendo cassado sem que tivesse sido comprovada sua responsabilidade. É possível que só se venha a conhecer melhor estes episódios mais tarde… ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista El Siglo de Europa e no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) em fevereiro de 2006.

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Eduardo Matarazzo Suplicy  na revista espanhola El Siglo de Europa em fevereiro de 2006

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Sociedade

4) BRUNA SURFISTINHA: Ex-prostituta de luxo

“SEMPRE FUI NINFOMANÍACA”

por Jairo Máximo

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Bruna Surfistinha em São Paulo / Foto: Lailson Santos

Bruna Surfistinha (Sorocaba, São Paulo, Brasil, 1984) Ex-prostituta de luxo. Três anos de profissão ensinam muito, e ela quis contar tudo: primeiro em um exitoso blog com relatos picantes de suas experiências sexuais, depois em um livro que rapidamente foi traduzido a vários idiomas e adaptado ao cinema e ao teatro. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, afirma: “Sempre fui carinhosa com meus clientes”.

Quando decidiu ser prostituta?
Decidi ser prostituta quando eu tinha 17 anos. Uma noite, antes de dormir, coloquei na cabeça: “Vou ser prostituta!”. E comecei a fantasiar com esta profissão, fiquei me imaginando ter vários homens, satisfazê-los e ganhar dinheiro com isso. Acabei unindo o útil ao agradável. O útil é o dinheiro e, o agradável, é o ato de fazer sexo porque sempre fui ninfomaníaca.

De todos os programas que realizaste, qual deles mais te marcou?
Foi um programa que realizei com um casal. Eles eram casados de verdade há oito anos. A mulher era linda e super quente no sexo. Gostei muito de satisfazer sexualmente este casal, pois rolou muita química entre nós. Ela é bissexual e, além disso, gostava muito de assistir o marido transando com outras mulheres. Eram muito carinhosos um com o outro e não contratavam prostituta para esquentar a rotina sexual e, sim, porque os dois gostavam!

Já sentiu compaixão por algum cliente?
Eu sempre fui carinhosa com os meus clientes porque a maioria dos homens não busca apenas sexo numa prostituta, buscam também carinho e uma forma de terapia.

Qual é a sua maior qualidade de ex-prostituta?
Os três anos que me prostitui, com certeza ganhei muita experiência sexual. A minha maior qualidade é saber variar de posição, ter atitude na cama e não ter pudor no sexo. Mas acredito que eu tenha me tornado especialista no sexo oral, pois o meu namorado me elogia muito quando eu faço nele. E neste tipo de sexo, assumo que faço muito bem.

Durante um programa, o que não tem preço?
O respeito não tem preço. Eu sempre disse que o cliente comprava o meu corpo, mas não o meu respeito. Porém, fui humilhada por vários e agredida fisicamente por dois, mas soube me defender em todos os casos.

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Como surgiu a ideia de relatar suas experiências sexuais; primeiro no blog, depois no livro O Doce Veneno do Escorpião?
Sempre gostei muito de escrever. No final de 2003, decidi criar um blog para relatar as experiências sexuais com os meus clientes, mas sempre omitindo os nomes ou dados que os comprometessem. Também dava nota ao desempenho dos clientes, dizia se eram bons ou ruins de cama. Isso foi fantástico! Porque os homens sempre têm a certeza de que são bons de cama e que têm a capacidade de fazer as mulheres gozarem alucinadamente. Mas muito se enganam e nada melhor do que uma prostituta, para os avaliarem. Quanto ao livro, sempre tive muita vontade de escrever algum, pois sempre gostei muito de ler, principalmente os autobiográficos. Esta vontade surgiu desde antes de começar a me prostituir. Mas quando comecei, vi que poderia unir tal vontade com a prostituição.

Quando deixou de exercer a profissão de prostituta?
Parei de me prostituir em outubro de 2005, dois dias antes de completar 21 anos. Foi um presente que dei para mim. Já fazia três anos que me prostituía mesmo gostando de sexo eu já estava cansada, não somente fisicamente, mas psicologicamente também. Contudo, não me arrependo de ter prostituído, mas não faria novamente. Foi uma fase por qual eu tive que ter passado. Aprendi muito com o ser humano.

Em quantos filmes pornográficos já participou? Pensa em continuar fazendo?
Falar de filmes pornográficos me traz más lembranças. É a única coisa que me arrependo na prostituição. Prefiro não falar sobre isso. Jamais faria novamente.

Atualmente, como as pessoas se referem a você: Raquel ou Bruna Surfistinha?
Já estão se acostumando a me chamar de Raquel, que é o meu verdadeiro.

Qual foi a situação mais espetacular que viveu logo depois que a sua imagem tornou-se pública?
Foi na primeira noite de autógrafos que realizei numa livraria aqui em São Paulo. Mais de cem pessoas estavam na fila. Foi uma sensação indescritível para mim sentir o carinho e o respeito dos meus leitores.

Entre os variados produtos eróticos existentes, quais deles seus antigos clientes mais solicitavam?
Os clientes gostavam muito que eu usasse lingeries sensuais, mas muitos me pediam para que eu penetrasse vibrador neles.

Saberia nos dizer quantas adolescentes podem estar exercendo hoje a profissão de prostituta em São Paulo?
Acredito que tenha em torno de 20 a 50 mil prostitutas.

Em pleno ano de 2006 no site oficial do governo Lula no item ocupações trabalhistas, existem umas dicas para as prostitutas tipo assim: devem seduzir o cliente, proporcionar prazer ao cliente, elogiar o cliente e utilizar preservativo. Faltou alguma?
O principal, sem dúvida, é utilizar preservativo. Mas nessa lista que fizeram, faltou: ter coragem, não ter medo, ter consciência tranquila, ser esperta, administrar bem o dinheiro, saber encarar todos os tipos de homens, se respeitar e, finalmente, nunca abaixar a cabeça para os clientes. Boa noite! ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista Interviú e no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) em outubro de 2006.

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Bruna Surfistinha na revista espanhola Interviú, nº 1.591, outubro de 2006

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teatro

3) LEO BASSI: Ator, diretor teatral, dramaturgo e bufão

“MEU PATRIMÔNIO É O SÉCULO DO ILUMINISMO”

por Jairo Máximo

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Leo Bassi em Madri / Foto: Carmen Mato

Leo Bassi (Nova Iorque, Estados Unidos, 1952) Ator, dramaturgo, diretor e bufão. É nômade por natureza, provocador por tradição. Descende de uma família circense e anarquista cujas origens remontam ao século XVIII. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Sou um homem sério, mas dentro de mim tenho um grande otimismo, inclusive quando enfrento uma tragédia”.

Abro a cortina. Fale o que você quiser.
As ameaças que recebi na Espanha não me deram medo.
Uma coisa que o bufão sempre faz é dizer a verdade na cara, seja do imperador, papa, presidente ou rei, mesmo sabendo que pode ser assassinado por isto. Tem o caráter, a força e o orgulho de manter sua independência. Sou europeu. Meu patrimônio é o século do Iluminismo e suas consequências. Creio no que faço e falo. Sou um lutador.
Quero devolver ao bufão o seu direito ancestral de dizer em voz bem alta que os demais só pensam.

070130martesVocê vive entre Rio de Janeiro e Madri. E…?
Não somente entre estas duas cidades. Tenho outras moradias, como na Itália. Não é somente um binômio; é um plurinômio. Adoro o Brasil de maneira geral, e em particular o Rio de Janeiro. Aliás, sou amigo das pessoas da igreja Positivista, que tem sua sede perto da minha casa, no bairro do Catete.

Por que neste momento você esta apresentando para o mundo o espetáculo A revelação ―em nome da razão― que critica com profundidade o monoteísmo relacionado com a condição da mulher, a sexualidade e a ecologia, oferecendo uma defesa dos valores laicos e uma homenagem ao pensamento do século do Iluminismo?
É uma reflexão. Algo pedagógico para procurar salvar esta ideia do Iluminismo ―cuja principal característica é creditar à razão a capacidade de explicar racionalmente os fenômenos naturais e sociais e a própria crença religiosa― que penso que estamos perdendo como também a paixão por defendê-la. Quis fazer um espetáculo para recordar aos jovens por que temos esta sociedade. Por que temos algo que se chama liberdade. De donde vêm tudo isto. Creio que estamos regressando às ideias religiosas, que podem ser boas para uma pessoa, mas não como sistema político e de estruturação da sociedade.

mqdefaultSeu espetáculo começa com a projeção de um vídeo de uma intervenção sua em um ato público que contou com a presença de mais oito mil evangélicos brasileiros na Cinelândia, no Rio. Qual é diferença entre o fundamentalista cristão espanhol e o fundamentalista evangélico brasileiro?
Isto é muito complicado. No próprio Brasil existe neste momento esta diferença entre o catolicismo, que era a religião que imperava no país e o evangelismo que, nos últimos anos, cresce rapidamente e não sabemos até onde pode chegar. Mas o evangelismo brasileiro é uma ramificação do americano que é uma banalização do catolicismo com raízes protestantes. Têm uma visão teológica bastante pobre. Mas vão até a gente necessita: favelas, bairros marginais, áreas rurais. Além disso, amam o dinheiro. Sabem muito bem como ganhá-lo. Quando se conhece o velho catolicismo se constata que suas raízes são mais profundas, embora hoje em dia seja ineficaz e esteja estagnado nas estruturas do passado. No Brasil, tive à oportunidade de conhecer o teólogo Leonardo Boff, expoente da Teologia de Libertação, um movimento originariamente latino-americano que uniu a defesa dos valores cristãos com a luta pelos direitos dos mais desfavorecidos. Por pregar estas ideias, Boff foi condenado, em 1985, pela Congregação para a Doutrina da Fé, por defender “opções que podem colocar em risco a fé cristã.”. Que pena que Bento 16 não tenha entendido a importância deste homem! Teria transformado a história do Brasil e de toda a América Latina.

Cruzada laica já?

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Leo Bassi em Madri / Foto: Carmen Mato

Sim. Por exemplo, no Brasil estive em um encontro evangélico, no Rio Grande do Norte, onde tinha mais de 25 mil pessoas. Impressionante. Em um determinado momento o pastor disse: “Jesus precisa de uma nova ajuda de cada um de vocês. Precisa de dez reais. Podem lhe dar menos. Mas não se esqueçam de que Jesus pode ver tudo. Ele sabe se em sua carteira você tem dez reais ou mais”. Em seguida, todos caminharam em silêncio até uma grande caçamba e depositaram suas doações em dinheiro vivo. Os pastores evangélicos são bastante eficazes nisto. Não têm nenhum problema com o dinheiro.

E quanto tem de escrúpulos?
Zero. Ainda bem que a igreja Católica não pensa assim. (risos) Quem sabe no futuro triunfe esta tendência. (risos). Vou te contar um fato real: tenho um aluno no Rio de Janeiro. O pai vive em Porto Alegre, é especialista de telecomunicação e trabalha para a empresa de celular Claro. Ele me contou que durante 15 dias seu pai esteve negociando com os evangélicos para assinar um substancioso contrato com a Igreja Universal Reino de Deus gaúcha que queria comprar 10 mil celulares para seus fiéis. Depois de muitas negociações as partes chegaram a um acordo. No dia seguinte, seu pai recebeu uma chamada no celular que dizia: ”Somos da igreja evangélica e queremos te felicitar por sua força negociadora. Foi um prazer trabalhar com o senhor. E temos uma proposta para nova compra de celulares destinados a outras 15 Igrejas evangélicas de Porto Alegre e adjacências. Queremos dar de presente para o senhor as 15 igrejas. Esses templos arrecadam mensalmente 40 mil reais. Nós, da igreja só queremos uma quantidade fixa. O resto é para você”. O pai de meu aluno recebeu a proposta como um insulto. Ele não podia imaginar que uma igreja atuasse com tanto descaramento.
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Por que você afirma que ocidente está perdendo o laicismo?
Porque comprovo que os Estados Unidos já não são mais uma república laica. Nos últimos 20 anos caiu em uma república teológica e tem esta visão religiosa do mundo. Inclusive, atualmente, os democratas têm que declarar sua religião, rezar publicamente e frequentar igrejas. Se não vai, não pode ser eleito. Há 20 ou 30 anos ninguém sabia qual era a religião de John Kennedy, Richard Nixon, Bill Clinton. Não era uma condição sine qua non.

Durante sua passagem pela península Ibérica em 2007 apresentando A revelação―em nome da razão― você sofreu uma campanha de boicote e de perseguição pessoal nunca antes vista em tempos de democracia espanhola. Em muitas cidades, suas representações foram canceladas sem contemplação porque uma página na web ultra-católica que utiliza um sistema automático de envios massivos de e-mails advertia com ameaças e pressões as instituições públicas e privadas que decidiam programar A revelação. Em Madri, você viveu uma breve temporada com proteção policial 24 horas, por ter recebido ameaças de morte pela Internet. O emblemático Teatro Alfil, onde representava sua obra, teve vigilância policial ostensiva durante toda a temporada, que durou semanas. Mesmo assim, cristãos fundamentalistas realizaram uma manifestação em frente ao teatro. Denunciavam “provocação”. Pediam “respeito à Igreja e a Deus”. Também diversos meios de comunicação ―rádios, TV, jornais― lhe censuraram. O que isso significa para você?
Muito e pouco. O pouco é que existem alguns grupinhos fanáticos que há tempo estão contra mim. Até colocaram uma bomba ao lado do meu camarim, em 2006. São uns desequilibrados mentais. Por isso necessitamos da polícia. Só um destes loucos, com uma barra de ferro, pode nos fazer bastante estrago. O muito é que estes loucos não vão ao teatro. Vivem no seu mundo. Foram organizados por pessoas que não dão a cara. O cardeal Cañizares, vice-presidente da Conferência Episcopal e arcebispo da cidade de Toledo ―coração do cristianismo e de todos os movimentos nacionalistas e fascistas da Espanha― fez uma homilia que dizia assim: “Leo Bassi é o símbolo da decadência dos valores. Seu espetáculo é um atentado à liberdade religiosa“. Sendo assim, considero que o responsável por incitar essa gente é o cardeal aliado a um pequeno grupo de intelectuais que escrevem nos diários espanhóis ABC e La Razón.

Como um bufão vive em Madri com guarda-costas 24 horas?Utopia
Tive proteção policial durante alguns dias. Já não tenho mais, embora tome minhas precauções. Já estou acostumado a este tipo de situações. Intuo que os peixes gordos viram que isto estava chegando longe demais e deram uma contraordem para não me tocarem. Estava me dando muita publicidade gratuita.

Qual é a moral da história?
Que o governo do Partido Socialista Operário Espanhol ordenou uma proteção especial. Mandou um sinal de apoio: Neste aqui ninguém toca. Os outros entenderam a mensagem.

O que é leobassipuntocom?
Um bufão com Internet. Algo novo na minha vida. A Internet é fantástica para os bufões. É uma arma ou um meio para conectar ideias, procurar aliados e quebrar o monopólio da informação. A minha primeira briga é com diário espanhol El Mundo, por manipular notícias e difundir falsa informação. Fiz um estudo que está no meu site sobre os artigos do britânico Gordon Thomas, publicados por este diário, que o apresenta como um especialista em terrorismo. Constatei que as suas denúncias não se encontram em nenhum outro lugar. São inventadas. Uma coisa interessante de tudo isto é que com o julgamento do 11-M (atentado terrorista contra trens na Espanha que matou 191 pessoas e deixou cerca de 1.550 feridos) parte dos argumentos do direitista Partido Popular e de seus meios de comunicação, sobre a teoria da conspiração (uma suposta conexão entre etarras e islamistas) vem dos artigos de Thomas. Inclusive nos debates parlamentares, muitos populares o citam como fonte de informação.

9788495764607Acabas de lançar na Espanha o livro com o texto de A revelação ―em nome da razão―, que em breve será traduzido para o português. Por que o livro?
Este documento para mim é importante porque desde estreia deste espetáculo, mais de 150 mil pessoas já o assistiram. Teve lugares em que fiz espetáculo para mais de cinco mil pessoas. No norte da Espanha, cheguei a fazer durante muitas noites, apresentação para 1.440 pessoas em cada sessão.

Por que A Revelação para os brasileiros?
Porque considero que esta mensagem é importante para o Brasil.

Por que você é bufão?
Aqui existem duas coisas e quero que fiquem claras: a primeira é que me impuseram ser bufão. Descendo de uma família circense anarquista, e cresci com a ideia de que tinha que seguir esta tradição. Aquela coisa de filho/neto/pai de açougueiro. Eu mesmo ―como jovem inquieto― me rebelei contra esta tradição. Durante alguns anos não queria saber de espetáculo. Olhava-os como uma coisa que não era minha, era da família. Mas chegou um momento, buscando minha identidade, que comecei a pensar nesta tradição e a analisar qual era a função da minha família, dos bufões, dos palhaços, da importância do riso e passei a gostar desta história. Quem sabe foi aí que entrou o genético. O meu pai é um homem divertidíssimo. Constantemente está inventando e contando piadas. Aos 80 anos tem um otimismo, uma fé no futuro surpreendente. Fisicamente é um velhinho, mas mentalmente é um homem lúcido. E penso que tenho isto dentro de mim. Eu sou um homem sério, mas dentro de mim tenho um grande otimismo, inclusive quando enfrento uma tragédia. Ela não me afeta. Tenho certeza que depois de uma tragédia as coisas podem melhorar. Para afrontar a tragédia qual melhor arma que o humor e a comicidade.

Seu teatro é provocativo?
A provocação é uma ferramenta que utilizo para incitar o público. Penso que a maioria das pessoas é apática. E a provocação é uma coisa que desperta a consciência, pois o público a enfrenta. Muitos podem não gostar, e inclusive se assustar, mas todos têm que reagir.

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Leo Bassi em Madri / Foto: Jairo Máximo

Fecho a cortina. Haverá ovação?
Temos esquecido que a grande revolução do Iluminismo não é só o racional. É também o sensual, o sexual e os prazeres.
Preciso criar um novo espetáculo para chegar a algo mais. Estes desejos me chegam por meio do público, sem usar a palavra. ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista El Siglo de Europa, no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) e na agência Eurolatinnews em maio de 2007.

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Leo Bassi na revista espanhola El Siglo de Europa em maio de 2007

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humor

2) MAX: Desenhista de HQ e ilustrador

“A LEITURA DISPARA MINHAS VERTENTES CRIATIVAS”

por Jairo Máximo

Foto Max

Max em Palma de Maiorca / Foto: Carme Aguilló

Francesc Capdevila, Max (Barcelona, Espanha, 1956) Desenhista de HQ e ilustrador. Em 2007, ganhou o primeiro Prêmio Nacional de HQ, instituído pelo Ministério de Cultura da Espanha, pela publicação do álbum “Fatos, ditos, ocorrências e andanças de Bardín, o super-realista”, que segundo o júri “é uma obra graficamente deslumbrante, com um roteiro repleto de referencias literário, filosófico e cinematográfico”. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “Sou do tipo passeante, caminho sem rumo definido”.

263344Abro o quadro. Coloque a primeira frase nesta entrevista.
Um hieróglifo bastante conhecido: se vê um cachimbo desenhado e abaixo dele a frase ceci n’est pas une pipe. Gosto destas coisas, os paradoxos filosóficos ou matemáticos, os enigmas da Esfinge, os jogos de adivinhança. Eles são inesgotáveis, sempre têm cantos para serem explorados, disparam a imaginação. [Aqui Max faz referência a um dos trabalhos mais famosos do belga Rene Magritte, a tela “A traição das imagens”].

O que você sentiu quando soube que tinha ganhado o primeiro Prêmio Nacional de HQ instituído pelo Ministério de Cultura da Espanha? Uma grande satisfação. Sempre é assim ver o trabalho reconhecido. Ainda mais quando, como neste caso, trata-se de um prêmio recém-criado e que, de alguma maneira, significa um reconhecimento institucional a HQ, equiparando-a finalmente às demais disciplinas artísticas.

Considera que isto mudará alguma coisa na sua trajetória professional? Em principio, não. A trajetória está aí e os meus projetos criativos pessoais para o futuro imediato continuam sendo os mesmos. Pode ser que o prêmio reflita num aumento de leitores das minhas HQs. Quem sabe também, espero,melhores oportunidades quanto a trabalhos de encomenda como ilustrador. Sem dúvida, este prêmio dá um prestigio especial, porém vamos ver se repercute numa melhora das condições diárias de trabalho, minhas e de meus colegas.

Quem descobriu quem: você a HQ ou a HQ você?
Sou do tipo passeante, caminho sem rumo definido. Sei que aparecerão coisas no meu caminho, mas em geral eu não estou fazendo nenhuma procura especial. Não sei se eu era assim desde criança, quando um dia alguém colocou em minhas mãos a primeira HQ. Na adolescência,quando comecei a desenhá-lás, fiz sem pensar em nenhum momento que aquilo podia chegar a se transformar na minha futura profissão.

1Em 1990 fiz uma entrevista exclusiva com você para a revista brasileira Animal [1987-1991] que publicava suas HQs. Naquela época, você me disse: “cada personagem que crio é como um filho. Ganho dinheiro com a HQ”. Continua assim?
Quanto aos personagens sim. Porém, pouco depois daquela entrevista, decidi acabar com meu personagem Peter Pank, e fiquei uns anos longe da HQ, dedicando-me à ilustração. Quando quis voltar à HQ comprovei que tinha perdido muitos leitores. Então foi quando decidi a criar Bardín. Percebi que sem um personagem, é difícil conservar o leitor. Justamente por este distanciamento voluntário deixei de ganhar dinheiro com a HQ. Mas também é certo que todo o setor entrou em crise no final dos anos 80, com o desaparecimento das revistas mensais. Atualmente não poderia sobreviver somente fazendo HQ. Meu trabalho neste momento é menos comercial, um pouco mais experimental, e isso se nota nas vendas. Mas fui eu mesmo quem, inconscientemente, procurou esta situação. Ganho a vida fazendo ilustrações, e desta maneira sinto-me livre para fazer as HQs que quero fazer sem estar sujeito às regras mercadológicas. O único problema é que, com este sistema, tenho pouco tempo para me dedicar a HQs, consequentemente minha produção é escassa.

libro_1417626164Quem é Bardín, o super-realista? Como nasceu? Como convive com ele?
Nasceu como um experimento. Não queria voltar a criar um personagem que acabasse se convertendo em minha prisão. Os personagens são assim: têm uma personalidade bastante definida, uma psicologia previsível e nada mutante, está obrigado a serem eles mesmos sempre, aconteça o que acontecer, caía quem caía. Tentei o contrário: um tipo sem personalidade definida, de aspecto anódino e vulgar, aberto a qualquer coisa, com reações sempre imprevisíveis. Uma cesta na qual pudesse colocar qualquer coisa em qualquer momento. Que me permitisse mudar de registro, de tom, de lugar. O importante nas suas historias não é ele, e sim o que lhe passa. Pensei que assim não me cansaria. E, no momento, assim é: convivemos maravilhosamente. Com certeza influi o fato de que não lhe forço, de que trabalho com ele bastante intermitentemente, sem pressas nem pressões. Diria que ainda tem bastante corda

Como foi o processo de criação do premiado Bardín, o super-realista, que também ganhou os prêmios a melhor obra, melhor roteiro e melhor desenho do Salão Internacional de HQ de Barcelona de 2007?
A partir de 1997 comecei a fazer histórias curtas, sem um plano pré-determinado para ver o que acontecia. Ia publicando em lugares diferentes. Fui explorando possíveis registros gráficos e temáticos. Um par de linhas foi se delineando: os pesadelos, os encontros com entidades místicas, às conversas de bar. Publiquei dois comic-books baseados neste tipo de histórias, em 2000 e 2002. Quando tive material suficiente para pensar numa recopilação em livro, revisei e vi que o conjunto, ainda que bastante heterogêneo, tinha sentido. Finalmente introduzi uma história nova e longa, para dar contundência ao livro.

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Max em Madri em 1990 / Foto: Manuel Blanco (Arquivo Blog do Pícaro)

Cria sua obra em Palma de Maiorca, e edita em Barcelona. Aonde chega mais longe? Quem compra mais?
No mundo atual, é indiferente onde você viva e não importa onde publica. Tudo circula muito e rapidamente. O livro Bardín o Super-realista, de fato, foi publicado simultaneamente em co-edição na Espanha, França, USA e Holanda. Em seguida, houve edições em italiano, alemão e catalão, esta, um esforço pessoal. A edição castelhana já está na terceira edição, e nos Estados Unidos e na França funciona relativamente bem. Sobre as outras edições ainda é cedo para se ter dados precisos.

Qual é o papel da literatura na sua obra?
Importantíssimo. Sempre me abasteço de fontes literárias. A leitura dispara minhas vertentes criativas mais que qualquer outra coisa. Inspiraram-me muito os relatos mitológicos gregos. José Luis Borges, Lewis Carroll, Franz Kafka, Edgar Allan Poe e Howard Philip Lovecraft desde a juventude. Dylan Thomas, Robert Graves, C.G. Jung, a poesia china clássica, o nonsense inglês… Ultimamente o chileno Roberto Bolaño e o japonês Haruki Murakami.

Hoje em dia onde se faz a melhor HQ?
Em todos os lugares. Existem pessoas boas em qualquer país. No entanto, naqueles lugares onde a tradição é solida, se nota mais: França, Estados Unidos, Japão.

bA Espanha vive o auge do gênero HQ?
É preciso distinguir. Eu diria que o que se vive é um auge editorial: edita-se muito, tanto material espanhol como internacional, de todos os gêneros, para todos os gostos. Além disso, parece que finalmente se consegue que determinadas HQ de alta qualidade (neste momento etiquetadas de “novela gráfica”) alcancem as grandes livrarias ou os shopping-centers, e parece que o público aumenta. Mas os auges criativos dos autores sempre estiveram aí. Nunca se deixou de fazer boas HQs, só que nos anos 90 isso não era visível, e hoje em dia sim. Também existe um auge de notícias sobre HQ. Os meios de comunicação descobriram que falar de HQ nas seções de cultura os torna mais respeitáveis. Enfim, os sintomas são bons.

O que você pensa do recolhimento da revista de HQ espanhola El Jueves acusada de atentar contra a honra do príncipe herdeiro, e a posterior condenação do desenhista Guillermo Torres e do roteirista Manel Fontdevila a pagar três mil euros de multa?
É absurdo recolher uma publicação, porque no final das contas o que se consegue é dar mais eco para aquilo que se pretendia silenciar. Penso que esta lição os juízes aprenderam bem. As multas, me parece lhe colocaram simplesmente para manter o tipo e limpar a cara, ou isto me pareceu a mim. Todos estão expostos à sátira e à gozação, como todos estamos expostos e podemos escorregar em uma cascara de banana na rua e manter a linha, além do escorregão, provocando risadas de quem estiver por perto. Penso que ninguém deve ser uma exceção. Os reis do Medievo eram mais sábios que os de hoje em dia: tinham seu bufão, que era intocável, e tinham licença absoluta para tirar um sarro do seu senhor com prazer. O logotipo da El Jueves é, precisamente, um bufão.

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Ilustração: Max / Arquivo Blog do Pícaro

O profeta Maomé não pode pertencer ao universo do humor e, no entanto, Cristo e o rei Juan Carlos podem pertencer ao universo do humor. Qual é a saída?
Não existe saída, não se cedermos um só milímetro conquistado na luta pela liberdade de expressão porque é uma batalha cotidiana, e os censores se encorajam a cada triunfo e buscam mais. Se se cede com o Maomé, logo virão os cristãos para solicitar o mesmo tratamento.

Como você vê o governo do primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero?
Ufa! Bastante medroso. Começaram com bastante energia, mas de repente começaram a ter medo até da igreja católica. Será que ainda acreditam que hoje em dia alguém ainda escuta os bispos?

Você nunca pensou em criar um personagem chamado ZP [siglas pela qual o primeiro-ministro espanhol Zapatero é popularmente conhecido na Espanha]?
Nunca me interessou a referência às situações ou personagens determinados da realidade. A minha linha é transportar a realidade a lugares imaginados ou fantásticos, tirá-la do contexto cotidiano, e assim revelar aspectos dela que de outra maneira passariam despercebidos. Eu já usava esta técnica com Peter Pank (tribos “urbanas” na selva), e continuo utilizando-a com Bardín.

O que você sente quando fica sabendo que houve um atentado no Afeganistão, Iraque, Líbano, Palestina, Paquistão? Isto é democracia; isto não é democracia…?
Isto é loucura e fanatismo. Mas não vamos posar de puristas. Aqui todos são muito democratas, mas se organizou uma guerra civil não faz tanto tempo, e na Europa se organizou uma matança atroz. Sinto muito, eu também penso que a civilização é só uma capa muito fina que se rasga com grande facilidade. Penso, além disso, que o humor é imprescindível para fazer esta capa um pouco mais resistente. Eu nunca vejo nenhuma graça em todos estes endemoniados que pensam que fazendo jorrar sangue as coisas lhes serão melhor.

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Ilustração: Max / Arquivo Blog do Pícaro

Como vê a inevitável miscigenação que vive Espanha desde os anos 90 do século passado?
É inevitável. As coisas mudam, mas nós custamos a nos adaptar. As incertezas nos deixam nervosos. Mas nada voltará, por mais que alguns se empenhem. Os seres humanos têm medo do novo que exige mudanças de atitude, de adaptação. Temos que ficar espertos, faz falta a curiosidade, e mais uma vez, o bom humor…

A série infantil norte-americana Vila Sésamo recentemente foi classificada, em seu próprio país, como só para adultos. São os desenhistas e roteiristas uns depravados ou inofensivos monstros das bolachas?
Os monstros das bolachas só levam a reflexão. Pode ser que isto seja alguma depravação? Sem dúvida, para os outros monstros, os de verdade, os que não são peludos, desprezam as bolachas, nunca estão de bom humor e preferem devorar consciências.

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Ilustração: Max / Arquivo Blog do Pícaro

Um desenho pode ser uma arma de destruição de massa?
Evidentemente que não. Do mesmo modo que o violão de Pete Seeger, contra o que proclamava, jamais matou a nenhum fascista. Do mesmo jeito que minha pena não é minha espada. Um desenho é uma maquininha de pensar, o qual é bastante mais modesto. Ela me faz pensar e pode (somente pode) fazer pensar quem a lê ou veja. Ainda que para alguns, isso possa lhes parecer bastante depravado.

Qual a mensagem que gostaria de enviar para os novos desenhistas?
Hum… A mensagem de sempre. Este é um trabalho duríssimo, cheio de incertezas e quase sempre mal remunerado. Assim, ou se têm uma amor desaforado pela HQ, ou melhor, é procurar outra profissão. Em compensação, a satisfação pessoal de inventar e desenhar histórias são uma coisa indescritível.

Você poderia citar um ditado popular entre os que mais gosta? Nunca me recordo destas coisas quando me perguntam. Não tenho nenhuma frase pendurada nas minhas paredes. “Tudo flui, nada permanece”, continua sendo, parece-me, a grande verdade desta vida.

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Ilustração: Max / Arquivo Blog do Pícaro

Qual é a dor e o prazer de chegar aos 50 anos?
O prazer é o de ver tudo desde uma distância um pouco relativizadora, não me ver arrastado por todos os ventos. Provavelmente seja uma ilusão, mas é prazeroso. A dor é bem mais concreta (a minha, nas costas). O corpo já nem sempre segue docilmente a cabeça. E o tempo, que se escorre como água entre os dedos… Com isso, lido bastante mal.

Fecho o quadro. Coloque a última frase nesta entrevista.
Uma adivinhança (fácil):
Qual é o lugar onde terminam todas as historias? ●

● Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta e foi publicada na revista El Siglo de Europa, na agência Eurolatinnews e no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe) em janeiro de 2008.

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Max na revista espanhola El Siglo de Europa em janeiro de 2008

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Fotografia

1) GERVASIO SÁNCHEZ: Fotógrafo e jornalista

“MINHA ARMA É DIGNIFICAR AS VÍTIMAS DA GUERRA”

por Jairo Máximo

Gercasio Sánchez, por Mikkel Larsen

Gervasio Sánchez em Madri / Foto: Mikkel Larsen

Gervasio Sánchez (Córdoba, Espanha, 1959) Fotógrafo e jornalista. Já cobriu diferentes conflitos nos cinco continentes. Atualmente trabalha para os diários espanhóis Heraldo de Aragón e La Vanguardia, e também colabora com as rádios Cadena Ser e a BBC. Já recebeu diversos prêmios e publicou vários álbuns fotográficos. Desde 1998, é Enviado Especial para a Paz da Unesco. Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri, afirma: “A fotografia transcende mais que o texto escrito porque não precisa de tradução”.

Quem é Gervasio Sánchez?
Um simples fotógrafo e repórter que trabalha em áreas de conflitos, em lugares onde ocorrem fatos lamentáveis provocados pelo homem.

Quando você descobriu o jornalismo e a fotografia?
Comecei a viajar quando tinha 19 anos. Aliás, sou jornalista porque queria viajar. Quando era menino pensava que a única maneira que existia para viajar era ser jornalista… Na minha primeira viagem já levei uma câmera fotográfica. Mas foi a partir do final dos anos 80 e princípios dos 90 que compreendi que a câmera era uma ferramenta que podia utilizar para fazer um trabalho e que era preciso ter um conceito. Mas nunca fiz um curso de fotografia. Não sei nem revelar…

Por que resolveu ser fotógrafo?
Porque sou jornalista e vice-versa. Creio que a fotografia transcende mais que o escrito porque não necessita de tradução simultânea. Ela tem a possibilidade de impactar em qualquer cultura ou grupo étnico.

Qual é o papel da palavra em seu trabalho?
Dedico-me a histórias próprias. Escrevo o texto e faço a fotografia. Quero que seja um conjunto.

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Foto: Gervasio Sánchez

Como nasceu o projeto “Vidas Minadas”?
Nasceu casualmente, mas com duas razões de fundo. A primeira, uma revista espanhola dedicada a futilidades ―não uma revista ou um jornal serio― me encarregou de fazer um trabalho sobre mutilados pelas minas explosivas, em 1995. Isto me proporcionou a possibilidade de viajar a Angola. Lá havia minas em todos os lugares. Constatei a dramática situação em que vivem estas pessoas. A segunda razão é que isto coincidiu com o fato de que eu estava cansado de ir de guerra em guerra e ir embora quando era assinado o acordo de paz. Na realidade, a paz é o reinicio de um pós-guerra, que é tão duro como a guerra em si. Inclusive as minas começam a aparecer é quando chega a paz, porque durante a guerra elas são colocadas para proteger posições militares. Quando os militares deixam o terreno, eles as deixam abandonadas. No entanto, com a chegada da paz produz-se a liberdade de movimentos da população civil. E as minas estão ali, esperando as pessoas.

No que consiste a exposição “Vidas Minadas ― dez anos depois”?
É uma exposição de 100 imagens sobre os estragos que causam as minas no mundo inteiro, diferentes tipos de minas e próteses, um documentário e um álbum fotográfico de 365 retratos de mutilados. Trata-se da continuação de um projeto fotográfico que apresentei em 1997 que documentava as vítimas destas armas em países como Afeganistão, Angola, Bósnia, Camboja, Colômbia, El Salvador, Iraque, Moçambique ou Nicarágua. Para mim, “Vidas Minadas” é um projeto sem fim.

Na apresentação da exposição no Instituto Cervantes de Madri, em companhia de algumas das vítimas retratadas, você afirmou: “Minha exposição é incômoda. Sou incômodo”. Qual é o preço disto?
Quando seu discurso não é politicamente correto, existe muita gente que se sente incomodada. No entanto, faço um jornalismo que impossibilita que me golpeiem, pois sou eu o que tem uma informação importante de uma zona de guerra e ninguém pode tirá-la de mim. Seria outra coisa se eu fizesse um jornalismo local: Madri, Barcelona, Sevilha. É mais perigoso exercer o jornalismo local com liberdade que o internacional, que dá prestígio ao meio de comunicação.

Das histórias que você já cobriu qual a que mais lhe marcou?
São as histórias que vi desde o princípio. Algumas são dramáticas. A da angolana Joaquina que perdeu suas duas filhas, uma perna, foi abandonada pelo marido e vive na pobreza absoluta. Também é dramática a história do cambojano Skaheurm Man. Eu estive na sala de operação no momento em que lhe cortaram a perna.

Adis Smajic, em Sarajevo,  1996 / Foto: Gervasio Sánchez

Qual imagem captada que mais lhe inquietou?
Encontrar ao menino Adis Smajic, em Sarajevo, em 1996, com a cara deformada por uma mina, entre a vida e a morte me comoveu.

Qual foi à região de conflito que mais lhe chocou?
Provavelmente o país que mais choca é aquele que você está para ir. Em 1996, quando cheguei a Cabul, capital do Afeganistão, fiquei impressionado. Cheguei e vi uma metrópole totalmente destruída que acabava de sair de uma guerra civil tremenda, onde até seis grupos armados combateram no centro urbano. Por todas as ruas se podia encontrar minas que ocasionavam diariamente muitos acidentes. Os hospitais estavam cheios de crianças. Elas procuravam restos de projétil para poder vendê-los, e depois comer, porém encontravam as minas e se explodiam pelo ar.

É uma tragédia, cenas muito duras, não é?
Sim. Encontro histórias que acabam marcando com contundência minha vida. Acabo sendo um pouco arrastado por minha experiência, coisa que, desgraçadamente, muitas vezes, têm a ver com a morte, com a violência e o estilo brutal de atuar do homem.

Como você enfrenta emocionalmente tanta desgraça e sofrimento?
(silêncio) É um trabalho… Minha arma de trabalho é poder dignificar as vítimas da guerra. Mostrá-las com nomes e sobrenomes. Então, suponho que esta é minha armadura psicológica. É difícil trabalhar e ver como a gente sofre. Saber que existem causas concretas e responsáveis com nome e sobrenome. No obstante, quando faço uma exposição como esta, muitas pessoas que vêm vê-la me dizem que se inquietam com as imagens e se sentem-se solidárias com o trabalho. Inclusive alguns me parabenizam e recebo isto como combustível.

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Sofia Elface Fumo – 1997 / Foto: Gervasio Sánchez

Onde urge realizar um trabalho de limpeza de minas?
Em 78 países, entre eles Afeganistão, Angola, Bósnia, Colômbia, Camboja e Iraque. Desde quando assinaram o Tratado de Ottawa contra as minas, em 1997, somente em seis países elas foram retiradas. Quarenta países, dentre os quais se destacam Estados Unidos, Rússia e China ―principais produtores mundiais de minas e com direito a veto no Conselho de Segurança da ONU― continuam negando assinar o acordo. Anualmente 15 mil novas vítimas passam a fazer parte de um impressionante exército de mutilados. Segundo a ONU, faltariam 1.100 anos e 30 milhões de euros para erradicar os 167 milhões de minas plantadas em 78 países. O custo de uma mina terrestre não alcança R$ 7, porém localizá-la, desativá-la e destruí-la custa R$1.700.

Você disse, ao vivo, no canal 2 da Televisão Espanhola que “durante muitos anos a Espanha exportou morte”; e que “enquanto o governo do Partido Socialista Operário Espanhol exporta bombas de racimo (ou bomba clúster que é constituída por centenas de pequenas bombas que se disseminam sobre uma grande área), está fazendo um temível favor para a humanidade”.E agora quê?
(silêncio) Se estou documentando um drama é minha obrigação denunciar quem são os responsáveis. Não posso chegar na TV e dizer superficialidades. Tenho que dizer que o governo socialista duplicou a venda de armas, que atualmente somos a oitava potência do mundo em venda de armas, e que a Espanha está na Liga dos Campeões de vendas de armas. Como isto é possível?

Não sei!..

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Fanar Zekri – 2006 / Foto Gervasio Sánchez

E ainda mais: como é possível que continuemos fabricando e vendendo armas, tipos de bombas de racimo cuja ação é devastadora e atua como uma mina: explode, mata e mutila? Hoje, na Espanha, existem quatro empresas que estão fabricando estas minas. Não são empresas estratégicas. Isto é uma vergonha. É intolerável. Isto é preciso dizer com clareza que é isso que faz o mesmo governo que todo dia fala de aliança das civilizações e da luta pela paz.

O que mais se precisa dizer?
Que os ex-primeiros-ministros espanhóis ―Adolfo Suárez, Leopoldo Cavo Sotelo, Felipe González e José Maria Aznar― foram vendedores de armas. Que o atual primeiro-ministro, José Luis Rodríguez Zapatero, também é um vendedor de armas. Todos permitiram a venda de armas a países com conflitos armados internos ou regionais. Por exemplo, se amanhã se cria um Tribunal Penal Internacional para julgar os responsáveis pela venda destas armas, estes senhores serão chamados a depor.

Haya para eles?
Lembro como Bill Clinton e Al Gore estão tentando nos vender uma ideia de trabalho que contradiz as políticas de seus oito anos no governo, quando tomaram decisões vergonhosas. Eles não assinaram o Tratado de Ottawa quando estavam governando. Se tinham tanta sensibilidade por que não o assinaram? Essa gente está se enriquecendo com a denúncia fabricada.

O que pensa das guerras?
Que são o fracasso absoluto do Homem.

Em sua opinião, quem manda mais hoje no mundo?
Isso é um problema grave. É evidente que se são os políticos que mandam, não demonstram. E se mandam, não fazem nada para evitar este vergonhoso mercado de armas. Consequentemente, são cúmplices e culpados. E se não podem fazer nada que digam isso alto e claro e não utilizem o subterfúgio do segredo de Estado ou da mentira constante. Se é o primeiro-ministro Zapatero quem manda na Espanha, ele está permitindo que armas espanholas matem ou mutilem milhares de seres humanos inocentes.

O que você pensa da imprensa espanhola?
Vive um momento crítico. Já passamos dos anos da felicidade que se produziu depois da queda do franquismo, quando se lutava pela democracia, pelos direitos humanos. Hoje em dia ela não é mais virgem, têm interesses econômicos importantes. Cada vez mais existem grupos de mídia que obedecem a estratégias que não tem nada a ver com o jornalismo e que, além disso, esquecem de muitos temas relevantes. O purismo não existe no jornalismo.

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Monica Paola Ojeda – 2006 / Foto Gervasio Sánchez

Qual é a tua máxima na vida?
Não tenho. O que quero é fazer meu trabalho bem feito. Mostrar as contradições do mundo. Fugir do jornalismo de promoção. Considero que o jornalismo é tão importante como a medicina e a educação. Uma sociedade sem um bom jornalismo é uma sociedade fracassada.

Como vê o trabalho de Sebastião Salgado e o projeto Gênesis, que defende a biodiversidade e as formas de vida virgens do planeta?
Salgado é um grande fotógrafo. Gosto muito do projeto América. Hoje ele faz um trabalho de documentação importantíssimo. E com a idade que ele tem…

Quando os brasileiros terão o privilégio de contemplar a exposição “Vidas Minadas― dez anos depois”?
É complicado mover e montar esta mostra. Mas eu adoraria levá-la para o Brasil, um país supostamente do terceiro mundo que mais vende armas. Brasil é o campeão.

Você tem algum novo projeto fotográfico?
Sim. É sobre os desaparecidos das ditaduras e guerras no Afeganistão, Iraque, Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, Guatemala, Peru e outros países dos cinco continentes.

Vale uma foto mais que mil palavras?
Não é que uma imagem valha mais que mil palavras, mas sim que a imagem pode chegar a mais pessoas, sem filtro e tradução simultânea. ●

  • Esta entrevista faz parte do projeto do livro A Tumba Aberta  e foi publicada na agência Eurolatinnews, no site da Associação de Correspondentes de Imprensa Estrangeira na Espanha (Acpe)  em abril de 2008.20160415_191046

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    Gervasio Sánchez na revista espanhola El Siglo de Europa em abril de 2008

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A TUMBA ABERTA: 55 entrevistas transatlânticas 1981―2008

 por Jairo Máximo

PICA

Ilustração: Castilho / Arquivo Blog do Pícaro

55 PUNHALADAS PATAFÍSICAS DE PÍCARO

 Por Fernando Castelló*

Jairo Máximo, jornalista e/ou pícaro brasileiro radicado no pátio do Monipodio** madrilenho nos oferece neste livro uma série substanciosa de até 55 entrevistas “patafísicas”.

Esclareçamos rápido que pícaro significa em espanhol pessoa não isenta de simpatia que nos engana com habilidade e destreza. E que a patafísica, inventada pelo dramaturgo francês Alfred Jarry na sua obra satírica Ubu Rei, é a ciência matemático/poética das soluções surrealistas para problemas imaginários.

Sim. Ao Jairo, o termo pícaro, no bom sentido humorístico da palavra, lhe cai bem, além de ter sido o fundador e animador, já faz um quarto de século, do jornal humorístico Pícaro [1984-1988], que levantou ventos de humor negro em São Paulo. E o de patafísico, melhor, porque ele é um poeta ubuesco que vai mais além do realismo habitual nas suas penetrantes entrevistas, nas quais suas perguntas lancinantes, nunca cruéis, são como um ferrão de uma vespa acupunturista que provocam às vezes respostas irritadas, ainda que nunca estúpidas.

Jairo, humilde, faz perguntas breves, quase em “off”, e sai de cena, deixando todo o espaço às respostas, como deve ser e nem sempre é, pois muitas vezes e frequentemente o jornalista entrevistador esmaga com seu ego ao do entrevistado e aparece como se entrevistasse a si mesmo pela boca de outro.

Jairo, não. Atua como um simples saca-rolhas para tirar a rolha/língua de seu entrevistado e lhe forçar, como a um líquido de grande reserva, a despejar toda a potencialidade embriagadora que guardava a sete chaves dentro.

Suas 55 entrevistas transatlânticas de tumba aberta (nunca melhor dito, pois alguns dos entrevistados já estão mortos) estendem-se, como uma grande ponte entre Brasil e Espanha, desde 1981 aos dias de hoje. Uma ponte verbal que se inicia em São Paulo com um jovem sindicalista recém-saído da cadeia por incitar greve e chamado Luiz Inácio Lula da Silva (conhecem?) e desemboca em Madri com Gervasio Sánchez, o grande fotógrafo e jornalista espanhol do conflito humano.

Seus pilares de sustentação passam pelo Ubu Rei brasileiro, uma prostituta respeitosa sartriana, um ex-guerrilheiro que amou tanto a revolução; o ladrão Dioni, os jornalistas espanhóis Juan Luis Cebrián, Maruja Torres, Carmen Gurruchaga; os italianos Leo Bassi e Antonio Tabucchi; músicos, filósofos, mambembes, políticos (esses cômicos da língua), humoristas de ambos os lados do brejo…

Contradizendo a seu entrevistado Paulo Leminski, quando este lhe disse que “ninguém consegue melhorar a forma do ovo e nem o gosto da água”, Jairo, picarista e “picareta” intensional, em suas entrevistas patafísicas transforma a forma do ovo, cortando-a pela sua base e plantando-o como o de Colón, melhora o sabor da água das declarações, às vezes sem gosto e deprimente, enriquecendo-a com o uísque de suas anotações de rodapé. E já se sabe que, contra a deprê vital, nada melhor que o áureo elemento euforizante. Etiqueta neura, claro, como esta que nos oferece Jairo em seus 55 tragos. ●

 *Fernando Castelló (Valência, 1937 – Madrid, 2013) jornalista, escritor e presidente internacional da Repórteres sem Fronteiras (RSF). Escreveu este texto em Madri no dia 29 de maio de 2008 para a publicação do (gorado) livro A Tumba Aberta.

**Pátio de Monipodio é uma expressão usada pelo romancista, dramaturgo e poeta espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) que o situou em Sevilha, na novela Rinconete y Cortadillo. Era o lugar onde pessoas em situação de miséria criavam estratégias para sobreviver, inclusive pequenos roubos.

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Ilustração: Castilho / Arquivo Blog do Pícaro

ENTREVISTADOS                                                            

01) Gervasio Sánchez 

02) Max

03) Leo Bassi

04) Bruna Surfistinha

05) Eduardo Matarazzo Suplicy

06) Carlos Galilea

07) Amancio Prada

08) Blanca Li

09) Edu Lobo

10) Maruja Torres

11) Katsuyuki Tanaka

12) Tito Drago

13) Alí Lmrabet

14) Arnaldo Antunes

15) Robert Menárd

16) Antonio Tabucchi

17) Fernando Castelló

18) Juan Arias

19) Isabel San Sebastián

20) Carmen Gurruchaga

21) Raul Jungmann

22) João Pedro Stédile

23) José Cabrera Forneiro

24) Juan Luis Cebrián

25) Paco Clavel

26) Caetano Veloso e Gilberto Gil

27) Gilberto Dimenstein

28) Barry Flanagan

29) Felipe Hernández Cava

30) Elvis Costelo

31) Daniel Torres

32) Dionisio Rodríguez Martín (El Dioni)

33) Maitê Proença

34) Loredano

35) Itamar Assumpção

36) Denise Stoklos

37) Carlito Maia

38) Tarso de Castro

39) Antônio Cícero

40) Antonio Bivar

41) Cláudia Wonder

42) Pietro María Bardi

43) Paulo Leminski

44) Spacca

45) Wilde Weber

46) Akinori Nakatani

47) Glauco

48) Cacá Rosset e Ubú Rei

49) Fernando Gabeira

50) Marcelo Tas

51) Walter Casagrande

52) Maurício Chaer

53) Ignácio Loyola de Brandão

54) Franco Montoro

55) Luiz Inácio Lula da Silva

Texto en español: 55 Puñaladas Patafísicas de Pícaro

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